Central dominada

De um lado, a sede da Secretaria de Segurança Pública do Estado, e no mesmo prédio funciona uma delegacia da Polícia Civil; de outro, um quartel general do exército, o Palácio Duque de Caxias. Supostamente, este lugar é uma fortaleza contra o crime.

Esta é uma faceta da configuração dos entornos da Central do Brasil. A outra faceta do mesmíssimo local reúne bocas de fumo, pontos de camelôs vendendo produtos como tablets roubados e pirataria, e prostituição em frente aos bares, conforme se pode ver em recente flagrante realizado não pelos oficiais responsáveis por manter a segurança e a ordem locais, mas pelas câmeras de um telejornal.

Avenida Presidente Vargas e Central do Brasil: a beleza que o dia esconde e as luzes noturnas favorecem

A faceta criminosa da região da Central do Brasil convive em harmonia com os policiais civis e militares, que não atrapalham as atividades da bandidagem. Tem pó de 10 e de 20, baseadinho custa 10, o programa sai por 30 e o hotel por 12 reais. À luz do dia e todos os dias, tal rotina e seus preços são repetidos a quem os solicita sem a incômoda invasão da lei.

Milhares de pessoas circulam por essa região todos os dias, ponto nevrálgico do Rio de Janeiro dotado de trens, metrô e ônibus para os mais diversos pontos da cidade.

Para não dizer que a área tem vivido totalmente às moscas, em outubro policiais militares fizeram um flagrante lá, no qual foram apreendidos maconha e cocaína, além de carregadores de fuzil, anotações do tráfico, e bandoleiras. Os três homens que transportavam o carregamento haviam descido no ramal de Belford Roxo, que passa pela Favela do Jacarezinho, e seguiriam em direção a Itaboraí.

Mas estes eram criminosos que estavam de passagem pelo local. E talvez quem os prendeu também estivesse de passagem por ali, um grupo de policiais militares que os seguia desde outra região. O noticiário não deixa claras essas informações específicas.

O que nos leva, inevitavelmente, a desconfiar e especular:

Se no dia-a-dia os policiais militares e civis presentes na Central do Brasil nada fazem para coibir a lambança fora da lei na área, possivelmente tal flagrante, realizado, ainda por cima, num tremendo sabadão, não tenha sido mesmo de responsabilidade dos oficiais locais. Mas de outros, mais atentos a seu trabalho, “importados” de região diversa.

Central do Brasil na década de 1950

E por falar em região diversa, na madrugada de terça-feira uma Operação chamada “Purificação” desbaratou uma quadrilha de nada menos que 59 policiais militares (Até às 10h30 desta terça) que recebiam propina do tráfico, com “sede” principalmente em Caxias. O tenente-coronel Claudio Lucas Lima, que comandava o batalhão de Caxias, onde boa parte dos policiais trabalhava, foi exonerado. Os agentes arrecadavam entre de R$ 1,5 mil e R$ 2,5 mil por semana em cada localidade por onde passavam fazendo o rapa, dependendo do movimento do tráfico. Alguns policiais recebiam a sua caixinha diretamente na conta bancária. Agora serão expulsos da corporação.

Novamente, inevitavelmente, isto nos leva a desconfiar e especular, a juntar 1 + 1:

Será que tamanha cegueira das autoridades locais em relação aos crimes praticados diariamente, repito, à luz do dia e todos os dias, na região da Central do Brasil, poderia ter algo a ver com, sei lá, wild guess, propina?

Talvez seja uma boa jogar uma Operação Purificação #2, agora não em Caxias, mas na Central. Nah, eles não a chamariam de “Purificação”. Você sabe, eles adoram nos surpreender com um nome diferente a cada operação. Por mais idênticos que sejam os crimes.V

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