SINATRA, 12.12.1915

“Sinatra has a cold” – por Gay Talese. Como melhor conhecê-lo.

Para escrever “Sinatra Has a Cold”, Talese aproveitou o profundo interesse que mantinha sobre sua própria veia ítalo-americana. O texto sobre Sinatra, outro ítalo-americano, tornou-se um marco do estilo literário aplicado ao jornalismo cultural. Nascido em 7 de Fevereiro de 1932 em uma família de origem italiana, o autor encontrou na descendência um ponto em comum entre sua própria biografia e a de cantor. O meticuloso processo de aproximação do tema Sinatra figura em sua bibliografia (que contém ainda livros sobre a Máfia italiana, tendo sido ele o primeiro escritor a investigar o submundo dos mafiosos de dentro com “Honor Thy Father”) como um dos primeiros trabalhos em que Talese beneficiou-se desse ponto em comum, garantindo ao autor explicar a dimensão que definiu como “siciliana” no cantor, além de obter simpatia e acesso por causa de suas origens. A reportagem é uma de suas “respostas” de ítalo-americano ao mundo, além de constituir um exemplo irretocável de como o Jornalismo Literário pode ser usado em jornalismo cultural. O método empregado por Talese nesta reportagem tem seu alicerce em um tripé fundamental para o jornalista literário, englobando algumas das “regras” sugeridas por Mark Kramer, e pode ser assim exemplificado, de acordo com a leitura de “Sinatra Has a Cold”:

I – Contextualizando Sinatra

Talese abre o texto explicando que o cantor, que esteve calado por horas, está prestes a dizer algo.

Frank Sinatra, segurando um copo de bourbon em uma das mãos e um cigarro na outra, está parado em um canto escuro do bar entre duas loiras atraentes embora desbotadas que se sentaram esperando que ele dissesse alguma coisa. Mas ele não disse nada; ele se manteve em silêncio durante a maior parte da noite, exceto agora neste clube privado em Beverly Hills; ele parecia ainda mais distante, olhando através da fumaça na semi-escuridão para um salão atrás do bar onde dúzias de jovens casais acotovelam-se à volta de pequenas mesinhas ou se sacodem no centro da pista ao alarido metálico da música folk-rock que sai do estéreo. As duas loiras sabiam, assim como os quatro amigos de Sinatra que estavam por perto, que era uma má idéia forçar uma conversa quando ele estava neste clima de silêncio taciturno, um ânimo dificilmente incomum durante a primeira semana de Novembro, um mês antes de seu 50º aniversário.”1

A reportagem, aberta com Sinatra em silêncio em uma boate, ganha uma digressão na qual Talese mantém em suspense a seqüência desta cena específica. Ele não relata imediatamente as ações dos personagens a quem fez referência no parágrafo de abertura. Ao invés de entregar respostas às questões “o quê”, “por quê”, “como”, “onde” e “quando” sobre o lugar e as pessoas descritos no primeiro parágrafo, informações que, de outra forma, poderima ter sido logo fornecidas em um lead mais convencional sobre o cantor, Talese oferece um panorama geral do que Sinatra estava vivendo em sua carreira e sua vida pessoal, remontando a eventos ocorridos dez anos antes e a outros nem tão distantes, como a superexposição de seu relacionamento com a atriz Mia Farrow (então com 20 anos de idade) na mídia; a invasão de sua privacidade por uma equipe da rede de TV CBS, por conta da gravação de um documentário sobre sua vida em que chegava inclusive a especular sobre suas ligações com membros da máfia italiana; a preocupação do cantor em relação ao especial que gravaria para a NBC: resfriado, Sinatra era, nas palavras de Talese, “Picasso sem tinta, Ferrari sem combustível”, uma vez que um simples resfriado podia lhe roubar “sua jóia”, sua voz, “cortando o âmago de sua confiança, e afetando não só sua própria consciência mas também causando um tipo de corrimento nasal psicossomático entre dúzias de pessoas que trabalham para ele, bebem com ele, o amam, dependem dele para seu próprio bem-estar e estabilidade.” Um resfriado em Sinatra teria o poder de “enviar vibrações por toda a indústria do entretenimento e para além dela assim como o Presidente dos Estados Unidos, adoecido de repente, pode sacudir a economia nacional”. Este é o gancho para que Talese nos guie até outro bar, em Nova Iorque, o Jilly´s, onde o cantor possuía uma mesa cativa, a qual não podia ser ocupada por mais ninguém, mesmo quando Sinatra não estava na cidade. Aqui será delineado um dos lados do perfil de Sinatra que Talese define como “Il Padrone”, o chefe, “majestoso e humilde” ao mesmo tempo; um tipo siciliano para quem meias verdades e meias decisões não são suficientes. Ele quer tudo “all the way”, até o fim. Exige 100% de fidelidade de seus amigos, a quem oferece em troca proteção, amizade, presentes, TUDO de Sinatra. Todos que conhecem Sinatra e estão em Nova Iorque vão até sua mesa no Jilly´s para “prestar seu respeito ao padrinho”. O outro lado da personalidade de Sinatra surge quando está com gente do showbusiness como Lisa Minelli e Sammy Davis Jr., fazendo piadas e bebendo: é o “Swinger”, um boa-vida engraçado e charmoso. Ambos os tipos são anacrônicos.

