Ainda não acabou

El tiempo está viviéndome./ Más silencioso que mi sombra, cruzo el tropel de su levantada codicia. O tempo está vivendo-me. Mais silencioso que minha sombra, cruzo o tropel de sua exaltada cobiça. [Jorge Luis Borges – “Primeira poesia”]

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***

Então digamos que o universo tenha dado pra gente alguns minutos ou um punhado de horas a mais. Que seja (fosse, é, vai ser) verdade que é Hoje. E você ainda tem esse pouco de tempo pra pensar e fazer uma ou outra coisa que realmente já deveria ter feito há muito tempo.

Mas você não se planejou pra nada isso. Nem um pouco. Você nunca memorizou os seus desejos mais nobres e dignos da Última Hora, você não fez uma lista que talvez pudesse puxar de uma gaveta ou arquivo em seu computador no dia em que anunciassem: “Olha, agora é pra valer, não é como da última vez: ferramos mesmo o planeta e __________ (inserir catástrofes galore como no filme “2012”) começarão a acontecer de fato dentro de dois meses.” Bom, com dois meses e a lista escrita, você teria dois meses pra tentar satisfazer alguns de seus melhores desejos.

Agora se passaram uma hora e trinta e dois minutos desde que eu escrevi o parágrafo acima neste bunker de leitura e você não está dirigindo um carro semi-destruído a toda velocidade sobre uma rodovia que racha ao meio conforme você passa, perseguido por bolas de fogo, pedaços de prédios, do Cristo Redentor e de automóveis devastados.

Não está.

Você está dentro da sua vida, aquela que você, até certo ponto, deve ser capaz de comandar – ao menos conforme o universo lhe atira bolas de fogo diariamente e você, ser pensante e quiçá sortudo, consegue desviar delas. É assim a vida, e você está na sua vida.

Mais: ferramos de fato o planeta e algumas catástrofes, fato, têm acontecido. Na realidade, elas acontecem todos os dias, em diversos pontos do planeta. E, pra completar, também em um nível que diz respeito a cada vida, individualmente, independentemente de catástrofes noticiáveis ou não: todos dias um bocado de gente bate as botas, não é?

E aí, mané? Vai fazer o quê?

A pergunta acima, mais polidamente colocada, é:

Se por uma fração infinitesimal da sua existência você realmente chegou a se preocupar com O Fim (do mundo e/ou da sua vida), se por alguns instantes mesmo você chegou a imaginar que não haveria mais nada, nem mesmo você – aliás, e principalmente – sim, você, essência e corpo e tudo o mais, quais são suas maiores vontades e pendências?

[Não vamos falar de arrependimentos. O Fim não suporta arrependimentos. Eles existem para quem dispõe de tempo, e não sabe fazer uso do mesmo. Não queira ser este tipo de pessoa.]

(…) Pero de nuevo el mundo se ha salvado. La luz discorre inventando sucios cores y con algum remordimiento del día de mi cumplicidad en el surgimiento del día solicito mi casa (…) (…) Mas o mundo salvou-se novamente. A luz se esconde e inventa cores sujas e com um certo remorso de minha cumplicidade no ressurgir do dia solicito minha casa (…)

Quais são suas maiores vontades e pendências? Sim, nesta vida: estamos falando em segundas chances, mas não estamos falando em reencarnação. Comer a Christina Hendricks? Sussurrar suas últimas palavras a um parente moribundo? Simplesmente fumar um cigarro enquanto observa o céu despencar sobre os pássaros e antes de silencia-los, amplificar um último canto de desespero?

Por mais que nada de extraordinário e terrível aconteça hoje, hoje é um dia mais íntimo entre nós. Eu, você e o resto da espécie.

Esta intimidade nos foi forçada por uma teoria sem qualquer fundamento que levou milhares de seres humanos a construírem bunkers de verdade pelo mundo (o que gerou até programas de TV, como “Doomsday Preppers“, no canal da National Geographic, e o “Doomsday Bunkers“, no Discovery) e estocarem comida e outros víveres e comprarem máscaras de gás e se prepararem para o pior fim que já se imaginou para o mundo. O pior porque seria um fim cravejado de imagens cinematográficas vultuosas de grandes filmes inspirados por teorias similares. E a nossa mente é suscetível demais a esse tipo de coisa.

Fora dos bunkers dos loucos, entre as baias do escritório onde você trabalha e links de piadas do Reddit, por mais que cada gracinha feita sobre o assunto dissolva o medo em riso, hoje é o dia em que o medo – tratado a sério ou não – nos uniu em uma espécie de intimidade terrena.

Íntima, então, de tanta gente, de vocês, achei que devia compartilhar a minha lista de vontades e pendências. E convocar vocês a escreverem a sua. Ou ao menos pensarem bastante nela, e considerar a execução das vontades possíveis, essencialmente das que não fizerem mal ao outro, que só tragam a você o bem-estar de se sentir livre. Façam. Porque nunca se sabe o dia de amanhã.

Aqui está a minha lista.

1. Chegar em Minas Gerais a tempo de me despedir do meu tio antes que ele desapareça em uma enfermaria de hospital público lotada.

2. Comer o Ryan Goslin.

3. Contar a verdade sobre o dia em que cruzei com – de que posso chama-lo, se não somos mais nada um para o outro? – na calçada: eu te vi, mas não rolou pra mim. Em compensação, depois de mais de um ano sem fumar, entrei em uma banca de jornais e comprei um isqueiro branco e um maço de cigarros, e fumei o maço inteiro. Mas não houve compensação. Apenas tosse e fumaça.

4. Comer a Christina Hendricks.

5. Comer sem receio de engordar (e vocês deviam fazer o mesmo) porque nada do que promete a maciça propaganda de barriga negativa que assola o mundo vale o melhor vinho e o melhor chocolate excitando papilas gustativas.

6. Finalmente abrir a pasta “Ajuda” que reside há meses na minha barra de bookmarks e doar livros, roupas e o que mais eu puder pras instituições que eu escolhi.

7. Do it my way.

8. Tentar juntar a minha família, que vive espalhada pelos quatro cantos do Brasil e do mundo, pelo menos uma vez, um jantar, um café, um lanche, eles escolhem. Uma vez só. Depois eles estão livres para serem ciganos de novo.

9. Ir à praia pelo menos três vezes por semana.

10. Agradecer.

Sintam-se livres pra colar a lista de cada um de vocês no espaço reservado aos comentários abaixo do texto. Melhor uso do tempo do que tomar um porre achando que o mundo vai acabar mesmo e acordar com a cara no vaso, e todo mundo vivão pra te zoar.

Tenho quase certeza de que, depois do apocalipse frustrado, a sua (a nossa) noção de proximidade, de intimidade, de capacidade de se sentir parte de um todo que já enfrentou vários fins do mundo em guerras, bombardeios e chacinas vai desaparecer novamente e fará com que vocês apaguem seus posts de lista dos comentários.

Mas guardem uma cópia da lista, se ela for sincera, pra vocês. Essas coisas são as coisas que importam e vocês não deviam se esquecer delas enquanto vivem. Porque depois de morto, já era.

Uma mente milionária

POR CECILIA GIANNETTI

Sou o primeiro na sala. O primeiro a chegar, antes do café e da água e do pão de queijo, eu sou O Primeiro. “Eu tenho uma mente milionária. Eu tenho uma mente milionária. Eu tenho uma mente milionária.” T. Harv Eker, melhor presente de amigo oculto do mundo, MELHOR, porque o meu chefe – e não por acaso, mas por efeito da inevitável lei positiva que desde sempre rege a minha vida, foi o meu chefe quem me tirou no amigo oculto – conhece o meu potencial e ele sabe que “Os segredos da mente milionária”, de T. Harv Eker, é o MEU livro, é o livro que vai me ajudar a reunir todo o potencial que ele enxerga em mim e coloca-lo em funcionamento feito um trator sem freios dentro desta – não posso usar uma palavra ruim (um palavrão por exemplo) junto com o nome da firma. O palavrão associado ao nome da firma anularia as energias positivas que eu estava enviando ao universo enquanto elencava em apenas uma frase (brilhante, nada menos do que isso, porque “Eu tenho uma mente milionária”) as palavras que formam o código do meu sucesso futuro. Futuro não. Presente. Começa hoje, começa AGORA. “Eu tenho uma mente milionária”.

Agora entra a Rosa com a água e o café. Os pães de queijo vêm por último. Eu acho que o nome dela é Rosa. A política da firma é não utilizarmos crachás pendurados no pescoço todo o tempo. É uma “política humana“. Para fazer com que todos sejam obrigados a aprender os nomes de seus colegas de trabalho, desde o mais baixo ao mais alto escalão. Não funciona, nunca vai funcionar. É a primeira coisa que eu vou mudar aqui dentro quando eu for o chefe e isso não vai demorar a acontecer, a não ser que o mundo acabe mesmo amanhã, mas pensar nesta hipótese seria como poluir o pensamento mais importante que eu devo manter em loop na minha cabeça, que é o FATO de que “Eu tenho uma mente milionária.”

