HERÓIS E BANDIDOS

POR CECILIA GIANNETTI

(originalmente publicado no Destak)

A matéria de capa da revista Veja desta semana é um especial reunindo resultados de alguns estudos que colocam na conta do consumo de maconha:

1. A interferência em funções cerebrais que causam psicoses irreversíveis;

2. Danos às sinapses que permanecem muito mais tempo, em alguns casos para toda a vida, ao contrário dos efeitos do álcool e da cocaína, que se dissipariam em poucos dias após uso interrompido dessas substâncias;

3. Baixo Q.I.;

4. Bipolaridade, depressão aguda, esquizofrenia, ansiedade (sendo o vício na maconha um componente do quadro psicótico e não determinante).

5. E, como não poderiam deixar faltar, a clássica formulação “Porta de entrada para outras drogas”.

A maconha não escapa ao vai-e-vem dos cientistas e dos resultados de seus estudos em relação aos seus benefícios ou malefícios, como não escapam outros hábitos que a humanidade mantém há séculos, como:

A. Consumo de ovos;

B. Consumo de carne vermelha;

C. Consumo de café;

D. Consumo de chocolate;

E. Consumo de álcool.

Antes de citarmos os mais atuais estudos que dizem que:

I. O consumo de ovos faz bem e que dizem que o consumo de ovos faz mal à saúde;

II. Estudos que dizem que o consumo de café vai arruinar o seu organismo e estudos que afirmam que o consumo de café fará de você um super-humano;

III. Estudos que comprovam que o consumo de carne vermelha é veneno puro e estudos que afirmam o contrário, que a carne vermelha não é uma vilã;

IV. Estudos que apontam que comer chocolate regularmente emagrece e estudos que dizem que o chocolate é a obesidade personificada em forma de barrinha preta;

V. Estudos que demonstram que o consumo regular de álcool (cerveja e vinho, basicamente) é benéfico à saúde de homens e mulheres e estudos que apregoam que o álcool apenas mata.

Antes de esmiuçarmos tais controvérsias, um minuto para o comercial. 

Sim, para o comercial. Porque o que digo abaixo sobre “imparcialidade” no jornalismo tem muito a ver com o departamento comercial de veículos de notícias.

Sabemos – ou a esta altura já deveríamos desconfiar disso – que repórter algum consegue ser totalmente imparcial no que diz respeito à reportagem que escreve. A primeira razão para que isso ocorra é que a mera escolha de palavras, das fontes onde vai buscar dados, a seleção dos dados a ser publicada e a organização/edição do texto já configuram uma opinião de quem o produz.

Há repórteres que assumem a postura ilusória da imparcialidade para impor uma opinião como fato, sem oferecer ao leitor a opção de identificar o que é a opinião do repórter e/ou veículo e o que é fato.

No final das contas, na grande fábrica de salsichas do jornalismo, bastantes resultados (não tudo, nem todos e nem sempre) dependem dos ângulos que cada repórter e/ou editor escolhem destacar.

Sobre ovos, café, carne vermelha, chocolate, álcool e maconha existem estudos que afirmam que cada um desses itens pode ser benéfico para a saúde e existem estudos que afirmam que cada um desses itens pode ser prejudicial para a saúde.

O repórter e/ou editor responsável por uma reportagem a respeito de qualquer um desses itens, se desejar atingir um nível básico de imparcialidade, recorrerá a estudos que apresentam resultados nos dois campos: benéfico e prejudicial.

O repórter e/ou editor responsável por uma reportagem a respeito de qualquer um desses itens, se desejar puxar a brasa para a sardinha do prejudicial, utilizará apenas estudos que apresentam resultados no campo do prejudicial; se desejar puxar a brasa para a sardinha do benéfico, utilizará em seu texto apenas estudos que apresentam resultados no campo do benéfico.

Dito isto, vamos aos ovos:

Os ovos, como a maconha, são objeto de pesquisas importantes que ao longo dos anos revelaram tanto que são nocivos quanto benéficos à saúde.

OVO VILÃO: De acordo com pesquisa da Universidade de Western Ontario, comer gemas de ovos é quase tão ruim para o coração quanto fumar.

