O Nouvelle Gospel vs. o Cinema Espírita

O filme evangélico Três Histórias, um Destino (Destiny Road) estreou em modestos 51 cinemas, durante o feriado de Finados. Ainda assim, bateu no 007, obtendo a melhor média de público do circuito, com fiéis 1.075 espectadores por sala, superior à de Operação Skyfall, com 898 espectadores – que, de acordo com os preceitos do longa gospel em questão, provavelmente arderão no mármore dos infernos por terem optado pelo agente secreto em vez do Senhor.

Não é milagre: as salas de exibição de Três Histórias, um Destino enchem por conta de uma campanha, chamada “1 + 2 = 150 mil vidas!”, que busca reunir no escurinho do cinema os fiéis da Igreja Internacional da Graça de Deus, comandada pelo missionário brasileiro R.R. Soares – autor do best-seller homônimo que deu origem ao longa – e os de outras igrejas evangélicas também. Ou seja: vale tudo e todos. O negócio é pagar o ingresso.

A Graça Filmes é a distribuidora/produtora de Três Histórias, um Destino (a norte-americana Uptone, especializada em filmes cristãos, é a outra produtora envolvida) do filme, parte de um conglomerado integrado ainda pela Graça Editorial e a Graça Music. Haja graça.

Por outro lado – o lado do Além – o cinema de temática espírita no país já é considerado um gênero forte, contando com dez longas, realizados entre 2005 e 2012. E com filmes que deixam os caras do nouvelle gospel no chinelo. Vejamos:

Nosso Lar, cujo espírito pelicular visitou cerca de 400 salas de cinema do país, e seu paraíso de efeitos especiais e alta tecnologia desenvolvidos pela canadense Intelligent Creatures (a mesma responsável pelos efeitos de Watchmen) conquistaram mais de 4 milhões de ingressos; Chico Xavier, seu carisma imensurável e superpoderes mediúnicos – e as sessões de exorcismo que agradaram a fãs de “filme de medo”, como define uma amiga cinéfila minha; as Mães de Chico Xavier e suas histórias do outro mundo – todos estes têm muito mais graça (se me perdoam o trocadilho) do que Três histórias, um Destino.

Três Histórias, um Destino será o primeiro filme evangélico com exibição em mais de 100 salas de cinema do país. Mas por enquanto você pode assisti-lo apenas em Bangu, Barra da Tijuca, Pilares, Del Castilho, Jardim Luz e Vila Isabel.

À porta do cinema do Shopping Iguatemi, em Vila Isabel, não havia multidão às 21h de uma terça-feira. Os poucos que se enfileiravam ali paravam diante da câmera de uma assessora do grupo Graça Filmes, que fotografava quem entrava no cinema, posando com os bilhetes de entrada nas mãos. Mas a assessora não sabia explicar por que a fita, de elenco norte-americano e falado em inglês no original, no Brasil tinha apenas cópias dubladas.

Público do filme posando com seus bilhetes em frente ao cinema

A plateia demonstrou, logo nos trailers, ser fortemente adepta do shhh shhhh quando qualquer ruído humano fora da tela surgia. Fiquei com medo de espirrar e ser exorcizada. Não abri meu pacote de Confetti.

Agora, ao filme:

Ouvem-se riffs de guitarra e as iniciais de R. R. Soares surgem na tela junto a cenas de jovens que se divertem em uma espécie de feirinha, enquanto uma banda de rock faz sua parte no palco. Um sujeito rouba a bolsa de alguém (ele é o gato-gone-wrong da parada).

Corta do rock para uma igreja. Uma outra banda, mais careta, o pastor Frank e sua turma, celebram os recur$o$ recebido$ para o cre$cimento de sua comunidade com palavras bastante conhecidas de quem frequenta encontros gospel. Desculpem, não anotei todas, só a canção traduzida para o português: “Glória, Glória, Aleluia”.

Então, até agora, eu consegui permanecer acordada e temos um pastor e uma congregação vivendo em abundância e uma gatinha distraindo-se com o filho igualmente broto maroto de um cirurgião plástico que já siliconou mais da metade dos peitos da cidade (e por isso, coitado, é meio mal falado). E o broto maroto nem sequer beijou a gatinha, mas estão todos de olho neles. Até sair para comer uma pizza é uma questão complexa para os dois: a gatinha delibera a respeito do convite do rapaz (“pizza ou não pizza?”) com sua voz em um meditativo off.