Os pães de queijo vêm depois, com a Rosa. Ou Maria. Ou… Juna? Não, gente que recebe menos do que eu nunca receberia dos pais, certamente duas pessoas abaixo da minha faixa salarial, o nome de Juna. Oona? Nem f*******. Kheyla. Sheyla. Kelly. Karma. “Eu tenho uma mente milionária.”

E no ano passado no amigo oculto eu recebi aquele “Como fazer alguém se apaixonar por você em até 90 minutos.” Ela queria dar pra mim, quando ela me abraçou eu senti a pressão dela contra o meu peito, sabe quando você sente até qual o número do sutian que a mulher veste quando ela te abraça? Mas ela tem 38 anos anos, seria como comprar um Gol 1995 podendo gastar com um puta porsche. Ainda mais com as dicas que vêm no livro. Incrível. Esse autor deve ser cheio de mulher, Nicholas Boothman. Mas eu não li esse todo, minhas prioridades são outras, mulher depois, primeiro eu me concentro em T. Harv Eker e na realidade inexorável de que “Eu tenho uma mente milionária.”

O chefe entra agora e se senta à cabeceira e se serve de um copo de café. Um copo mesmo, o de água, ele usa para o café, ele enche até passar um pouco da metade. De um copo! De água! Cara… É como se o chefe me dissesse: este é o TAMANHO da minha potência, a quantidade de combustível que eu preciso consumir é muito maior do que a sua. O nome disso é “pau na mesa”. Ele botou o dele. Eu vou botar o meu. É uma demonstração de poder. Eu sorrio, eu penso “Eu tenho uma mente milionária”, eu penso “Você cometeu um erro estratégico absurdo no último amigo oculto, chefe, quando me deu aquele livro.”

Hoje eu vou dar meu pitaco, é o meu dia, minha hora chegou. Os outros vão entrando, todos os cinco. Displicentes, não interrompem a conversa que trazem do corredor à presença do chefe. Marcelo nem pra tirar os headphones. Só param depois de uns três segundos de resquícios desse bla bla bla que não interessa a mim e nem ao big boss mas os mantêm, parece, “unidos” – é como seu humilde slogan, cochichado, em que se reconhecem como uma oposição ao fato de serem os empregados e não o chefe. Eles são a esquerda da firma quando deveriam ser um time. É um nojo. Eles não têm uma mente milionária. Geram energias que vão contra o seu crescimento. Babacas. Ops. Desculpe, universo, isso não foi bacana da minha parte, não condiz com a minha natureza superior, eles são ótimos. Mas só “Eu tenho uma mente milionária”.

Todos se servem de água e café. Kheyla Karma Sheyla traz a cesta com o pão de queijo quentinho e duro. As engrenagens da minha apresentação já estão prontas para serem acionadas desde as 6h38 da manhã nesta sala de reuniões. Agora são 7h15. E agora eu vou mostrar pra eles.

E eu mostro. O que eu mostro no telão é uma garrafa de cerveja com o formato do corpo de uma mulher.

É o meu momento. O chefe larga o café e olha para a tela. Os displicentes mastigam nacos de pão de queijo feito vacas pastando: são capazes de perceber que a ideia é impactante mas incapazes de reagir. Nenhum deles tem a menor chance depois da minha ideia. A ideia da garrafa de cerveja com o formato do corpo de vagab…, digo, universo, me desculpa por mais esta, eu queria dizer mulher. “Eu tenho uma mente milionária.”

De acordo com publicitários, esta é uma garrafa de cerveja “obesa” e com “pouco peito”

O chefe tece as suas considerações. Elogiosas, escapando entre o seu sorriso. Um sorriso! Ele está sorrindo de verdade enquanto me elogia, não é simplesmente o melhor sinal do universo, é… aprovação.

Um dos cinco quadrúpedes que pastam sobre o pão de queijo enrijecido levanta o braço antes de terminar de mastigar um naco de massa ressequida. Marcelo, agora com os headphones em torno do pescoço, fones branco e vermelho nas rodelas. Marcelo engole, espera mais um segundo, e fala. Ele FALA. Sem saca. Ele chama Kheyla Karma Sheyla, que sempre espera de costas para a sala, do lado de fora, na frente da porta fechada, caso a gente precise de mais água, mais café ou mais pão de queijo. Ela põe a cabeça por uma fresta da porta, hesitante.

– Dona Bia – ele FALA -, você bebe cerveja?

– Bebo sim, bebo a nossa marca, né? Bebo bem! – Ela RI. RI!

– Você gosta dessa garrafa que tá ali no telão, você acha que a mulherada vai gostar? Tipo, ela tem o desenho do corpo de uma mulher certinho, olha lá.

– Tem até peito, seu Marcelo! – Ela CORA.

– Tem até peito. Quanta piada que dá pra fazer com uma garrafa que tem peitos, não é? Imagina os homens passando os dedos sobre os peitos da garrafa na sua frente e das suas amigas o churrasco inteiro e fazendo a mesma piada sobre “dar uma mamadinha”? Ou no traseiro da garrafa, nos quadris, na… o que é aquilo mesmo, ali na frente, Zé Luiz? Faz mesmo parte da ideia, ô Zé?

Eu balanço a cabeça, prefiro explicar depois cada parte da anatomia da garrafa de cerveja com corpo de mulher: a frontal, a buzanfal, etc.

– Que é isso, seu Marcelo?! – Ela reprime uma risada nervosa.

– Homem faz essas coisas, não é Dona Bia? Essas piadas, é normal. Não tem pra que ficar vermelha.

– Faz mesmo, né?… ainda mais depois de tomar umas e outras.

– Obrigado. Tá dispensada, Dona Bia.

– Dá licença.

Ela fecha a porta. Ele continua a falar, com meio pão de queijo a mão.

– Pode parecer que a Dona Bia só ficou um pouco vermelhinha de pensar em como vai ser ter essa garrafa circulando por aí. Mas na verdade ela trouxe outra informação pra gente aqui, agora. Se algumas mulheres vão ficar constrangidas com as piadinhas e a bunda e os peitos da garrafa, e seja lá o que for aquela reentrância ali na frente, ô Zé Luiz, não vai demorar a aparecer uma mulher, ou uma ONG ou um grupo maluco desses feminazis que pergunte pra gente: Ei, não vão fazer uma garrafa com formato de pinto também não? Com corpo de macho? Afinal, a gente também bebe. E bebe bem. Mulher bebe cerveja, minha gente. As lésbicas bebem cerveja – aliás, acho que estas vão se juntar às feministas de sofá e vai dar polêmica – e não vão achar a mesma graça que os homens numa garrafa de cerveja com formato de corpo de mulher.

Ele terminou de falar e enfiou na boca o pedaço de pão de queijo que segurava,  àquela altura, além de duro, frio.

Preciso reler T. Harv Eker e ver onde foi que me distraí.

Ou não.

O chefe repreende o quadrúpede que pasta e passa a algumas observações.

– Para evitar as feminazis, é só tirar as “features” femininas mais óbvias. A bunda, por exemplo. Os peitões talvez sejam um problema também, vamos dar uma amenizada? A gente fica só com o formato do violão acentuado, o que vocês acham? Fala, Zé Luiz. É uma boa ideia, mas precisa dessa lapidada. Quem sabe a gente não consegue fechar com uma revista de sacanagem grande nessa?

“Eu tenho uma mente milionária”.

***

Texto a partir da notícia: “Em parceria com uma revista masculina, cervejaria carioca lança neste mês uma garrafa de cerveja no formato do corpo de uma mulher.”

E nada-nada existia antes do ano 2000

POR CECILIA GIANNETTI

Imagine ser Zoom Rockman: doze anos; esperto ao ponto de inserir em uma de suas histórias em quadrinhos os distúrbios e protestos que tomaram as ruas de diversas partes da Inglaterra no ano passado (as “BlackBerry riots”, organizadas via mídias sociais), iniciadas com a morte de Mark Duggan, um jovem de 29 anos assassinado pela polícia em Tottenham; Zoom Rockman, premiado e famoso, que não consegue “imaginar nada existindo antes do ano 2000”, como declarou ao mentor que recentemente colou na dele, Paul Gravett, que trabalha com a publicação de quadrinhos desde o longínquo, improvável ano de 1981. Para seus coleguinhas de escola, deve ser como ter por perto um Justin Bieber supermelhorado, com cérebro e criatividade, de quem podem se orgulhar e ao mesmo tempo podem invejar.

É tão exasperante pensar em Zoom Rockman que eu não sei se eu quero pari-lo ou esperar 15 anos até que ele se interesse por coroas.

Dá para sentir os velhos ilustradores e autores de histórias em quadrinhos, velhos mesmo de 17 e 18 anos, estremecendo agora que Zoom levou o Spirit of London Award da categoria (quase um Oscar da jovem comunidade de quadrinhos britânica) por suas obras, que ele mesmo escreve, desenha e publica na The Zoom!.

