Rio-surpresinha

POR CECILIA GIANNETTI

Amigo gaúcho que vem passar férias no Rio no começo do próximo ano – caso o fim do mundo não etc e tal, chega disso – anda animado com o roteiro que mal comecei a traçar para ele. Por enquanto, fora do guia turístico básico Pão-de-Açúcar/Mirante/Jardim Botânico, minha ideia é faze-lo caminhar desde a trinca Catete, (O Largo do Machado se funde ao Catete) Flamengo e Botafogo, passando aí por Copacabana (as ruas de dentro principais, Barata Ribeiro e Avenida Nossa Senhora de Copacabana), por Ipanema e até o Leblon (igualmente por dentro).

Ele exige que sejam feitas paradas em pontos específicos onde se trafique abertamente os melhores chopes entre um quilômetro e outro. Tudo bem, eu digo.

O importante é ele ir notando pelo caminho as diferenças. E na volta (“Volta?! Você quer dizer, no mesmo dia?” Não, pode ser no dia seguinte) vem-se pela orla, fazendo questão aí de reparar também como a praia no Leblon pode ser diferente da praia em Copacabana, hábitos, divisões de faixas de areia e postos, gentes, preços e tipos de produtos ofertados aos turistas. Um exemplo é o Posto 9, que só existe um e só existe em Ipanema, bem como a faixa de areia da Farme de Amoedo, garantida a galera LGBT e simpatizantes. Outro exemplo: na Praia do Flamengo quase zero turistas branquelos, maioria moradores do Catete, Flamengo, e das comunidades do seu entorno. Ali a água tem seus dias bons e seus dias realmente marrons. Bem diferente do Posto 9. Não, não farei o sujeito caminhar até a Barra da Tijuca para ver uma réplica da Estátua da Liberdade.

Mas o que ele precisa mesmo conhecer (aka saber com antecedência a respeito) é o Rio que pode ser incidental até mesmo para os seus filhos natos ou adotados, o Rio-Surpresinha. Em partes:

1. Explosões de bueiros

Nada mais surpreendente para o transeunte e motoristas do que esta modalidade de surpresinha. O incidente mais recente se deu em Copa, bem perto de um de seus mais majestosos e conhecidos hotéis, o Copacabana Palace, e derrubou um motociclista que passava por ali. E só não se feriu porque calhou de cair para o lado direito, se caísse para o lado esquerdo, virava churrasquinho, feito sua moto. Quando um bueiro explode, sua tampa é arremessada longe, podendo ainda machucar qualquer velhinha que caminhe muito lentamente puxada por seu já trêmulo chihuahua.

Bueiro que explodiu táxi em Copacabana, em 2011, abriu uma cratera de mais de seis metros de diâmetro

2. Piscina de esgoto

Ruas do Centro, Glória, Catete, Largo do Machado, Flamengo e Botafogo que, sempre que chove forte ou mais-ou-menos, alagam em coisa de 20 minutos de carga d’água. Não é justo dizer que há nela apenas esgoto. Há também ratos e baratas boiando (não tenho certeza se os ratos tentam nadar, mas é um belo detalhe da fauna a se prestar atenção na próxima vez em que eu estiver presa em uma piscina de esgoto).

Em outubro, logo após a reeleição de Eduardo Paes – que coincidência – fiz a minha mais recente natação numa dessas, tentando atravessar do Largo do Machado até a Praia do Flamengo com água até as coxas. Água não. Já explicamos do que se trata. E quando um carro ou caminhão consegue passar pela rua inundada, de piscina ela vira mar – revolto – com direito a ondas que então te molham até os peitos, a cara. Sem limites.

Ah, aconteceu certa vez também na Gávea. Vale lembrar do surfista da área, que aproveitou o embalo das ondas de cocô.

Surf na bosta, Gávea

3. Roubo-Bike

Pode soar como apelido carinhoso da bicicleta motorizada, que também é moda aqui, algo como “robô-bike”, mas é “roubo” mesmo. Alguém grita (voz de fuinha): mas não é só no Rio! Não, não é. Mas o Rio é MAIS. Um bicho desses não se cria, por exemplo, no trânsito de São Paulo.

É assim: o sujeito montado na magrela pedala na rua, junto ao acostamento, e percebe você nesta calçada não muito movimentada em Laranjeiras, por exemplo, ou, que se dane, por que não?, (afinal, não há policiamento), em uma calçada movimentada mesmo, e simplesmente ordena que você lhe passe bem rápido celular, bolsa, tudo que tiver em mãos ou ele a) atira b) te fura – e então leva seus pertences pedalando. Ninguém na calçada tentará impedir (hoje sabemos que não devemos reagir), os transeuntes fazem apenas figuração no momento do crime.

Outra modalidade do mesmo Roubo-Bike: o sujeito percebe você meio relax demais caminhando no calçadão (Copa, Ipanema, Lagoa et al) com o seu smartphone na mão, tirando fotinhos do pôr-do-sol para passa-las pelos filtros do Instagram ou falando com um bróder sobre como hoje tá calor. O sujeito dá um certo arranque nas pedaladas e, ao passar rente a você, voando, arranca-lhe da mão o celular. Um desses, vestindo justamente a camisa do meu time, o Flamengo, me levou um iPhone assim no ano passado, no calçadão de Copacabana. Corria mais do que o Adriano Imperador.

Aliás, conheça o mapa do circuito alternativo anti-assalto (?) aqui. Quem bota fé?

