Vibradores e dominadores: os velhos e os novos modelos

Ao longo de décadas o homem dedicou à mulher duas invenções que nos pedem atenção extra: uma, foi criada para restringir as petulantes tentativas de avanços femininos para além dos domínios do lar. A outra, para massagear as vulvas das senhoras.

Tremoussoir, tido como o primeiro vibrador do mundo. Circa 1734.

Mais de um século depois de difundidas – e, no caso de uma delas, rejeitada pela medicina -, ambas persistem na sociedade, aprimoradas à sua maneira para que melhor sobrevivam aos novos tempos. E é curioso ainda que uma tenha sido inventada em decorrência da outra.

É um pouco do que mostra o filme Histeria (2011), em cartaz nos cinemas brasileiros. De acordo com as crendices (bastante favoráveis ao isolamento sócio-político da mulher naqueles tempos) durante o século 19, as manifestações de “histeria feminina” decorriam de “útero hiperativo” – por vezes de um útero que, de tão hiperativo, “saía do lugar”.

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De acordo com o mentor do jovem médico Joseph Mortimer Granville (Mortimer de fato existiu) metade das mulheres em Londres sofriam de histeria. Tratava-se de uma epidemia, então. E as feministas, principalmente elas, estavam incluídas neste diagnóstico-“roubada”. “Roubada” porque o tratamento aplicado em suas manifestações mais graves era a internação e a cirurgia (histerectomia, a retirada do útero). Em suas manifestações menos drásticas, como a “ninfomania, a frigidez, a ninfomania e a ninfomania” (sic), havia o tratamento em consultório: a masturbação da mulher feita pelos prestimosos médicos. “it’s tedious, tiring work“. (“É um trabalho tedioso, cansativo,” afirma o mais velho ao apresentar a Mortimer a prática no começo de “Histeria”).

Imagine você, rapaz-leitor, se “descobrissem” de repente uma suposta doença mutcho loca, que afligisse apenas homens, e cuja fonte de todos os seus sintomas e males e manifestações psicológicas preocupantes fosse o bilau? O seu bilau. E, para devolver o senhor rapaz-leitor novamente são à sociedade, a única solução fosse… snip-snip, eliminar as suas partes? Aí seria mau negócio, não?

Outros tratamentos indicados a mulheres histéricas limitavam-se a banhos mornos, banhos frios, jatos de água fortes (direcionados à vulva, como você pode ver na ilustração abaixo), hipnose, andar a cavalo (você sabe, pra dar aquele sacode na menina).

“Ducha Pélvica”, famoso jato na virilha

Manipulator, um dos primeiros vibradores do mundo, máquina “de cutucar” criada pelo médico norte-americano George Taylor

Ao masturbar as mulheres e levá-las ao orgasmo, o médico-gato do filme, o dr. Mortimer – e da história real na qual se baseia o mesmo – acreditava estar apenas recolocando o útero em seu devido lugar, para assim aliviar a maluquice da mulherada. O que ele estava fazendo, na realidade, era dando aquela comparecida extraconjugal que o ex-marido (falecido) ou marido vivo (mas ausente, que se fingia de morto) não dava na cama com a sujeita. Ou dava mal dado.

E mesmo com todas as reações fortemente orgásticas – como a de uma velha senhora que quase põe abaixo a cama-maca e todo o aparato em torno, aos gritos, em determinada cena do filme – demonstradas pelas mulheres durante as massagens vaginais, os especialistas em “histeria feminina” pensavam ainda que o órgão genital feminino era incapaz de sentir qualquer sensação de prazer sem penetração pelo órgão sexual masculino.

No longa, é quando o dr. Mortimer começa a sofrer de terríveis cãimbras e enrijecimento dos músculos que surge uma alternativa para tanto trabalho manual: seu benfeitor, um homem rico que pagara por seus estudos e não tem mais o que fazer a não ser gastar dinheiro com toda e qualquer invenção que envolva o uso de eletricidade, lhe provê o protótipo perfeito daquilo que irá se tornará O Vibrador. Um marco histórico glorioso para muitas mulheres. E homens. E que está aí até hoje, dando aquela força para quem dele necessita.

Parece uma furadeira antiga, mas é um vibrador velho. Bem velho.

“Vibration is life!” Os vibradores eram vendidos em catálogos e anunciados em revistas femininas

Mas o que aconteceu ao diagnóstico de “histeria feminina”?

Ah, isso é mais complicado e exige uma resposta que o filme não dá todinha, não.