Anúncio desenhado por Zoom para sua HQ levantar uma graninha extra

Sua revista sai com cerca de 250 cópias a cada edição, formato A4, custeadas pelo pai do moleque, que recebe 40% sobre os lucros. Zoom também desenha os anúncios que aparecem nas páginas de The Zoom!, alguns envolvendo figuras como a Rainha e Simon Cowell. Sim, ele tem anunciantes (lojas locais), para embolsar uma graninha extra. O autor vende sua arte na escola, mas a Zoom! também é encontrada em lojas de quadrinhos em Londres, como a Gosh! por 1.99 libras. Não os primeiros números. Estes são mais caros e negociados no mercado de colecionadores.

O ilustrador Luke Pearson já havia avisado antes sobre a ameaça de 12 anos via Twitter, em termos mais do que empolgados e ao mesmo tempo auto-depreciativos, como manda o figurino no humor inglês: “Descobri o futuro dos quadrinhos. Seu nome é Zoom Rockman e nós não temos a menor chance.” Agora, o menino já foi entrevistado pela BBC, e apareceu em destaque em revistas do naipe de I-D e Dazed & Confused, enquanto acumula prêmios e divulga a sexta edição de seus quadrinhos. Em 2011, representou a Grã-Bretanha no festival Bucheon International Comics, na Coréia do Sul, e de lá voltou com o prêmio International Kids Cartoonist. Em 2012 também pôs no bolso o prêmio de Melhor História no Band Dessinée & Comics Passion Festival. 

Os personagens e as temáticas de suas histórias envolvem o que ele conhece melhor: comerciantes de sua vizinhança, seu cachorrinho yorkshire, o avô de um amigo de sua mãe, colegas de escola, um professor, e até seu irmãozinho caçula, Ace (essa família realmente sabe dar nomes aos filhos. Ace!).

No futuro, afirma Zoom sempre que lhe fazem aquela pergunta “O que você quer ser quando crescer?”, pretende dirigir filmes.

Seus pais, designers de móveis, não poderiam ter gerado uma peça mais artística do que Zoom. Estiloso na maneira de vestir, com metade dos cabelos lisos raspados do lado esquerdo da cabeça, desenha desde os 8 anos de idade e lançou a primeira edição de The Zoom! aos 9.

Tomara que Gravett, o “mentor”, ensine a Zoom, além das “coisas de quadrinhos”, a encarar tudo o sucesso precoce de cuca fresca (“cuca fresca”, uma expressão que se usava quando eu nasci – um ano quando nada existia, segundo Zoom). Mas talvez nem seja necessário. Talvez Zoom ensine Gravett e outros senhores que estão na indústria dos quadrinhos há tantos anos a não baterem os ossos diante de coisas tão assustadoramente jovens.

Medicina alternativa

POR CECILIA GIANNETTI

Era uma mudança radical de estilo de vida que começava ali, diante do Dr. Bruno, jovem acupunturista com consultório – lotado, diga-se – sito em Copacabana, próximo ao prédio onde um dia viveu o cronista e jornalista Antonio Maria. O que não vem ao caso. O caso é a minha determinação em me livrar de dores nos ombros, braços e pescoço causadas talvez pelo fato de eu não conseguir parar de teclar. Nunca. O que me forçou também a iniciar um tratamento médico para insônia que aniversaria em abril próximo: dois anos.

Não é bem um raciocínio claro o que me impele a teclar sem paradas estratégicas sequer para me espreguiçar e adiando ao máximo ir ao banheiro. É que, enquanto há um texto a ser escrito, traduzido ou corrigido, eu não consigo enxergar razão para fazer apenas um pouco hoje disto e deixar o restante para amanhã e depois. Dividir o tempo. Eu às vezes passo por cima do tempo e acho que ele é uma coisa contínua, ininterrupta – e não é? –  que não obedece ao relógio, ao digital aceso no micro ou ao biológico, e com a ajuda de sua fluidez devo continuar sempre, até que a Máquina peça realmente pra eu parar e tirar um cochilo de duas horas. A máquina sou eu. Recorde: três dias e noites seguidas sem sono (teclando). Não parece muito, mas faz um belo estrago. Uma psicanalista com quem conversei em uma festa – em festas eu não teclo, seria um desrespeito contra minha primeira natureza, ainda não dominada de todo pela Máquina, exceto pelo eventual SMS ou recado via Skype ou eBuddy – soltou a palavra workaholic junto com a fumaça do cigarro (de palha, quem confiaria nela?) e me obrigou a fazer a nota mental em vez de digita-la no celular em um email a ser enviado a mim mesma: “não buscar ajuda na psicanálise.” Ademais, é uma gente que anda de mãos dadas com a psiquiatria, o que certamente quer dizer “mais remédios” – e sem garantias.

O que eu busco no consultório do quase efebo (pra mim hoje em dia, abaixo dos 30 todos o são) Dr. Bruno é uma cura sem medicamentos para as tais dores. Um tratamento não agressivo. Ele ouviu minha história e foi logo avisando: as agulhas não vão dar conta disso sozinhas. Precisamos do seu comprometimento em ajudar com algumas mudanças em sua rotina. Para começar, dormir, é claro. Ok, estamos trabalhando nosso. (Estranho, ele considerou: até para falar em sono você usa o verbo “trabalhar”. Ignorei a cutucada.) E então, ele informou, eu precisaria nivelar a tela do computador à minha cabeça ereta, ou seja, meu laptop teria que subir em cima de alguns livros grossos até alcançar a linha dos meus olhos. Assim, eu não ficaria com o pescoço dobrado para baixo. Boa ideia, Dr. Bruno. Mas é um laptop. O teclado vai subir junto com a tela e eu vou ter que teclar com os braços no ar, feito uma pianista presepeira. Isso não me parece a postura que vai salvar seus membros da dor.

Dr. Bruno é jovem, mas é sagaz, e ele disse logo, me olhando através daqueles oclinhos de aros finos fora de moda desde que eu usei oclinhos de aros finos na quinta série, mas segurando firme meu olhar: você não vai utilizar (e neste momento eu agradeci silenciosamente, como numa curta prece, que ele não tivesse dito: “você não vai estar usando…” porque eu começava a simpatizar com seu estilo nerd curandeiro-oriental) o teclado do seu laptop. Você vai utilizar um teclado USB que você vai comprar por uns 30 reais. Você pluga esse teclado no seu laptop e ele fica na altura certa para as suas mãos, enquanto os seus olhos ficarão na altura certa da tela. É ou não é um gênio? Aposto que teria curado o alcoolismo de Antonio Maria, se este tivesse vivido o suficiente para ver o consultório do Dr. Bruno erguer-se bem ali, diante daquela praça.

Então ele parou e encarou os meus peitos, ou assim pareceu. Ele franziu os olhinhos e perguntou se eu era alérgica a alguma coisa, e eu respondi que não, o que é verdade, você pode até me dar césio 137 para usar como blush e nada acontece. Mas ele continuava olhando pro espaço entre os dois pedaços de pano do meu vestido aberto no peito. Ele disse, Tem uma mancha enorme vermelha no meio do seu peito.

Aquilo não me era estranho. A mancha vermelha. Toquei-a, ele a tocou: quente. Mas era a minha mancha, a mancha ia e vinha, nos momentos mais inesperados. Um rubor. Às vezes ela sobe até o pescoço e eu sempre pensei que isso é uma coisa de gente branca demais, que pega fogo por dentro e sente alguma culpa quando ouve o Public Enemy novo (vocês sabem, e devem concordar que procede a queixa, permanece em 2012 a preocupação do grupo nas letras a respeito de a maioria de seus heróis não estarem em selos postais dos correios norte-americanos, não à toa um problema denunciado em “Faça a Coisa Certa”, do Spike Lee, com o que concordo, um dos meus top filmes de todos os tempos, embora olhando assim pra mim você não seja capaz de dizer, “Mas as pessoas são tão preconceituosas, Mother Sister…”)

Mas não. Não era bem aquilo. Dr. Bruno disse que parecia uma espécie de “acúmulo”. Quente e vermelho. É fato, eu tenho uma espécie de acúmulo de que eu preciso me livrar – começando a correr e me exercitar mais assim que o Dr. me curar dessas dores. Eu ri. Ele não riu de volta. Ele disse, parecendo um passarinho de óculos, tão magrinho e tranquilo: você tem uma espécie de arquivo de “sapos engolidos”, e ele se manifesta nessa mancha. Você precisa bater em alguma coisa. Experimente travesseiros. Eu já fiz kickboxing, respondi. Você ainda faz?, ele retrucou. Claro que não. Sou uma vetusta senhora da sociedade carioca. Bata em travesseiros, ele ordenou, com força; e essas manchas e o calor em torno delas vão parar de aparecer.

Tudo soa muito místico e intrigante naquele consultório, nem parece coisa que o plano de saúde cobre. Mas não tem incenso não.

Daí Dr. Bruno me mandou deitar de costas na mesinha dele e começou a me espetar um monte de agulhas, o que eu achei espetacular. Tinha uma bem no meio da minha testa. Adorei aquela e as dos pés.

