Cabelos vermelhos

POR CECILIA GIANNETTI

Uma ficção sobre a ficção*

A branca ou a preta? Gosto do contraste da pureza do branco contra a ferrugem dos meus cabelos. Pintados, pintados de vermelho, mas ainda assim —

Não esquecer de passar a blusa branca.

Teria sido porque pinto os cabelos? Porque esta cor não fica bem em contraste com a minha pele amorenada, porque esta cor talvez não fique bem em ninguém exceto uma garota em uma bandinha, e muito mais jovem que eu. Porque não acertei ao escolher a caixa da tintura para os cabelos e me deixo transitar por aí com o que parece uma peruca colérica? Não é porque engordei, pois continuo alta e magra, como quando nos conhecemos e ele disse que eu era única, a única, nenhuma grama além do que ele sempre considerou gostosura. Mas mesmo as altas e magras podemos sentir que um invólucro de gordura imaginário é o que nos relega ao desamor. As altas e magras, como eu, também somos vítimas de graves defeitos estéticos, todos existentes dentro da nossa mente, o que não os torna menos fatais. Eles surgem quando deixamos de ser a única. Talvez ser alta e magra seja o meu defeito estético — para ele. Talvez ele a prefira a mim porque ela é o meu oposto, ou bastante diferente física e mentalmente, eu realmente não sei nada a respeito dela, eu nunca a vi. Talvez ela seja idêntica a mim, mas, em sendo outra, uma outra além da única que um dia eu fui, isto faz valer a lei do desejo fora do relacionamento. Em não sendo eu, tanto melhor para ele.

Ou o contrário. Talvez eu apenas pensasse conhece-la muito bem, a outra, talvez a tivesse próxima de mim, quem sabe a que me roubou o título de única não fosse mesmo a minha melhor amiga? Rodrigueanamente tudo é possível neste mundo.

Não esquecer de levar o martelo na bolsa. A bolsa maior, a que cabe tudo além da escova para os meus cabelos vermelhos, indício de meu temperamento, a que guarda a minha carteira, a bolsa de maquiagem, o meu iPad, o celular, o pequeno vidrinho de Cacharel que eu — mania de estar sempre cheirosa — carrego invariavelmente comigo, oo livreto Meditações Diárias Para Mulheres Que Amam Demais, a bolsa maiorzinha, em que caberá ainda o martelo.

É o martelo que vai dar o recado. Nada de deixar para ele mensagens na secretária eletrônica do celular, rasgos de todas as vozes que me torturam hoje a cabeça revolvendo Por que, Por que, Por que, angustiados, raivosos, repetindo acusações em palavras que engasgam nas lágrimas, urros chorosos que ele possa exibir gravados aos colegas de trabalho no chope depois de uma reunião, comentando Eu Não Disse, Olha Só, ou mesmo para a aquela —

Não me interessa mais ela. Não agora, que eu tenho o martelo.

Meu foco é a minha fúria e o carro.

Placa DAS9494.

Não me interessam as pessoas que irão passar naquele momento na rua, na Vila Olímpia, as que irão parar, as que irão gritar para mim incentivos ou Louca, Louca, Meo, Que Mulher Louca, as que irão aventar outros Porquês — foi demitida e decidiu destruir o carro do ex-chefe; ficou de fora da herança e decidiu destruir o carro de quem levou a nota; ficou sem os seus remédios e decidiu destruir o primeiro carro que viu pela frente — não me importam as gentes que irão sacar seus celulares e fotografar e filmar e fazer a coisa inevitável, a coisa digital, a coisa que é mania mundial e dar upload do meu ataque pela web, escancara-lo no Youtube. Não me incomoda sequer que ele dê queixa, que a polícia me reconheça pelos vídeos e assim tenha provas. Pouco me lixando se eu for presa. Eu já me sinto presa.

A blusa branca vai ficar perfeita nos vídeos, contra os meus cabelos vermelhos.

***

[*”Louca da Vila Olímpia”, no final das contas, era gravação de novela]