Rendas, sedas e mentiras

Já falou na internet com alguém que você pensava que era uma determinada pessoa e, na realidade, era outra? Muito comum, não é? E perigoso. Pode até ser criminoso, por exemplo, se a foto de uma pessoa diferente daquela com quem você lida ou vê na web é utilizada sem a permissão de quem é dono ou dona daquela imagem.

Agora, o que dizer de empresas que se utilizam de um pool de Fakes? Estamos falando de um repertório de identidades falsas na internet, como a de Laís Canção (cuja foto foi encontrada no Google Images assim que foi revelada por internautas como Fake na página de campanha publicitária de uma Marca de roupas femininas) e Daniela Barreto Valadão (cuja foto que representava seu Fake é a da atriz e modelo russa Natalia Vodianova => Veja neste site, dedicado à Vodianova, a foto original da mulher verdadeira).

Existe até um grupo no Facebook onde Fakes misturam-se a figuras influentes e famosas para ganhar credibilidade. No Clube Smiles não há somente “Replicantes”, ou Fakes. A maioria dos perfis parecem verdadeiros. Dentre eles está o do cineasta Tadeu Jungle, gente de verdade, a quem conheço pessoalmente; mas Tadeu se disse surpreso ao saber que fazia parte de tal grupo e me informou por telefone jamais ter pedido para entrar no Clube Smiles nem aceitado qualquer convite, bem como o ator Matheus Nachtergaele boia por lá sem saber como entrou nem por quê. A atriz global Tuna Duek também nunca tinha ouvido falar do Clube Smiles, e não sabia que seu perfil estava associado a ele. Nem o artista plástico Roberto Fabra, que até chegara a aceitar um pedido de amizade no Facebook da belíssima Daniela Barreto Valadão (os Fakes fazem isso também para ganhar credibilidade; “pegam amizade” com algumas pessoas).

Então, se pessoas famosas e algumas influentes sequer sabem que seus perfis integram o Clube Smiles na internet, há que se questionar: será que o “Clube Sorriso” não passa de uma fachada para os Fakes? O grupo hoje tem 929 membros; o membro número 930 era um jovem publicitário, que deletou seu perfil do Clube Smiles na quarta-feira, quando notou que certa movimentação pouco usual estava causando burburinho entre a turma: minhas buscas e telefonemas para alguns membros mais famosos – e reais – do grupo.

A publicidade frequentemente recorre aos Fakes na internet quando precisa incentivar a discussão em torno de algum lançamento novo nas mídias sociais ou apaziguar os ânimos dos consumidores enraivecidos por conta de alguma pisada de bola no marketing.

“Normal”, dirão os fãs de Mad Men e os mais próximos do mundo da publicidade.

Já o público consumidor poderá se sentir traído ao reler diálogos do qual participou no Facebook, por exemplo, pensando estar trocando uma ideia sincera com uma pessoa de verdade quando na realidade recebia apenas respostas calculadas no marketing de Laís Canção, Daniela Barreto Valadão e tantas outras – em um caso bastante recente, que envolve a antes mencionada Marca de roupas femininas. A rede de lojas já havia deixado furiosas mulheres no Brasil inteiro com um comercial de TV em que a consumidora era incentivada a ingerir menos alimentos para agradar aos homens em geral. A campanha foi considerada um estímulo à má alimentação e distúrbios alimentares, como a anorexia, sem falar na bobagem que é sacrificar seu rango só para fazer com que marmanjos que você nunca viu na vida, e nem sequer sabe se são caras bacanas ou babacas, olharem para você com desejo.

O público feminino ficou indignado com o comercial e passou a exigir, na internet, um pedido de desculpas da rede de lojas.

O pedido de desculpas não veio. As mulheres continuaram fulas com a Marca.

Às consumidoras foi oferecido apenas um outro filme publicitário, desta vez postado na página da Marca no Facebook e no Youtube, através do qual a Marca propõe – como teriam feito, provavelmente, os chauvinistas publicitários dos tempos de Mad Men, quando as mulheres eram tratadas como bibelôs e/ou lixo, as salas de reunião eram repletas de fumaça de cigarro e bebia-se uísque antes, durante e depois das reuniões de criação – uma conversinha sobre, entre outras amenidades “moda, estilo, beleza e relacionamento.”

Que grande TERGIVERSADA, hein, mermão?

Digo, chutaram a bola lá pra Netuno.

De incentivo a distúrbios de nutrição e problemas de auto-imagem e auto-estima para “moda” e estilinho… ah, vá.

Quando em Desconstruindo Harry Woody Allen mostrou os setores do inferno destinados às profissões mais, digamos, pecaminosas, estranho que ele não tenha dado destaque aos publicitários. Talvez porque ainda não houvesse uma coisa chamada mídias sociais naquela época.

