Em legítima defesa

Esta é uma conversa que tive com Joshua Tartakovsky, em que retirei minha voz para deixar que somente ele falasse. Ele tem muito o que dizer.

Eu cresci em Jerusalém. Meus avós não são religiosos. Mas minha mãe e meu padrasto, em Jerusalém, eram muito, muito religiosos. E bastante de direita. Eu abandonei a religião aos 14. E me tornei o típico cara pró-Israel. Eu queria servir ao exército de Israel. Cresci acreditando que por todos aqueles anos os soldados israelenses vinham arriscando suas vidas pela minha. Eu acreditava que no serviço militar eu protegeria meu país. Sentia que tinha o dever moral de servir ao exército israelense porque assim eu poderia impedir bombardeios suicidas e o terrorismo, da mesma maneira que outros soldados haviam me protegido e a minha gente.

Meu treinamento foi difícil mas ocorreu tudo ok. Fui treinado para atuar como médico (seis meses de treino) e soldado de infantaria (quatro meses). Eu obtive algo de positivo disso, no sentido de que aprendi a acreditar em minha força de vontade, me exercitar bastante, ficar em forma, sobreviver em condições adversas. Mas o serviço militar na realidade tratava-se realmente de controlar, acossar e cometer abusos contra a população civil palestina. Quer dizer, se você estivesse em Ramallah, almoçando calmamente em um restaurante, um veículo cheio de soldados israelenses estacionava, do nada, tipo, bum!, os soldados saltavam do veículo e entravam no restaurante para acossar os palestinos que estavam ali, em paz.

No começo sofri uma lavagem cerebral mas depois percebi que o nosso objetivo era impor uma punição coletiva sobre um povo inteiro sem qualquer motivo.

Quando eu era um soldado na unidade Netzah Yehuda Battalion em missões de ocupação percebi que o que Israel estava fazendo era apenas aterrorizar a população civil palestina por nenhum outro motivo senão que queriam que eles abandonassem aquele lugar. Vou te dar outro exemplo: invadíamos as casas de pessoas comuns e fazíamos buscas sem qualquer motivo.

Vivi situações duras nesse período, mas por sorte não tenho sangue em minhas mãos, não cheguei a matar ninguém.

A verdade é que quando eu estava no exército eu não cheguei a fazer nada contra as injustiças que presenciei. Quero dizer, eu era gentil com os palestinos, mas eu não lutava contra aquele sistema, eu não abandonei o exército: eu pensava que era melhor ter alguém como eu ali naquele lugar do que qualquer outro, porque os outros seriam muito mais brutais.

Percebi que o simples fato de fazer parte daquilo era um crime.

Ainda levei alguns anos para tornar-me um opositor. Ainda faltava-me coragem. Por algum tempo pensei que assim seria um bom cidadão e ajudaria meu país. Eu ainda acreditava na mídia israelense. Eu não sabia realmente como eram as coisas no resto da Cisjordânia. Eu pensava, “é, as coisas aqui não estão muito boas, mas em outras partes dos territórios ocupados devem estar melhores.”

Quando eu estava servindo, na ocupação (durante um ano), as ordens diárias eram que parássemos todos os carros que passassem, revistar e abusar do nosso poder com os palestinos; e também mandavam colocar as mulheres em fila, revistá-las, zombar delas. Se alguém reclamasse, ficava preso por seis horas, com as mãos e as pernas presas, sem água.

Davam-nos ordens para prender as pessoas em algumas ocasiões, mas nós realmente não sabíamos de que eram culpadas. Eu ficava do entorno, não no que liderava essas prisões. Obtínhamos uma ordem para ir a uma casa em uma aldeia a poucos quilômetros de distância, juntavam muitos soldados e eles cercavam a casa, e então o suspeito de seja lá o que fosse entregava-se.

Nosso objetivo não era apenas impedir as pessoas de ter acesso aos seus campos agrícolas, mas que também eram dadas essas ordens para prende-las as em suas casas no meio da noite. E eles poderiam ser torturado depois. E 3 meses poderiam se passar antes que pudessem ver um juiz.

A mídia mainstream apresenta o conflito atual, e o bombardeamento de Gaza, como se houvesse dois lados. O que temos é apenas um lado, Israel, ocupando o outro. Não é como ambos os lados se invadissem. Hoje eu sei disso. É Israel que ocupa um território na Palestina, destroi suas casas, mata as cabras e galinhas que é tudo o que aquele povo tem para sobreviver, tira sua água – há o “Apartheid de água”, que é o sistema pelo qual Israel impede o acesso dos palestinos à água enquanto há piscinas em alguns assentamentos -, prendem pessoas sem um julgamento. E os palestinos sequer têm o direito de fazer protestos. É proibido.

