Hipnose e êxtase do amor aeróbico

POR CECILIA GIANNETTI

Uma fatia considerável de público feminino semanalmente segue em romaria à Rua do Mercado, no Centro do Rio de Janeiro, em busca de êxtase e hipnose. Expediente secreto de mulheres enérgicas para fugir da rotina embaçada.

Camille Paglia afirma – e eu apenas digo que talveza objetificação sexual seja caracteristicamente humana.

“Não há nada de degradante na exibição de qualquer parte do corpo humano,” Paglia escreve, em “Vampes e Vadias”.

Dito isto: o que dançarinos eróticos de corpos perfeitos fazem nesta casa da Rua do Mercado parece ao seu público feminino nada menos do que fascinante.

Se tantas mulheres correm para fazer aulas de pole dancing para agradar os maridos, ora, talvez o que estas moças estejam procurando aqui, com estes go go boys embrulhados e desembrulhados para presente para elas, seja o que seus homens ainda não arriscaram fazer em casa (vejam bem os movimentos, nada práticos). Ou talvez sejam mais modestas que os maridos das novas pole-dancers-domésticas e apenas queiram tomar parte da fantasia por alguns minutos, tocá-la, ser tocada por ela.

Quem tem problemas são os que se sentem embaraçados pela dança erótica: suas respostas naturais foram mutiladas pela ideologia, religiosa ou feminista. A antiga Igreja católica proibiu a dança por causa de suas associações pagãs e seu evidente encitamento à luxúria,” escreveu, ainda, Paglia.

Ora, ninguém mais dá ouvidos à antiga Camille, talvez com razão, mas acho que ela deu bola dentro sobre objetificação sexual e essa bola ainda quica e me acertou a cabeça enquanto eu assistia ao ritual pagão ao qual essas mulheres todas são atraídas semanalmente neste lugar.

Nesta boate a música privilegiada é o funk carioca. Mas em suas cabeças as mulheres parecem ouvir outro ritmo. Baladas de amor rasgadas. Cabeça de mulher. Carne de homem.

Os lapdances da Expo Rainbow, conforme aprendi na semana passada e lhes contei aqui, parecem inocentes perto do que os rapazes e as moças consensualmente fazem em cima do palco deste clube. E quando os dançarinos descem pra galera, na pista, rola até beijo na boca e encoxada na parede.

[Uma rápida viagem ao nosso caderninho de terminologia: go-go é termo que origina-se da frase anglófona go-go-go, que por sua vez remete à pessoa enérgica, empolgada; influenciado pela expressão francesa à gogo, que quer dizer “em abundância “, vindo do francês antigo la gogue; “felicidade, alegria”.]

Então, voltando às feministas, estava tudo muito alegre no mundo de conto de fadas de Paglia quando chegou Susan Sontag e nos disse bravamente que:

“Em última análise, a pornografia na realidade é a respeito de morte, e não de sexo.”

Para animar qualquer festa, disque Sontag-08000-DEATH. Mas, diabos, ela está certa. Toda esta carne de gente morta apodrecida em fotogramas, basta ver o Pinterest do Studio 54, aquele Templo da Beleza, da Riqueza, da Fama, da Dança e do Sexo (Ah, esqueci das Drogas) e quase todos eles lindos e mortos, exceto os Rolling Stones, é claro, eles nunca vão morrer.

Cansaço: go go boys nitidamente esfolados pelas moças na boate da Rua do Mercado

Outra boa da Sontag, que se enquadra na atual composição dos corpos malhados e talhados que vemos dançando sobre o palco e fora dele nesta noite, nesta boate da Rua do Mercado, refere-se à produção dos pintores e escultores sob o regime nazista. Uma comparação interessante com nossos tempos:

“Eles frequentemente retratavam o nu, mas eram proibidos de mostrar qualquer imperfeição do corpo. Seus nus pareciam fotografias de revistas de culto ao corpo: pinups que eram tão beatificamente assexuados (e, de uma maneira técnica) pornográficos, por terem a perfeição de uma fantasia.”

Essa é a real. A perfeição da performance de um fazer amor aeróbico, de academia de ginástica. Mas que sem dúvida excita. Não vi mulher alguma de cara amarrada. Todas desgrenhadas, rosto corado. Provavelmente chegaram em casa de fogo e de bem com a vida. Se homem têm na cama, o acordaram. Graças aos moços. Semana que vem estarão todas lá de novo. Pode apostar.

Em legítima defesa

Esta é uma conversa que tive com Joshua Tartakovsky, em que retirei minha voz para deixar que somente ele falasse. Ele tem muito o que dizer.

Eu cresci em Jerusalém. Meus avós não são religiosos. Mas minha mãe e meu padrasto, em Jerusalém, eram muito, muito religiosos. E bastante de direita. Eu abandonei a religião aos 14. E me tornei o típico cara pró-Israel. Eu queria servir ao exército de Israel. Cresci acreditando que por todos aqueles anos os soldados israelenses vinham arriscando suas vidas pela minha. Eu acreditava que no serviço militar eu protegeria meu país. Sentia que tinha o dever moral de servir ao exército israelense porque assim eu poderia impedir bombardeios suicidas e o terrorismo, da mesma maneira que outros soldados haviam me protegido e a minha gente.

Meu treinamento foi difícil mas ocorreu tudo ok. Fui treinado para atuar como médico (seis meses de treino) e soldado de infantaria (quatro meses). Eu obtive algo de positivo disso, no sentido de que aprendi a acreditar em minha força de vontade, me exercitar bastante, ficar em forma, sobreviver em condições adversas. Mas o serviço militar na realidade tratava-se realmente de controlar, acossar e cometer abusos contra a população civil palestina. Quer dizer, se você estivesse em Ramallah, almoçando calmamente em um restaurante, um veículo cheio de soldados israelenses estacionava, do nada, tipo, bum!, os soldados saltavam do veículo e entravam no restaurante para acossar os palestinos que estavam ali, em paz.

No começo sofri uma lavagem cerebral mas depois percebi que o nosso objetivo era impor uma punição coletiva sobre um povo inteiro sem qualquer motivo.

Quando eu era um soldado na unidade Netzah Yehuda Battalion em missões de ocupação percebi que o que Israel estava fazendo era apenas aterrorizar a população civil palestina por nenhum outro motivo senão que queriam que eles abandonassem aquele lugar. Vou te dar outro exemplo: invadíamos as casas de pessoas comuns e fazíamos buscas sem qualquer motivo.

Vivi situações duras nesse período, mas por sorte não tenho sangue em minhas mãos, não cheguei a matar ninguém.

A verdade é que quando eu estava no exército eu não cheguei a fazer nada contra as injustiças que presenciei. Quero dizer, eu era gentil com os palestinos, mas eu não lutava contra aquele sistema, eu não abandonei o exército: eu pensava que era melhor ter alguém como eu ali naquele lugar do que qualquer outro, porque os outros seriam muito mais brutais.

Percebi que o simples fato de fazer parte daquilo era um crime.

Ainda levei alguns anos para tornar-me um opositor. Ainda faltava-me coragem. Por algum tempo pensei que assim seria um bom cidadão e ajudaria meu país. Eu ainda acreditava na mídia israelense. Eu não sabia realmente como eram as coisas no resto da Cisjordânia. Eu pensava, “é, as coisas aqui não estão muito boas, mas em outras partes dos territórios ocupados devem estar melhores.”

Quando eu estava servindo, na ocupação (durante um ano), as ordens diárias eram que parássemos todos os carros que passassem, revistar e abusar do nosso poder com os palestinos; e também mandavam colocar as mulheres em fila, revistá-las, zombar delas. Se alguém reclamasse, ficava preso por seis horas, com as mãos e as pernas presas, sem água.

Davam-nos ordens para prender as pessoas em algumas ocasiões, mas nós realmente não sabíamos de que eram culpadas. Eu ficava do entorno, não no que liderava essas prisões. Obtínhamos uma ordem para ir a uma casa em uma aldeia a poucos quilômetros de distância, juntavam muitos soldados e eles cercavam a casa, e então o suspeito de seja lá o que fosse entregava-se.

Nosso objetivo não era apenas impedir as pessoas de ter acesso aos seus campos agrícolas, mas que também eram dadas essas ordens para prende-las as em suas casas no meio da noite. E eles poderiam ser torturado depois. E 3 meses poderiam se passar antes que pudessem ver um juiz.

A mídia mainstream apresenta o conflito atual, e o bombardeamento de Gaza, como se houvesse dois lados. O que temos é apenas um lado, Israel, ocupando o outro. Não é como ambos os lados se invadissem. Hoje eu sei disso. É Israel que ocupa um território na Palestina, destroi suas casas, mata as cabras e galinhas que é tudo o que aquele povo tem para sobreviver, tira sua água – há o “Apartheid de água”, que é o sistema pelo qual Israel impede o acesso dos palestinos à água enquanto há piscinas em alguns assentamentos -, prendem pessoas sem um julgamento. E os palestinos sequer têm o direito de fazer protestos. É proibido.

Se fazem um protesto contra a ocupação, os soldados israelenses atiram contra os manifestantes com balas de borracha, jogam gás lacrimogêneo, e os espancam e há gente que morre nesses protestos. Mantêm eles presos em condições desumanas atrás do Muro. Eles têm vivido em condições inviáveis, eu teria enlouquecido se vivesse ali.

É isto o que as pessoas no mundo parecem não compreender: Israel e Palestina não são duas forças iguais.

O que abriu os meu olhos foi

Aos 22 anos fui para os Estados Unidos estudar Relações Internacionais na Brown University, onde permaneci por três anos, depois fiz um ano em Oxford, e então Mestrado na London School of Economics. Nos países estrangeiros, eu ainda era, no começo, bastante pró-Israel, até que me dei conta de que não interessa qual a sua religião ou a sua nacionalidade, você é um ser humano. Eu sabia disso antes mas meu senso de identificação então se deslocou de Israel para o mundo. Eu era um nacionalista e passei a ser um humanista.

Eu havia sido criado para acreditar que o mundo inteiro odeia judeus. Que o mundo inteiro odeia Israel. E que somente Israel pode proteger os judeus. Mas visitei vários lugares do mundo e quase nunca encontrei antissemitismo. Levei anos para me livrar dessa paranoia e perceber que é Israel que trata a Palestina desse jeito.

