E nada-nada existia antes do ano 2000

POR CECILIA GIANNETTI

Imagine ser Zoom Rockman: doze anos; esperto ao ponto de inserir em uma de suas histórias em quadrinhos os distúrbios e protestos que tomaram as ruas de diversas partes da Inglaterra no ano passado (as “BlackBerry riots”, organizadas via mídias sociais), iniciadas com a morte de Mark Duggan, um jovem de 29 anos assassinado pela polícia em Tottenham; Zoom Rockman, premiado e famoso, que não consegue “imaginar nada existindo antes do ano 2000”, como declarou ao mentor que recentemente colou na dele, Paul Gravett, que trabalha com a publicação de quadrinhos desde o longínquo, improvável ano de 1981. Para seus coleguinhas de escola, deve ser como ter por perto um Justin Bieber supermelhorado, com cérebro e criatividade, de quem podem se orgulhar e ao mesmo tempo podem invejar.

É tão exasperante pensar em Zoom Rockman que eu não sei se eu quero pari-lo ou esperar 15 anos até que ele se interesse por coroas.

Dá para sentir os velhos ilustradores e autores de histórias em quadrinhos, velhos mesmo de 17 e 18 anos, estremecendo agora que Zoom levou o Spirit of London Award da categoria (quase um Oscar da jovem comunidade de quadrinhos britânica) por suas obras, que ele mesmo escreve, desenha e publica na The Zoom!.

Anúncio desenhado por Zoom para sua HQ levantar uma graninha extra

Sua revista sai com cerca de 250 cópias a cada edição, formato A4, custeadas pelo pai do moleque, que recebe 40% sobre os lucros. Zoom também desenha os anúncios que aparecem nas páginas de The Zoom!, alguns envolvendo figuras como a Rainha e Simon Cowell. Sim, ele tem anunciantes (lojas locais), para embolsar uma graninha extra. O autor vende sua arte na escola, mas a Zoom! também é encontrada em lojas de quadrinhos em Londres, como a Gosh! por 1.99 libras. Não os primeiros números. Estes são mais caros e negociados no mercado de colecionadores.

O ilustrador Luke Pearson já havia avisado antes sobre a ameaça de 12 anos via Twitter, em termos mais do que empolgados e ao mesmo tempo auto-depreciativos, como manda o figurino no humor inglês: “Descobri o futuro dos quadrinhos. Seu nome é Zoom Rockman e nós não temos a menor chance.” Agora, o menino já foi entrevistado pela BBC, e apareceu em destaque em revistas do naipe de I-D e Dazed & Confused, enquanto acumula prêmios e divulga a sexta edição de seus quadrinhos. Em 2011, representou a Grã-Bretanha no festival Bucheon International Comics, na Coréia do Sul, e de lá voltou com o prêmio International Kids Cartoonist. Em 2012 também pôs no bolso o prêmio de Melhor História no Band Dessinée & Comics Passion Festival. 

Os personagens e as temáticas de suas histórias envolvem o que ele conhece melhor: comerciantes de sua vizinhança, seu cachorrinho yorkshire, o avô de um amigo de sua mãe, colegas de escola, um professor, e até seu irmãozinho caçula, Ace (essa família realmente sabe dar nomes aos filhos. Ace!).

No futuro, afirma Zoom sempre que lhe fazem aquela pergunta “O que você quer ser quando crescer?”, pretende dirigir filmes.

Seus pais, designers de móveis, não poderiam ter gerado uma peça mais artística do que Zoom. Estiloso na maneira de vestir, com metade dos cabelos lisos raspados do lado esquerdo da cabeça, desenha desde os 8 anos de idade e lançou a primeira edição de The Zoom! aos 9.

Tomara que Gravett, o “mentor”, ensine a Zoom, além das “coisas de quadrinhos”, a encarar tudo o sucesso precoce de cuca fresca (“cuca fresca”, uma expressão que se usava quando eu nasci – um ano quando nada existia, segundo Zoom). Mas talvez nem seja necessário. Talvez Zoom ensine Gravett e outros senhores que estão na indústria dos quadrinhos há tantos anos a não baterem os ossos diante de coisas tão assustadoramente jovens.