Doutora, o escritor ficou preto*!

POR CECILIA GIANNETTI 

“(…) Quase 3/4 dos romances publicados (72,7%) foram escritos por homens; 93,9% dos autores são brancos; o local da narrativa é mesmo a metrópole em 82,6% dos casos. O homem branco é, na maioria das ocorrências, representado como artista ou jornalista, e os negros como bandidos ou contraventores.”

Acima está o panorama da literatura conforme apontado no ensaio “Literatura brasileira contemporânea: um território contestado”, da professora da Universidade de Brasília (UnB) Regina Dalcastagnè, publicado em outubro de 2012. No Morro dos Prazeres, no bairro carioca de Santa Teresa, a primeira edição da Flupp – Festa Literária Internacional das Upps buscou pintar, entre a quinta-feira, 8, e o domingo, 11 de novembro, esse universo literário contemporâneo com diferentes cores.

“A Flupp foi a culminância de um processo que percorreu 14 comunidades populares do Rio de Janeiro e dois batalhões de polícia, além de 7 escolas públicas do entorno do Morro dos Prazeres. Acompanharam-nos ao longo desse processo cerca de 100 autores senão inéditos, desconhecidos da Cidade Literária, a maioria deles com uma expressiva atuação em seus territórios. A maioria dessas pessoas era jovem, do sexo feminino e no mínimo mulata. O resultado desse processo está no livro FLUPP Pensa – 43 novos autores, que lançamos numa noite radiosa dentro da FLUPP, num sarau que reuniu cerca de 300 poetas de uma periferia que inclui lugares inusitados e remotos como Cidade de Deus, Morro da Fé, Vila Aliança, Marechal Hermes, São Gonçalo e Belford Roxo, para citar apenas alguns. À parte o fato de a quase totalidade dos textos terem como ambiente a metrópole, os demais não correspondiam em hipótese alguma aos estereótipos de uma Cidade Literária conformada por uma classe média, ela sim machista e racista, como capturou a pesquisa da Dalgastagnè.”

Acima está a visão do escritor Julio Ludemir desse novo panorama literário que se desenha na cidade. Ele é um dos organizadores da Flupp, junto ao também escritor e pesquisador Ecio Salles, à pesquisadora Heloisa Buarque de Hollanda, ao antropólogo Luiz Eduardo Soares e ao empresário Alexandre Mathias. Lima Barreto foi o escritor homenageado nesta primeira edição da Flupp; não à toa, mulato num país que em sua época recém abolira a escravatura, crítico da República Velha no Brasil, popular por seus escritos em que abordava a vida das camadas mais pobres da sociedade. O artista plástico Gringo Cardia foi o responsável pela programação visual.

Sobre literatura, Ludemir continua:

“Acho que precisamos fazer uma pesquisa que abrange os novos atores sociais que estão querendo eles próprios fazer suas narrativas, falando de um mundo tão novo quanto esse que está emergindo das políticas inclusivas que enfim entraram no cardápio de prioridades dos governos. Certamente Binho, um poeta negro da Vila Aliança de altíssima qualidade e extremamente articulado com o mundo, que graças a uma rara inteligência política conseguiu construir um centro cultural complexo e sofisticado, não corresponde aos dados coletados na pesquisa. Também não é o caso de Zé Luiz, um carteiro do Fogueteiro que escreve belíssimas histórias sobre as comunidades por que passou. Também acho que essa pesquisa não se preocupou com a efervescente cena dos saraus da periferia, quase um vício para esses autores que a oficialidade insiste em ignorar. Há pelo menos um sarau por dia na periferia do Rio de Janeiro. No primeiro sábado de cada mês, em Manguinhos. Na segunda sexta-feira de cada mês em São Gonçalo. Na terceira quinta-feira de cada mês na Cidade de Deus. Etc.”

Heloísa Buarque de Hollanda também mete a colher:

“Tradicionalmemte seria exatamente como a autora [do ensaio “Literatura brasileira contemporânea: um território contestado”] diz. Mas na hora em que a gente levou a voz dessas comunidades para os livros, mudou. Agora o homem branco tá ficando nervoso. Veja a coleção de livros [da editora Aeroplano], por exemplo, a Trama Urbanas. Não tem mais conversa, é urgente tudo isso! O negão já esta bacana. É espaco de anunciante que está em jogo. Veja na TV, a novela “Salve Jorge”. A própria Globo está nesse terreno, ela sabe o que está fazendo… A TV sempre foi formadora de opinião, e esse movimento irá para as editoras também. É um movimento parecido ao marginal nos anos 70, os marginais que ficaram 10 anos sem editora e hoje são questões de vestibular. A coisa da classe hoje passa batido aí, mas a marginalidade existe.”

Para Ludemir, a maior conquista da Flupp foi que, acima de tudo, esforçou-se para incluir todos os atores sociais da cidade e se tornar uma festa democrática.

“Conseguimos falar para um público que vai da Polícia Militar à juventude funkeira. Ao longo do processo de captação de recursos, conseguimos atrair parceiros que vão de grandes empresas estatais aos diversos institutos culturais europeus, como Maison de France e Cervantes, para citar apenas alguns que ignoraram a crise econômica que seus países vivem para trazer expressivos autores para nosso evento. A própria classe média aderiu ao projeto, deslocando-se para o Morro dos Prazeres para participar de debates com personagens que, mais do que ela não esperar o mesmo espaço físico, ela temeu desde sempre. Acho que uma outra conquista da FLUPP foi incluir as favelas no mapa dos grandes eventos culturais do Rio de Janeiro, talvez do Brasil. Suketu Mehta saiu de um encontro que promovemos, em parceria com a FLIP, dizendo que ia organizar uma festa com as mesmas características em Mumbai, que ele insiste em chamar de Bombaim.”

Estive lá na noite em que o Sarau da turma de Cidade de Deus encerrou as atividades da estreia. Uma cantoria só, bem representada na voz potente desta senhora:

[Acima, um pouco da alegria dos cantores que participaram do encerramento da noite de estreia da Flupp]

E o grande momento da Flupp, Ludemir?

“Tivemos vários momentos que vão ficar guardados para sempre na nossa memória. O que a Elisa Lucinda fez no encontro de Vigário Geral foi algo inacreditável, levando toda a plateia reunida no inacreditável centro cultural Waly Salomão, do Afro-Reggae, às lágrimas. Também foi emocionante o depoimento de Teju Cole, um escritor nigeriano radicado em Nova York, quando percebeu a esmagadora presença de pessoas negras na plateia. Na última semana, dois momentos foram antológicos. Um deles, no sarau com o qual celebramos a publicação do livro dos autores da FLUPP Pensa, quando reunimos pelo menos 300 artistas da periferia do Rio de Janeiro para mostrar seus trabalhos. Também considero digno de registro, para dizer o mínimo, a mesa que reuniu Ana Maria Machado e João Ubaldo Ribeiro, durante a qual os imortais da Academia Brasileira de Letras perceberam a presença dos moleques da Batalha do Passinho fazendo anotações para a batalha do conhecimento que criamos em torno da FLUPP para que pudessem se qualificar para a consagradora batalha que promovemos para encerrar a FLUPP, ontem à noite, numa festa que deu alegria ao processo de pacificação em curso no Rio de Janeiro.”

Quem poderia imaginar? Imagine só, Dra. Regina. Imagine.

[*categoria considerada pelo IBGE]