Depois da sessão com o Dr. Bruno, na primeira oportunidade entrei em uma loja de eletrônicos e comprei um teclado usb. Isso foi ontem, pra ser mais específica. Mais de uma semana depois do meu primeiro encontro com a acupuntura, porque, nesse meio tempo, eu precisei me afastar do tratamento alternativo temporariamente por conta de uma pequena cirurgia, nada com que se preocupar, leitor. É a quarta cirurgia pela qual eu passo na minha vida (não, elas ainda não são para esticar pés-de-galinha). Uma vez foi o tornozelo, 3 pinos e duas placas no direito, mas sou capaz de caminhar feito uma miss. A sorte. Por aí você tira. Andar de moto sem capacete, usar saltos mais altos do que os pés da mesa do restaurante, etc, estupidezes da juventude. Mas eu sobrevivi novamente agora. E, com ou sem pontos a mes costurar, tenho uma coluna (de texto) diária. Colunas (de texto) diárias não têm nada a ver com anestesia geral. Uma vez acordada – e eu tenho insônia, avisei-, vamos escrever. As recomendações médicas eram não mover demais os membros para não soltar os pontos. Então teclar com apenas os dedos, sem reger uma orquestra com os braços, me pareceu ok. Liberado.

Decidi testar o teclado usb, a sugestão do Dr. Bruno. Antes, coloquei meu Mac em cima dos dois volumes de crônicas reunidas do Lima Barreto, que não deve ter ficado muito satisfeito com o arranjo, e aí pluguei o cabo usb do teclado no Mac como se não houvesse amanhã. Num segundo percebi que a acentuação estava ferrada. Apertava o “risquinho” e o a e não dava á. A cedilha não estava aonde deveria estar. Tudo fora do lugar. E eu precisava escrever a coluna, enquanto sentia a placa vermelha e quente no meio do peito.

Segurando meu corpo o máximo que podia para não arrebentar os pontos, já deixando de lado uma fútil preocupação com quelóides, eu revi cada opção ofertada pelos “Leiautes de Teclado”: eu sabia que a escolha correta era EUA Internacional. Cliquei nela. Nada. Acentuação errada ainda. Resetei o Mac. O teclado preto usb aguardava o desfecho como um inocente, mas eu sabia que tinha sido ele. Culpa dele. Tentei novamente. Nada de acentuação. Experimentei três “leiautes” norte-americanos, um brasileiro e até o britânico. Ninguém devolvia a acentuação ao laptop. Liguei para a assistência técnica de computador que eu já utilizara antes no Largo do Machado: os caras me zoaram. “Você só precisa marcar o teclado EUA Internacional, rs”. Como já tinha feito aquilo à exaustão, o jeito foi me vestir com o único invólucro no qual eu posso me enrolar e que não é uma camisola (um “penhoir”, ainda se diz isso?”) sem romper os pontos e pegar um táxi até lá com o computador para esfregar aquela anomalia digital na cara deles.

Uma vez na loja, uma toca num desses prédios velhos do bairro, entreguei o computador e esperei o veredito. O mesmo cara que me zoou no telefone não conseguia fazer o EUA Internacional funcionar. Nem nenhuma outra opção sem desenhos incompreensíveis. Tentamos até Farsi. Eu teria rido dele se não estivesse ali toda ferrada de PENHOIR. Mas não foi tudo. Consulta: R$ 100,00. O quê? Consulta: R$ 100,00. CEM PILA. Paguei. Ia fazer o quê? Ir à delegacia de penhoir também?

De volta em casa com o computador, primeira coisa que me passou pela cabeça foi ligar pra Natália. Mora perto da minha casa, entende tudo dessa coisas toda, não tem emprego, acho que é uma hipster rica (ela anda meio rasgada, meio cintilante e com botas), nunca soube como ela tira seu sustento, talvez computadores mesmo, quem sabe… não o meu, ela nunca me cobrou, não me interessa, aliás, é das poucas pessoas que poderiam me ver de penhoir e movimentos caducos de pós-hospitalizada e não comentar, talvez sequer se dar conta de que havia algo diferente. Ela veio. Claro. Ela veio com seis cervejas e um cigarro. Antes que eu percebesse, a vida natureba que imaginei ao bater na porta do Dr. Bruno já dava sinais de incômodo com a invasão da barbárie. Natália tirou as botas de solas gastas nas noites da Comuna e do asfalto sagrado da Praça São Salvador e rapidamente encheu o ar de Breakbot e fumaça, me garantindo que a cerveja não tinha a menor chance de interferir  na atuação dos antibióticos no meu organismo. Consertou o computador em dois tempos, nem perguntei como. O bicho fala a minha língua de novo. Essa juventude é uma coisa fascinante.

Agora, na semana que vem, quando eu voltar no Dr. Bruno, é bom ele ter um travesseiro bem firme a minha espera.

“De onde vêm os gays?”

POR CECILIA GIANNETTI

Antes de mergulhar no texto, avaliemos: o tema é freguês da coluna por eu prestar atenção demais nele, ou porque a frequência do debate em torno dele, pelaí, só faz crescer? Este será nosso Tostines.

O encaixe perfeito entre o preconceito e a ciência nem sempre é fácil de se enxergar, ou fácil de se apontar. É arriscado ainda imaginar o que uma proposta científica poderá acarretar em termos sociais. Porque a ciência nos levou a avanços que já experimentamos e concluímos que são tão maravilhosos quanto imaginamos que podem ser os verdadeiros milagres. Quem levanta o dedo contra a ciência pode esperar que muitos outros dedos sejam apontados contra si. Apesar de que não desejar uma dedada proto-científica, levantarei aqui o meu.

Dito e pesado tudo isto, algo incomoda na ampla divulgação de um modelo de pesquisa – não comprovado como fato – publicado na última semana pelo Instituto Nacional de Síntese Matemática e Biológica da Universidade da Califórnia, EUA, originalmente na Quarterly Review of Biology, e que afirma que a homossexualidade tem fundamento em um conjunto de  fatores epigenéticos.

Por alguns anos o motivo apontado eram fatores genéticos: então a homossexualidade simplesmente corria na família, de geração a geração. Mas o tal “gene gay” jamais foi encontrado pelos cientistas, permanecendo o mistério entre aqueles que aguardam uma grande revelação sobre o assunto.

Já tiveram a oportunidade de conhecer pais que não aceitam seus filhos homossexuais? Tendem a fazer da busca do motivo para a homossexualidade de seus filhos – às vezes apenas uma suspeita desde a infância se transforma neles em agonia por anos a fio – uma extensão de sua relutância em aceitá-los, como se com a “razão” surgisse a possibilidade da centelha para a descoberta da muito discutida “cura” (ver: Decreto de asno: A “cura gay”).

Como se houvesse um caminho malicioso através do qual a homossexualidade possa ter tomado o corpo de seus filhos feito um demônio.

A notícia do estudo da Universidade da Califórnia se espalhou rapidamente, poucas vezes com o devido destaque ao fato de que o estudo não apresenta provas concretas acerca daquilo que clama. A mídia internacional – mesmo a não especializada, de tabloides e sites a revistas – saltou sobre o estudo da mesma maneira que os tais pais relutantes o fariam, sua manifestação de alarde como um sintoma da curiosidade estrepitosa em torno do motivo.

A epigenética estuda como alterações de DNA determinam que os genes se expressem ou não. A expressão genética é regulada por “interruptores temporários”, chamados de epi-marcas. As epi-marcas seriam como uma camada extra de informação ligada à estrutura de nossos genes e que determina o seu efeito sobre o nosso desenvolvimento. Todas as instruções estão nos genes, mas são as epi-marcas que comandam o show e ditam como tais instruções irão ocorrer.

O que o modelo proposto pelo estudo aponta é que epi-marcas sexualmente opostas seriam responsáveis pela “orientação sexual” dos indivíduos:

1. O caso de o pai transmitir suas marcas responsáveis por faze-lo mais sensível à testosterona à filha.

2. O caso de a mãe transmitir ao filho suas marcas de menor sensibilidade à testosterona, fazendo-o igualmente menos sensível ao hormônio.

Tanto babado e confusão em torno de um modelo científico que aguarda comprovação, focado em algo que desavisados ainda hoje pretendem curar como se fosse uma doença, acaba por se aproximar mais de uma caça às bruxas do que uma busca científica por avanços verdadeiramente proveitosos.

Parece que esquecemos da Escala Kinsey. E de que somos talvez a única espécie que faz sexo por prazer, sem visar apenas à procriação, o que por si só já garante à homossexualidade um terreno muito mais complexo do que o da epigenética.

E, apesar de toda a incerteza, o grito de “eureka” se fez ensurdecedor. O porquê disto, sim, daria um estudo interessante.