Só após esta digressão o leitor fica sabendo o que realmente acontece naquele cenário instaurado por Talese no primeiro parágrafo. Sinatra reaparece no bar de Los Angeles, agora contextualizado pelo recuo no tempo oferecido por Talese. O comportamento de Sinatra e seus amigos na boate agora faz sentido no contexto “O Chefe/O Boa Vida” apresentado pelo autor. A cena é retomada de onde parou:

Agora Sinatra disse algumas palavras às loiras. Então, virou-se e começou a caminhar em direção à sala de sinuca. Um dos amigos de Sinatra aproximou-se para fazer companhia às garotas. Brad Dexter, que tinha ficado em um canto falando com outras pessoas, seguiu atrás de Sinatra.2

Segundo Mark Kramer afirma em suas “Regras Nada Rígidas Para Jornalistas Literários”, o autor precisa se basear em uma estrutura de “contador-de-estória”, construindo digressões que sugiram um destino que valha a pena ser atingido. Digressões que não abandonam seu tema mas o ampliam prendem o interesse do leitor. E é precisamente para ampliar a dimensão de Sinatra aos olhos do leitor que Talese digressiona.

II – Endossando a contextualização

A observação do comportamento das pessoas ao redor do cantor e da fala de seus amigos oferece detalhes consistentes e é o que endossa as definições do autor sobre a personalidade de Frank Sinatra. Aqui, Talese demonstra credibilidade, ganhando a confiança do leitor apresentando diálogos e cenas que só uma observação muito próxima poderia permitir.

Brad Dexter que, anos antes, havia salvado a vida de Sinatra evitando que o cantor se afogasse, no Havaí, afirma: “Eu mataria por ele”. Em seguida, Talese nos conta que Dexter foi feito vice-presidente da produtora de Sinatra e ganhou um escritório luxuoso próxima à sala de Sinatra. A fala e as credenciais de Dexter justificam no texto o lado “Il Padrone”, passional e siciliano, de Sinatra.

Um retrato do lado “Boa-vida” e do círculo de amizades do showbusiness de Sinatra vem em outra cena de bar, desta vez de volta no clube The Sahara, onde o comediante Don Rickles começa um jogo de piadas com o cantor e seu séquito, entre eles Dean Martin, o dono do Jilly´s, Jilly Rizzo, e Leo Durocher, um amigo próximo de Sinatra:

Quando o grupo de Sinatra entrou, Don Rickles não podia ter ficado mais satisfeito mais. Apontando para Jilly, gritou: “Como você se sente sendo o trator de Sinatra?… ééé, Jilly continua andando na frente de Frank para limpar o caminho.” (…) Ele então concentra-se em, Sinatra, sem esquecer de mencionar Mia Farrow, nem a peruca que Frank usava, ou que ele estava acabado como cantor, e, quando Sinatra riu, todos riram, e Rickles apontou para Bishop: “Joey Bishop continua verificando com Frank o que é engraçado”. Então, depois que Rickles contou algumas piadas de judeu, Dean Martin levantou-se e gritou: “Ei, você tá sempre falando de judeus, nunca sobre italianos,” e Rickles cortou com essa: “Para que precisamos de italianos – tudo que eles fazem é manter as moscas longe de nosso peixe.” Sinatra riu, todos riram, e Rickles prosseguiu dessa maneira por quase uma hora, até Sinatra, levantando-se, dizer:

Tá legal, vamos lá lá, acabe com isso. Eu tenho que ir.”