A “histeria feminina” de séculos atrás não passava de uma ficção da medicina (Sabe como quando hoje em dia você vai ao médico e tudo, absolutamente tudo é “virose”? Com a diferença de que naquela época havia o mais forte sexismo reinando), que não sabia o que dizer dos “sintomas” que apresentavam as mulheres insatisfeitas em seus casamentos forçados e seu lugar limitado na sociedade. Uma cena de “Histeria” define bem a situação de uma mulher de ideias avançadas lidando com as muralhas da época:

A personagem de Maggie Gyllenhaal sai de um aposento da clínica médica onde Mortimer trabalha pisando firme e bufando, dirigindo-se ao médico-chefe:

“Você não tem ideia dos desejos ou necessidades de uma mulher mais do que conhece a atmosfera lunar. (…) Às mulheres não será mais negado o seu lugar de direito. Tente o quanto quiser manter-nos na cozinha ou na sala de visitas. Nós não descansaremos até que sejamos bem-vindas nas universidades, nas profissões e nas cabines de voto.”

É a primeira vez que Mortimer a vê, e diz, alarmado: “Aquela mulher estava…” E o velho médico, seu patrão, completa: “histérica”.

O diagnóstico médico oficial de “histeria feminina” enganou trouxa (melhor dizendo: forçou sua ditadura) até 1952 – quer dizer, ONTEM.

Os resquícios daquele pensamento estão vivos até hoje. Bem vivos. Palpáveis.

Algumas coisas não mudaram muito de lá para cá.

Hoje ainda somos chamadas de histéricas, com sinônimos variáveis, pós-modernos:

1. “Exagero dela…”;

2. “Tá naqueles dias”;

3. “Tá com falta de p*** etc, por exemplo:

ao reclamar de textos com conteúdo que incitam violência contra a mulher, conforme ocorreu após coluna publicada aqui neste site, contra conteúdo do blog Testosterona; ou de propagandas machistas na internet.

Também temos modelos mais modernos de vibradores. Os vibradores acompanharam a mudança dos tempos.

Vejam o Rabbit, por exemplo, que surgiu em meados da década de 1980.

Coelhinho de plástico, que trazes pra mim?

Eles não podem mais mandar arrancar nossos úteros para curar a “histeria feminina”. Utilizam outros métodos cirúrgicos, sócio-cirúrgicos. Um deles vem sendo empregado com a destreza de qualquer “cirurgião plástico” da Lapa que cobre 500 reais por aplicação de silicone em travestis e já foi amplamente explorado em artigos como o de Lily Rothman (Time Magazine, Slate.com, The Atlantic), autora de “A História Cultural do Mansplaining“. E que eu resumi em algumas poucas palavras:

O termo “Mansplainer“, ou, na minha livre tradução, homexplicador, é tão popular que até no Urban Dictionary já figura.

É um jeito complacente de falar, através do qual certos homens obtêm a alquimia perfeita entre condescendência e ignorância, levando a explicações ministradas com a mais sólida convicção de que somente eles estão corretos, e tal certeza vem do fato de eles corresponderem ao elemento masculino na conversa. Ou: Explicar com condescendência, talvez repetindo alguns pontos para enfatiza-los, como se faz com uma criança, aquilo que a mulher ouvinte já está cansada de saber.

Não digo que todos os homens são homexplicadores. Não mesmo. Porque não são.

Mas um homexplicador que acaso leia esta definição pode sentir-se tentado a:

1. Rir e acreditar que tudo isso não passa de parte de uma conspiração feminazi.

2. Rir e acreditar que tudo que é dito a respeito de “mansplaining” ou homexplicar é irrelevante, errado e bobo.

3. Rir e pigarrear e homexplicar por que tudo o que aqui está escrito é irrelevante, errado e bobo.

4. Rir e homexplicar por que ele não é um mansplainer ou homexplicador (“ora, isso nem sequer EXISTE! É invenção de uma mente histérica na certa”), e então homexplicar novamente as coisas todas que já havia homexplicado para a mulher, porque elas são lentas e precisam de uma reprise das suas teorias.

5. Rir e ignorar tudo o que todos(as) disserem, então acusa-los(as) de serem sexistas.

Eu sei. Isso foi difícil. Talvez você precise de um uísque agora. Estava tudo numa boa, viemos lá do século 16, com a invenção da massagem vaginal pelo respeitável doutor Pieter Van Forest, falamos de umas vadias loucas e de vibradores, e essa parte até que foi divertida, mas aí de repente aqui estamos, tratando das consequências de um velho discurso médico, ultrapassado, mas que deixou uma herança cultural medonha.

Repito (mulherexplicando, para entrar na brincadeira): Não quero dizer que todos os homens são homexplicadores. Não disse isso. Pega o uiscão ali. Relaxa.

Mas há uma quantidade razoável de homens que são homexplicadores. O suficiente para eu querer usar um vibrador do século 19 neles de vez em quando. Mas com esses tipos – homexplicadores, condescendentes, patriarcais, arcaicos, complacentes – creio que a melhor tática é ouvir tudo como se hoje fosse primavera em 1902 e com um sorriso estampado no rosto. Com isso eles ficarão satisfeitos vivendo sua fantasia de homexplicadores. E depois basta-nos esquecer que existem. Porque, da mesma forma que evoluíram os vibradores, alguns homens também escolheram o caminho da evolução.

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