Medicina alternativa

POR CECILIA GIANNETTI

Era uma mudança radical de estilo de vida que começava ali, diante do Dr. Bruno, jovem acupunturista com consultório – lotado, diga-se – sito em Copacabana, próximo ao prédio onde um dia viveu o cronista e jornalista Antonio Maria. O que não vem ao caso. O caso é a minha determinação em me livrar de dores nos ombros, braços e pescoço causadas talvez pelo fato de eu não conseguir parar de teclar. Nunca. O que me forçou também a iniciar um tratamento médico para insônia que aniversaria em abril próximo: dois anos.

Não é bem um raciocínio claro o que me impele a teclar sem paradas estratégicas sequer para me espreguiçar e adiando ao máximo ir ao banheiro. É que, enquanto há um texto a ser escrito, traduzido ou corrigido, eu não consigo enxergar razão para fazer apenas um pouco hoje disto e deixar o restante para amanhã e depois. Dividir o tempo. Eu às vezes passo por cima do tempo e acho que ele é uma coisa contínua, ininterrupta – e não é? –  que não obedece ao relógio, ao digital aceso no micro ou ao biológico, e com a ajuda de sua fluidez devo continuar sempre, até que a Máquina peça realmente pra eu parar e tirar um cochilo de duas horas. A máquina sou eu. Recorde: três dias e noites seguidas sem sono (teclando). Não parece muito, mas faz um belo estrago. Uma psicanalista com quem conversei em uma festa – em festas eu não teclo, seria um desrespeito contra minha primeira natureza, ainda não dominada de todo pela Máquina, exceto pelo eventual SMS ou recado via Skype ou eBuddy – soltou a palavra workaholic junto com a fumaça do cigarro (de palha, quem confiaria nela?) e me obrigou a fazer a nota mental em vez de digita-la no celular em um email a ser enviado a mim mesma: “não buscar ajuda na psicanálise.” Ademais, é uma gente que anda de mãos dadas com a psiquiatria, o que certamente quer dizer “mais remédios” – e sem garantias.

O que eu busco no consultório do quase efebo (pra mim hoje em dia, abaixo dos 30 todos o são) Dr. Bruno é uma cura sem medicamentos para as tais dores. Um tratamento não agressivo. Ele ouviu minha história e foi logo avisando: as agulhas não vão dar conta disso sozinhas. Precisamos do seu comprometimento em ajudar com algumas mudanças em sua rotina. Para começar, dormir, é claro. Ok, estamos trabalhando nosso. (Estranho, ele considerou: até para falar em sono você usa o verbo “trabalhar”. Ignorei a cutucada.) E então, ele informou, eu precisaria nivelar a tela do computador à minha cabeça ereta, ou seja, meu laptop teria que subir em cima de alguns livros grossos até alcançar a linha dos meus olhos. Assim, eu não ficaria com o pescoço dobrado para baixo. Boa ideia, Dr. Bruno. Mas é um laptop. O teclado vai subir junto com a tela e eu vou ter que teclar com os braços no ar, feito uma pianista presepeira. Isso não me parece a postura que vai salvar seus membros da dor.

Dr. Bruno é jovem, mas é sagaz, e ele disse logo, me olhando através daqueles oclinhos de aros finos fora de moda desde que eu usei oclinhos de aros finos na quinta série, mas segurando firme meu olhar: você não vai utilizar (e neste momento eu agradeci silenciosamente, como numa curta prece, que ele não tivesse dito: “você não vai estar usando…” porque eu começava a simpatizar com seu estilo nerd curandeiro-oriental) o teclado do seu laptop. Você vai utilizar um teclado USB que você vai comprar por uns 30 reais. Você pluga esse teclado no seu laptop e ele fica na altura certa para as suas mãos, enquanto os seus olhos ficarão na altura certa da tela. É ou não é um gênio? Aposto que teria curado o alcoolismo de Antonio Maria, se este tivesse vivido o suficiente para ver o consultório do Dr. Bruno erguer-se bem ali, diante daquela praça.

Então ele parou e encarou os meus peitos, ou assim pareceu. Ele franziu os olhinhos e perguntou se eu era alérgica a alguma coisa, e eu respondi que não, o que é verdade, você pode até me dar césio 137 para usar como blush e nada acontece. Mas ele continuava olhando pro espaço entre os dois pedaços de pano do meu vestido aberto no peito. Ele disse, Tem uma mancha enorme vermelha no meio do seu peito.

Aquilo não me era estranho. A mancha vermelha. Toquei-a, ele a tocou: quente. Mas era a minha mancha, a mancha ia e vinha, nos momentos mais inesperados. Um rubor. Às vezes ela sobe até o pescoço e eu sempre pensei que isso é uma coisa de gente branca demais, que pega fogo por dentro e sente alguma culpa quando ouve o Public Enemy novo (vocês sabem, e devem concordar que procede a queixa, permanece em 2012 a preocupação do grupo nas letras a respeito de a maioria de seus heróis não estarem em selos postais dos correios norte-americanos, não à toa um problema denunciado em “Faça a Coisa Certa”, do Spike Lee, com o que concordo, um dos meus top filmes de todos os tempos, embora olhando assim pra mim você não seja capaz de dizer, “Mas as pessoas são tão preconceituosas, Mother Sister…”)

Mas não. Não era bem aquilo. Dr. Bruno disse que parecia uma espécie de “acúmulo”. Quente e vermelho. É fato, eu tenho uma espécie de acúmulo de que eu preciso me livrar – começando a correr e me exercitar mais assim que o Dr. me curar dessas dores. Eu ri. Ele não riu de volta. Ele disse, parecendo um passarinho de óculos, tão magrinho e tranquilo: você tem uma espécie de arquivo de “sapos engolidos”, e ele se manifesta nessa mancha. Você precisa bater em alguma coisa. Experimente travesseiros. Eu já fiz kickboxing, respondi. Você ainda faz?, ele retrucou. Claro que não. Sou uma vetusta senhora da sociedade carioca. Bata em travesseiros, ele ordenou, com força; e essas manchas e o calor em torno delas vão parar de aparecer.