OVO HERÓI: Por outro lado, uma das mais recentes pesquisas sobre ovos, realizada pela Universidade do Estado de Louisiana, afirma que o ovo apresenta colina, nutriente essencial para a saúde do cérebro, inclusive para formação de novos neurônios. Por isso o consumo de colina é indicado na prevenção das doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson. E mais: ingerir ovos pela manhã emagrece.

E aquele churras?

A carne vermelha, como a maconha, é objeto de pesquisas importantes que ao longo dos anos revelaram tanto que é nociva quanto benéfica à saúde.

CARNE VERMELHA VILÃ: pesquisa publicada no periódico Archives of Internal Medicine, realizada na Faculdade de Saúde Pública de Harvard, revela que o consumo de carne vermelha pode aumentar os riscos de morte prematura, além do aparecimento de doenças cardiovasculares e câncer.

CARNE VERMELHA HEROÍNA: Comer carne vermelha não faz mal ao coração. O bife foi absolvido de graves acusações após longos anos como o bicho-papão das doenças cardíacas, graças a pesquisas apresentadas durante o 66º Congresso Brasileiro de Cardiologia.

Agora, ao nosso amado café:

O café, como a maconha, é objeto de pesquisas importantes que ao longo dos anos revelaram tanto que é nocivo quanto benéfico à saúde.

CAFÉ VILÃO: A cafeína pode causar fortes oscilações da glicose no sangue, causando baixa de açúcar no sangue (hipoglicemia) = fraqueza, nervosismo, sudorese, tremores e palpitações cardíacas; pode aumentar a pressão arterial e o colesterol (!); causa risco de úlceras, refluxo ácido, e síndrome do intestino irritável; pode causar irritações cutâneas; pode causar desequilíbrio cálcio-fósforo no organismo, associado à artrite reumatóide e osteoporose; pode agravar a TPM e os sintomas da menopausa; pode prejudicar a qualidade do seu sono, agravar os sintomas de ataques de pânico e ansiedade; pode aumentar o risco de aborto espontâneo, malformações congênitas e baixo peso em recém-nascidos. Se você ingere mais de 100 mg de cafeína (meio copo de café) por dia, está viciado em cafeína e pode ter alguns sintomas de abstinência, como rigidez muscular, dor de cabeça, irritabilidade, fadiga e dificuldade de concentração. E mais: pesquisa do Brigham and Women´s Hospital, de Boston, sugere que os compostos encontrados no café podem aumentar a pressão dentro do globo ocular, causando uma alteração na visão, conhecida como síndrome de esfoliação. Isso pode levar ao glaucoma.

CAFÉ HERÓI: Estudo do Harvard Medical School revela que mulheres que bebem duas ou mais xícaras de café por dia estão menos inclinadas a sofrer de depressão; café pode aliviar sintomas de mal de Parkinson, de acordo com estudo conduzido pela Universidade McGill, no Canadá, publicado na revista norte-americana Neurology; quem toma café vive mais, segundo pesquisa de Neal Freedman de 2012; café ajuda a queimar calorias, segundo um estudo do Instituto Australiano de Esportes; tomar café reduz risco de câncer endometrial, de acordo com pesquisa realizada pela Universidade de Harvard; consumo moderado de café reduz risco de diabetes, segundo o European Prospective Investigation into Cancer and Nutrition (EPIC). A pesquisa indica também que o consumo de café não está associado ao aumento de doenças cardíacas ou do câncer; dois estudos realizados durante 20 anos pela Universidade de Harvard apontam que o consumo regular de café pode diminuir os riscos de um tipo comum de câncer de pele entre os norte-americanos, o carcinoma basocelular.

E os chocólatras, irão sobreviver ao seu vício?

O chocolate, como a maconha, é objeto de pesquisas importantes que ao longo dos anos revelaram tanto que é nocivos quanto benéfico à saúde.

CHOCOLATE VILÃO: o chocolate é um alimento proibido – 1) para os ossos. É um ladrão de uma substância essencial para o fortalecimento ósseo. Rico em oxalatos, diminui a absorção do cálcio. 2) Também causa enxaqueca, irritações na pele, aumento da glicemia, ganho de peso e diarreia. 3) Além de gerar um efeito no cérebro semelhante ao ópio, segundo pesquisa publicada pelo jornal Current Biology, pois faz surgir no cérebro do *usuário de chocolate* uma substância química natural chamada encefalina, uma endorfina similar às propriedades do ópio. Esse neurotransmissor, a encefalina, pode levar a formas de consumo excessivo e dependência e apresentar considerável participação na geração de níveis patológicos de consumo excessivo, distúrbios alimentares, vício em drogas e outros comportamentos compulsivos.