O “Traidor”

A sociedade israelense é muito preconceituosa. Eu fui criado para pensar que os palestinos são gente ruim, uma sub-raça na verdade, e que todos eles odeiam os judeus.

No ano passado fui para Israel/Palestina por duas semanas em setembro e, em seguida, visitei em Ramallah um amigo palestino-americano que eu havia conhecido nos Estados Unidos. Então eu decidi retornar a Israel/Palestina em dezembro pois eu já queria me envolver politicamente, a situação lá havia me perturbado. Em setembro de 2011 visitei pela primeira vez a cidade palestina de Ramallah. As pessoas lá foram bastante receptivas, passearam comigo por toda a parte, cuidaram bem de mim – apesar de ser ilegal um judeu ir até lá, pois houve alguns poucos casos de soldados desarmados que foram mortos em Ramallah. Mas eu fui de qualquer maneira. É muito mais liberal lá do que se imagina, há cafés, clubes, djs, cerveja, diversão.

No começo de 2012 eu fui até esta aldeia, Al Wallajah, onde estão construindo um Muro ao redor agora. As pessoas lá foram muito legais comigo. Por isso entrei com eles em um protesto contra a construção do Muro. Os israelenses começaram a nos atacar antes mesmo de protestarmos. Não foi justo, estávamos encurralados. Antes de descermos para a rua, estávamos apenas segurando cartazes na montanha, e os soldados israelenses partiram para cima de nós, nos empurrando e humilhando os palestinos.

Eu disse a um guarda que um dia ele iria se arrepender do que estava fazendo. E ele retrucou, em tom agressivo: “Você está me ameaçando?”. Eu respondi: “Vai se arrepender em seu coração.”

E aí eles me levaram preso. Eles nos deram cinco minutos para sair, mas como eu sabia que não fizera nada de errado e nós apenas queríamos protestar, e depois de ter visto um palestino recusar-se a sair, eu decidi não que não iria sair também, não importava mais o quê. Então eles vieram e me arrastaram para longe. Quando me prenderam, eles mentiram aos superiores deles dizendo que eu havia gritado que “um dia eles iriam pagar pelo que haviam feito”, como se eu os tivesse ameaçado. Eles ainda caçaram um outro manifestante israelense e o prenderam também, ainda que o homem não tivesse feito nada.

Eles odeiam ver palestinos e israelenses protestando juntos.

Joshua: prisão em Al-Wallajah

Eles me prenderam e mais três outras pessoas por seis horas seguidas no porão de uma base militar. Os advogados tiveram que brigar bastante, nós tivemos que ver um juiz. Se eu fosse palestino, teria sido torturado. Torturam palestinos o tempo todo.

Acima, a construção do Muro cercando a Palestina, comparado ao Muro de Berlim

Fiz um curso na Universidade Hebraica por duas semanas em dezembro de 2011. As aulas eram lecionadas por James Green (especializado em História e Estudos de Cultura Brasileira), e eu optei por sentar-me no lado “destinado” (os israelenses os separam assim) aos alunos palestinos, e não no lado onde ficam os alunos israelenses, porque havia notado aquilo, que muitos israelenses tratam os palestinos como gente invisível. Foi quando comecei a falar com eles.

Fiquei chocado com a maneira como os alunos israelenses tratam os alunos palestinos: os israelenses se sentam de um lado da classe e os palestinos do outro, e os israelenses, quando simplesmente não falam com eles, zombam deles. Mas eu fiz bons amigos na classe entre os palestinos, conheci gente muito boa, divertida, secular. Como Aida Khaled Saifi.

“Primeiro eu suspeitei da posição dele e de tudo o mais,” afirma Aida. “Em seguida, depois de conversar com ele e sairmos várias vezes, eu percebi que ele não era um típico israelense, no sentido de que ele não ia tentar me convencer de que o caminho dele é que era o certo e não o meu. Ao contrário, ele queria aprender e conhecer mais sobre os palestinos. Na verdade, ele já conhecia bastante a respeito da situação e aquilo me surpreendeu. A Universidade Hebraica de Jerusalém é o destino de tantos ex-soldados israelenses, quase todos eles rudes … eles acham que mesmo ali têm de nos impôr o tempo todo as quatro ou cinco palavras árabes que aprenderam nos postos de controle militares e de combate, como “parar / ir / andar”, de forma que essas terminologias não tem qualquer motivação inocente. Eles não iniciam qualquer outra forma de contato com os árabes, a menos que seja com base política e para tentar nos mostrar como as coisas devem ser feitas.”

“Se Joshua não tivesse sido tão sincero e persistente eu não teria pensado em estabelecer uma amizade sólida com ele. Apresentei-o a alguns dos meus amigos. Também fomos a Ramallah juntos… ele também foi a minha festa de aniversário! Era o único israelense entre cerca de 40 palestinos. Ele é corajoso. Ele não tem preconceito,” conta a Aida, que vive em Beit Hanina, na parte leste ocupada de Jeursalém.

Joshua com Aida, em seu aniversário

Rocinha, a prima da Palestina

Me chocou a maneira como eles viviam nos territórios palestinos que visitei. A maioria dos olhos israelenses civis jamais veem o que se passa nesses territórios, pois sua presença é proibida. Foi quando percebi que a situação nas favelas brasileiras e nos territórios palestinos é bastante similar de certa maneira. [“Really cute kids”, lembra. Joshua deu aulas de inglês como voluntário na favela da Rocinha durante cerca de um ano, em uma de suas estadas no Brasil, país que adora]. Nas favelas os moradores todos são estigmatizados por causa dos traficantes de drogas. A maioria das pessoas são gente muito boa, eles só querem trabalhar. Mas são todos negligenciados por conta do estigma. O mesmo ocorre na Palestina: todos os palestinos são vistos como gente ruim. Porque alguns poucos pertenciam a grupos de resistência à ocupação israelense. E todos são mal vistos por isso hoje, apesar de, de acordo com a lei internacional, os palestinos terem direito e resistir a uma ocupação armada.

E o que estão fazendo hoje na Palestina é uma limpeza étnica.

A milícia terrorista judaica de 1948

E Israel mesma foi fundada pelo terrorismo. Em 1948. A maior parte das pessoas não sabe disso, eu também era ignorante. Havia milícias judaicas durante o controle britânico que atiravam em civis, colocavam bombas em embaixadas e cinemas, colocaram uma bomba no Hotel King David. Mas agora quando os palestinos usam terrorismo, os israelenses dizem que é errado. E os palestinos não têm marinha, não têm força aérea… eles têm alguns foguetes que conseguiram do Irã. E o motivo de haver bombas sobre Gaza hoje é que os Estados Unidos dão 3 bilhões de dólares por ano a Israel.

Sitiados

As pessoas em Gaza estão vivendo sob um cerco já há alguns anos, um bloqueio. Qualquer pessoa que se aproximar do Muro leva tiros, mesmo a alguns quilômetros de distância. Israel controla tudo o que entra em Gaza, então não há medicamentos suficientes, não há comida suficiente.

Há 1.7 milhões de pessoas presas em Gaza, elas não podem sair desse gueto e estão sendo bombardeadas por F-16 de Israel em pequenas áreas, com crianças sendo atingidas o tempo todo.

Pelo menos 150 pessoas e 42 duas crianças morreram apenas nos últimos sete dias.

A Palestina Liberal

Por muitos anos eu acreditei que quando os sionistas haviam vindo para a Palestina, queriam apenas viver em paz e ter um Estado naquela terra vazia. E que então os árabes começaram uma guerra com eles pois não os queriam lá. Então era por isso que Israel sempre tinha que se defender. Mas a verdade é que Israel chegou a uma terra já habitada pelos palestinos, aquela era a casa dos palestinos, eles já tinham ali uma cultura muito rica. Hoje o Hamas é apontado como o Islã radical, muçulmanos radicais, perigosos. E na verdade antes de 1948 a Palestina era a terra mais liberal, a que oferecia a melhor educação, a mais progressiva, a que lia mais, com mais direitos para as mulheres, mais secular do que qualquer outro lugar no Oriente Médio. Eles eram muçulmanos e cristãos.

Cisjordânia hoje

Israel confisca água dos palestinos, e após confisca-la, faz com que paguem três ou cinco vezes mais por ela; eles vivem sob violento controle militar; podem ser presos e colocados na cadeia aleatoriamente por semanas sem direito a um julgamento. Podem prende-los por até três meses sem sequer coloca-los diante de um juiz, sem julgamento, pois esta é uma lei colonial inglesa, que eles ainda praticam. As prisões acontecem todos os dias. Israel vai a diferentes aldeias na Cisjordânia todos os dias e todas as noites e simplesmente leva pessoas para a prisão.

Às vezes permitem que colonos israelenses construam. Mas na maior parte do tempo eles destroem casas pois afirmam que os palestinos não possuem licença para construi-las. Os palestinos não possuem licença para construir suas casas simplesmente porque Israel não as concede aos palestinos. Aos colonos, a licença é concedida. Os colonos podem ir a ruas onde os palestinos não podem.

Os palestinos estão presos a guetos.

O governo israelense subsidia e paga para os assentamentos e constrói novas casas lá e lhes dá água barata, enquanto que na Palestina, o governo obviamente não só não subsidia a área, mas destrói casas, faz suas vidas miseráveis, afasta-os de seus campos agrícolas e ainda constrói o Muro em torno deles.

Como precedentes históricos de tudo isso, vejo que é pior do que o apartheid na África do Sul, vejo Sérvia com a Bósnia e Kosovo. E vejo o sionismo como um movimento colonialista.

Alguns dados: mais de 18 mil casas palestinas foram demolidas pela Defesa de Israel (IDF) desde 1967. Mais de 4 dessas casas foram demolidas após setembro de 2000. De setembro de 2000 até 2004, mais de 2.500 casas foram demolidas em Gaza; 1.600 delas estavam localizados em Rafah, uma faixa de 2,5 milhas de terra ao longo da fronteira sul de Gaza. O governo israelense constroi poucas casas por causa da pressão internacional, mas mesmo durante os anos de Oslo e Rabin Yitschac nunca houve um momento em que Israel parou a construção de novos assentamentos na região. E agora a opção de ter dois Estados é impossível, pois 500 mil colonos vivem nos territórios ocupados.