Tudo soa muito místico e intrigante naquele consultório, nem parece coisa que o plano de saúde cobre. Mas não tem incenso não.

Daí Dr. Bruno me mandou deitar de costas na mesinha dele e começou a me espetar um monte de agulhas, o que eu achei espetacular. Tinha uma bem no meio da minha testa. Adorei aquela e as dos pés.

Depois da sessão com o Dr. Bruno, na primeira oportunidade entrei em uma loja de eletrônicos e comprei um teclado usb. Isso foi ontem, pra ser mais específica. Mais de uma semana depois do meu primeiro encontro com a acupuntura, porque, nesse meio tempo, eu precisei me afastar do tratamento alternativo temporariamente por conta de uma pequena cirurgia, nada com que se preocupar, leitor. É a quarta cirurgia pela qual eu passo na minha vida (não, elas ainda não são para esticar pés-de-galinha). Uma vez foi o tornozelo, 3 pinos e duas placas no direito, mas sou capaz de caminhar feito uma miss. A sorte. Por aí você tira. Andar de moto sem capacete, usar saltos mais altos do que os pés da mesa do restaurante, etc, estupidezes da juventude. Mas eu sobrevivi novamente agora. E, com ou sem pontos a mes costurar, tenho uma coluna (de texto) diária. Colunas (de texto) diárias não têm nada a ver com anestesia geral. Uma vez acordada – e eu tenho insônia, avisei-, vamos escrever. As recomendações médicas eram não mover demais os membros para não soltar os pontos. Então teclar com apenas os dedos, sem reger uma orquestra com os braços, me pareceu ok. Liberado.

Decidi testar o teclado usb, a sugestão do Dr. Bruno. Antes, coloquei meu Mac em cima dos dois volumes de crônicas reunidas do Lima Barreto, que não deve ter ficado muito satisfeito com o arranjo, e aí pluguei o cabo usb do teclado no Mac como se não houvesse amanhã. Num segundo percebi que a acentuação estava ferrada. Apertava o “risquinho” e o a e não dava á. A cedilha não estava aonde deveria estar. Tudo fora do lugar. E eu precisava escrever a coluna, enquanto sentia a placa vermelha e quente no meio do peito.

Segurando meu corpo o máximo que podia para não arrebentar os pontos, já deixando de lado uma fútil preocupação com quelóides, eu revi cada opção ofertada pelos “Leiautes de Teclado”: eu sabia que a escolha correta era EUA Internacional. Cliquei nela. Nada. Acentuação errada ainda. Resetei o Mac. O teclado preto usb aguardava o desfecho como um inocente, mas eu sabia que tinha sido ele. Culpa dele. Tentei novamente. Nada de acentuação. Experimentei três “leiautes” norte-americanos, um brasileiro e até o britânico. Ninguém devolvia a acentuação ao laptop. Liguei para a assistência técnica de computador que eu já utilizara antes no Largo do Machado: os caras me zoaram. “Você só precisa marcar o teclado EUA Internacional, rs”. Como já tinha feito aquilo à exaustão, o jeito foi me vestir com o único invólucro no qual eu posso me enrolar e que não é uma camisola (um “penhoir”, ainda se diz isso?”) sem romper os pontos e pegar um táxi até lá com o computador para esfregar aquela anomalia digital na cara deles.

Uma vez na loja, uma toca num desses prédios velhos do bairro, entreguei o computador e esperei o veredito. O mesmo cara que me zoou no telefone não conseguia fazer o EUA Internacional funcionar. Nem nenhuma outra opção sem desenhos incompreensíveis. Tentamos até Farsi. Eu teria rido dele se não estivesse ali toda ferrada de PENHOIR. Mas não foi tudo. Consulta: R$ 100,00. O quê? Consulta: R$ 100,00. CEM PILA. Paguei. Ia fazer o quê? Ir à delegacia de penhoir também?

De volta em casa com o computador, primeira coisa que me passou pela cabeça foi ligar pra Natália. Mora perto da minha casa, entende tudo dessa coisas toda, não tem emprego, acho que é uma hipster rica (ela anda meio rasgada, meio cintilante e com botas), nunca soube como ela tira seu sustento, talvez computadores mesmo, quem sabe… não o meu, ela nunca me cobrou, não me interessa, aliás, é das poucas pessoas que poderiam me ver de penhoir e movimentos caducos de pós-hospitalizada e não comentar, talvez sequer se dar conta de que havia algo diferente. Ela veio. Claro. Ela veio com seis cervejas e um cigarro. Antes que eu percebesse, a vida natureba que imaginei ao bater na porta do Dr. Bruno já dava sinais de incômodo com a invasão da barbárie. Natália tirou as botas de solas gastas nas noites da Comuna e do asfalto sagrado da Praça São Salvador e rapidamente encheu o ar de Breakbot e fumaça, me garantindo que a cerveja não tinha a menor chance de interferir  na atuação dos antibióticos no meu organismo. Consertou o computador em dois tempos, nem perguntei como. O bicho fala a minha língua de novo. Essa juventude é uma coisa fascinante.

Agora, na semana que vem, quando eu voltar no Dr. Bruno, é bom ele ter um travesseiro bem firme a minha espera.

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