Se fazem um protesto contra a ocupação, os soldados israelenses atiram contra os manifestantes com balas de borracha, jogam gás lacrimogêneo, e os espancam e há gente que morre nesses protestos. Mantêm eles presos em condições desumanas atrás do Muro. Eles têm vivido em condições inviáveis, eu teria enlouquecido se vivesse ali.

É isto o que as pessoas no mundo parecem não compreender: Israel e Palestina não são duas forças iguais.

O que abriu os meu olhos foi

Aos 22 anos fui para os Estados Unidos estudar Relações Internacionais na Brown University, onde permaneci por três anos, depois fiz um ano em Oxford, e então Mestrado na London School of Economics. Nos países estrangeiros, eu ainda era, no começo, bastante pró-Israel, até que me dei conta de que não interessa qual a sua religião ou a sua nacionalidade, você é um ser humano. Eu sabia disso antes mas meu senso de identificação então se deslocou de Israel para o mundo. Eu era um nacionalista e passei a ser um humanista.

Eu havia sido criado para acreditar que o mundo inteiro odeia judeus. Que o mundo inteiro odeia Israel. E que somente Israel pode proteger os judeus. Mas visitei vários lugares do mundo e quase nunca encontrei antissemitismo. Levei anos para me livrar dessa paranoia e perceber que é Israel que trata a Palestina desse jeito.

O “Traidor”

A sociedade israelense é muito preconceituosa. Eu fui criado para pensar que os palestinos são gente ruim, uma sub-raça na verdade, e que todos eles odeiam os judeus.

No ano passado fui para Israel/Palestina por duas semanas em setembro e, em seguida, visitei em Ramallah um amigo palestino-americano que eu havia conhecido nos Estados Unidos. Então eu decidi retornar a Israel/Palestina em dezembro pois eu já queria me envolver politicamente, a situação lá havia me perturbado. Em setembro de 2011 visitei pela primeira vez a cidade palestina de Ramallah. As pessoas lá foram bastante receptivas, passearam comigo por toda a parte, cuidaram bem de mim – apesar de ser ilegal um judeu ir até lá, pois houve alguns poucos casos de soldados desarmados que foram mortos em Ramallah. Mas eu fui de qualquer maneira. É muito mais liberal lá do que se imagina, há cafés, clubes, djs, cerveja, diversão.

No começo de 2012 eu fui até esta aldeia, Al Wallajah, onde estão construindo um Muro ao redor agora. As pessoas lá foram muito legais comigo. Por isso entrei com eles em um protesto contra a construção do Muro. Os israelenses começaram a nos atacar antes mesmo de protestarmos. Não foi justo, estávamos encurralados. Antes de descermos para a rua, estávamos apenas segurando cartazes na montanha, e os soldados israelenses partiram para cima de nós, nos empurrando e humilhando os palestinos.

Eu disse a um guarda que um dia ele iria se arrepender do que estava fazendo. E ele retrucou, em tom agressivo: “Você está me ameaçando?”. Eu respondi: “Vai se arrepender em seu coração.”

E aí eles me levaram preso. Eles nos deram cinco minutos para sair, mas como eu sabia que não fizera nada de errado e nós apenas queríamos protestar, e depois de ter visto um palestino recusar-se a sair, eu decidi não que não iria sair também, não importava mais o quê. Então eles vieram e me arrastaram para longe. Quando me prenderam, eles mentiram aos superiores deles dizendo que eu havia gritado que “um dia eles iriam pagar pelo que haviam feito”, como se eu os tivesse ameaçado. Eles ainda caçaram um outro manifestante israelense e o prenderam também, ainda que o homem não tivesse feito nada.

Eles odeiam ver palestinos e israelenses protestando juntos.

Joshua: prisão em Al-Wallajah

Eles me prenderam e mais três outras pessoas por seis horas seguidas no porão de uma base militar. Os advogados tiveram que brigar bastante, nós tivemos que ver um juiz. Se eu fosse palestino, teria sido torturado. Torturam palestinos o tempo todo.

Acima, a construção do Muro cercando a Palestina, comparado ao Muro de Berlim

Fiz um curso na Universidade Hebraica por duas semanas em dezembro de 2011. As aulas eram lecionadas por James Green (especializado em História e Estudos de Cultura Brasileira), e eu optei por sentar-me no lado “destinado” (os israelenses os separam assim) aos alunos palestinos, e não no lado onde ficam os alunos israelenses, porque havia notado aquilo, que muitos israelenses tratam os palestinos como gente invisível. Foi quando comecei a falar com eles.

Fiquei chocado com a maneira como os alunos israelenses tratam os alunos palestinos: os israelenses se sentam de um lado da classe e os palestinos do outro, e os israelenses, quando simplesmente não falam com eles, zombam deles. Mas eu fiz bons amigos na classe entre os palestinos, conheci gente muito boa, divertida, secular. Como Aida Khaled Saifi.