Boicote a Israel

O Boicote Israel é um movimento de mídia global, por meio de mídias sociais centralizado no website BDSMOVEMENT.net. A ideia é convencer o mundo a boicotar os produtos israelenses e convencer artistas a não levar suas turnês a Israel, por exemplo. Alanis Morissette tem show marcado para dezembro em Israel, e há uma campanha forte para que ela não vá. Apesar de a cantora ter mandado retirar o vídeo da campanha do Youtube, ele ainda pode ser visto graças ao site do BDSMOVEMENT.net.

Roger Waters, do Pink Floyd, apoia o Boicote a Israel.

Ramallah cercada

“Está tudo ocupado por sionistas. Fica muito difícil para os palestinos,” explica Rabah Khalil, de 25 anos, um brasileiro de Cruz Alta Rio Grande do Sul, naturalizado palestino em 2010, que vive em Ramallah e trabalha em uma companhia de telecomunicação chamada Wataniya na Palestina.

“O Muro dividiu todas as cidades entre as terras de 1967 em uma grande prisão, entre cada cidade tem checkpoints e militares, judeus, colonos grande áreas de terras foram robadas pelos sionistas. Se eu quero sair em Ramallah para sentar-me com alguns amigos e conversar, nós não temos muitas opções, nós não podemos ir a Jerusalém. E a praia, mesmo o Mar Morto, que é em Jericó, é controlado pela Ocupação. Há checkpoints israelitas em toda parte, não se pode evita-los.”

Em situações de perigo, como em Gaza, recentemente, “Ele fecham tudo, todas as estradas para todos os lugares, como parte da humilhação ao povo palestino. A única coisa que podemos fazer em Ramallah é protestar, mas basta sair um pouquinho da cidade que as forças terroristas de Israel começam a prender e lutar contra os manifestantes – o que em Gaza não é possível.”

Família de Joshua

Hoje moro na Califórnia. Não falo muito com minha família. Não falamos sobre o assunto porque se falarmos, acabamos brigando. Eles estão em Jerusalém. Alguns membros moram nos Estados Unidos, como minha mãe e seu marido. Eles não entendem o que eu faço, meu ativismo, minhas ideias. Porque eles são muito nacionalistas e eles acham que todos os árabes odeiam os judeus. Eles me amam mas é difícil. Mas quanto mais você sabe e vê, mais você precisa agir, se você não quiser morrer por dentro.

* COM AGRADECIMENTOS A JULIANA FAUSTO

“The pioneers of a warless world, are the young men [and women] who refuse military service.” -Albert Einstein

Vibradores e dominadores: os velhos e os novos modelos

Ao longo de décadas o homem dedicou à mulher duas invenções que nos pedem atenção extra: uma, foi criada para restringir as petulantes tentativas de avanços femininos para além dos domínios do lar. A outra, para massagear as vulvas das senhoras.

Tremoussoir, tido como o primeiro vibrador do mundo. Circa 1734.

Mais de um século depois de difundidas – e, no caso de uma delas, rejeitada pela medicina -, ambas persistem na sociedade, aprimoradas à sua maneira para que melhor sobrevivam aos novos tempos. E é curioso ainda que uma tenha sido inventada em decorrência da outra.

É um pouco do que mostra o filme Histeria (2011), em cartaz nos cinemas brasileiros. De acordo com as crendices (bastante favoráveis ao isolamento sócio-político da mulher naqueles tempos) durante o século 19, as manifestações de “histeria feminina” decorriam de “útero hiperativo” – por vezes de um útero que, de tão hiperativo, “saía do lugar”.

¬¬

De acordo com o mentor do jovem médico Joseph Mortimer Granville (Mortimer de fato existiu) metade das mulheres em Londres sofriam de histeria. Tratava-se de uma epidemia, então. E as feministas, principalmente elas, estavam incluídas neste diagnóstico-“roubada”. “Roubada” porque o tratamento aplicado em suas manifestações mais graves era a internação e a cirurgia (histerectomia, a retirada do útero). Em suas manifestações menos drásticas, como a “ninfomania, a frigidez, a ninfomania e a ninfomania” (sic), havia o tratamento em consultório: a masturbação da mulher feita pelos prestimosos médicos. “it’s tedious, tiring work“. (“É um trabalho tedioso, cansativo,” afirma o mais velho ao apresentar a Mortimer a prática no começo de “Histeria”).

Imagine você, rapaz-leitor, se “descobrissem” de repente uma suposta doença mutcho loca, que afligisse apenas homens, e cuja fonte de todos os seus sintomas e males e manifestações psicológicas preocupantes fosse o bilau? O seu bilau. E, para devolver o senhor rapaz-leitor novamente são à sociedade, a única solução fosse… snip-snip, eliminar as suas partes? Aí seria mau negócio, não?

Outros tratamentos indicados a mulheres histéricas limitavam-se a banhos mornos, banhos frios, jatos de água fortes (direcionados à vulva, como você pode ver na ilustração abaixo), hipnose, andar a cavalo (você sabe, pra dar aquele sacode na menina).

“Ducha Pélvica”, famoso jato na virilha

Manipulator, um dos primeiros vibradores do mundo, máquina “de cutucar” criada pelo médico norte-americano George Taylor

Ao masturbar as mulheres e levá-las ao orgasmo, o médico-gato do filme, o dr. Mortimer – e da história real na qual se baseia o mesmo – acreditava estar apenas recolocando o útero em seu devido lugar, para assim aliviar a maluquice da mulherada. O que ele estava fazendo, na realidade, era dando aquela comparecida extraconjugal que o ex-marido (falecido) ou marido vivo (mas ausente, que se fingia de morto) não dava na cama com a sujeita. Ou dava mal dado.

E mesmo com todas as reações fortemente orgásticas – como a de uma velha senhora que quase põe abaixo a cama-maca e todo o aparato em torno, aos gritos, em determinada cena do filme – demonstradas pelas mulheres durante as massagens vaginais, os especialistas em “histeria feminina” pensavam ainda que o órgão genital feminino era incapaz de sentir qualquer sensação de prazer sem penetração pelo órgão sexual masculino.

No longa, é quando o dr. Mortimer começa a sofrer de terríveis cãimbras e enrijecimento dos músculos que surge uma alternativa para tanto trabalho manual: seu benfeitor, um homem rico que pagara por seus estudos e não tem mais o que fazer a não ser gastar dinheiro com toda e qualquer invenção que envolva o uso de eletricidade, lhe provê o protótipo perfeito daquilo que irá se tornará O Vibrador. Um marco histórico glorioso para muitas mulheres. E homens. E que está aí até hoje, dando aquela força para quem dele necessita.

Parece uma furadeira antiga, mas é um vibrador velho. Bem velho.

“Vibration is life!” Os vibradores eram vendidos em catálogos e anunciados em revistas femininas

Mas o que aconteceu ao diagnóstico de “histeria feminina”?

Ah, isso é mais complicado e exige uma resposta que o filme não dá todinha, não.

A “histeria feminina” de séculos atrás não passava de uma ficção da medicina (Sabe como quando hoje em dia você vai ao médico e tudo, absolutamente tudo é “virose”? Com a diferença de que naquela época havia o mais forte sexismo reinando), que não sabia o que dizer dos “sintomas” que apresentavam as mulheres insatisfeitas em seus casamentos forçados e seu lugar limitado na sociedade. Uma cena de “Histeria” define bem a situação de uma mulher de ideias avançadas lidando com as muralhas da época:

A personagem de Maggie Gyllenhaal sai de um aposento da clínica médica onde Mortimer trabalha pisando firme e bufando, dirigindo-se ao médico-chefe:

“Você não tem ideia dos desejos ou necessidades de uma mulher mais do que conhece a atmosfera lunar. (…) Às mulheres não será mais negado o seu lugar de direito. Tente o quanto quiser manter-nos na cozinha ou na sala de visitas. Nós não descansaremos até que sejamos bem-vindas nas universidades, nas profissões e nas cabines de voto.”

É a primeira vez que Mortimer a vê, e diz, alarmado: “Aquela mulher estava…” E o velho médico, seu patrão, completa: “histérica”.

O diagnóstico médico oficial de “histeria feminina” enganou trouxa (melhor dizendo: forçou sua ditadura) até 1952 – quer dizer, ONTEM.

Os resquícios daquele pensamento estão vivos até hoje. Bem vivos. Palpáveis.

Algumas coisas não mudaram muito de lá para cá.

Hoje ainda somos chamadas de histéricas, com sinônimos variáveis, pós-modernos:

1. “Exagero dela…”;

2. “Tá naqueles dias”;

3. “Tá com falta de p*** etc, por exemplo:

ao reclamar de textos com conteúdo que incitam violência contra a mulher, conforme ocorreu após coluna publicada aqui neste site, contra conteúdo do blog Testosterona; ou de propagandas machistas na internet.

Também temos modelos mais modernos de vibradores. Os vibradores acompanharam a mudança dos tempos.

Vejam o Rabbit, por exemplo, que surgiu em meados da década de 1980.

Coelhinho de plástico, que trazes pra mim?

Eles não podem mais mandar arrancar nossos úteros para curar a “histeria feminina”. Utilizam outros métodos cirúrgicos, sócio-cirúrgicos. Um deles vem sendo empregado com a destreza de qualquer “cirurgião plástico” da Lapa que cobre 500 reais por aplicação de silicone em travestis e já foi amplamente explorado em artigos como o de Lily Rothman (Time Magazine, Slate.com, The Atlantic), autora de “A História Cultural do Mansplaining“. E que eu resumi em algumas poucas palavras:

O termo “Mansplainer“, ou, na minha livre tradução, homexplicador, é tão popular que até no Urban Dictionary já figura.

É um jeito complacente de falar, através do qual certos homens obtêm a alquimia perfeita entre condescendência e ignorância, levando a explicações ministradas com a mais sólida convicção de que somente eles estão corretos, e tal certeza vem do fato de eles corresponderem ao elemento masculino na conversa. Ou: Explicar com condescendência, talvez repetindo alguns pontos para enfatiza-los, como se faz com uma criança, aquilo que a mulher ouvinte já está cansada de saber.

Não digo que todos os homens são homexplicadores. Não mesmo. Porque não são.

Mas um homexplicador que acaso leia esta definição pode sentir-se tentado a:

1. Rir e acreditar que tudo isso não passa de parte de uma conspiração feminazi.

2. Rir e acreditar que tudo que é dito a respeito de “mansplaining” ou homexplicar é irrelevante, errado e bobo.

3. Rir e pigarrear e homexplicar por que tudo o que aqui está escrito é irrelevante, errado e bobo.

4. Rir e homexplicar por que ele não é um mansplainer ou homexplicador (“ora, isso nem sequer EXISTE! É invenção de uma mente histérica na certa”), e então homexplicar novamente as coisas todas que já havia homexplicado para a mulher, porque elas são lentas e precisam de uma reprise das suas teorias.