Rio-surpresinha

POR CECILIA GIANNETTI

Amigo gaúcho que vem passar férias no Rio no começo do próximo ano – caso o fim do mundo não etc e tal, chega disso – anda animado com o roteiro que mal comecei a traçar para ele. Por enquanto, fora do guia turístico básico Pão-de-Açúcar/Mirante/Jardim Botânico, minha ideia é faze-lo caminhar desde a trinca Catete, (O Largo do Machado se funde ao Catete) Flamengo e Botafogo, passando aí por Copacabana (as ruas de dentro principais, Barata Ribeiro e Avenida Nossa Senhora de Copacabana), por Ipanema e até o Leblon (igualmente por dentro).

Ele exige que sejam feitas paradas em pontos específicos onde se trafique abertamente os melhores chopes entre um quilômetro e outro. Tudo bem, eu digo.

O importante é ele ir notando pelo caminho as diferenças. E na volta (“Volta?! Você quer dizer, no mesmo dia?” Não, pode ser no dia seguinte) vem-se pela orla, fazendo questão aí de reparar também como a praia no Leblon pode ser diferente da praia em Copacabana, hábitos, divisões de faixas de areia e postos, gentes, preços e tipos de produtos ofertados aos turistas. Um exemplo é o Posto 9, que só existe um e só existe em Ipanema, bem como a faixa de areia da Farme de Amoedo, garantida a galera LGBT e simpatizantes. Outro exemplo: na Praia do Flamengo quase zero turistas branquelos, maioria moradores do Catete, Flamengo, e das comunidades do seu entorno. Ali a água tem seus dias bons e seus dias realmente marrons. Bem diferente do Posto 9. Não, não farei o sujeito caminhar até a Barra da Tijuca para ver uma réplica da Estátua da Liberdade.

Mas o que ele precisa mesmo conhecer (aka saber com antecedência a respeito) é o Rio que pode ser incidental até mesmo para os seus filhos natos ou adotados, o Rio-Surpresinha. Em partes:

1. Explosões de bueiros

Nada mais surpreendente para o transeunte e motoristas do que esta modalidade de surpresinha. O incidente mais recente se deu em Copa, bem perto de um de seus mais majestosos e conhecidos hotéis, o Copacabana Palace, e derrubou um motociclista que passava por ali. E só não se feriu porque calhou de cair para o lado direito, se caísse para o lado esquerdo, virava churrasquinho, feito sua moto. Quando um bueiro explode, sua tampa é arremessada longe, podendo ainda machucar qualquer velhinha que caminhe muito lentamente puxada por seu já trêmulo chihuahua.

Bueiro que explodiu táxi em Copacabana, em 2011, abriu uma cratera de mais de seis metros de diâmetro

2. Piscina de esgoto

Ruas do Centro, Glória, Catete, Largo do Machado, Flamengo e Botafogo que, sempre que chove forte ou mais-ou-menos, alagam em coisa de 20 minutos de carga d’água. Não é justo dizer que há nela apenas esgoto. Há também ratos e baratas boiando (não tenho certeza se os ratos tentam nadar, mas é um belo detalhe da fauna a se prestar atenção na próxima vez em que eu estiver presa em uma piscina de esgoto).

Em outubro, logo após a reeleição de Eduardo Paes – que coincidência – fiz a minha mais recente natação numa dessas, tentando atravessar do Largo do Machado até a Praia do Flamengo com água até as coxas. Água não. Já explicamos do que se trata. E quando um carro ou caminhão consegue passar pela rua inundada, de piscina ela vira mar – revolto – com direito a ondas que então te molham até os peitos, a cara. Sem limites.

Ah, aconteceu certa vez também na Gávea. Vale lembrar do surfista da área, que aproveitou o embalo das ondas de cocô.

Surf na bosta, Gávea

3. Roubo-Bike

Pode soar como apelido carinhoso da bicicleta motorizada, que também é moda aqui, algo como “robô-bike”, mas é “roubo” mesmo. Alguém grita (voz de fuinha): mas não é só no Rio! Não, não é. Mas o Rio é MAIS. Um bicho desses não se cria, por exemplo, no trânsito de São Paulo.

É assim: o sujeito montado na magrela pedala na rua, junto ao acostamento, e percebe você nesta calçada não muito movimentada em Laranjeiras, por exemplo, ou, que se dane, por que não?, (afinal, não há policiamento), em uma calçada movimentada mesmo, e simplesmente ordena que você lhe passe bem rápido celular, bolsa, tudo que tiver em mãos ou ele a) atira b) te fura – e então leva seus pertences pedalando. Ninguém na calçada tentará impedir (hoje sabemos que não devemos reagir), os transeuntes fazem apenas figuração no momento do crime.

Outra modalidade do mesmo Roubo-Bike: o sujeito percebe você meio relax demais caminhando no calçadão (Copa, Ipanema, Lagoa et al) com o seu smartphone na mão, tirando fotinhos do pôr-do-sol para passa-las pelos filtros do Instagram ou falando com um bróder sobre como hoje tá calor. O sujeito dá um certo arranque nas pedaladas e, ao passar rente a você, voando, arranca-lhe da mão o celular. Um desses, vestindo justamente a camisa do meu time, o Flamengo, me levou um iPhone assim no ano passado, no calçadão de Copacabana. Corria mais do que o Adriano Imperador.

Aliás, conheça o mapa do circuito alternativo anti-assalto (?) aqui. Quem bota fé?

4. Ambulante humorista

O velho esquema de fingir que atira na direção de quem passa um copo falso de chope, como se fosse encharca-lo com a bebida, enquanto você de supetão dá um pulo para trás e causa um pequeno engavetamento na calçada estreita por onde anda, este truque não desapareceu. Mas é humor físico. O ambulante humorista é provavelmente a inspiração de Rafinha Bastos, sua escola e seu exemplo. Ele fala, ele gralha. “Olha a rosca. Quem vai querer a minha rosca? Coma a minha rosca. Minha rosca está quentinha…” E por aí vai. Isso é repetido uma centena de vezes em cada parada, por cada bairro por onde passa.

O pequeno piauiense, autor dos slogans da rosca, vende… roscas. Gordurosas, agigantadas. E é muito popular entre o Centro e o Flamengo. Repete seu jargão com potente voz que dispensa qualquer aparato de amplificação, há mais de três anos, em torno das 16h e 18h, dependendo do bairro onde você se encontrar. Causa com seu grito primeiro um sobressalto em quem passa perto dele, depois um risinho amarelo. Ou uma gargalhada, em fãs de Rafinha Bastos.

5. Mi casa, su casa 

Não é propaganda de couch surfing. O pessoal do BOPE costuma “entrar para a família” de quem habita o que o Estado denomina como “Posição Estratégica” em uma comunidade. Como ocorreu em casa da Vila Cruzeiro, Complexo do Alemão, que os caveiras ocuparam por oito meses. Sem qualquer cerimônia ou aviso prévio aos seus residentes. Que no início ainda permaneceram no imóvel (imaginando, talvez, que a situação logo se resolveria a favor deles, proprietários de direito). A família foi obrigada a debandar quando os caveiras danificaram o toilette da casa e passaram a manter ligada a televisão no volume máximo (sério, não estou de piada) diariamente, o dia inteiro.

Esta semana a família que teve sua casa tomada pelo BOPE venceu por decisão do Tribunal de Justiça o direito de receber R$ 150 mil do Estado do Rio para compensar os desmandos sofridos.

art. 5.º, X, da Constituição da República: “São invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação”.

Mas e as famílias de outras casas invadidas da mesma maneira pelos oficiais, que por medo de retaliação ficam pianinhas, não reclamam, não denunciam?

6. Gerenciamento à distância 

Qual não foi a surpresinha da Polícia Civil fluminense, em ação conjunta com a da Bahia, ao encontrar laptops (!) e celulares (!) no luxuoso apartamento ocupado pelo bandido Irmão Metralha, 39 anos, no bairro Pituba, na Bahia? Com tais aparelhos, Metralha controlava a distância o tráfico de drogas em cinco comunidades no Rio de Janeiro.

“Com o material eletrônico apreendido, vamos começar a checar a estruturação do tráfico,” informou aos jornais a delegada responsável, Valéria de Aragão.

É meischmo? Vão COMEÇAR?

Com celulares bombando mensagens de dentro de todos os nossos presídios com ordens dos traficantes encarcerados para seus funcionários em liberdade lá fora, e até mesmo páginas pessoais (fofura) de Facebook atualizadas direto do xilindró pelos presidiários, o fato de que El metralha comandava da Bahia seu império no Rio é apenas indício de uma prática bastante disseminada e não combatida de todo.

Página de Nem da Rocinha (preso) no Facebook: atualizada por trás das barras. Vai add?

Todo mundo sabe que isso ocorre, amplamente. O que falta para que outros “controles-remoto” sejam investigados e interrompidos?

7. Defeito no ar-condicionado 

Não qualquer um. Não o da sua casa, que, pagando um quantia a um técnico, você o tem de volta funcionando direitinho. Mas o do metrô carioca. Coincidentemente quando as temperaturas na cidade passam de 38 graus. Surpresa!

8. Baratas nos ônibus

Sejam elas francesinhas ou cascudas, estas passageiras vêm sempre somar. Especialmente à noite, dão um alô ao passageiro que olha pela janela recostado na lateral do ônibus, passando por ali, do ladinho do seu rosto, sem muita cerimônia. Surpresa!

