De sunga em Gaza

Você provavelmente deve estar se perguntando o porquê deste título. Eu também me perguntaria, se fosse o leitor, chegando ao texto agora. Mas espere mais um pouco. Primeiro, à sensualidade da Expo Rainbow, a feira. Depois a experiência da fera, que dá nome ao texto.

Show de Burlesque com Anita Angelini

A Expo Rainbow abriu na última quinta-feira, dia 15, como um parque de diversões LGBT – também frequentado por heterossexuais fogosos e liberais, loucos para andar nos brinquedos à disposição, aka: stripteases de homens e mulheres*, lap dances*, massagens eróticas, Castelo de Fetiches* etc. – criado para correr paralelamente aos dias em que a cidade mais ferve, lotada e animada com o público que vem participar da Parada do Orgulho LGBT, que ocorreu ontem, 18, em Copacabana. E a feira ainda acontece hoje, segunda, 19. Veja aqui a programação.

Não sei bem se animada é a palavra. Creio que seja melhor confessar logo o que os mais hábeis observadores da sensualidade do carioca já confirmam desde que a temperatura começou a subir na cidade – e não importa que no fim de semana passado a temperatura tenha voltado a cair, e que tenha chegado mesmo a chover e que os casacos tenham saído do armário (vamos prosseguir sem parar para conversar com esse trocadilho sem vergonha, por favor). Creio mesmo que seja preciso recorrer a um termo científico para descrever o clima geral da cidade, mais apropriado, por exemplo, ao que se testemunhou na Expo Rainbow na noite anterior à Parada do Orgulho LGBT, e que pouco tinha a ver com “orientação” sexual: o Rio está ou estava no cio, num cio gay, num cio hetero, num cio cósmico em que todas essas fagulhas se misturaram independentemente de orientação sexual nas diversas saletas onde rolavam as “brincadeiras” no Galpão da Ação e Cidadania, na outrora – e talvez venha a ser seu destino sempre – faceira e licenciosa Praça Mauá.

Kell, dançarina especialista em Pole, de BH para a Expo no Rio

Cheguei e ouvi dos assessores de imprensa as regras: nada de fotos, filmar nem pensar. Registro de performer, apenas com o consentimento do mesmo, após a performance, sem mostrar o rosto, com o nosso acompanhamento. Compreendido.

Mas a energia sexual já havia derrubado essa barreira. Havia um clima consensual entre a plateia e os performers. O público arriscava tirar fotos quando o pessoal do apoio dava as costas. O público filmava. Os celulares trabalhavam alegremente e os donos dos palcos ou queijos ou aqueles deitados uns sobre os outros no chão serpenteavam os corpos diante das microcâmeras apontadas para eles. Foto cobrindo o rosto? Pra quê? Ninguém ali parecia ter vergonha do que faz.

Castelo dos Fetiches: cêra quente de vela pingando nas costas

*O quarto de lapdance é um excelente lugar para se exemplificar a questão do mix de gays & heteros em um “brinquedo” na Expo Rainbow. Ora. O que acontece quando um dançarino equivocadamente decide sentar-se no colo de um rapaz hetero que acaso enganou-se ao olhar – ou deixar de observar – a plaquinha lá fora da sala? Sim, havia uma plaquinha em neon com o nome e o horário dos dançarinos e dançarinas do lado de fora da saleta de Hot Dance (talvez pensada inicialmente para evitar esse tipo de equívoco entre lésbicas e homens gays). Por exemplo: se você lesse ali que FulanA iria dançar às 17h e você é um cidadão homossexual, você preferiria não entrar às 17h. Por outro lado, se você fosse uma moça que gosta de moças e lesse que BeltranO faria sua lapdance às 18h, você correria dali feito o diabo da cruz. E se você fosse um sujeito heterossexual e não desse a mínima para a tal plaquinha, acidentalmente poderia entrar justo na hora da performance hot do espadaúdo BeltranO, achando que estaria se sentando para a performance hot de FulanA!

Que lascada, amigo! Pois vi acontecer. E ficou tudo numa boa. Sem xingamentos, sem “Sai pra lá, s** *****”. Nada disso. Tudo na maior finesse. Afinal, àquela altura, o que nosso freguês haveria de fazer? Deixasse o rapaz de sunga rebolar-se próximo de seu petrificado semblante e… bola pra frente, mermão.

Àquela altura eu ainda explorava o ambiente procurando sobre o que escrever. Tinha acabado de sair do Espaço Voyeur. Na performance para zoiudos, duas meninas partiram logo para uma simulação de posições de sexo lésbico, mas mantendo calcinhas e espartilhos nos seus devidos lugares. Rolaram palmadas, lambidas, a famosa “tesoura”. Depois que você passa pelo Espaço Voyeur e vê um casal se esfregando no chão, se você é meio inocente, ainda se pergunta o que mais poderá acontecer em uma Hot Dance. Ora, Hot Dance pra mim era o que já havia rolado no Espaco Voyeur, pronto, cabou-se, e tava de bom tamanho.