5. Rir e ignorar tudo o que todos(as) disserem, então acusa-los(as) de serem sexistas.

Eu sei. Isso foi difícil. Talvez você precise de um uísque agora. Estava tudo numa boa, viemos lá do século 16, com a invenção da massagem vaginal pelo respeitável doutor Pieter Van Forest, falamos de umas vadias loucas e de vibradores, e essa parte até que foi divertida, mas aí de repente aqui estamos, tratando das consequências de um velho discurso médico, ultrapassado, mas que deixou uma herança cultural medonha.

Repito (mulherexplicando, para entrar na brincadeira): Não quero dizer que todos os homens são homexplicadores. Não disse isso. Pega o uiscão ali. Relaxa.

Mas há uma quantidade razoável de homens que são homexplicadores. O suficiente para eu querer usar um vibrador do século 19 neles de vez em quando. Mas com esses tipos – homexplicadores, condescendentes, patriarcais, arcaicos, complacentes – creio que a melhor tática é ouvir tudo como se hoje fosse primavera em 1902 e com um sorriso estampado no rosto. Com isso eles ficarão satisfeitos vivendo sua fantasia de homexplicadores. E depois basta-nos esquecer que existem. Porque, da mesma forma que evoluíram os vibradores, alguns homens também escolheram o caminho da evolução.

De sunga em Gaza

Você provavelmente deve estar se perguntando o porquê deste título. Eu também me perguntaria, se fosse o leitor, chegando ao texto agora. Mas espere mais um pouco. Primeiro, à sensualidade da Expo Rainbow, a feira. Depois a experiência da fera, que dá nome ao texto.

Show de Burlesque com Anita Angelini

A Expo Rainbow abriu na última quinta-feira, dia 15, como um parque de diversões LGBT – também frequentado por heterossexuais fogosos e liberais, loucos para andar nos brinquedos à disposição, aka: stripteases de homens e mulheres*, lap dances*, massagens eróticas, Castelo de Fetiches* etc. – criado para correr paralelamente aos dias em que a cidade mais ferve, lotada e animada com o público que vem participar da Parada do Orgulho LGBT, que ocorreu ontem, 18, em Copacabana. E a feira ainda acontece hoje, segunda, 19. Veja aqui a programação.

Não sei bem se animada é a palavra. Creio que seja melhor confessar logo o que os mais hábeis observadores da sensualidade do carioca já confirmam desde que a temperatura começou a subir na cidade – e não importa que no fim de semana passado a temperatura tenha voltado a cair, e que tenha chegado mesmo a chover e que os casacos tenham saído do armário (vamos prosseguir sem parar para conversar com esse trocadilho sem vergonha, por favor). Creio mesmo que seja preciso recorrer a um termo científico para descrever o clima geral da cidade, mais apropriado, por exemplo, ao que se testemunhou na Expo Rainbow na noite anterior à Parada do Orgulho LGBT, e que pouco tinha a ver com “orientação” sexual: o Rio está ou estava no cio, num cio gay, num cio hetero, num cio cósmico em que todas essas fagulhas se misturaram independentemente de orientação sexual nas diversas saletas onde rolavam as “brincadeiras” no Galpão da Ação e Cidadania, na outrora – e talvez venha a ser seu destino sempre – faceira e licenciosa Praça Mauá.

Kell, dançarina especialista em Pole, de BH para a Expo no Rio

Cheguei e ouvi dos assessores de imprensa as regras: nada de fotos, filmar nem pensar. Registro de performer, apenas com o consentimento do mesmo, após a performance, sem mostrar o rosto, com o nosso acompanhamento. Compreendido.

Mas a energia sexual já havia derrubado essa barreira. Havia um clima consensual entre a plateia e os performers. O público arriscava tirar fotos quando o pessoal do apoio dava as costas. O público filmava. Os celulares trabalhavam alegremente e os donos dos palcos ou queijos ou aqueles deitados uns sobre os outros no chão serpenteavam os corpos diante das microcâmeras apontadas para eles. Foto cobrindo o rosto? Pra quê? Ninguém ali parecia ter vergonha do que faz.

Castelo dos Fetiches: cêra quente de vela pingando nas costas

*O quarto de lapdance é um excelente lugar para se exemplificar a questão do mix de gays & heteros em um “brinquedo” na Expo Rainbow. Ora. O que acontece quando um dançarino equivocadamente decide sentar-se no colo de um rapaz hetero que acaso enganou-se ao olhar – ou deixar de observar – a plaquinha lá fora da sala? Sim, havia uma plaquinha em neon com o nome e o horário dos dançarinos e dançarinas do lado de fora da saleta de Hot Dance (talvez pensada inicialmente para evitar esse tipo de equívoco entre lésbicas e homens gays). Por exemplo: se você lesse ali que FulanA iria dançar às 17h e você é um cidadão homossexual, você preferiria não entrar às 17h. Por outro lado, se você fosse uma moça que gosta de moças e lesse que BeltranO faria sua lapdance às 18h, você correria dali feito o diabo da cruz. E se você fosse um sujeito heterossexual e não desse a mínima para a tal plaquinha, acidentalmente poderia entrar justo na hora da performance hot do espadaúdo BeltranO, achando que estaria se sentando para a performance hot de FulanA!

Que lascada, amigo! Pois vi acontecer. E ficou tudo numa boa. Sem xingamentos, sem “Sai pra lá, s** *****”. Nada disso. Tudo na maior finesse. Afinal, àquela altura, o que nosso freguês haveria de fazer? Deixasse o rapaz de sunga rebolar-se próximo de seu petrificado semblante e… bola pra frente, mermão.

Àquela altura eu ainda explorava o ambiente procurando sobre o que escrever. Tinha acabado de sair do Espaço Voyeur. Na performance para zoiudos, duas meninas partiram logo para uma simulação de posições de sexo lésbico, mas mantendo calcinhas e espartilhos nos seus devidos lugares. Rolaram palmadas, lambidas, a famosa “tesoura”. Depois que você passa pelo Espaço Voyeur e vê um casal se esfregando no chão, se você é meio inocente, ainda se pergunta o que mais poderá acontecer em uma Hot Dance. Ora, Hot Dance pra mim era o que já havia rolado no Espaco Voyeur, pronto, cabou-se, e tava de bom tamanho.

Mas foi justo por ter tanta certeza – ah, que repórter!, pensa meu chefe, que imagino em São Paulo numa cadeira giratória, fumando um charuto, como o editor do Homem Aranha – foi que insisti na minha investigação e entrei na sala da Hot Dance.

Estava completamente vazia.

É que lá embaixo, no palco principal, acontecia um consurso de semi-strip masculina entre membros do público, com “Gangnan Style” arrebentando as caixas de som. Então aqui em cima, na saleta da Hot Dance, eu era mesmo a única cliente. A mocinha que guardava a entrada me disse para deixar a bolsa no chão. Tirei-a do colo e coloquei-a aos meus pés. Alguém apertou o botão numa máquina de fumaça meio mal calibrada e nem deu para encher o ambiente com aquele clima de boate que, eu acho, era a intenção. Soltaram uma música dentro da saleta que conseguiu cobrir “Gangnan Style”, tão alta estava. De repente um sujeito de cabeça raspada, só de sunga, dá um salto de trás de uma divisória de fórmica branca e vem na minha direção, sorrindo e rebolando. Dá pra ver que ele leva esse lance de ir à academia todos os dias e comer claras de ovos muito a sério e que ele conhece um bocado de passos de street dance. Ele demonstra alguns até chegar bem perto de mim a ponto de eu sentir que ele está usando um perfume forte ou algum tipo de óleo e eu descobrir por que a minha bolsa não deveria ficar no meu colo. Ele senta no meu colo, pernas abertas, de frente. Eu sinto que meu rosto está da cor mais quente do arco-íris LGBT. Cinquenta tons de vergonha. Eu não sei o que fazer com as minhas mãos, e ele saca isso hábil, imediatamente, pegando as duas de uma vez só e esfregando-as pelo seu “tanquinho” tatuado e o peitoral. Eu começo a dar uma leve surtada porque eu não vim aqui pra isso, é uma situação esquisita, estou de crachá e não faço uso de ansiolíticos no momento, então para me acalmar eu começo a inventar uma história para o rapaz da sunga. Seu nome é Schlomo e ele está sem cachos no momento porque acaba de escapar de um terrível pogrom, e ele também perdeu suas roupas e seus calçados e está untado em óleo como resultado de… o óleo foi a sua salvação, na verdade, como o Óleo de Lorenzo, e é aí que eu penso nos meus três primos que foram convocados pelo exército israelense e no pai deles que está incomunicável num bunker e eu penso em quem está do outro lado, nas forças que são desiguais entre os dois lados, que este não é o momento mais apropriado para se pensar em Gaza, definitivamente, mas acho que é o que acontece quando fico sob pressão. É justamente quando enxergo Schlomo de sunga em Gaza embaixo dos foguetes que acaba o tempo da Hot Dance, Schlomo se despede de mim com um sorriso e me oferece um cartão.

p.s.: Uma diferença aprendida em minhas andanças de saleta em saleta Expo Rainbow. Go Go Boys não faz strip completo. Stripper põe a coisa toda pra fora. Entendidos?

Schlomo/Sandro

Schlomo se chama Sandro Borges e é um dos top Go Go Boys da cidade. Ele dança há cerca de dez anos e hoje cuida de sua própria empresa de dançarinos eróticos. Estudou Direito, mas largou, depois passou para o marketing. Nunca abandonou a dança erótica. Dá muita grana. Sete casas noturnas enviaram seus “A Games“, os seus garanhões da sensualidade para o concurso de Melhor Go Go Boy da Expo Rainbow e, no final da noite, Schlomo/Sandro venceu os seus seis opontentes. Uh.

