Como fazer amigos e influenciar pessoas

POR CECILIA GIANNETTI 

Dale Carnegie falou comigo. Quero dizer, mais ou menos. Você vai ver.

Dale Carnegie é o autor de Como fazer amigos e influenciar pessoas. Um clássico da zoação entre quem não leva a sério livros de auto-ajuda, por seu título soar absurdo para a gente descolada capaz de fazer amigos em qualquer lugar do mundo com imensa facilidade. E é um clássico verdadeiro, desde a sua publicação, em 1936, lido e relido e repassado de geração a geração por pessoas que realmente precisam aprender a fazer amigos e influenciar pessoas para viver melhor.

Na realidade, o ensinamento que permeia todas as 304 páginas do livro pode ser resumido em duas palavras:

sorria e respeite.

Com isso, Dale garante, você vai longe.

Não leio auto-ajuda. Escrevo romances, contos, ficção, uma coluna em um jornal. Auto-ajuda não é a minha praia.

Mas há uma passagem de Como fazer amigos e influenciar pessoas que vale ser compartilhada.

Ela aborda o temperamento do escritor Mark Twain e aconselha:

“Se quer tirar mel, não espante a colmeia”:

Mark Twain às vezes perdia a calma e escrevia cartas cujo conteúdo chegava a deixar o papel enrubescido. Para dar um exemplo, certa vez ele escreveu a um homem que o provocara: “Está me solicitando os seus próprios funerais. Eu os providen- ciarei assim que você voltar a abrir a boca contra mim”. Em outra ocasião escreveu a um editor a respeito das tentativas de um revisor de “melhorar minha ortografia e pontuação”. Ele determinou o seguinte: “Doravante encerre essa questão seguindo à risca meus manuscritos e certifique-se de que o revisor conservará as sugestões dele na papa do cérebro deteriorado que só a ele pertence”. 

Mark Twain sentia-se aliviado depois de, tais provocações por carta. As cartas permitiam-lhe desabafar-se e, ademais, não causavam dano real algum, uma vez que a esposa de Mark, secretamente, as retirava dentre a correspondência postal. Assim, jamais chegaram a ser enviadas.”

Pensei em disponibilizar aqui uma seleção de citações para aqueles que sempre tiveram curiosidade de saber o que há dentro deste que é um dos best-sellers mais ridicularizados de todos os tempos.

Mas Dale Carnegie me ensinou que a escolha mais esperta para agradar você, leitor, é colar aqui um vídeo cômico, bem louco – que reúne cenas do filme Inception e desenhos animados antigos -, e revela alguns dos princípios contidos no livro:

Dale Carnegie falou comigo através de uma efeméride.

(Ou talvez à maneira que um psicótico imagina que uma figura pública pode estar dirigindo-se a ele.)

Dale falou comigo através de uma coincidência.

Geralmente escolho os temas das minhas colunas pouco antes de dormir, varando a web, ou simplesmente fechando os olhos e imaginando sobre o que eu gostaria de escrever no dia seguinte. Ou pela manhã, a partir das 7h, quando algum fato se destaca no noticiário ou fora dele (fora dele = antes que apareça no noticiário).

Ontem, na minha hora de dormir, dei uma olhada em meu exemplar de Como fazer amigos e influenciar pessoas, que adquiri num sebo há muito tempo como uma espécie de troféu irônico para servir de ornamento à minha biblioteca particular. Pensei na nova encarnação desse livro, que vi ontem nas prateleira de uma livraria de shopping: Como fazer amigos e influenciar pessoas na era digital. Decidi então que a coluna deste 1 de novembro seria dedicada a Dale Carnegie e à evolução de seu livro mais conhecido pelo público, focado nas relações da era da internet e mídias sociais.

Não pude deixar de ver graça na coincidência ao descobrir que Dale Carnegie morreu em 1 de novembro, há 57 anos.

***

Tá bom, ele não falou  comigo. Na verdade ele falou com muita gente.

Carnegie nasceu nos Estados Unidos em 1888, em uma fazendo em Maryville, Missouri, filho de agricultores bem pobrinhos. Sua rotina de trabalho na roça começava ao despertar às 4h da madrugada para ordenhar as vacas, e dali seguia para o State Teacher’s College. Seu primeiro emprego após concluir os estudos básicos provavelmente o influenciou na carreira que escolheria – ou que o escolheu: foi vendedor de cursos por correspondência. Se Dale conseguia convencer pessoas a comprar cursos por correspondência, certamente estava credenciado a convencê-las em um futuro próximo a pagar para assistir aos seus workshops de aperfeiçoamento pessoal.

Juntou uma grana e entrou para a American Academy of Dramatic Arts in New York, mas não se deu bem como ator; ao menos não no cinema nem na TV. No palco de suas palestras, provaria dominar a arte dramática como ninguém. Antes disso, encarou a maior pindaíba vivendo nas instalações da YMCA da 125th Street, em NY. Mas teve um brilho de esperteza no momento certo: convenceu o gerente da espelunca a permitir que ele oferecesse ali uma palestra motivacional para a galera. Carta branca recebida, encheu de perdedores uma sala e, quando não tinha mais o que dizer a eles, pediu que cada um dos ouvintes se levantasse e falasse sobre algo que os deixava fulos da vida.

Foi o pulo do gato. Percebeu que, ao falarem sobre coisas que os transtornavam, os alunos tornavam-se, naquele momento, mais desenvoltos.

Dessa maneira Dale descobriu “O” ponto fraco pronto do ser humano a ser explorado por seus talentos de oratória, e teve a ideia de oferecer – em troca de uns bons caraminguás – dicas sobre como conquistar o que lhes faltava: auto-confiança.

Em 1912, lançou o seu Curso Dale Carnegie. Dois anos depois do estalo brilhante, Dale já estava faturando com palestras o que hoje seria o equivalente a R$ 20 mil por semana. E em 2012, mesmo 57 anos após sua morte, uma companhia que leva seu nome continua ganhando muito dinheiro com produtos e cursos.

Um dos workshops mais procurados atualmente é um programa de três dias de aulas intensivas para ajudar adolescentes a enfrentar melhor um mundo “saturado de informação de tecnologia”. O conteúdo do curso divide-se em Construção de auto-confiança; Melhoria das habilidades de comunicação; Desenvolvimento de Habilidades Interpessoais; Trabalho em equipe e habilidades de liderança; Controle Eficaz de Atitude.

empresa Dale Carnegie está alive and kicking, fazendo rios de dinheiro com a insegurança das pessoas e, quem sabe? talvez até alguns inseguros consigam aprender com seus métodos a lidar melhor com o mundo.