“Primeiro eu suspeitei da posição dele e de tudo o mais,” afirma Aida. “Em seguida, depois de conversar com ele e sairmos várias vezes, eu percebi que ele não era um típico israelense, no sentido de que ele não ia tentar me convencer de que o caminho dele é que era o certo e não o meu. Ao contrário, ele queria aprender e conhecer mais sobre os palestinos. Na verdade, ele já conhecia bastante a respeito da situação e aquilo me surpreendeu. A Universidade Hebraica de Jerusalém é o destino de tantos ex-soldados israelenses, quase todos eles rudes … eles acham que mesmo ali têm de nos impôr o tempo todo as quatro ou cinco palavras árabes que aprenderam nos postos de controle militares e de combate, como “parar / ir / andar”, de forma que essas terminologias não tem qualquer motivação inocente. Eles não iniciam qualquer outra forma de contato com os árabes, a menos que seja com base política e para tentar nos mostrar como as coisas devem ser feitas.”

“Se Joshua não tivesse sido tão sincero e persistente eu não teria pensado em estabelecer uma amizade sólida com ele. Apresentei-o a alguns dos meus amigos. Também fomos a Ramallah juntos… ele também foi a minha festa de aniversário! Era o único israelense entre cerca de 40 palestinos. Ele é corajoso. Ele não tem preconceito,” conta a Aida, que vive em Beit Hanina, na parte leste ocupada de Jeursalém.

Joshua com Aida, em seu aniversário

Rocinha, a prima da Palestina

Me chocou a maneira como eles viviam nos territórios palestinos que visitei. A maioria dos olhos israelenses civis jamais veem o que se passa nesses territórios, pois sua presença é proibida. Foi quando percebi que a situação nas favelas brasileiras e nos territórios palestinos é bastante similar de certa maneira. [“Really cute kids”, lembra. Joshua deu aulas de inglês como voluntário na favela da Rocinha durante cerca de um ano, em uma de suas estadas no Brasil, país que adora]. Nas favelas os moradores todos são estigmatizados por causa dos traficantes de drogas. A maioria das pessoas são gente muito boa, eles só querem trabalhar. Mas são todos negligenciados por conta do estigma. O mesmo ocorre na Palestina: todos os palestinos são vistos como gente ruim. Porque alguns poucos pertenciam a grupos de resistência à ocupação israelense. E todos são mal vistos por isso hoje, apesar de, de acordo com a lei internacional, os palestinos terem direito e resistir a uma ocupação armada.

E o que estão fazendo hoje na Palestina é uma limpeza étnica.

A milícia terrorista judaica de 1948

E Israel mesma foi fundada pelo terrorismo. Em 1948. A maior parte das pessoas não sabe disso, eu também era ignorante. Havia milícias judaicas durante o controle britânico que atiravam em civis, colocavam bombas em embaixadas e cinemas, colocaram uma bomba no Hotel King David. Mas agora quando os palestinos usam terrorismo, os israelenses dizem que é errado. E os palestinos não têm marinha, não têm força aérea… eles têm alguns foguetes que conseguiram do Irã. E o motivo de haver bombas sobre Gaza hoje é que os Estados Unidos dão 3 bilhões de dólares por ano a Israel.

Sitiados

As pessoas em Gaza estão vivendo sob um cerco já há alguns anos, um bloqueio. Qualquer pessoa que se aproximar do Muro leva tiros, mesmo a alguns quilômetros de distância. Israel controla tudo o que entra em Gaza, então não há medicamentos suficientes, não há comida suficiente.

Há 1.7 milhões de pessoas presas em Gaza, elas não podem sair desse gueto e estão sendo bombardeadas por F-16 de Israel em pequenas áreas, com crianças sendo atingidas o tempo todo.

Pelo menos 150 pessoas e 42 duas crianças morreram apenas nos últimos sete dias.

A Palestina Liberal

Por muitos anos eu acreditei que quando os sionistas haviam vindo para a Palestina, queriam apenas viver em paz e ter um Estado naquela terra vazia. E que então os árabes começaram uma guerra com eles pois não os queriam lá. Então era por isso que Israel sempre tinha que se defender. Mas a verdade é que Israel chegou a uma terra já habitada pelos palestinos, aquela era a casa dos palestinos, eles já tinham ali uma cultura muito rica. Hoje o Hamas é apontado como o Islã radical, muçulmanos radicais, perigosos. E na verdade antes de 1948 a Palestina era a terra mais liberal, a que oferecia a melhor educação, a mais progressiva, a que lia mais, com mais direitos para as mulheres, mais secular do que qualquer outro lugar no Oriente Médio. Eles eram muçulmanos e cristãos.