CHOCOLATE HERÓI: pesquisa no Karolinska Institutet em Estocolmo afirma que o alimento diminui o risco de derrame. E o Departamento de Ciência do Alimento e Biotecnologia da Universidade de Chung Hsing, em Taiwan, mandou avisar que os ácidos fenólicos presentes no cacau fazem com que o alimento seja considerado um aliado de quem quer emagrecer.

E o alquinho?

O álcool, como a maconha, é objeto de pesquisas importantes que ao longo dos anos revelaram tanto que é nocivo quanto benéfico à saúde.

ÁLCOOL VILÃO: em 2010, nossos amigos pesquisadores afirmaram que o álcool é mais prejudicial que o crack e a heroína, em pesquisa publicada no periódico médico Lancet.

ÁLCOOL HERÓI: em 2011 a cerveja foi equiparada ao vinho em matéria de benefícios à saúde. Pesquisa do instituto italiano Research Laboratories, da Fondazione di Ricerca e Cura Giovanni Paolo II indicou que o consumo moderado da bebida faz bem ao coração. O estudo foi publicado no European Journal of Epidemiology. Além disso, pesquisa realizada em parceria entre a Universidade de Barcelona, o Hospital Clínico de Barcelona e o Instituto Carlos III de Madri revelam que a cerveja não acarreta obesidade (tem cerca de 200 calorias por caneca, o mesmo que uma xícara de café com leite integral). A cerveja, absolvida por essa pesquisa, também não é responsável pelo aumento da gordura abdominal. O problema são as frituras que geralmente a acompanham.

Last, but not least – maconha:

A maconha, como os ovos, a carne vermelha, o café, o chocolate e o álcool, é objeto de pesquisas importantes que ao longo dos anos revelaram tanto que é nociva quanto benéfica à saúde.

MACONHA VILÃ: para conhecer somente as pesquisas que apontam unicamente o lado negativo do uso da maconha, basta ler a Veja desta semana. Com a chamada na interna “Pesquisas comprovam que a maconha faz mal” e frases como “consequências funestas” em referência à erva no texto, a revista esqueceu das pesquisas que comprovam que a maconha oferece benefícios. O que teria dado mais credibilidade à matéria, diga-se de passagem. Mas do jeito que foi apresentada a reportagem, pareceu agenda. Uma moeda de um lado só.

MACONHA HERÓI: em 2012, foi constatado que o uso de cannabis pode ter um efeito benéfico sobre o funcionamento cognitivo em pacientes com graves distúrbios psiquiátricos. Pacientes bipolares com histórico de consumo de cannabis demonstram desempenho neurocogitivo superior em comparação a pacientes sem histórico de uso, de acordo com pesquisadores do Hospital Hillside Zucker em Long Island, e pesquisadores da Mount Sinai School of Medicine e do Albert Einstein College of Medicine, em Nova York. Os dados foram publicados na revista Psychiatry Research. E mais: estudo publicado neste ano na revista American Journal of Epidemiology mostra que maconha não danifica o cérebro de forma permanente. Outro estudo, divulgado no Journal of Neuroscience, realizado pela Universidade Complutense de Madri e pelo Instituto Cajal, mostra ainda que o uso da erva pode reduzir a inflamação associada ao Alzheimer e, assim, evitar o declínio mental. E um estudo da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia em San Diego, realizado em 2012, aponta que o uso da maconha pode ajudar no tratamento da esclerose múltipla. A droga ajuda a aliviar sintomas e dores em pacientes que sofrem da doença.

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Nota pessoal:

Durante a produção desta coluna foram ingeridos 2 ovos mexidos, uma xícara de café, uma lata de água tônica light e quatro quadrados de chocolate com recheio cremoso de avelã. Nenhum cigarro de maconha foi tragado durante a produção deste texto. Nem antes. Nem depois.