A menos de 20 minutos de filme já surgiram tantos personagens “do bem” e “do mal” que já estamos confusos com o desfile de clichês que eles arrastam com seus casos particulares.

“Querida, o que você acha que ilumina esta casa? A luz divina?” – diz um dos “do mal”.

Deu pra sacar?

Aí vem o primeiro grande EPA:

“Eu conseguia comungar com todo mundo, especialmente com os líderes de comunidades que assinavam cheques! Pode acreditar, o dinheiro era muito importante!” – afirma o pastor Frank, quando consegue angariar um caminhão de dinheiro para sua obra. (Aliás, atentem à propaganda da Apple nos Mac utilizados por Frank.)

Não há como não sentir certo desconforto com tamanha excitação diante da multiplicação da grana. Está certo, este é o personagem que vai se ferrar por causa de ganância. Mas lembremos: estamos no Brasil, um país repleto de pastores que ganham dinheiro de maneira ilícita, que roubam seus fiéis e tornam-se escândalo por causa disso – quando são apanhados roubando, é claro.

Voltamos ao casal da pizza, John e Elizabeth. Aquele, que queria dar uma voltinha pra comer uma fatia de calabresa, mas a voz em off da garota não deixava. Ela fica de pé diante do rapaz (na pizzaria, finalmente!, a pizzaria. A pizzaria deve ser o motel dos crentes):

“Como você avalia os meus genes?”, pergunta Elizabeth.

“Seus genes são ótimos. Pode sentar-se!”, garante Johnny.

WTF aconteceu nesta cena?!

Tá certo, vamos tentar fingir que isso foi uma tentativa de piada do roteirista.

Enquanto isso, na congregação, o pastor Frank, o ganancioso, começa a investir com um corretor. “Desde que tudo volte para a congregação,” pondera. Sério: Isso não te deixa inquieto?

É esquisito que 80% de um filme evangélico trate obsessivamente de obter cada vez mais grana, roubos, transações escusas e aplicações na bolsa de valores e não de amor ao próximo, perdão, fé, caridade, sei lá, uns anjos voando, essas coisas.

“Mas é claro!”, dirá o bom cristão que se meter a ver o filme, “mostra o roubo, por exemplo, na figura dos dois moleques que escolhem o caminho errado muito cedo, para que depois os personagens sejam castigados!” O que parece uma esperteza do roteiro é apenas um clichê catequista.

Não que não haja clichês nos filmes do “Cinema Espírita”. Apenas parece haver bem menos redenção do que pecados em Três Histórias, um Destino. 

Veja até onde vai o moneyloop do ex-pastor Frank:

“A minha cruzada tinha se tornado por bens materiais”, murmura ele.

A partir daí, dá-lhe cenas de Frank pirando na congregação, fazendo sermões que mais parecem cobranças financeiras executadas por mafiosos para que os fiéis paguem as contas da expansão da congregação. Suas cobranças saem em forma de ameaças agressivas, em que Frank descreve vividamente a morte lenta de seus seguidores entre ferragens de carros etc. em, por exemplo, acidentes automobilísticos como possível castigo de Deus se não derem dinheiro suficiente à igreja.

Isso tudo pareceu bem esquisito. Deve acontecer bastante entre pastores picaretas, dos quais ouvimos falar bastante nos noticiários. É esta proximidade com o real que incomoda.

Na verdade, a esta altura, faz o mais perfeito sentido que um filme evangélico seja 80% a respeito de dinheiro.

Ah, não podia deixar de fora: enquanto Frank alucina na grana, o casal da pizza, agora marido e mulher e grávidos, tem uma briga, que resulta num aborto – com direito à cena de sangue pingando no carpete e a aliança da moça, enquanto ela aborta, caindo no chão junto com as gotas. É o fim. Infelizmente, não do filme.

Porque ainda tem a grande cena da aparição do capeta.

Ah, a aparição do capeta.

Quando o capeta surge na forma de uma milf que tenta dar umas bitocas no agora ex-pastor Frank, mesmo os mais evangélicos dos espectadores gargalharam do efeito especial dos olhos acesos da mulher e do sinal capetístico em brasa no braço da sedutora com voz de auto tune.

Três Histórias, um Destino só será lançado nos Estados Unidos e em outros territórios em 2013. Sorte deles. Tivemos que ver antes.