Cisjordânia hoje

Israel confisca água dos palestinos, e após confisca-la, faz com que paguem três ou cinco vezes mais por ela; eles vivem sob violento controle militar; podem ser presos e colocados na cadeia aleatoriamente por semanas sem direito a um julgamento. Podem prende-los por até três meses sem sequer coloca-los diante de um juiz, sem julgamento, pois esta é uma lei colonial inglesa, que eles ainda praticam. As prisões acontecem todos os dias. Israel vai a diferentes aldeias na Cisjordânia todos os dias e todas as noites e simplesmente leva pessoas para a prisão.

Às vezes permitem que colonos israelenses construam. Mas na maior parte do tempo eles destroem casas pois afirmam que os palestinos não possuem licença para construi-las. Os palestinos não possuem licença para construir suas casas simplesmente porque Israel não as concede aos palestinos. Aos colonos, a licença é concedida. Os colonos podem ir a ruas onde os palestinos não podem.

Os palestinos estão presos a guetos.

O governo israelense subsidia e paga para os assentamentos e constrói novas casas lá e lhes dá água barata, enquanto que na Palestina, o governo obviamente não só não subsidia a área, mas destrói casas, faz suas vidas miseráveis, afasta-os de seus campos agrícolas e ainda constrói o Muro em torno deles.

Como precedentes históricos de tudo isso, vejo que é pior do que o apartheid na África do Sul, vejo Sérvia com a Bósnia e Kosovo. E vejo o sionismo como um movimento colonialista.

Alguns dados: mais de 18 mil casas palestinas foram demolidas pela Defesa de Israel (IDF) desde 1967. Mais de 4 dessas casas foram demolidas após setembro de 2000. De setembro de 2000 até 2004, mais de 2.500 casas foram demolidas em Gaza; 1.600 delas estavam localizados em Rafah, uma faixa de 2,5 milhas de terra ao longo da fronteira sul de Gaza. O governo israelense constroi poucas casas por causa da pressão internacional, mas mesmo durante os anos de Oslo e Rabin Yitschac nunca houve um momento em que Israel parou a construção de novos assentamentos na região. E agora a opção de ter dois Estados é impossível, pois 500 mil colonos vivem nos territórios ocupados.

Boicote a Israel

O Boicote Israel é um movimento de mídia global, por meio de mídias sociais centralizado no website BDSMOVEMENT.net. A ideia é convencer o mundo a boicotar os produtos israelenses e convencer artistas a não levar suas turnês a Israel, por exemplo. Alanis Morissette tem show marcado para dezembro em Israel, e há uma campanha forte para que ela não vá. Apesar de a cantora ter mandado retirar o vídeo da campanha do Youtube, ele ainda pode ser visto graças ao site do BDSMOVEMENT.net.

Roger Waters, do Pink Floyd, apoia o Boicote a Israel.

Ramallah cercada

“Está tudo ocupado por sionistas. Fica muito difícil para os palestinos,” explica Rabah Khalil, de 25 anos, um brasileiro de Cruz Alta Rio Grande do Sul, naturalizado palestino em 2010, que vive em Ramallah e trabalha em uma companhia de telecomunicação chamada Wataniya na Palestina.

“O Muro dividiu todas as cidades entre as terras de 1967 em uma grande prisão, entre cada cidade tem checkpoints e militares, judeus, colonos grande áreas de terras foram robadas pelos sionistas. Se eu quero sair em Ramallah para sentar-me com alguns amigos e conversar, nós não temos muitas opções, nós não podemos ir a Jerusalém. E a praia, mesmo o Mar Morto, que é em Jericó, é controlado pela Ocupação. Há checkpoints israelitas em toda parte, não se pode evita-los.”

Em situações de perigo, como em Gaza, recentemente, “Ele fecham tudo, todas as estradas para todos os lugares, como parte da humilhação ao povo palestino. A única coisa que podemos fazer em Ramallah é protestar, mas basta sair um pouquinho da cidade que as forças terroristas de Israel começam a prender e lutar contra os manifestantes – o que em Gaza não é possível.”

Família de Joshua

Hoje moro na Califórnia. Não falo muito com minha família. Não falamos sobre o assunto porque se falarmos, acabamos brigando. Eles estão em Jerusalém. Alguns membros moram nos Estados Unidos, como minha mãe e seu marido. Eles não entendem o que eu faço, meu ativismo, minhas ideias. Porque eles são muito nacionalistas e eles acham que todos os árabes odeiam os judeus. Eles me amam mas é difícil. Mas quanto mais você sabe e vê, mais você precisa agir, se você não quiser morrer por dentro.

* COM AGRADECIMENTOS A JULIANA FAUSTO

“The pioneers of a warless world, are the young men [and women] who refuse military service.” -Albert Einstein