Mas foi justo por ter tanta certeza – ah, que repórter!, pensa meu chefe, que imagino em São Paulo numa cadeira giratória, fumando um charuto, como o editor do Homem Aranha – foi que insisti na minha investigação e entrei na sala da Hot Dance.

Estava completamente vazia.

É que lá embaixo, no palco principal, acontecia um consurso de semi-strip masculina entre membros do público, com “Gangnan Style” arrebentando as caixas de som. Então aqui em cima, na saleta da Hot Dance, eu era mesmo a única cliente. A mocinha que guardava a entrada me disse para deixar a bolsa no chão. Tirei-a do colo e coloquei-a aos meus pés. Alguém apertou o botão numa máquina de fumaça meio mal calibrada e nem deu para encher o ambiente com aquele clima de boate que, eu acho, era a intenção. Soltaram uma música dentro da saleta que conseguiu cobrir “Gangnan Style”, tão alta estava. De repente um sujeito de cabeça raspada, só de sunga, dá um salto de trás de uma divisória de fórmica branca e vem na minha direção, sorrindo e rebolando. Dá pra ver que ele leva esse lance de ir à academia todos os dias e comer claras de ovos muito a sério e que ele conhece um bocado de passos de street dance. Ele demonstra alguns até chegar bem perto de mim a ponto de eu sentir que ele está usando um perfume forte ou algum tipo de óleo e eu descobrir por que a minha bolsa não deveria ficar no meu colo. Ele senta no meu colo, pernas abertas, de frente. Eu sinto que meu rosto está da cor mais quente do arco-íris LGBT. Cinquenta tons de vergonha. Eu não sei o que fazer com as minhas mãos, e ele saca isso hábil, imediatamente, pegando as duas de uma vez só e esfregando-as pelo seu “tanquinho” tatuado e o peitoral. Eu começo a dar uma leve surtada porque eu não vim aqui pra isso, é uma situação esquisita, estou de crachá e não faço uso de ansiolíticos no momento, então para me acalmar eu começo a inventar uma história para o rapaz da sunga. Seu nome é Schlomo e ele está sem cachos no momento porque acaba de escapar de um terrível pogrom, e ele também perdeu suas roupas e seus calçados e está untado em óleo como resultado de… o óleo foi a sua salvação, na verdade, como o Óleo de Lorenzo, e é aí que eu penso nos meus três primos que foram convocados pelo exército israelense e no pai deles que está incomunicável num bunker e eu penso em quem está do outro lado, nas forças que são desiguais entre os dois lados, que este não é o momento mais apropriado para se pensar em Gaza, definitivamente, mas acho que é o que acontece quando fico sob pressão. É justamente quando enxergo Schlomo de sunga em Gaza embaixo dos foguetes que acaba o tempo da Hot Dance, Schlomo se despede de mim com um sorriso e me oferece um cartão.

p.s.: Uma diferença aprendida em minhas andanças de saleta em saleta Expo Rainbow. Go Go Boys não faz strip completo. Stripper põe a coisa toda pra fora. Entendidos?

Schlomo/Sandro

Schlomo se chama Sandro Borges e é um dos top Go Go Boys da cidade. Ele dança há cerca de dez anos e hoje cuida de sua própria empresa de dançarinos eróticos. Estudou Direito, mas largou, depois passou para o marketing. Nunca abandonou a dança erótica. Dá muita grana. Sete casas noturnas enviaram seus “A Games“, os seus garanhões da sensualidade para o concurso de Melhor Go Go Boy da Expo Rainbow e, no final da noite, Schlomo/Sandro venceu os seus seis opontentes. Uh.

Sandro entre os concorrentes

***

Agora, às vacas frias: enquanto nós aqui no Rio, no Brasil, podemos ao menos curtir alguns momentos dessa energia sexual flutuante bacana, e ter festas como a Parada do Orgulho Gay em várias cidades e a Expo Rainbow, na Nigéria está para passar uma Lei chamada “Jail the Gays” (algo como “Gays em Cana”). Isso não está certo, não, violão. Colocar na cadeia o pessoal por conta de sua “orientação” sexual? Olha, se vocês correrem e assinarem a petição que a organização All Out criou para entregar ao presidente da Nigéria, ele vai sacar que o mundo inteiro está de olho na bandalheira anti-humanitária que é essa Lei e ele vai VETAR a maluquice. Então, se você sentir que a liberdade da turma é importante, vai neste link e assina.