Sandro entre os concorrentes

***

Agora, às vacas frias: enquanto nós aqui no Rio, no Brasil, podemos ao menos curtir alguns momentos dessa energia sexual flutuante bacana, e ter festas como a Parada do Orgulho Gay em várias cidades e a Expo Rainbow, na Nigéria está para passar uma Lei chamada “Jail the Gays” (algo como “Gays em Cana”). Isso não está certo, não, violão. Colocar na cadeia o pessoal por conta de sua “orientação” sexual? Olha, se vocês correrem e assinarem a petição que a organização All Out criou para entregar ao presidente da Nigéria, ele vai sacar que o mundo inteiro está de olho na bandalheira anti-humanitária que é essa Lei e ele vai VETAR a maluquice. Então, se você sentir que a liberdade da turma é importante, vai neste link e assina.

Rendas, sedas e mentiras

Já falou na internet com alguém que você pensava que era uma determinada pessoa e, na realidade, era outra? Muito comum, não é? E perigoso. Pode até ser criminoso, por exemplo, se a foto de uma pessoa diferente daquela com quem você lida ou vê na web é utilizada sem a permissão de quem é dono ou dona daquela imagem.

Agora, o que dizer de empresas que se utilizam de um pool de Fakes? Estamos falando de um repertório de identidades falsas na internet, como a de Laís Canção (cuja foto foi encontrada no Google Images assim que foi revelada por internautas como Fake na página de campanha publicitária de uma Marca de roupas femininas) e Daniela Barreto Valadão (cuja foto que representava seu Fake é a da atriz e modelo russa Natalia Vodianova => Veja neste site, dedicado à Vodianova, a foto original da mulher verdadeira).

Existe até um grupo no Facebook onde Fakes misturam-se a figuras influentes e famosas para ganhar credibilidade. No Clube Smiles não há somente “Replicantes”, ou Fakes. A maioria dos perfis parecem verdadeiros. Dentre eles está o do cineasta Tadeu Jungle, gente de verdade, a quem conheço pessoalmente; mas Tadeu se disse surpreso ao saber que fazia parte de tal grupo e me informou por telefone jamais ter pedido para entrar no Clube Smiles nem aceitado qualquer convite, bem como o ator Matheus Nachtergaele boia por lá sem saber como entrou nem por quê. A atriz global Tuna Duek também nunca tinha ouvido falar do Clube Smiles, e não sabia que seu perfil estava associado a ele. Nem o artista plástico Roberto Fabra, que até chegara a aceitar um pedido de amizade no Facebook da belíssima Daniela Barreto Valadão (os Fakes fazem isso também para ganhar credibilidade; “pegam amizade” com algumas pessoas).

Então, se pessoas famosas e algumas influentes sequer sabem que seus perfis integram o Clube Smiles na internet, há que se questionar: será que o “Clube Sorriso” não passa de uma fachada para os Fakes? O grupo hoje tem 929 membros; o membro número 930 era um jovem publicitário, que deletou seu perfil do Clube Smiles na quarta-feira, quando notou que certa movimentação pouco usual estava causando burburinho entre a turma: minhas buscas e telefonemas para alguns membros mais famosos – e reais – do grupo.

A publicidade frequentemente recorre aos Fakes na internet quando precisa incentivar a discussão em torno de algum lançamento novo nas mídias sociais ou apaziguar os ânimos dos consumidores enraivecidos por conta de alguma pisada de bola no marketing.

“Normal”, dirão os fãs de Mad Men e os mais próximos do mundo da publicidade.

Já o público consumidor poderá se sentir traído ao reler diálogos do qual participou no Facebook, por exemplo, pensando estar trocando uma ideia sincera com uma pessoa de verdade quando na realidade recebia apenas respostas calculadas no marketing de Laís Canção, Daniela Barreto Valadão e tantas outras – em um caso bastante recente, que envolve a antes mencionada Marca de roupas femininas. A rede de lojas já havia deixado furiosas mulheres no Brasil inteiro com um comercial de TV em que a consumidora era incentivada a ingerir menos alimentos para agradar aos homens em geral. A campanha foi considerada um estímulo à má alimentação e distúrbios alimentares, como a anorexia, sem falar na bobagem que é sacrificar seu rango só para fazer com que marmanjos que você nunca viu na vida, e nem sequer sabe se são caras bacanas ou babacas, olharem para você com desejo.

O público feminino ficou indignado com o comercial e passou a exigir, na internet, um pedido de desculpas da rede de lojas.

O pedido de desculpas não veio. As mulheres continuaram fulas com a Marca.

Às consumidoras foi oferecido apenas um outro filme publicitário, desta vez postado na página da Marca no Facebook e no Youtube, através do qual a Marca propõe – como teriam feito, provavelmente, os chauvinistas publicitários dos tempos de Mad Men, quando as mulheres eram tratadas como bibelôs e/ou lixo, as salas de reunião eram repletas de fumaça de cigarro e bebia-se uísque antes, durante e depois das reuniões de criação – uma conversinha sobre, entre outras amenidades “moda, estilo, beleza e relacionamento.”

Que grande TERGIVERSADA, hein, mermão?

Digo, chutaram a bola lá pra Netuno.

De incentivo a distúrbios de nutrição e problemas de auto-imagem e auto-estima para “moda” e estilinho… ah, vá.

Quando em Desconstruindo Harry Woody Allen mostrou os setores do inferno destinados às profissões mais, digamos, pecaminosas, estranho que ele não tenha dado destaque aos publicitários. Talvez porque ainda não houvesse uma coisa chamada mídias sociais naquela época.

As respostas das consumidoras ao filmeco foram duras e chegaram rápidas:

1. “‘Ditadura da magreza? Siga-a quem quiser’ Parece que vocês não conseguem – ou fingem que não conseguem – compreender o real significado da palavra ‘ditadura’. Não se ‘segue’ uma ditadura por vontade própria. Você é subjugado por ela sem ter o direito de discordar ou concordar. Ditadura é quando a opinião pública é sumariamente desprezada. E quem discorda é marginalizado.” – Disse uma.

2. “Se a empresa pensa assim por que não reflete isso em suas propagandas que rotulam as mulheres? Por que não oferecem produtos para a diversidade de mulheres? O que não entendo é como uma empresa, resultado dos esforços intelectuais de uma coletividade de pessoas pode ser tão incoerente.” – Afirmou outra.

(…) E por aí seguiram falando. E esta é só uma amostragem do feedback do filme no Youtube, as duas primeiras respostas recebidas. No Facebook as mensagens ultrapassaram milhares. E foram muito mais a fundo na questão. O que exigiu da Marca providências mais, digamos, em um estilo mão-de-ferro.

Foi no Facebook que a PORCA torceu o rabo.

Porcas gordas, magras, de todos os tipos e tamanhos – como a Marca jamais imaginara que havia no mundo.

Foi quando a Marca percebeu que precisava recobrar o controle da situação. Que não poderia deixar centenas de mulheres descendo o pau na rede de lojas justo na página que deveria ser a “fan page”, a página de fãs da Marca. Foi quando inseriu os chamados Fakes, os perfis falsos, entre participantes do debate em sua página do Facebook. Pescou alguns que viviam lá pelo Clube Smiles.

Os perfis falsos tinham as seguintes funções: esvaziar o conteúdo do diálogo e calar reclamações das internautas, publicando uma enxurrada de bobagens que davam um ar tolo à sequência de posts.

Exemplos de como se esvaziar um debate enchendo-o com bobagens (função do Fake):

“Alguém me indica uma manicure na região de Moema?” (…)

“E se a gente fizesse uma guerra de travesseiro?” (…)

“Me parece que tem mta gente desocupada [aqui], procurando pelo em ovo. Ou há mto tempo sem… vc sabe… ‘aquilo'” – ou seja, afirmando que as agora auto-declaradas ex-clientes que gostariam de um debate aberto estariam com falta de sexo. Foi isso que escreveu um dos perfis falsos mais populares, talvez a primeira a ser inserida no grupo, Laís Canção.

Outros Fakes – quando o circo realmente pegava fogo no debate via posts e a mulherada de verdade clamava por um pedido de desculpas público da Marca – entravam para comentar o quão linda era tal blusinha da nova coleção da loja ou baboseira parecida.

Cortinas de fumaça – ou de algodão puro.

Um dos perfis falsos rapidamente descoberto foi o de uma Tatiana Guarnieri  (tatiana.guarnieri; e não a que mantém um perfil no LinkedIn – esta é real), que, prova de que era falsa, desapareceu do Facebook e do Badoo sem deixar rastro. A Fake Laís Canção, criticada pelas internautas por sua postura no debate, foi pelo mesmo caminho, assim que as pessoas que participavam seriamente do fórum da Marca no Facebook revelaram que tratava-se apenas de uma imagem roubada na web, manipulada por redatores publicitários.

Agora, um minutinho pro comercial Legal.

Sobre a utilização de imagens de terceiros, como ocorreu com Laís Canção, Daniela Barreto Valadão e outras empregadas nessa “peça publicitária”:

1. A(s) pessoa(s) por trás dos Fakes poderiam ser enquadradas por estarem se identificando de maneira falsa para o site, a fã page no Facebook da Marca, e para todos os frequentadores da mesma.

2. Criar um perfil falso, de alguém que não existe, apenas para preservar sua identidade na web, não é crime. Mas se o perfil Fake for usado para obter vantagem (o que é o caso da Marca) ou causar dano (novamente, é o caso da Marca), isso é crime de falsa identidade. Usar a foto de um(a) modelo ou qualquer outra pessoa comum em um perfil Fake, com dados inventados, constitui violação do direito de imagem. (Caso da Marca). Só é permitido usar fotos se a pessoa fotografada tiver fornecido autorização por escrito. (Difícil crer que a Marca a tenha obtido da pessoa comum que representava Laís Canção, ou da modelo russa que representava Daniela Barreto Valadão).

3. O direito à imagem é um dos direitos da personalidade previsto pelo Código Civil. Nossa Constituição Federal prevê em seu artigo 5°, Inciso X que são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurando o direito à indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação (…).

Ou seja, não foi apenas o relacionamento com o consumidor e seus direitos (a um pedido de desculpas, por exemplo) que a Marca rompeu com sua desastrosa condução do problema. Mas também a Lei.

Doutora, o escritor ficou preto*!

POR CECILIA GIANNETTI 

“(…) Quase 3/4 dos romances publicados (72,7%) foram escritos por homens; 93,9% dos autores são brancos; o local da narrativa é mesmo a metrópole em 82,6% dos casos. O homem branco é, na maioria das ocorrências, representado como artista ou jornalista, e os negros como bandidos ou contraventores.”