9. Pedinte/Agredinte

“Pode ajudar, senhor-senhora?… Não? Então vai se f*** seu F*** de uma P**** (…)”. O até então humilde pedinte, agora transbordando ódio, deixa o local ainda xingando e pode-se ouvi-lo continuar até que pare noutra janela ou mesa de bar, já recomposto do ataque de fúria, novamente pedindo.

10. Surpresinha hoteleira

Amiga desta coluna esteve no Rio de Janeiro a trabalho há coisa de 15 dias e, ao chegar a seu hotel favorito, foi informada pela recepcionista de que seu quarto sofria um vazamento que não podia ser então contido e, lotado, o hotel a enviaria a um outro que podia hospeda-la, pagando pelo incoveniente com a corrida de táxi coberta.

Chegando ao hotel ao qual foi destinada pelo anterior, notou estranhezas: “hóspedes” meio que se esgueirando pelos cantos. Um tapume de madeira cobria parte do balcão da recepção. Em seu quarto, deparou-se com uma incrível cama redonda e espelhos no teto. Fora enviada a um motel de quinta categoria.

Não à toa cresce o mercado para hostels na cidade (somente em minha rua há três deles, além de três hoteis. Os hostels vivem lotados. Os hoteis necessitam de reformas urgentes.)

Aí chega o Ambulante humorista e pergunta: “Imagina na Copa?”

SINATRA, 12.12.1915

“Sinatra has a cold” – por Gay Talese. Como melhor conhecê-lo.

Para escrever “Sinatra Has a Cold”, Talese aproveitou o profundo interesse que mantinha sobre sua própria veia ítalo-americana. O texto sobre Sinatra, outro ítalo-americano, tornou-se um marco do estilo literário aplicado ao jornalismo cultural. Nascido em 7 de Fevereiro de 1932 em uma família de origem italiana, o autor encontrou na descendência um ponto em comum entre sua própria biografia e a de cantor. O meticuloso processo de aproximação do tema Sinatra figura em sua bibliografia (que contém ainda livros sobre a Máfia italiana, tendo sido ele o primeiro escritor a investigar o submundo dos mafiosos de dentro com “Honor Thy Father”) como um dos primeiros trabalhos em que Talese beneficiou-se desse ponto em comum, garantindo ao autor explicar a dimensão que definiu como “siciliana” no cantor, além de obter simpatia e acesso por causa de suas origens. A reportagem é uma de suas “respostas” de ítalo-americano ao mundo, além de constituir um exemplo irretocável de como o Jornalismo Literário pode ser usado em jornalismo cultural. O método empregado por Talese nesta reportagem tem seu alicerce em um tripé fundamental para o jornalista literário, englobando algumas das “regras” sugeridas por Mark Kramer, e pode ser assim exemplificado, de acordo com a leitura de “Sinatra Has a Cold”:

I – Contextualizando Sinatra

Talese abre o texto explicando que o cantor, que esteve calado por horas, está prestes a dizer algo.

Frank Sinatra, segurando um copo de bourbon em uma das mãos e um cigarro na outra, está parado em um canto escuro do bar entre duas loiras atraentes embora desbotadas que se sentaram esperando que ele dissesse alguma coisa. Mas ele não disse nada; ele se manteve em silêncio durante a maior parte da noite, exceto agora neste clube privado em Beverly Hills; ele parecia ainda mais distante, olhando através da fumaça na semi-escuridão para um salão atrás do bar onde dúzias de jovens casais acotovelam-se à volta de pequenas mesinhas ou se sacodem no centro da pista ao alarido metálico da música folk-rock que sai do estéreo. As duas loiras sabiam, assim como os quatro amigos de Sinatra que estavam por perto, que era uma má idéia forçar uma conversa quando ele estava neste clima de silêncio taciturno, um ânimo dificilmente incomum durante a primeira semana de Novembro, um mês antes de seu 50º aniversário.”1

A reportagem, aberta com Sinatra em silêncio em uma boate, ganha uma digressão na qual Talese mantém em suspense a seqüência desta cena específica. Ele não relata imediatamente as ações dos personagens a quem fez referência no parágrafo de abertura. Ao invés de entregar respostas às questões “o quê”, “por quê”, “como”, “onde” e “quando” sobre o lugar e as pessoas descritos no primeiro parágrafo, informações que, de outra forma, poderima ter sido logo fornecidas em um lead mais convencional sobre o cantor, Talese oferece um panorama geral do que Sinatra estava vivendo em sua carreira e sua vida pessoal, remontando a eventos ocorridos dez anos antes e a outros nem tão distantes, como a superexposição de seu relacionamento com a atriz Mia Farrow (então com 20 anos de idade) na mídia; a invasão de sua privacidade por uma equipe da rede de TV CBS, por conta da gravação de um documentário sobre sua vida em que chegava inclusive a especular sobre suas ligações com membros da máfia italiana; a preocupação do cantor em relação ao especial que gravaria para a NBC: resfriado, Sinatra era, nas palavras de Talese, “Picasso sem tinta, Ferrari sem combustível”, uma vez que um simples resfriado podia lhe roubar “sua jóia”, sua voz, “cortando o âmago de sua confiança, e afetando não só sua própria consciência mas também causando um tipo de corrimento nasal psicossomático entre dúzias de pessoas que trabalham para ele, bebem com ele, o amam, dependem dele para seu próprio bem-estar e estabilidade.” Um resfriado em Sinatra teria o poder de “enviar vibrações por toda a indústria do entretenimento e para além dela assim como o Presidente dos Estados Unidos, adoecido de repente, pode sacudir a economia nacional”. Este é o gancho para que Talese nos guie até outro bar, em Nova Iorque, o Jilly´s, onde o cantor possuía uma mesa cativa, a qual não podia ser ocupada por mais ninguém, mesmo quando Sinatra não estava na cidade. Aqui será delineado um dos lados do perfil de Sinatra que Talese define como “Il Padrone”, o chefe, “majestoso e humilde” ao mesmo tempo; um tipo siciliano para quem meias verdades e meias decisões não são suficientes. Ele quer tudo “all the way”, até o fim. Exige 100% de fidelidade de seus amigos, a quem oferece em troca proteção, amizade, presentes, TUDO de Sinatra. Todos que conhecem Sinatra e estão em Nova Iorque vão até sua mesa no Jilly´s para “prestar seu respeito ao padrinho”. O outro lado da personalidade de Sinatra surge quando está com gente do showbusiness como Lisa Minelli e Sammy Davis Jr., fazendo piadas e bebendo: é o “Swinger”, um boa-vida engraçado e charmoso. Ambos os tipos são anacrônicos.

Só após esta digressão o leitor fica sabendo o que realmente acontece naquele cenário instaurado por Talese no primeiro parágrafo. Sinatra reaparece no bar de Los Angeles, agora contextualizado pelo recuo no tempo oferecido por Talese. O comportamento de Sinatra e seus amigos na boate agora faz sentido no contexto “O Chefe/O Boa Vida” apresentado pelo autor. A cena é retomada de onde parou:

Agora Sinatra disse algumas palavras às loiras. Então, virou-se e começou a caminhar em direção à sala de sinuca. Um dos amigos de Sinatra aproximou-se para fazer companhia às garotas. Brad Dexter, que tinha ficado em um canto falando com outras pessoas, seguiu atrás de Sinatra.2

Segundo Mark Kramer afirma em suas “Regras Nada Rígidas Para Jornalistas Literários”, o autor precisa se basear em uma estrutura de “contador-de-estória”, construindo digressões que sugiram um destino que valha a pena ser atingido. Digressões que não abandonam seu tema mas o ampliam prendem o interesse do leitor. E é precisamente para ampliar a dimensão de Sinatra aos olhos do leitor que Talese digressiona.

II – Endossando a contextualização

A observação do comportamento das pessoas ao redor do cantor e da fala de seus amigos oferece detalhes consistentes e é o que endossa as definições do autor sobre a personalidade de Frank Sinatra. Aqui, Talese demonstra credibilidade, ganhando a confiança do leitor apresentando diálogos e cenas que só uma observação muito próxima poderia permitir.

Brad Dexter que, anos antes, havia salvado a vida de Sinatra evitando que o cantor se afogasse, no Havaí, afirma: “Eu mataria por ele”. Em seguida, Talese nos conta que Dexter foi feito vice-presidente da produtora de Sinatra e ganhou um escritório luxuoso próxima à sala de Sinatra. A fala e as credenciais de Dexter justificam no texto o lado “Il Padrone”, passional e siciliano, de Sinatra.