Cale a boca e sente aí!” Rickles mandou, “Eu tive que agüentar você cantando…”

Com quem você pensa que está falando?” Sinatra gritou de volta.

“Dick Haymes,” Rickles respondeu, e Sinatra riu novamente, e então Dean Martin, derramando uma garrafa de uísque sobre sua cabeça, molhando todo o seu smoking, socou a mesa. “Quem acreditaria que aquele sujeito cambaleante viraria uma estrela?”, Rickles disse.3

Embora Talese não se coloque, neste momento, em foco na cena, fica subentendido, pela maneira como ela é desenvolvida no texto, que ele está presente quando a ação acontece. Caso tivesse apenas ouvido a história de alguns dos presentes, seu estilo denunciaria tratar-se de um relato de segunda mão. Sua presença discreta no ambiente só pode ser percebida pelo detalhe e dinamismo que confere aos diálogos da cena. “Jornalistas literários tomam notas elaboradas para reter citações precisas,” afirma o autor no texto “Breakable Rules For Literary Journalists”. É a partir dessas falas citadas com precisão que Talese consegue reconstruir cenas inteiras para o leitor.

III – Ouvindo para revelar

Em seu livro “Origens de Um Escritor de Não-ficção”, de 1996, Gay Talese explica que aprendeu com a mãe, dona de uma loja de roupas, a importância de ouvir com paciência, sempre demonstrando interesse. Catherine DePaolo Talese costumava ouvir suas clientes com grande atenção por detrás do balcão da “Talese Townshop”. Uma lição que aprendeu assistindo à evolução dessas confissões feitas à sua mãe é que nunca deveria interromper, nem mesmo quando a pessoa demonstrasse dificuldade ou hesitação ao se expressar. Segundo ele, é justo no momento em que demonstra maior imprecisão em seu discurso que muita coisa sobre é revelada sobre quem fala. Suas pausas, evasões, mudanças repentinas de assunto – tudo isso seriam indicadores do que as deixa preocupadas, embaraçadas, irritadas ou do que guardam como muito pessoal ou não deve ser revelado para ninguém.

Também cheguei a ouvir gente discutindo com minha mãe assuntos os quais, antes, já havia percebido que costumavam evitar – um tipo de reação que eu acho que tinha menos a ver com a natureza curiosa dela ou suas perguntas colocadas sempre com muita delicadeza, do que com a aceitação gradual das pessoas em relação a ela como alguém confiável.4

Durante o período que um jornalista literário acompanha seu assunto, até mesmo uma relação que começa estritamente profissional tende a tornar-se mais como uma parceria ou até amizade. O tempo e a atenção dedicada pelo escritor ao tema e pessoas ligadas a ele é grande e isso tende a derrubar barreiras de intimidade entre eles. O importante, segundo Mark Kramer5, é que a posição do escritor seja sempre clara e verdadeira em relação à sua fonte, a quem devem ser mostradas reportagens anteriores do escritor realizadas nesse molde para que elas compreendam do que se trata seu trabalho. Para algumas pessoas, o escritor torna-se uma boa companhia, um confidente. A ele, elas contarão tudo, coisas que, antes da convivência, talvez sequer imaginassem que revelariam. O escritor deve, portanto, deixar claro que continua sustendo sua intenção inicial de documentar e escrever sobre o que lhe é contado.

As regras sugeridas por Mark Kramer e empregadas por Gay Talese e outros cujo trabalho é reconhecido como Jornalismo Literário, funcionam como um caminho para que se produza um trabalho sobre fatos reais que seja leitura tão instigante quanto a de um bom romance. Não são regras fixas, são “quebráveis”, como diz o título do texto de Kramer; e alguns jornalistas, de fato, modificaram muito dessa cartilha para que pudessem construir sua voz própria e moldar o jornalismo literário à sua maneira. [Um desses jornalistas é o norte-americano Hunter S. Thompson.]

1 TALESE, Gay. “Sinatra has a cold”, 1962.

2 idem.

3 idem.

4 idem.

5 idem

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s