Acima está o panorama da literatura conforme apontado no ensaio “Literatura brasileira contemporânea: um território contestado”, da professora da Universidade de Brasília (UnB) Regina Dalcastagnè, publicado em outubro de 2012. No Morro dos Prazeres, no bairro carioca de Santa Teresa, a primeira edição da Flupp – Festa Literária Internacional das Upps buscou pintar, entre a quinta-feira, 8, e o domingo, 11 de novembro, esse universo literário contemporâneo com diferentes cores.

“A Flupp foi a culminância de um processo que percorreu 14 comunidades populares do Rio de Janeiro e dois batalhões de polícia, além de 7 escolas públicas do entorno do Morro dos Prazeres. Acompanharam-nos ao longo desse processo cerca de 100 autores senão inéditos, desconhecidos da Cidade Literária, a maioria deles com uma expressiva atuação em seus territórios. A maioria dessas pessoas era jovem, do sexo feminino e no mínimo mulata. O resultado desse processo está no livro FLUPP Pensa – 43 novos autores, que lançamos numa noite radiosa dentro da FLUPP, num sarau que reuniu cerca de 300 poetas de uma periferia que inclui lugares inusitados e remotos como Cidade de Deus, Morro da Fé, Vila Aliança, Marechal Hermes, São Gonçalo e Belford Roxo, para citar apenas alguns. À parte o fato de a quase totalidade dos textos terem como ambiente a metrópole, os demais não correspondiam em hipótese alguma aos estereótipos de uma Cidade Literária conformada por uma classe média, ela sim machista e racista, como capturou a pesquisa da Dalgastagnè.”

Acima está a visão do escritor Julio Ludemir desse novo panorama literário que se desenha na cidade. Ele é um dos organizadores da Flupp, junto ao também escritor e pesquisador Ecio Salles, à pesquisadora Heloisa Buarque de Hollanda, ao antropólogo Luiz Eduardo Soares e ao empresário Alexandre Mathias. Lima Barreto foi o escritor homenageado nesta primeira edição da Flupp; não à toa, mulato num país que em sua época recém abolira a escravatura, crítico da República Velha no Brasil, popular por seus escritos em que abordava a vida das camadas mais pobres da sociedade. O artista plástico Gringo Cardia foi o responsável pela programação visual.

Sobre literatura, Ludemir continua:

“Acho que precisamos fazer uma pesquisa que abrange os novos atores sociais que estão querendo eles próprios fazer suas narrativas, falando de um mundo tão novo quanto esse que está emergindo das políticas inclusivas que enfim entraram no cardápio de prioridades dos governos. Certamente Binho, um poeta negro da Vila Aliança de altíssima qualidade e extremamente articulado com o mundo, que graças a uma rara inteligência política conseguiu construir um centro cultural complexo e sofisticado, não corresponde aos dados coletados na pesquisa. Também não é o caso de Zé Luiz, um carteiro do Fogueteiro que escreve belíssimas histórias sobre as comunidades por que passou. Também acho que essa pesquisa não se preocupou com a efervescente cena dos saraus da periferia, quase um vício para esses autores que a oficialidade insiste em ignorar. Há pelo menos um sarau por dia na periferia do Rio de Janeiro. No primeiro sábado de cada mês, em Manguinhos. Na segunda sexta-feira de cada mês em São Gonçalo. Na terceira quinta-feira de cada mês na Cidade de Deus. Etc.”

Heloísa Buarque de Hollanda também mete a colher:

“Tradicionalmemte seria exatamente como a autora [do ensaio “Literatura brasileira contemporânea: um território contestado”] diz. Mas na hora em que a gente levou a voz dessas comunidades para os livros, mudou. Agora o homem branco tá ficando nervoso. Veja a coleção de livros [da editora Aeroplano], por exemplo, a Trama Urbanas. Não tem mais conversa, é urgente tudo isso! O negão já esta bacana. É espaco de anunciante que está em jogo. Veja na TV, a novela “Salve Jorge”. A própria Globo está nesse terreno, ela sabe o que está fazendo… A TV sempre foi formadora de opinião, e esse movimento irá para as editoras também. É um movimento parecido ao marginal nos anos 70, os marginais que ficaram 10 anos sem editora e hoje são questões de vestibular. A coisa da classe hoje passa batido aí, mas a marginalidade existe.”

Para Ludemir, a maior conquista da Flupp foi que, acima de tudo, esforçou-se para incluir todos os atores sociais da cidade e se tornar uma festa democrática.

“Conseguimos falar para um público que vai da Polícia Militar à juventude funkeira. Ao longo do processo de captação de recursos, conseguimos atrair parceiros que vão de grandes empresas estatais aos diversos institutos culturais europeus, como Maison de France e Cervantes, para citar apenas alguns que ignoraram a crise econômica que seus países vivem para trazer expressivos autores para nosso evento. A própria classe média aderiu ao projeto, deslocando-se para o Morro dos Prazeres para participar de debates com personagens que, mais do que ela não esperar o mesmo espaço físico, ela temeu desde sempre. Acho que uma outra conquista da FLUPP foi incluir as favelas no mapa dos grandes eventos culturais do Rio de Janeiro, talvez do Brasil. Suketu Mehta saiu de um encontro que promovemos, em parceria com a FLIP, dizendo que ia organizar uma festa com as mesmas características em Mumbai, que ele insiste em chamar de Bombaim.”

Estive lá na noite em que o Sarau da turma de Cidade de Deus encerrou as atividades da estreia. Uma cantoria só, bem representada na voz potente desta senhora:

[Acima, um pouco da alegria dos cantores que participaram do encerramento da noite de estreia da Flupp]

E o grande momento da Flupp, Ludemir?

“Tivemos vários momentos que vão ficar guardados para sempre na nossa memória. O que a Elisa Lucinda fez no encontro de Vigário Geral foi algo inacreditável, levando toda a plateia reunida no inacreditável centro cultural Waly Salomão, do Afro-Reggae, às lágrimas. Também foi emocionante o depoimento de Teju Cole, um escritor nigeriano radicado em Nova York, quando percebeu a esmagadora presença de pessoas negras na plateia. Na última semana, dois momentos foram antológicos. Um deles, no sarau com o qual celebramos a publicação do livro dos autores da FLUPP Pensa, quando reunimos pelo menos 300 artistas da periferia do Rio de Janeiro para mostrar seus trabalhos. Também considero digno de registro, para dizer o mínimo, a mesa que reuniu Ana Maria Machado e João Ubaldo Ribeiro, durante a qual os imortais da Academia Brasileira de Letras perceberam a presença dos moleques da Batalha do Passinho fazendo anotações para a batalha do conhecimento que criamos em torno da FLUPP para que pudessem se qualificar para a consagradora batalha que promovemos para encerrar a FLUPP, ontem à noite, numa festa que deu alegria ao processo de pacificação em curso no Rio de Janeiro.”

Quem poderia imaginar? Imagine só, Dra. Regina. Imagine.

[*categoria considerada pelo IBGE]

O Nouvelle Gospel vs. o Cinema Espírita

O filme evangélico Três Histórias, um Destino (Destiny Road) estreou em modestos 51 cinemas, durante o feriado de Finados. Ainda assim, bateu no 007, obtendo a melhor média de público do circuito, com fiéis 1.075 espectadores por sala, superior à de Operação Skyfall, com 898 espectadores – que, de acordo com os preceitos do longa gospel em questão, provavelmente arderão no mármore dos infernos por terem optado pelo agente secreto em vez do Senhor.

Não é milagre: as salas de exibição de Três Histórias, um Destino enchem por conta de uma campanha, chamada “1 + 2 = 150 mil vidas!”, que busca reunir no escurinho do cinema os fiéis da Igreja Internacional da Graça de Deus, comandada pelo missionário brasileiro R.R. Soares – autor do best-seller homônimo que deu origem ao longa – e os de outras igrejas evangélicas também. Ou seja: vale tudo e todos. O negócio é pagar o ingresso.

A Graça Filmes é a distribuidora/produtora de Três Histórias, um Destino (a norte-americana Uptone, especializada em filmes cristãos, é a outra produtora envolvida) do filme, parte de um conglomerado integrado ainda pela Graça Editorial e a Graça Music. Haja graça.

Por outro lado – o lado do Além – o cinema de temática espírita no país já é considerado um gênero forte, contando com dez longas, realizados entre 2005 e 2012. E com filmes que deixam os caras do nouvelle gospel no chinelo. Vejamos:

Nosso Lar, cujo espírito pelicular visitou cerca de 400 salas de cinema do país, e seu paraíso de efeitos especiais e alta tecnologia desenvolvidos pela canadense Intelligent Creatures (a mesma responsável pelos efeitos de Watchmen) conquistaram mais de 4 milhões de ingressos; Chico Xavier, seu carisma imensurável e superpoderes mediúnicos – e as sessões de exorcismo que agradaram a fãs de “filme de medo”, como define uma amiga cinéfila minha; as Mães de Chico Xavier e suas histórias do outro mundo – todos estes têm muito mais graça (se me perdoam o trocadilho) do que Três histórias, um Destino.

Três Histórias, um Destino será o primeiro filme evangélico com exibição em mais de 100 salas de cinema do país. Mas por enquanto você pode assisti-lo apenas em Bangu, Barra da Tijuca, Pilares, Del Castilho, Jardim Luz e Vila Isabel.

À porta do cinema do Shopping Iguatemi, em Vila Isabel, não havia multidão às 21h de uma terça-feira. Os poucos que se enfileiravam ali paravam diante da câmera de uma assessora do grupo Graça Filmes, que fotografava quem entrava no cinema, posando com os bilhetes de entrada nas mãos. Mas a assessora não sabia explicar por que a fita, de elenco norte-americano e falado em inglês no original, no Brasil tinha apenas cópias dubladas.

Público do filme posando com seus bilhetes em frente ao cinema

A plateia demonstrou, logo nos trailers, ser fortemente adepta do shhh shhhh quando qualquer ruído humano fora da tela surgia. Fiquei com medo de espirrar e ser exorcizada. Não abri meu pacote de Confetti.

Agora, ao filme:

Ouvem-se riffs de guitarra e as iniciais de R. R. Soares surgem na tela junto a cenas de jovens que se divertem em uma espécie de feirinha, enquanto uma banda de rock faz sua parte no palco. Um sujeito rouba a bolsa de alguém (ele é o gato-gone-wrong da parada).