Um retrato do lado “Boa-vida” e do círculo de amizades do showbusiness de Sinatra vem em outra cena de bar, desta vez de volta no clube The Sahara, onde o comediante Don Rickles começa um jogo de piadas com o cantor e seu séquito, entre eles Dean Martin, o dono do Jilly´s, Jilly Rizzo, e Leo Durocher, um amigo próximo de Sinatra:

Quando o grupo de Sinatra entrou, Don Rickles não podia ter ficado mais satisfeito mais. Apontando para Jilly, gritou: “Como você se sente sendo o trator de Sinatra?… ééé, Jilly continua andando na frente de Frank para limpar o caminho.” (…) Ele então concentra-se em, Sinatra, sem esquecer de mencionar Mia Farrow, nem a peruca que Frank usava, ou que ele estava acabado como cantor, e, quando Sinatra riu, todos riram, e Rickles apontou para Bishop: “Joey Bishop continua verificando com Frank o que é engraçado”. Então, depois que Rickles contou algumas piadas de judeu, Dean Martin levantou-se e gritou: “Ei, você tá sempre falando de judeus, nunca sobre italianos,” e Rickles cortou com essa: “Para que precisamos de italianos – tudo que eles fazem é manter as moscas longe de nosso peixe.” Sinatra riu, todos riram, e Rickles prosseguiu dessa maneira por quase uma hora, até Sinatra, levantando-se, dizer:

Tá legal, vamos lá lá, acabe com isso. Eu tenho que ir.”

Cale a boca e sente aí!” Rickles mandou, “Eu tive que agüentar você cantando…”

Com quem você pensa que está falando?” Sinatra gritou de volta.

“Dick Haymes,” Rickles respondeu, e Sinatra riu novamente, e então Dean Martin, derramando uma garrafa de uísque sobre sua cabeça, molhando todo o seu smoking, socou a mesa. “Quem acreditaria que aquele sujeito cambaleante viraria uma estrela?”, Rickles disse.3

Embora Talese não se coloque, neste momento, em foco na cena, fica subentendido, pela maneira como ela é desenvolvida no texto, que ele está presente quando a ação acontece. Caso tivesse apenas ouvido a história de alguns dos presentes, seu estilo denunciaria tratar-se de um relato de segunda mão. Sua presença discreta no ambiente só pode ser percebida pelo detalhe e dinamismo que confere aos diálogos da cena. “Jornalistas literários tomam notas elaboradas para reter citações precisas,” afirma o autor no texto “Breakable Rules For Literary Journalists”. É a partir dessas falas citadas com precisão que Talese consegue reconstruir cenas inteiras para o leitor.

III – Ouvindo para revelar

Em seu livro “Origens de Um Escritor de Não-ficção”, de 1996, Gay Talese explica que aprendeu com a mãe, dona de uma loja de roupas, a importância de ouvir com paciência, sempre demonstrando interesse. Catherine DePaolo Talese costumava ouvir suas clientes com grande atenção por detrás do balcão da “Talese Townshop”. Uma lição que aprendeu assistindo à evolução dessas confissões feitas à sua mãe é que nunca deveria interromper, nem mesmo quando a pessoa demonstrasse dificuldade ou hesitação ao se expressar. Segundo ele, é justo no momento em que demonstra maior imprecisão em seu discurso que muita coisa sobre é revelada sobre quem fala. Suas pausas, evasões, mudanças repentinas de assunto – tudo isso seriam indicadores do que as deixa preocupadas, embaraçadas, irritadas ou do que guardam como muito pessoal ou não deve ser revelado para ninguém.

Também cheguei a ouvir gente discutindo com minha mãe assuntos os quais, antes, já havia percebido que costumavam evitar – um tipo de reação que eu acho que tinha menos a ver com a natureza curiosa dela ou suas perguntas colocadas sempre com muita delicadeza, do que com a aceitação gradual das pessoas em relação a ela como alguém confiável.4

Durante o período que um jornalista literário acompanha seu assunto, até mesmo uma relação que começa estritamente profissional tende a tornar-se mais como uma parceria ou até amizade. O tempo e a atenção dedicada pelo escritor ao tema e pessoas ligadas a ele é grande e isso tende a derrubar barreiras de intimidade entre eles. O importante, segundo Mark Kramer5, é que a posição do escritor seja sempre clara e verdadeira em relação à sua fonte, a quem devem ser mostradas reportagens anteriores do escritor realizadas nesse molde para que elas compreendam do que se trata seu trabalho. Para algumas pessoas, o escritor torna-se uma boa companhia, um confidente. A ele, elas contarão tudo, coisas que, antes da convivência, talvez sequer imaginassem que revelariam. O escritor deve, portanto, deixar claro que continua sustendo sua intenção inicial de documentar e escrever sobre o que lhe é contado.

As regras sugeridas por Mark Kramer e empregadas por Gay Talese e outros cujo trabalho é reconhecido como Jornalismo Literário, funcionam como um caminho para que se produza um trabalho sobre fatos reais que seja leitura tão instigante quanto a de um bom romance. Não são regras fixas, são “quebráveis”, como diz o título do texto de Kramer; e alguns jornalistas, de fato, modificaram muito dessa cartilha para que pudessem construir sua voz própria e moldar o jornalismo literário à sua maneira. [Um desses jornalistas é o norte-americano Hunter S. Thompson.]

1 TALESE, Gay. “Sinatra has a cold”, 1962.

2 idem.

3 idem.

4 idem.

5 idem

Cabelos vermelhos

POR CECILIA GIANNETTI

Uma ficção sobre a ficção*

A branca ou a preta? Gosto do contraste da pureza do branco contra a ferrugem dos meus cabelos. Pintados, pintados de vermelho, mas ainda assim —

Não esquecer de passar a blusa branca.

Teria sido porque pinto os cabelos? Porque esta cor não fica bem em contraste com a minha pele amorenada, porque esta cor talvez não fique bem em ninguém exceto uma garota em uma bandinha, e muito mais jovem que eu. Porque não acertei ao escolher a caixa da tintura para os cabelos e me deixo transitar por aí com o que parece uma peruca colérica? Não é porque engordei, pois continuo alta e magra, como quando nos conhecemos e ele disse que eu era única, a única, nenhuma grama além do que ele sempre considerou gostosura. Mas mesmo as altas e magras podemos sentir que um invólucro de gordura imaginário é o que nos relega ao desamor. As altas e magras, como eu, também somos vítimas de graves defeitos estéticos, todos existentes dentro da nossa mente, o que não os torna menos fatais. Eles surgem quando deixamos de ser a única. Talvez ser alta e magra seja o meu defeito estético — para ele. Talvez ele a prefira a mim porque ela é o meu oposto, ou bastante diferente física e mentalmente, eu realmente não sei nada a respeito dela, eu nunca a vi. Talvez ela seja idêntica a mim, mas, em sendo outra, uma outra além da única que um dia eu fui, isto faz valer a lei do desejo fora do relacionamento. Em não sendo eu, tanto melhor para ele.

Ou o contrário. Talvez eu apenas pensasse conhece-la muito bem, a outra, talvez a tivesse próxima de mim, quem sabe a que me roubou o título de única não fosse mesmo a minha melhor amiga? Rodrigueanamente tudo é possível neste mundo.

Não esquecer de levar o martelo na bolsa. A bolsa maior, a que cabe tudo além da escova para os meus cabelos vermelhos, indício de meu temperamento, a que guarda a minha carteira, a bolsa de maquiagem, o meu iPad, o celular, o pequeno vidrinho de Cacharel que eu — mania de estar sempre cheirosa — carrego invariavelmente comigo, oo livreto Meditações Diárias Para Mulheres Que Amam Demais, a bolsa maiorzinha, em que caberá ainda o martelo.

É o martelo que vai dar o recado. Nada de deixar para ele mensagens na secretária eletrônica do celular, rasgos de todas as vozes que me torturam hoje a cabeça revolvendo Por que, Por que, Por que, angustiados, raivosos, repetindo acusações em palavras que engasgam nas lágrimas, urros chorosos que ele possa exibir gravados aos colegas de trabalho no chope depois de uma reunião, comentando Eu Não Disse, Olha Só, ou mesmo para a aquela —

Não me interessa mais ela. Não agora, que eu tenho o martelo.

Meu foco é a minha fúria e o carro.

Placa DAS9494.

Não me interessam as pessoas que irão passar naquele momento na rua, na Vila Olímpia, as que irão parar, as que irão gritar para mim incentivos ou Louca, Louca, Meo, Que Mulher Louca, as que irão aventar outros Porquês — foi demitida e decidiu destruir o carro do ex-chefe; ficou de fora da herança e decidiu destruir o carro de quem levou a nota; ficou sem os seus remédios e decidiu destruir o primeiro carro que viu pela frente — não me importam as gentes que irão sacar seus celulares e fotografar e filmar e fazer a coisa inevitável, a coisa digital, a coisa que é mania mundial e dar upload do meu ataque pela web, escancara-lo no Youtube. Não me incomoda sequer que ele dê queixa, que a polícia me reconheça pelos vídeos e assim tenha provas. Pouco me lixando se eu for presa. Eu já me sinto presa.

A blusa branca vai ficar perfeita nos vídeos, contra os meus cabelos vermelhos.

