“Compre seu bebê parcelado no cartão!”

POR CECILIA GIANNETTI

Fazer neném é fácil, quando os métodos naturais funcionam. Quem não pode ter filhos tem a opção de adotar uma criança. Ou comprar um boneco tão perfeito quanto.

“Bebês para adoção (Venda!)”, anuncia Karen Hoecherl no blog onde comercializa seus reborns, os bebês realistas, uma tendência que começou nos Estados Unidos no começo da década de 1990 e tornou-se popular em vários países, tendo crescido no Brasil recentemente. Seus fabricantes têm uma organização, a International Reborn Doll Artists, fundada em 2005, e encontram-se em dezenas de congressos durante o ano todo para discutir seu ofício de gepetos pós-pós-modernos.

(Se vivêssemos submetidos a uma mais lógica universal insana, os reborns seriam filhos das Love Dolls, aquelas mulheres-bonecas quase perfeitas com quem muitos homens dividem sua vida. Mas o mundo é ainda mais louco do que isso. Os reborns, uma vez fabricados, empacotados e enviados por Sedex, tornam-se filhos de gente de carne e osso.)

Love Doll
Sua esposa?

Alguns modelos estrangeiros, como os da http://www.storklane.com/custom.htm, já vêm com batimentos cardíacos, com um dispositivo que faz com que o peito do bebê suba e desça, simulando a respiração, com uma voice box que emite barulhinhos de bebê. Se o comprador quiser pode levar um bebê com cordão umbilical e um dispositivo de aquecimento para o corpo do bebê parecer ainda mais humano ao toque. Quem quiser a “emoção” de comprar um bebê prematura, este vem com incubadora e aparelhos para respiração presos ao nariz.

Cria da baiana Karen Hoecherl, o Guilherme [foto abaixo], custa mil reais e pode ser parcelado em 12x de R$ 96,56 no cartão. De acordo com o site onde é vendido, ele é “gordinho e dorminhoco”, mede 52cm e pesa 3Kg. “Ele vai para a casa da nova Mamãe com as roupinhas dessas fotos, manta, touquinha, sapatinho com meias, chupeta magnética com prendedor, instruções de cuidados, certificado de autenticidade, pente, escova e perfuminho… Tudo numa linda caixa!!! Frete Grátis para todo o Brasil!!!”

Guilherme, R$ 1.000, ou em 12x de R$ 96,56 no cartão

Em uma entrevista ao ABC News, uma adepta dos newborns afirmou que adotar um bebê de verdade não seria a escolha certa para ela. “É muito difícil conseguir (adotar), sabe. E é muito mais caro do que comprar bonequinhos.”

Outra artista brasileira de reborns, Silvia Pereira, do http://silviarealbaby.blogspot.com.br, exibe em seu site fotos de seus produtos no banho, para provar o quão mais reais ainda podem parecer suas criações/criaturas.

O processo de fabricação de um reborn costuma empregar ao corpo de vinil do bebê tinta à base de óleo que não desbota, nem descasca ou racha, e pêlo de cabra angorá para os cabelos, de acordo com a fabricante Sarah Whitney.

Sarah explica que seu processo começa com um banho de espuma quente para deixar o material do molde de vinil limpinho cheiroso. Aí cuida da tonalidade da pele do bebê com uma lavagem para neutralizar o vinil. Então o bebê é levado a um forno para aquecimento da pintura. Em seguida são pintadas as veias na testa, pés, mãos e joelhos. Novo aquecimento no forno e então coloca-se a primeira camada de “carne”, a mais leve. Pro forno de novo e são colocadas mais três camadas de “carne”, com aquecimentos entre cada aplicação. Passa à fase da pintura que dá cores o mais naturais possíveis ao bebê, pintando ainda detalhes nas bases dos pés, joelhos, cotovelos, orelhas, lábios e veias nos olhos. É quando também costuma-se aplicar, se for desejo do cliente, por exemplo, marcas de nascença. O bebê é levado ao forno novamente e em seguida Karen adiciona a ele uma textura que impede que a “pele” do bebê brilhe como a de qualquer boneco comum. Ao forno pela última vez e então os fios de cabelo são costurados pela raiz um a um, bem como os cílios – somente esta parte do processo pode levar até três dias. E olha que recém-nascidos têm bem pouco cabelo geralmente. O peso certo do bebê é alcançado com preenchimento de pérolas de vidro.

Claire e seu reborn
Claire e seu reborn, foto do The Mirror

=> Clique aqui para assistir a um trecho do documentário do Channel 4 que mostra a rotina e fabricantes e “mamães’ de reborns.

Alguns entusiastas mantêm coleções de reborns como manteriam bonecas arrumadas na cama, não passando de um caso de decoração de gosto duvidoso. Outros (as) os levam no colo, enrolados em mantas, sentindo seu batimento cardíaco artificial e os olhares de admiração (que não raro vêm com elogios à beleza da “criança”), preenchendo o vazio da ausência de um filho de verdade.

Ou talvez sejam todos apenas colecionadores de bebês.

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