Uma mente milionária

POR CECILIA GIANNETTI

Sou o primeiro na sala. O primeiro a chegar, antes do café e da água e do pão de queijo, eu sou O Primeiro. “Eu tenho uma mente milionária. Eu tenho uma mente milionária. Eu tenho uma mente milionária.” T. Harv Eker, melhor presente de amigo oculto do mundo, MELHOR, porque o meu chefe – e não por acaso, mas por efeito da inevitável lei positiva que desde sempre rege a minha vida, foi o meu chefe quem me tirou no amigo oculto – conhece o meu potencial e ele sabe que “Os segredos da mente milionária”, de T. Harv Eker, é o MEU livro, é o livro que vai me ajudar a reunir todo o potencial que ele enxerga em mim e coloca-lo em funcionamento feito um trator sem freios dentro desta – não posso usar uma palavra ruim (um palavrão por exemplo) junto com o nome da firma. O palavrão associado ao nome da firma anularia as energias positivas que eu estava enviando ao universo enquanto elencava em apenas uma frase (brilhante, nada menos do que isso, porque “Eu tenho uma mente milionária”) as palavras que formam o código do meu sucesso futuro. Futuro não. Presente. Começa hoje, começa AGORA. “Eu tenho uma mente milionária”.

Agora entra a Rosa com a água e o café. Os pães de queijo vêm por último. Eu acho que o nome dela é Rosa. A política da firma é não utilizarmos crachás pendurados no pescoço todo o tempo. É uma “política humana“. Para fazer com que todos sejam obrigados a aprender os nomes de seus colegas de trabalho, desde o mais baixo ao mais alto escalão. Não funciona, nunca vai funcionar. É a primeira coisa que eu vou mudar aqui dentro quando eu for o chefe e isso não vai demorar a acontecer, a não ser que o mundo acabe mesmo amanhã, mas pensar nesta hipótese seria como poluir o pensamento mais importante que eu devo manter em loop na minha cabeça, que é o FATO de que “Eu tenho uma mente milionária.”

Os pães de queijo vêm depois, com a Rosa. Ou Maria. Ou… Juna? Não, gente que recebe menos do que eu nunca receberia dos pais, certamente duas pessoas abaixo da minha faixa salarial, o nome de Juna. Oona? Nem f*******. Kheyla. Sheyla. Kelly. Karma. “Eu tenho uma mente milionária.”

E no ano passado no amigo oculto eu recebi aquele “Como fazer alguém se apaixonar por você em até 90 minutos.” Ela queria dar pra mim, quando ela me abraçou eu senti a pressão dela contra o meu peito, sabe quando você sente até qual o número do sutian que a mulher veste quando ela te abraça? Mas ela tem 38 anos anos, seria como comprar um Gol 1995 podendo gastar com um puta porsche. Ainda mais com as dicas que vêm no livro. Incrível. Esse autor deve ser cheio de mulher, Nicholas Boothman. Mas eu não li esse todo, minhas prioridades são outras, mulher depois, primeiro eu me concentro em T. Harv Eker e na realidade inexorável de que “Eu tenho uma mente milionária.”

O chefe entra agora e se senta à cabeceira e se serve de um copo de café. Um copo mesmo, o de água, ele usa para o café, ele enche até passar um pouco da metade. De um copo! De água! Cara… É como se o chefe me dissesse: este é o TAMANHO da minha potência, a quantidade de combustível que eu preciso consumir é muito maior do que a sua. O nome disso é “pau na mesa”. Ele botou o dele. Eu vou botar o meu. É uma demonstração de poder. Eu sorrio, eu penso “Eu tenho uma mente milionária”, eu penso “Você cometeu um erro estratégico absurdo no último amigo oculto, chefe, quando me deu aquele livro.”

Hoje eu vou dar meu pitaco, é o meu dia, minha hora chegou. Os outros vão entrando, todos os cinco. Displicentes, não interrompem a conversa que trazem do corredor à presença do chefe. Marcelo nem pra tirar os headphones. Só param depois de uns três segundos de resquícios desse bla bla bla que não interessa a mim e nem ao big boss mas os mantêm, parece, “unidos” – é como seu humilde slogan, cochichado, em que se reconhecem como uma oposição ao fato de serem os empregados e não o chefe. Eles são a esquerda da firma quando deveriam ser um time. É um nojo. Eles não têm uma mente milionária. Geram energias que vão contra o seu crescimento. Babacas. Ops. Desculpe, universo, isso não foi bacana da minha parte, não condiz com a minha natureza superior, eles são ótimos. Mas só “Eu tenho uma mente milionária”.

Todos se servem de água e café. Kheyla Karma Sheyla traz a cesta com o pão de queijo quentinho e duro. As engrenagens da minha apresentação já estão prontas para serem acionadas desde as 6h38 da manhã nesta sala de reuniões. Agora são 7h15. E agora eu vou mostrar pra eles.