4. Ambulante humorista

O velho esquema de fingir que atira na direção de quem passa um copo falso de chope, como se fosse encharca-lo com a bebida, enquanto você de supetão dá um pulo para trás e causa um pequeno engavetamento na calçada estreita por onde anda, este truque não desapareceu. Mas é humor físico. O ambulante humorista é provavelmente a inspiração de Rafinha Bastos, sua escola e seu exemplo. Ele fala, ele gralha. “Olha a rosca. Quem vai querer a minha rosca? Coma a minha rosca. Minha rosca está quentinha…” E por aí vai. Isso é repetido uma centena de vezes em cada parada, por cada bairro por onde passa.

O pequeno piauiense, autor dos slogans da rosca, vende… roscas. Gordurosas, agigantadas. E é muito popular entre o Centro e o Flamengo. Repete seu jargão com potente voz que dispensa qualquer aparato de amplificação, há mais de três anos, em torno das 16h e 18h, dependendo do bairro onde você se encontrar. Causa com seu grito primeiro um sobressalto em quem passa perto dele, depois um risinho amarelo. Ou uma gargalhada, em fãs de Rafinha Bastos.

5. Mi casa, su casa 

Não é propaganda de couch surfing. O pessoal do BOPE costuma “entrar para a família” de quem habita o que o Estado denomina como “Posição Estratégica” em uma comunidade. Como ocorreu em casa da Vila Cruzeiro, Complexo do Alemão, que os caveiras ocuparam por oito meses. Sem qualquer cerimônia ou aviso prévio aos seus residentes. Que no início ainda permaneceram no imóvel (imaginando, talvez, que a situação logo se resolveria a favor deles, proprietários de direito). A família foi obrigada a debandar quando os caveiras danificaram o toilette da casa e passaram a manter ligada a televisão no volume máximo (sério, não estou de piada) diariamente, o dia inteiro.

Esta semana a família que teve sua casa tomada pelo BOPE venceu por decisão do Tribunal de Justiça o direito de receber R$ 150 mil do Estado do Rio para compensar os desmandos sofridos.

art. 5.º, X, da Constituição da República: “São invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação”.

Mas e as famílias de outras casas invadidas da mesma maneira pelos oficiais, que por medo de retaliação ficam pianinhas, não reclamam, não denunciam?

6. Gerenciamento à distância 

Qual não foi a surpresinha da Polícia Civil fluminense, em ação conjunta com a da Bahia, ao encontrar laptops (!) e celulares (!) no luxuoso apartamento ocupado pelo bandido Irmão Metralha, 39 anos, no bairro Pituba, na Bahia? Com tais aparelhos, Metralha controlava a distância o tráfico de drogas em cinco comunidades no Rio de Janeiro.

“Com o material eletrônico apreendido, vamos começar a checar a estruturação do tráfico,” informou aos jornais a delegada responsável, Valéria de Aragão.

É meischmo? Vão COMEÇAR?

Com celulares bombando mensagens de dentro de todos os nossos presídios com ordens dos traficantes encarcerados para seus funcionários em liberdade lá fora, e até mesmo páginas pessoais (fofura) de Facebook atualizadas direto do xilindró pelos presidiários, o fato de que El metralha comandava da Bahia seu império no Rio é apenas indício de uma prática bastante disseminada e não combatida de todo.

Página de Nem da Rocinha (preso) no Facebook: atualizada por trás das barras. Vai add?

Todo mundo sabe que isso ocorre, amplamente. O que falta para que outros “controles-remoto” sejam investigados e interrompidos?

7. Defeito no ar-condicionado 

Não qualquer um. Não o da sua casa, que, pagando um quantia a um técnico, você o tem de volta funcionando direitinho. Mas o do metrô carioca. Coincidentemente quando as temperaturas na cidade passam de 38 graus. Surpresa!

8. Baratas nos ônibus

Sejam elas francesinhas ou cascudas, estas passageiras vêm sempre somar. Especialmente à noite, dão um alô ao passageiro que olha pela janela recostado na lateral do ônibus, passando por ali, do ladinho do seu rosto, sem muita cerimônia. Surpresa!

9. Pedinte/Agredinte

“Pode ajudar, senhor-senhora?… Não? Então vai se f*** seu F*** de uma P**** (…)”. O até então humilde pedinte, agora transbordando ódio, deixa o local ainda xingando e pode-se ouvi-lo continuar até que pare noutra janela ou mesa de bar, já recomposto do ataque de fúria, novamente pedindo.

10. Surpresinha hoteleira

Amiga desta coluna esteve no Rio de Janeiro a trabalho há coisa de 15 dias e, ao chegar a seu hotel favorito, foi informada pela recepcionista de que seu quarto sofria um vazamento que não podia ser então contido e, lotado, o hotel a enviaria a um outro que podia hospeda-la, pagando pelo incoveniente com a corrida de táxi coberta.

Chegando ao hotel ao qual foi destinada pelo anterior, notou estranhezas: “hóspedes” meio que se esgueirando pelos cantos. Um tapume de madeira cobria parte do balcão da recepção. Em seu quarto, deparou-se com uma incrível cama redonda e espelhos no teto. Fora enviada a um motel de quinta categoria.

Não à toa cresce o mercado para hostels na cidade (somente em minha rua há três deles, além de três hoteis. Os hostels vivem lotados. Os hoteis necessitam de reformas urgentes.)

Aí chega o Ambulante humorista e pergunta: “Imagina na Copa?”

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