Corta do rock para uma igreja. Uma outra banda, mais careta, o pastor Frank e sua turma, celebram os recur$o$ recebido$ para o cre$cimento de sua comunidade com palavras bastante conhecidas de quem frequenta encontros gospel. Desculpem, não anotei todas, só a canção traduzida para o português: “Glória, Glória, Aleluia”.

Então, até agora, eu consegui permanecer acordada e temos um pastor e uma congregação vivendo em abundância e uma gatinha distraindo-se com o filho igualmente broto maroto de um cirurgião plástico que já siliconou mais da metade dos peitos da cidade (e por isso, coitado, é meio mal falado). E o broto maroto nem sequer beijou a gatinha, mas estão todos de olho neles. Até sair para comer uma pizza é uma questão complexa para os dois: a gatinha delibera a respeito do convite do rapaz (“pizza ou não pizza?”) com sua voz em um meditativo off.

A menos de 20 minutos de filme já surgiram tantos personagens “do bem” e “do mal” que já estamos confusos com o desfile de clichês que eles arrastam com seus casos particulares.

“Querida, o que você acha que ilumina esta casa? A luz divina?” – diz um dos “do mal”.

Deu pra sacar?

Aí vem o primeiro grande EPA:

“Eu conseguia comungar com todo mundo, especialmente com os líderes de comunidades que assinavam cheques! Pode acreditar, o dinheiro era muito importante!” – afirma o pastor Frank, quando consegue angariar um caminhão de dinheiro para sua obra. (Aliás, atentem à propaganda da Apple nos Mac utilizados por Frank.)

Não há como não sentir certo desconforto com tamanha excitação diante da multiplicação da grana. Está certo, este é o personagem que vai se ferrar por causa de ganância. Mas lembremos: estamos no Brasil, um país repleto de pastores que ganham dinheiro de maneira ilícita, que roubam seus fiéis e tornam-se escândalo por causa disso – quando são apanhados roubando, é claro.

Voltamos ao casal da pizza, John e Elizabeth. Aquele, que queria dar uma voltinha pra comer uma fatia de calabresa, mas a voz em off da garota não deixava. Ela fica de pé diante do rapaz (na pizzaria, finalmente!, a pizzaria. A pizzaria deve ser o motel dos crentes):

“Como você avalia os meus genes?”, pergunta Elizabeth.

“Seus genes são ótimos. Pode sentar-se!”, garante Johnny.

WTF aconteceu nesta cena?!

Tá certo, vamos tentar fingir que isso foi uma tentativa de piada do roteirista.

Enquanto isso, na congregação, o pastor Frank, o ganancioso, começa a investir com um corretor. “Desde que tudo volte para a congregação,” pondera. Sério: Isso não te deixa inquieto?

É esquisito que 80% de um filme evangélico trate obsessivamente de obter cada vez mais grana, roubos, transações escusas e aplicações na bolsa de valores e não de amor ao próximo, perdão, fé, caridade, sei lá, uns anjos voando, essas coisas.

“Mas é claro!”, dirá o bom cristão que se meter a ver o filme, “mostra o roubo, por exemplo, na figura dos dois moleques que escolhem o caminho errado muito cedo, para que depois os personagens sejam castigados!” O que parece uma esperteza do roteiro é apenas um clichê catequista.

Não que não haja clichês nos filmes do “Cinema Espírita”. Apenas parece haver bem menos redenção do que pecados em Três Histórias, um Destino. 

Veja até onde vai o moneyloop do ex-pastor Frank:

“A minha cruzada tinha se tornado por bens materiais”, murmura ele.

A partir daí, dá-lhe cenas de Frank pirando na congregação, fazendo sermões que mais parecem cobranças financeiras executadas por mafiosos para que os fiéis paguem as contas da expansão da congregação. Suas cobranças saem em forma de ameaças agressivas, em que Frank descreve vividamente a morte lenta de seus seguidores entre ferragens de carros etc. em, por exemplo, acidentes automobilísticos como possível castigo de Deus se não derem dinheiro suficiente à igreja.

Isso tudo pareceu bem esquisito. Deve acontecer bastante entre pastores picaretas, dos quais ouvimos falar bastante nos noticiários. É esta proximidade com o real que incomoda.

Na verdade, a esta altura, faz o mais perfeito sentido que um filme evangélico seja 80% a respeito de dinheiro.

Ah, não podia deixar de fora: enquanto Frank alucina na grana, o casal da pizza, agora marido e mulher e grávidos, tem uma briga, que resulta num aborto – com direito à cena de sangue pingando no carpete e a aliança da moça, enquanto ela aborta, caindo no chão junto com as gotas. É o fim. Infelizmente, não do filme.

Porque ainda tem a grande cena da aparição do capeta.

Ah, a aparição do capeta.

Quando o capeta surge na forma de uma milf que tenta dar umas bitocas no agora ex-pastor Frank, mesmo os mais evangélicos dos espectadores gargalharam do efeito especial dos olhos acesos da mulher e do sinal capetístico em brasa no braço da sedutora com voz de auto tune.

Três Histórias, um Destino só será lançado nos Estados Unidos e em outros territórios em 2013. Sorte deles. Tivemos que ver antes.

A verdadeira face do Femen


O Femen, surgido em 2008, na Ucrânia, é um movimento famoso em todo o mundo pelos protestos em que suas manifestantes apresentam-se com os seios nus. Tem angariado polpudos recursos financeiros e expandido-se, com nova sede em Paris e de olho em Nova York, Montreal, São Paulo e Tel-Aviv. A franquia brasileira do Femen é uma realidade. Suas integrantes já atuam em território nacional e é bom que se fique atento ao que o movimento significa e o que há por trás dele.

Na última sexta-feira, 2 de novembro, três ativistas brasileiras do Femen Brasil marcaram presença no centro de Belo Horizonte à tarde, criticando a violência contra mulheres da tribo Guarani-Kaiowá, do Mato Grosso do Sul, na tradicional Praça da Estação, no centro da capital mineira.

Femen Brasil é liderado com braço de ferro por Sara Fernanda Giromini, aka Sara Winter, curiosamente xará de uma militante nazista do partido fascista britânico da Segunda Guerra Mundial.

O que só nos deixa mais de orelhas em pé quando descobrimos ainda que Sara possui no peito uma tatuagem que reproduz a infame cruz de ferro, um símbolo germânico bastante popular durante o regime nazista, quando circulou como condecoração de guerra. Em seu perfil no Facebook, já chegou a afirmar que admira o líder do movimento integralista brasileiro Plínio Salgado e outras personalidades conservadoras, como Ronald Reagan.

Tattoo You

Após receber críticas por estas e outras, Sara divulgou nota em seu perfil no Facebook afirmando que tudo não passa de um “erro do passado”. “Todo mundo faz merda”, afirmou. Aproveitou a ocasião para declarar que foi prostituta aos 17 e que teria sofrido agressões do marido.

Bruna Themis, estudante paulistana que abandonou o Femen Brasil em agosto passado, chegou a comentar em uma entrevista que a srta. Winter “admira Hitler como pessoa, que ele foi um bom marido e que amava os animais (…)”.

Nhom.

Há um ano, Sara Winter mantinha um blog – hoje fechado ao público – em que publicou o seguinte post a respeito do movimento Femen original:

“Eu fico me perguntando aqui porque diabos essas meninas não fizeram uma marcha normal, quero dizer, COM ROUPAS NORMAIS, reivindicando o direito das mulheres, a igualdade sexual, o respeito, o ‘não’ à violência doméstica. […]

Vocês acham mesmo que [os participantes homens] estão lá em defesa dos direitos femininos? Aham, tá, pra mim isso é uma grande hipocrisia, não querem ser estupradas, mas querem deixar homens desconhecidos visualizarem suas coxas, seios.

[…] A grande verdade é que tudo isso se trata de ‘ibope’. Algumas meninas se sentiram ofendidas em Toronto e criaram essa porcaria, outras mulheres envolta [sic] do mundo que quiseram chamar a atenção de uma maneira promíscua, ou que simplesmente queriam se divertir, adoraram copiar, e como no Brasil agora a moda é marcha polêmica, todo mundo adorou.

[…] dá pra fazer melhor com roupa e sem orgulho puta!”

Aqui a imagem do blog, para não restarem dúvidas:

Mas todos nós temos direito a mudar de opinião, certo?

Especialmente quando somos tão jovens (Sara tinha 19 anos quando decidiu que seria a manda-chuva do Femen Brasil). E, digamos, boas oportunidades surgem.

Daryna Chyzh, repórter do canal 1 + 1 , conseguiu infiltrar-se no movimento ucraniano para tomar parte de um ato anti-islâmico a ser realizado pelo Femen realizado em Paris. Enquanto esteve infiltrada no grupo, descobriu que todas as ativistas recebem cerca de 1000 euros por mês, e as funcionárias da sede de Kiev, onde as atividades do grupo eram coordenadas, recebem salários de 2500 euros por mês. O aluguel de um escritório na capital custa 2000 euros por mês. O custo diário de transporte por manifestante em Paris podia chegar a 1000 euros. Chyzh, a repórter, viu diversas vezes a líder do movimento Femen original, Aleksandra Shevchenko, em companhia de gente graúda: dos bilionários alemães Helmut Geier e Beate Schober, e do empresário judeu norte-americano Jed Sunden.

No Brasil as coisas ainda são um pouco mais modestas. Mas já rola um dinheiro, pelo que descobertas apontadas por gente atenta à página do Femen Brasil no Facebook revelaram.

Sara Winter teria recebido doações para o Femen Brasil em sua conta bancária pessoal, conforme o Dossiê Femen Brasil informa:

“Um dos primeiros questionamentos a respeito na página do Femen Brazil foi em relação à prestação de contas e o registro da ONG. Durante muito tempo eles mantiveram na sua página oficial no Facebook – e único canal de comunicação com o público – que o Femen Brasil era uma ONG, retirando [isto] apenas após uma ativista dizer que levaria ao Ministério Público suas dúvidas em relação a prestação de contas da dita ONG e o fato de receberem dinheiro de doações na conta pessoal da Sara Fernanda Giromini e o uso da empresa do senhor Andrey Cuia, assessor pessoal da Sara Winter e do Femen Brazil, para gerar boletos para a loja online.”