E eu mostro. O que eu mostro no telão é uma garrafa de cerveja com o formato do corpo de uma mulher.

É o meu momento. O chefe larga o café e olha para a tela. Os displicentes mastigam nacos de pão de queijo feito vacas pastando: são capazes de perceber que a ideia é impactante mas incapazes de reagir. Nenhum deles tem a menor chance depois da minha ideia. A ideia da garrafa de cerveja com o formato do corpo de vagab…, digo, universo, me desculpa por mais esta, eu queria dizer mulher. “Eu tenho uma mente milionária.”

De acordo com publicitários, esta é uma garrafa de cerveja “obesa” e com “pouco peito”

O chefe tece as suas considerações. Elogiosas, escapando entre o seu sorriso. Um sorriso! Ele está sorrindo de verdade enquanto me elogia, não é simplesmente o melhor sinal do universo, é… aprovação.

Um dos cinco quadrúpedes que pastam sobre o pão de queijo enrijecido levanta o braço antes de terminar de mastigar um naco de massa ressequida. Marcelo, agora com os headphones em torno do pescoço, fones branco e vermelho nas rodelas. Marcelo engole, espera mais um segundo, e fala. Ele FALA. Sem saca. Ele chama Kheyla Karma Sheyla, que sempre espera de costas para a sala, do lado de fora, na frente da porta fechada, caso a gente precise de mais água, mais café ou mais pão de queijo. Ela põe a cabeça por uma fresta da porta, hesitante.

– Dona Bia – ele FALA -, você bebe cerveja?

– Bebo sim, bebo a nossa marca, né? Bebo bem! – Ela RI. RI!

– Você gosta dessa garrafa que tá ali no telão, você acha que a mulherada vai gostar? Tipo, ela tem o desenho do corpo de uma mulher certinho, olha lá.

– Tem até peito, seu Marcelo! – Ela CORA.

– Tem até peito. Quanta piada que dá pra fazer com uma garrafa que tem peitos, não é? Imagina os homens passando os dedos sobre os peitos da garrafa na sua frente e das suas amigas o churrasco inteiro e fazendo a mesma piada sobre “dar uma mamadinha”? Ou no traseiro da garrafa, nos quadris, na… o que é aquilo mesmo, ali na frente, Zé Luiz? Faz mesmo parte da ideia, ô Zé?

Eu balanço a cabeça, prefiro explicar depois cada parte da anatomia da garrafa de cerveja com corpo de mulher: a frontal, a buzanfal, etc.

– Que é isso, seu Marcelo?! – Ela reprime uma risada nervosa.

– Homem faz essas coisas, não é Dona Bia? Essas piadas, é normal. Não tem pra que ficar vermelha.

– Faz mesmo, né?… ainda mais depois de tomar umas e outras.

– Obrigado. Tá dispensada, Dona Bia.

– Dá licença.

Ela fecha a porta. Ele continua a falar, com meio pão de queijo a mão.

– Pode parecer que a Dona Bia só ficou um pouco vermelhinha de pensar em como vai ser ter essa garrafa circulando por aí. Mas na verdade ela trouxe outra informação pra gente aqui, agora. Se algumas mulheres vão ficar constrangidas com as piadinhas e a bunda e os peitos da garrafa, e seja lá o que for aquela reentrância ali na frente, ô Zé Luiz, não vai demorar a aparecer uma mulher, ou uma ONG ou um grupo maluco desses feminazis que pergunte pra gente: Ei, não vão fazer uma garrafa com formato de pinto também não? Com corpo de macho? Afinal, a gente também bebe. E bebe bem. Mulher bebe cerveja, minha gente. As lésbicas bebem cerveja – aliás, acho que estas vão se juntar às feministas de sofá e vai dar polêmica – e não vão achar a mesma graça que os homens numa garrafa de cerveja com formato de corpo de mulher.

Ele terminou de falar e enfiou na boca o pedaço de pão de queijo que segurava,  àquela altura, além de duro, frio.

Preciso reler T. Harv Eker e ver onde foi que me distraí.

Ou não.

O chefe repreende o quadrúpede que pasta e passa a algumas observações.

– Para evitar as feminazis, é só tirar as “features” femininas mais óbvias. A bunda, por exemplo. Os peitões talvez sejam um problema também, vamos dar uma amenizada? A gente fica só com o formato do violão acentuado, o que vocês acham? Fala, Zé Luiz. É uma boa ideia, mas precisa dessa lapidada. Quem sabe a gente não consegue fechar com uma revista de sacanagem grande nessa?

“Eu tenho uma mente milionária”.

***

Texto a partir da notícia: “Em parceria com uma revista masculina, cervejaria carioca lança neste mês uma garrafa de cerveja no formato do corpo de uma mulher.”