Não babem pela Rose

Gostava de ler Gore Vidal quando era uma adolescente entediada com os próprios dramas políticos do meu país (caras-pintadas me davam arrepios), os novelões do autor norte-americano – morto em julho deste ano – ambientados em Washington D.C. eram repletos de histórias de amantes infiltradas em cargos públicos dos mais elevados, e principalmente teorias conspiratórias e política suja palpitante. Lia Gore Vidal como quem lê romances de espiões e aventuras como Robinson Crusoe. Afinal, o autor freqüentava a casa dos Kennedy, personagens de tantos livros e pivôs de várias teorias conspiratórias, comprovadas ou não. Aquilo é que era emoção. [A verdade é que cresci com Gore Vidal. Um velho que plantava acelgas como meio de subsistência em uma banheira abandonada no final da minha rua faleceu quando eu tinha apenas cinco anos de idade e deixou toda a obra do escritor norte-americano para o meu tio, que não a conhecia. Como este tio vivia muito dedicado à evolução de sua *mediundidade* – como a denominava então -, passando dias a entortar colheres em restaurantes da cidade e a afrouxar seus chacras estirado no chão do quintal, fui eu quem herdei os livros do velho. Mais: eu era feia. Feia de doer. Meus pais me trancavam em casa para que as outras crianças da rua não prendessem um barbante com latas vazias de leite em pó penduradas no elástico das minhas saias ou me jogassem de cabeça para baixo dentro das caçambas da Comlurb. Portanto fui educada em casa, home-schooled, praticamente uma autodidata.  E por longos e longos anos minha educação no que se referia à importante cadeira dos Escândalos Políticos resumiu-se apenas aos escritos de Gore Vidal. Pois lendo nossos jornais e revistas logo percebi que a matéria-prima oferecida pela vida política brasileira era por demais simplista para transformar-se em tramas como Império, de GV.] Seria esta lenda um indício de “Síndrome de brasileiro vira-latas”? Pelo contrário: só estou apontando onde estão as sarnas e as pulgas. Como o tratamento dado na mídia ao Rosegate. Para que sejam exterminadas – ao menos das reportagens que destilam baba por um suposto romance entre a ex-secretária indiciada na Operação Porto Seguro e o ex-presidente. Não faço pouco das mazelas reveladas no Rosegate. Principalmente não digo que não mereçam punição. O que não merecem é a saliva que escorre diante deste caso. Mais especificamente do casinho de amor que parece ter vindo de brinde com as denúncias da Operação Porto Seguro. Não vale a saliva que escorre pelo Rosegate o fato de Rosemary talvez ter sido amante – toda reportagem sobre o caso faz uso de eufemismos para indicar que sim, eram um casal – do hoje “fui apunhalado pelas costas” Luís Inácio Lula da Silva.

O Rosegate envolve a roubalheira de galinheiro que já nos é bastante familiar, trazendo como “novidade” apenas um toque extra de vulgaridade.

A funcionária de segundo escalão Rosemary Nóvoa (névoa?) de Noronha acompanhava o “PR” (como às vezes chamava o seu presidente) nas viagens internacionais a que a parva ex-primeira dama Dona Marisa não ia. Em suas 28 viagens ao exterior a bordo do Aerolula, sempre teve acesso livre à cabine do preza, de onde saía oferecendo a quem quisesse ouvir suas notas pessoais sobre como Lula passava naquele momento: se estava cansado; se receberia mais alguém; se aceitava uma água tônica. Certa vez – na viagem à Havana, em 2003 – e apenas uma vez, ganhou de presente hospedagem na mesma ala de hotel em que El Preza ficou. Uh. “Será que havia bombons licorosos aguardando-a debaixo de seu travesseiro, champanhe, camarão e lagosta – conforme ela gostava, à sua espera no quarto de luxo?”.

Pois tudo isto parece pouco, parece ralo – se olhado pelo viés do romance histórico. Não dá caldo, não dá ficção histórica – modalidade de afeição de Gore Vidal, um dos meus autores favoritos da adolescência. Uma pena. Nem mesmo não-ficção, como “Bon Petit Soldat” (lançado em novembro), os diários de Mazarine Pingeot, filha de Anne, amante do ex-presidente da França, François Mitterrand. Na realidade, a proximidade de Rosemary com o poder, nesse tipo de relato, assemelha-se mais à liberdade que experimentavam as groupies nos áureos tempos de bandas gringas de rock de arena, quando as moças obtinham backstage passes em grandes turnês de suas bandas do coração – e membros de sua preferência. No exemplo de Miterrand e sua segunda família havia mistério e certa engenhosidade: Mazarine e sua mãe entravam à noite escondidas no Palais de l’Élysée através de uma porta, que ficava nos fundos do Palácio, e levava à alcova do président. Percebem? Uma entrada secreta? Mistério, frio na barriga, “segredos de estado”. Uh.

O único segredo de estado nesta história do Rosegate é justamente o que não cola, ainda que tudo não passasse de ficção: o chefe de estado de nada sabia. Nada mesmo?

Aqui, na verdade, tudo é muito óbvio, é cru: Roubar, pilhar, paraíso fiscal, caixa-dois, dívidas magicamente perdoadas, utilização de um passaporte e mala diplomáticos (quando se é mera ex-secretária) para fazer entrar quilos de milhões de euros em outro país – e lá depositá-los – isto acontece em demasia em qualquer república das bananas, prática popular nos últimos centênios. Mensalão, desvio de verba de posto de saúde pública, cobrar propina de empresários em troca de pareceres jurídicos favoráveis em Brasília, obter contratos de maneira escusa para empresas de construção, descolar uns diplomas falsos. Mais cedo ou mais tarde aqui se expõem os esquemas e as falcatruas bem diante de nossos olhos. Qualquer um com um sistema de escuta desbarata quadrilhas do governo, sem sequer carecer dos esforços de um Bob Woodward. O único que nunca vê, e clama para si o título de maior cego, aquele que enxerga apenas a mais profunda escuridão do universo, é o próprio ex-presidente Lula. Cru, cru, cru. Soa mesmo como um corvo sobre nós, a crueza. Talvez não Gore Vidal, mas Edgar Allan Poe soubesse como utilizar este material sombrio.