As respostas das consumidoras ao filmeco foram duras e chegaram rápidas:

1. “‘Ditadura da magreza? Siga-a quem quiser’ Parece que vocês não conseguem – ou fingem que não conseguem – compreender o real significado da palavra ‘ditadura’. Não se ‘segue’ uma ditadura por vontade própria. Você é subjugado por ela sem ter o direito de discordar ou concordar. Ditadura é quando a opinião pública é sumariamente desprezada. E quem discorda é marginalizado.” – Disse uma.

2. “Se a empresa pensa assim por que não reflete isso em suas propagandas que rotulam as mulheres? Por que não oferecem produtos para a diversidade de mulheres? O que não entendo é como uma empresa, resultado dos esforços intelectuais de uma coletividade de pessoas pode ser tão incoerente.” – Afirmou outra.

(…) E por aí seguiram falando. E esta é só uma amostragem do feedback do filme no Youtube, as duas primeiras respostas recebidas. No Facebook as mensagens ultrapassaram milhares. E foram muito mais a fundo na questão. O que exigiu da Marca providências mais, digamos, em um estilo mão-de-ferro.

Foi no Facebook que a PORCA torceu o rabo.

Porcas gordas, magras, de todos os tipos e tamanhos – como a Marca jamais imaginara que havia no mundo.

Foi quando a Marca percebeu que precisava recobrar o controle da situação. Que não poderia deixar centenas de mulheres descendo o pau na rede de lojas justo na página que deveria ser a “fan page”, a página de fãs da Marca. Foi quando inseriu os chamados Fakes, os perfis falsos, entre participantes do debate em sua página do Facebook. Pescou alguns que viviam lá pelo Clube Smiles.

Os perfis falsos tinham as seguintes funções: esvaziar o conteúdo do diálogo e calar reclamações das internautas, publicando uma enxurrada de bobagens que davam um ar tolo à sequência de posts.

Exemplos de como se esvaziar um debate enchendo-o com bobagens (função do Fake):

“Alguém me indica uma manicure na região de Moema?” (…)

“E se a gente fizesse uma guerra de travesseiro?” (…)

“Me parece que tem mta gente desocupada [aqui], procurando pelo em ovo. Ou há mto tempo sem… vc sabe… ‘aquilo'” – ou seja, afirmando que as agora auto-declaradas ex-clientes que gostariam de um debate aberto estariam com falta de sexo. Foi isso que escreveu um dos perfis falsos mais populares, talvez a primeira a ser inserida no grupo, Laís Canção.

Outros Fakes – quando o circo realmente pegava fogo no debate via posts e a mulherada de verdade clamava por um pedido de desculpas público da Marca – entravam para comentar o quão linda era tal blusinha da nova coleção da loja ou baboseira parecida.

Cortinas de fumaça – ou de algodão puro.

Um dos perfis falsos rapidamente descoberto foi o de uma Tatiana Guarnieri  (tatiana.guarnieri; e não a que mantém um perfil no LinkedIn – esta é real), que, prova de que era falsa, desapareceu do Facebook e do Badoo sem deixar rastro. A Fake Laís Canção, criticada pelas internautas por sua postura no debate, foi pelo mesmo caminho, assim que as pessoas que participavam seriamente do fórum da Marca no Facebook revelaram que tratava-se apenas de uma imagem roubada na web, manipulada por redatores publicitários.

Agora, um minutinho pro comercial Legal.

Sobre a utilização de imagens de terceiros, como ocorreu com Laís Canção, Daniela Barreto Valadão e outras empregadas nessa “peça publicitária”:

1. A(s) pessoa(s) por trás dos Fakes poderiam ser enquadradas por estarem se identificando de maneira falsa para o site, a fã page no Facebook da Marca, e para todos os frequentadores da mesma.

2. Criar um perfil falso, de alguém que não existe, apenas para preservar sua identidade na web, não é crime. Mas se o perfil Fake for usado para obter vantagem (o que é o caso da Marca) ou causar dano (novamente, é o caso da Marca), isso é crime de falsa identidade. Usar a foto de um(a) modelo ou qualquer outra pessoa comum em um perfil Fake, com dados inventados, constitui violação do direito de imagem. (Caso da Marca). Só é permitido usar fotos se a pessoa fotografada tiver fornecido autorização por escrito. (Difícil crer que a Marca a tenha obtido da pessoa comum que representava Laís Canção, ou da modelo russa que representava Daniela Barreto Valadão).

3. O direito à imagem é um dos direitos da personalidade previsto pelo Código Civil. Nossa Constituição Federal prevê em seu artigo 5°, Inciso X que são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurando o direito à indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação (…).

Ou seja, não foi apenas o relacionamento com o consumidor e seus direitos (a um pedido de desculpas, por exemplo) que a Marca rompeu com sua desastrosa condução do problema. Mas também a Lei.