A ex-Femen Bruna Themis lembra que não havia prestação de contas e confirmou que o dinheiro que recebiam ia para a conta pessoal de Sara e para a conta de PayPal de Andrey Cuia (ou Andrey Russo, assessor de Sara e do Femen Brasil e que foi candidato a vereador em Santo André pelo PMN). Bruna afirmou em entrevistas não saber como o dinheiro era gasto. Sugeriu a Sara que as doações fossem revertidas a organizações e ONGs que trabalham com mulheres vítimas de violência domestica mas conta que Sara nunca se posicionou.

Há mais coisas que não batem nessa conta.

O Femen da Ucrânia teria criticado o movimento no Brasil por permitir a filiação e principalmente a aparição diante das câmeras de meninas acima do peso nos protestos. A sede original do Femen teria afirmado que é negativo para a imagem do movimento mostrar  garotas acima do peso como integrantes do grupo.

Sara deu uma entrevista a Danilo Gentilli, em que, portanto, teria omitido a verdade sobre as ordens do Femen, dizendo-se oposta à ditadura da magreza:

Em entrevista ao ZEIT ONLINE, a líder ucraniana Schewtschenko evidencia aqui e ali uma certa proposta rastaquera em seu discurso:

“Antes dos nossos protestos os homens só viam seios na TV tarde da noite ou nas revistas eróticas. (…) Eles podem hoje ver seios na Ucrânia nos jornais ou na TV em horário nobre.”

A coisa fica ainda mais feia:

ZEIT ONLINE: O que haverá no fim da revolução de vocês?

(…)

Schewtschenko: (…) haverá sangue, a revolução será brutal.

ZEIT ONLINE: Sangue de quem?

Schewtschenko: Dos homens.

O feminismo deve lutar pelos direitos das mulheres DENTRO DA LEI. Não degolando homens ou arrancando sangue deles em batalhas no meio das ruas, se é isso mesmo que Schewtschenko sugere que vá acontecer no futuro.

Sua fala é a fala de uma mulher sem projeto.

Para mais sobre como o Femen não representa o feminismo, clique aqui.

Ave Palavra em Juiz de Fora

Obs.: eu jamais afirmei a qualquer repórter da Tribuna de Minas ou qualquer outro interlocutor qualquer coisa remotamente parecida com a última frase desta matéria.

20121102-170047.jpg

Da Tribuna de Minas

Cecília Giannetti e Prisca Agustoni discutem pontos de contato entre literatura e realidade

Em uma manhã corriqueira, uma repórter de TV vai a uma favela carioca entrevistar uma mãe de família. No meio da reportagem, aparecem os dois filhos da mulher, que, perfurados por balas, morrem diante das duas. O que de imediato causa vertigem à jornalista, servirá, também, como peça-chave para uma vida de alucinações. Em seu primeiro livro, Cecília Giannetti aborda a realidade a partir de sua faceta mais cruel. “Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi” (2007), com selo da editora Agir, foi recebido de forma calorosa pela crítica e rendeu à autora indicação ao Prêmio São Paulo de Literatura de 2008.

A escritora é a convidada deste sábado do Ave, Palavra, projeto da Livraria A Terceira Margem, que vem promovendo na cidade encontros de literatura contemporânea ao longo do ano. O universo kitsch, o clima hospitalar, a crítica à sociedade de consumo e as muitas vísceras dos personagens aparecem em sua obra a fim de causar desconforto em quem lê. “Cecília Giannetti parte de perspectivas de estranhamento (palavra que significa justamente colocar-se de fora de uma situação conhecida) para abordar de frente os fantasmas que sempre insistimos em varrer para debaixo de nossos fofos tapetes”, avalia a escritora e crítica Noemi Jaffe.

A escritora carioca foi coautora, ao lado de João Paulo Cuenca, Michel Melamed e Luís Fernando Carvalho, da minissérie “Afinal, o que querem as mulheres?”, exibida pela Globo em 2010. Com roteiro fragmentário e fantástico, a série de humor retratava o universo feminino através da psicanálise freudiana.

O segundo livro de Cecília pretende preservar a leveza da minissérie, sem perder a acidez de sua obra de estreia.

Como fazer amigos e influenciar pessoas

POR CECILIA GIANNETTI 

Dale Carnegie falou comigo. Quero dizer, mais ou menos. Você vai ver.

Dale Carnegie é o autor de Como fazer amigos e influenciar pessoas. Um clássico da zoação entre quem não leva a sério livros de auto-ajuda, por seu título soar absurdo para a gente descolada capaz de fazer amigos em qualquer lugar do mundo com imensa facilidade. E é um clássico verdadeiro, desde a sua publicação, em 1936, lido e relido e repassado de geração a geração por pessoas que realmente precisam aprender a fazer amigos e influenciar pessoas para viver melhor.

Na realidade, o ensinamento que permeia todas as 304 páginas do livro pode ser resumido em duas palavras:

sorria e respeite.

Com isso, Dale garante, você vai longe.

Não leio auto-ajuda. Escrevo romances, contos, ficção, uma coluna em um jornal. Auto-ajuda não é a minha praia.

Mas há uma passagem de Como fazer amigos e influenciar pessoas que vale ser compartilhada.

Ela aborda o temperamento do escritor Mark Twain e aconselha:

“Se quer tirar mel, não espante a colmeia”:

Mark Twain às vezes perdia a calma e escrevia cartas cujo conteúdo chegava a deixar o papel enrubescido. Para dar um exemplo, certa vez ele escreveu a um homem que o provocara: “Está me solicitando os seus próprios funerais. Eu os providen- ciarei assim que você voltar a abrir a boca contra mim”. Em outra ocasião escreveu a um editor a respeito das tentativas de um revisor de “melhorar minha ortografia e pontuação”. Ele determinou o seguinte: “Doravante encerre essa questão seguindo à risca meus manuscritos e certifique-se de que o revisor conservará as sugestões dele na papa do cérebro deteriorado que só a ele pertence”. 

Mark Twain sentia-se aliviado depois de, tais provocações por carta. As cartas permitiam-lhe desabafar-se e, ademais, não causavam dano real algum, uma vez que a esposa de Mark, secretamente, as retirava dentre a correspondência postal. Assim, jamais chegaram a ser enviadas.”

Pensei em disponibilizar aqui uma seleção de citações para aqueles que sempre tiveram curiosidade de saber o que há dentro deste que é um dos best-sellers mais ridicularizados de todos os tempos.

Mas Dale Carnegie me ensinou que a escolha mais esperta para agradar você, leitor, é colar aqui um vídeo cômico, bem louco – que reúne cenas do filme Inception e desenhos animados antigos -, e revela alguns dos princípios contidos no livro:

Dale Carnegie falou comigo através de uma efeméride.

(Ou talvez à maneira que um psicótico imagina que uma figura pública pode estar dirigindo-se a ele.)

Dale falou comigo através de uma coincidência.

Geralmente escolho os temas das minhas colunas pouco antes de dormir, varando a web, ou simplesmente fechando os olhos e imaginando sobre o que eu gostaria de escrever no dia seguinte. Ou pela manhã, a partir das 7h, quando algum fato se destaca no noticiário ou fora dele (fora dele = antes que apareça no noticiário).

Ontem, na minha hora de dormir, dei uma olhada em meu exemplar de Como fazer amigos e influenciar pessoas, que adquiri num sebo há muito tempo como uma espécie de troféu irônico para servir de ornamento à minha biblioteca particular. Pensei na nova encarnação desse livro, que vi ontem nas prateleira de uma livraria de shopping: Como fazer amigos e influenciar pessoas na era digital. Decidi então que a coluna deste 1 de novembro seria dedicada a Dale Carnegie e à evolução de seu livro mais conhecido pelo público, focado nas relações da era da internet e mídias sociais.

Não pude deixar de ver graça na coincidência ao descobrir que Dale Carnegie morreu em 1 de novembro, há 57 anos.

***

Tá bom, ele não falou  comigo. Na verdade ele falou com muita gente.

Carnegie nasceu nos Estados Unidos em 1888, em uma fazendo em Maryville, Missouri, filho de agricultores bem pobrinhos. Sua rotina de trabalho na roça começava ao despertar às 4h da madrugada para ordenhar as vacas, e dali seguia para o State Teacher’s College. Seu primeiro emprego após concluir os estudos básicos provavelmente o influenciou na carreira que escolheria – ou que o escolheu: foi vendedor de cursos por correspondência. Se Dale conseguia convencer pessoas a comprar cursos por correspondência, certamente estava credenciado a convencê-las em um futuro próximo a pagar para assistir aos seus workshops de aperfeiçoamento pessoal.

Juntou uma grana e entrou para a American Academy of Dramatic Arts in New York, mas não se deu bem como ator; ao menos não no cinema nem na TV. No palco de suas palestras, provaria dominar a arte dramática como ninguém. Antes disso, encarou a maior pindaíba vivendo nas instalações da YMCA da 125th Street, em NY. Mas teve um brilho de esperteza no momento certo: convenceu o gerente da espelunca a permitir que ele oferecesse ali uma palestra motivacional para a galera. Carta branca recebida, encheu de perdedores uma sala e, quando não tinha mais o que dizer a eles, pediu que cada um dos ouvintes se levantasse e falasse sobre algo que os deixava fulos da vida.

Foi o pulo do gato. Percebeu que, ao falarem sobre coisas que os transtornavam, os alunos tornavam-se, naquele momento, mais desenvoltos.

Dessa maneira Dale descobriu “O” ponto fraco pronto do ser humano a ser explorado por seus talentos de oratória, e teve a ideia de oferecer – em troca de uns bons caraminguás – dicas sobre como conquistar o que lhes faltava: auto-confiança.

Em 1912, lançou o seu Curso Dale Carnegie. Dois anos depois do estalo brilhante, Dale já estava faturando com palestras o que hoje seria o equivalente a R$ 20 mil por semana. E em 2012, mesmo 57 anos após sua morte, uma companhia que leva seu nome continua ganhando muito dinheiro com produtos e cursos.

Um dos workshops mais procurados atualmente é um programa de três dias de aulas intensivas para ajudar adolescentes a enfrentar melhor um mundo “saturado de informação de tecnologia”. O conteúdo do curso divide-se em Construção de auto-confiança; Melhoria das habilidades de comunicação; Desenvolvimento de Habilidades Interpessoais; Trabalho em equipe e habilidades de liderança; Controle Eficaz de Atitude.

empresa Dale Carnegie está alive and kicking, fazendo rios de dinheiro com a insegurança das pessoas e, quem sabe? talvez até alguns inseguros consigam aprender com seus métodos a lidar melhor com o mundo.