“De onde vêm os gays?”

POR CECILIA GIANNETTI

Antes de mergulhar no texto, avaliemos: o tema é freguês da coluna por eu prestar atenção demais nele, ou porque a frequência do debate em torno dele, pelaí, só faz crescer? Este será nosso Tostines.

O encaixe perfeito entre o preconceito e a ciência nem sempre é fácil de se enxergar, ou fácil de se apontar. É arriscado ainda imaginar o que uma proposta científica poderá acarretar em termos sociais. Porque a ciência nos levou a avanços que já experimentamos e concluímos que são tão maravilhosos quanto imaginamos que podem ser os verdadeiros milagres. Quem levanta o dedo contra a ciência pode esperar que muitos outros dedos sejam apontados contra si. Apesar de que não desejar uma dedada proto-científica, levantarei aqui o meu.

Dito e pesado tudo isto, algo incomoda na ampla divulgação de um modelo de pesquisa – não comprovado como fato – publicado na última semana pelo Instituto Nacional de Síntese Matemática e Biológica da Universidade da Califórnia, EUA, originalmente na Quarterly Review of Biology, e que afirma que a homossexualidade tem fundamento em um conjunto de  fatores epigenéticos.

Por alguns anos o motivo apontado eram fatores genéticos: então a homossexualidade simplesmente corria na família, de geração a geração. Mas o tal “gene gay” jamais foi encontrado pelos cientistas, permanecendo o mistério entre aqueles que aguardam uma grande revelação sobre o assunto.

Já tiveram a oportunidade de conhecer pais que não aceitam seus filhos homossexuais? Tendem a fazer da busca do motivo para a homossexualidade de seus filhos – às vezes apenas uma suspeita desde a infância se transforma neles em agonia por anos a fio – uma extensão de sua relutância em aceitá-los, como se com a “razão” surgisse a possibilidade da centelha para a descoberta da muito discutida “cura” (ver: Decreto de asno: A “cura gay”).

Como se houvesse um caminho malicioso através do qual a homossexualidade possa ter tomado o corpo de seus filhos feito um demônio.

A notícia do estudo da Universidade da Califórnia se espalhou rapidamente, poucas vezes com o devido destaque ao fato de que o estudo não apresenta provas concretas acerca daquilo que clama. A mídia internacional – mesmo a não especializada, de tabloides e sites a revistas – saltou sobre o estudo da mesma maneira que os tais pais relutantes o fariam, sua manifestação de alarde como um sintoma da curiosidade estrepitosa em torno do motivo.

A epigenética estuda como alterações de DNA determinam que os genes se expressem ou não. A expressão genética é regulada por “interruptores temporários”, chamados de epi-marcas. As epi-marcas seriam como uma camada extra de informação ligada à estrutura de nossos genes e que determina o seu efeito sobre o nosso desenvolvimento. Todas as instruções estão nos genes, mas são as epi-marcas que comandam o show e ditam como tais instruções irão ocorrer.

O que o modelo proposto pelo estudo aponta é que epi-marcas sexualmente opostas seriam responsáveis pela “orientação sexual” dos indivíduos:

1. O caso de o pai transmitir suas marcas responsáveis por faze-lo mais sensível à testosterona à filha.

2. O caso de a mãe transmitir ao filho suas marcas de menor sensibilidade à testosterona, fazendo-o igualmente menos sensível ao hormônio.

Tanto babado e confusão em torno de um modelo científico que aguarda comprovação, focado em algo que desavisados ainda hoje pretendem curar como se fosse uma doença, acaba por se aproximar mais de uma caça às bruxas do que uma busca científica por avanços verdadeiramente proveitosos.

Parece que esquecemos da Escala Kinsey. E de que somos talvez a única espécie que faz sexo por prazer, sem visar apenas à procriação, o que por si só já garante à homossexualidade um terreno muito mais complexo do que o da epigenética.

E, apesar de toda a incerteza, o grito de “eureka” se fez ensurdecedor. O porquê disto, sim, daria um estudo interessante.

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