***

[*”Louca da Vila Olímpia”, no final das contas, era gravação de novela]

Decreto de asno: “A Cura Gay”

POR CECILIA GIANNETTI

Às vezes algo é simplesmente tão errado que torna difícil descrever o motivo por que é tão absurdo, até mesmo murmurar por que é simplesmente errado, pois – se ainda existe qualquer dúvida a respeito de tamanho absurdo – fornecer tal tipo de explicação parece algo como tentar subir eternamente a montanha mais alta do mundo com a pedra da obviedade nas costas. E volta e meia essa pedra rola de volta montanha abaixo.

É o que está acontecendo agora com a pedra da obviedade a respeito da “Cura Gay”. Quem decidiu carregar este pedregulho nas costas ladeira acima desta vez foi o Conselho Federal de Psicologia, que lançou uma petição na internet para evitar uma excrescência humilhante: o Projeto de Decreto Legislativo 234/2011, do deputado João Campos (PSDB-GO), que é presidente da Frente Parlamentar Evangélica. O projetobusca reverter uma resolução de 1999 do Conselho Federal de Psicologia, segundo a qual a entidade proíbe os profissionais da área de colaborar com “eventos e serviços que proponham tratamento e cura da homossexualidade” e de “reforçar os preconceitos sociais existentes em relação aos homossexuais como portadores de qualquer desordem psíquica”.

“Porque” (vá lá) não se poderia curar o heterossexual da “doença” de ser heterossexual também. Catzo.

Este seria um bom jeito de tirar a pedra da obviedade das costas e faze-la despencar lá de cima como uma bigorna de desenho animado sobre as cabeças mais duras que apoiam tal projeto. Mas adianta? Sempre há uma Frente Parlamentar Evangélica a esculhambar o raciocínio.

Partamos para os mitos.

Querem conhecer o mito de origem do Projeto 234? Pois sentem-se aqui que eu conto para vocês:

Certa feita uma Fada entediada com sua vida de contos-de-fadas e que provavelmente tomava Clonazepam concedeu a um quadrúpede – diz-se que tratava-se de um asno – o direito e os meios de, por um dia, apresentar um Projeto de Decreto, dando-lhe uma forcinha para que não precisasse queimar demais a mufa (até porque não havia concedido ao asno inteligência, mas apenas o direito de criar decretos – que são coisas que muita vez independem uma da outra) e oferecendo-lhe estas três alternativas prontas:

1. criar o “cura gay” (como é conhecido o 234 do presidente da Frente Parlamentar Evangélica);

2. criar um decreto contra a distribuição de sopas e livros nas ruas;

3. criar um decreto pelo crescimento de bom capim em terrenos abandonados nas áreas urbanas.

O quadrúpede achou que a opção que mais lhe atraía, a 3, seria rechaçada publicamente por favorecer apenas quadrúpedes que desejassem comer capim em grandes áreas urbanas, e que sua credibilidade como político ficaria então arruinada. Pulou a opção 2, pois não pareceria original: um outro quadrúpede já havia proposto tais coisas. Então ele decidiu investir na alternativa número 1, o Projeto de Decreto da “Cura Gay”. Depois de tê-lo criado, permaneceu pastando em sua condição de asno. A Fada tocou o f… seu sininho para isto e assim foi feito.

A proposta da Comissão de Seguridade Social e Família, liderada pelo deputado João Campos, está mobilizando psicólogos como Juliana Medeiros. Ao ler sobre a tentativa dos deputados intervirem sobre a resolução do Conselho Federal de Psicologia, ela criou um abaixo-assinado junto com o Conselho Regional de Psicologia de São Paulo contra o projeto que busca tornar a “Cura Gay” uma modalidade de prática atuante no Brasil.

O presidente do CPF, Humberto Verona, afirma que “Na opinião do conselho, da Organização Mundial da Saúde (OMS) e de todos os órgãos competentes, o homossexualismo não é doença, desvio ou qualquer tipo de perversão.”

Agora, o que envolveriam os tratamentos relacionados a suposta “Cura Gay”?

Além da falta de sentido de tal “atendimento” e da humilhação que sua existência reconhecida por lei em nossa sociedade certamente representaria para milhares de homossexuais que se sentem muito bem resolvidos em sua orientação, os tratamentos de “reversão sexual” chegam a envolver internações compulsórias. Nada menos do que um convite ao “estupro corretivo”, que tem por objetivo “transformar” um homossexual em heterossexual, aka nada menos do que abuso sexual, a se tornar algo socialmente aceito aqui.

Tá de boa, você, com isso?

Nos Estados Unidos, a National Association for Research & Therapy of Homosexuality (NARTH) oferece tais tratamentos de conversão, sem qualquer apoio da parte da American Psychiatric Association ou da American Psychological Association.

Motivo deve haver, não acham? Ou preferem empurrar também este pedregulho pra dentro?

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A íntegra do texto da petição:

Pedimos que seja retirado de pauta e encerrado o PDL 234/2011, projeto para revogar a Resolução 01/99 do Conselho Federal de Psicologia contra tratamentos de “reversão sexual”, também conhecido como “cura gay”. O projeto desrespeita a autonomia do Conselho Federal de Psicologia, respeitado órgão profissional, entidade legitimada pelo poder público para regulamentar o exercício profissional. O Projeto desafia a sua autoridade do CFP sobre o tema, não apresenta qualquer embasamento teórico-técnico e posiciona-se a partir de uma perspectiva moral, e não ética. O projeto desconsidera as correntes científicas atuais, que são explicitamente contrárias a qualquer terapia de “cura” ou “tratamento” para a homossexualidade, já que esta não constitui doença. Solicitamos, portanto, que os senhores, em respeito aos direitos da população de se socializar em mundo que reconheça e valorize as diferenças, promovam mais uma ação de combate ao preconceito e à discriminação no Brasil, ao envidarem todos os esforços necessários para não permitir a aprovação do referido Projeto.
 

Sem miserinha

Mulheres de verdade. Doadores reais. Amizades verdadeiras.

O slogan soa perfeito e a ideia por trás dele é o crowdfunding de seios. “Ajude a mulher de seus sonhos a adquirir o corpo dos sonhos dela”, complementa o website. Isso mesmo, implantes nos seios e cirurgia reconstrutiva para mulheres de todos os tamanhos e idades (bom, aí neste quesito específico deve haver alguma restrição, correto?) e todas as classes sociais. Uma reivindicação que o http://myfreeimplants.com ajuda a tornar pública desde 2005, tendo levantado de lá para cá – além de peitos -, em torno de 8 milhões de dólares para a causa. Numero mágico, o site também reúne 8 milhões de pageviews mensais.

Os donos das bolas

A história do site, segundo seus criadores, começa em 2005, quando um grupo de amigos participava de uma despedida de solteiro em – tinha que ser – Las Vegas. Papo vai, papo vem, a conversa acabou convergindo para o mais perfeito par de seios que dominava o salão. A dona deles contou aos animados convivas que os peitos eram novinhos em folha, porém, que a bela amiga que a acompanhava naqueles festejos liberais também gostaria de ter feito a cirurgia para aumentar os dela – só não dispunha de dinheiro para tal. Custavam 6 mil dólares à época. Aí os rapazes, já embalados pelo álcool e pela generosidade de que a bebida costuma imbuir seus usuários (quem aí não fica mais rico quando bebe?) ofereceu cinco doletas para começar a vaquinha.

Foto do site Myfreetimplants.com

Outro bebum ofereceu 10 doletas e daí em diante os valores só aumentaram. Saíram da espelunca comprometendo-se em acordo verbal com a moça: pagariam 20% de seus implantes de silicone mais cirurgia e o barato todo.

Antes e depois de exibir-se na internet para aumenta-los

Ficou com lágrimas nos olhos?

Pois o que aconteceu em Vegas não ficou em Vegas:

Para juntar o restante necessário à cirurgia plástica da dançarina, os sujeitos criaram o website em julho daquele ano, e hoje rapazes tarados e bondosos do mundo inteiro, assim como Jason Danomad, um de seus fundadores e CEO, também podem ajudar garotas a obter seus peitos novos fazendo suas doações através do Myfreeimplants.com.

Por uma taxa, os doadores ganham acesso ao perfil exclusivo das belas garotas que se candidatam ao procedimento, sempre do tipo não-ogra. O perfil inclui fotos (de topless, se assim desejar o doador), vídeos (idem) e contato direto com as belas (coisa de quem exercita muito o braço via web). E eles devem escolher aquela da qual mais gostam para investir seu capital na turbinação.

É aí, em como funciona o sistema de doações do site, que as coisas ficam meio esquisitas. Não acha?

Além do acesso às fotos e vídeos das garotas – que devem ralar muito nesses tais vídeos para conseguir agradar seus “patrocinadores”-, os homens obtêm o direito a chats online e podem combinar com as garotas, entre outras coisas – ainda segundo o website – a compra de “itens de uso pessoal” delas (estamos aqui a imaginar calçolinhas usadas, mas sintam-se livres para pensar em qualquer bizarrice, como cotonetes usados), “entre outras coisas”. Que espécie de outras coisas eles sugerem que devem entrar nessa troca amiga?

Agora sim, deixe aquelas lágrimas de emoção rolarem.