Hipnose e êxtase do amor aeróbico

POR CECILIA GIANNETTI

Uma fatia considerável de público feminino semanalmente segue em romaria à Rua do Mercado, no Centro do Rio de Janeiro, em busca de êxtase e hipnose. Expediente secreto de mulheres enérgicas para fugir da rotina embaçada.

Camille Paglia afirma – e eu apenas digo que talveza objetificação sexual seja caracteristicamente humana.

“Não há nada de degradante na exibição de qualquer parte do corpo humano,” Paglia escreve, em “Vampes e Vadias”.

Dito isto: o que dançarinos eróticos de corpos perfeitos fazem nesta casa da Rua do Mercado parece ao seu público feminino nada menos do que fascinante.

Se tantas mulheres correm para fazer aulas de pole dancing para agradar os maridos, ora, talvez o que estas moças estejam procurando aqui, com estes go go boys embrulhados e desembrulhados para presente para elas, seja o que seus homens ainda não arriscaram fazer em casa (vejam bem os movimentos, nada práticos). Ou talvez sejam mais modestas que os maridos das novas pole-dancers-domésticas e apenas queiram tomar parte da fantasia por alguns minutos, tocá-la, ser tocada por ela.

Quem tem problemas são os que se sentem embaraçados pela dança erótica: suas respostas naturais foram mutiladas pela ideologia, religiosa ou feminista. A antiga Igreja católica proibiu a dança por causa de suas associações pagãs e seu evidente encitamento à luxúria,” escreveu, ainda, Paglia.

Ora, ninguém mais dá ouvidos à antiga Camille, talvez com razão, mas acho que ela deu bola dentro sobre objetificação sexual e essa bola ainda quica e me acertou a cabeça enquanto eu assistia ao ritual pagão ao qual essas mulheres todas são atraídas semanalmente neste lugar.

Nesta boate a música privilegiada é o funk carioca. Mas em suas cabeças as mulheres parecem ouvir outro ritmo. Baladas de amor rasgadas. Cabeça de mulher. Carne de homem.

Os lapdances da Expo Rainbow, conforme aprendi na semana passada e lhes contei aqui, parecem inocentes perto do que os rapazes e as moças consensualmente fazem em cima do palco deste clube. E quando os dançarinos descem pra galera, na pista, rola até beijo na boca e encoxada na parede.

[Uma rápida viagem ao nosso caderninho de terminologia: go-go é termo que origina-se da frase anglófona go-go-go, que por sua vez remete à pessoa enérgica, empolgada; influenciado pela expressão francesa à gogo, que quer dizer “em abundância “, vindo do francês antigo la gogue; “felicidade, alegria”.]

Então, voltando às feministas, estava tudo muito alegre no mundo de conto de fadas de Paglia quando chegou Susan Sontag e nos disse bravamente que:

“Em última análise, a pornografia na realidade é a respeito de morte, e não de sexo.”

Para animar qualquer festa, disque Sontag-08000-DEATH. Mas, diabos, ela está certa. Toda esta carne de gente morta apodrecida em fotogramas, basta ver o Pinterest do Studio 54, aquele Templo da Beleza, da Riqueza, da Fama, da Dança e do Sexo (Ah, esqueci das Drogas) e quase todos eles lindos e mortos, exceto os Rolling Stones, é claro, eles nunca vão morrer.

Cansaço: go go boys nitidamente esfolados pelas moças na boate da Rua do Mercado

Outra boa da Sontag, que se enquadra na atual composição dos corpos malhados e talhados que vemos dançando sobre o palco e fora dele nesta noite, nesta boate da Rua do Mercado, refere-se à produção dos pintores e escultores sob o regime nazista. Uma comparação interessante com nossos tempos:

“Eles frequentemente retratavam o nu, mas eram proibidos de mostrar qualquer imperfeição do corpo. Seus nus pareciam fotografias de revistas de culto ao corpo: pinups que eram tão beatificamente assexuados (e, de uma maneira técnica) pornográficos, por terem a perfeição de uma fantasia.”

Essa é a real. A perfeição da performance de um fazer amor aeróbico, de academia de ginástica. Mas que sem dúvida excita. Não vi mulher alguma de cara amarrada. Todas desgrenhadas, rosto corado. Provavelmente chegaram em casa de fogo e de bem com a vida. Se homem têm na cama, o acordaram. Graças aos moços. Semana que vem estarão todas lá de novo. Pode apostar.

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