O Exorcismo do Imperador

Glub glub hic
Glub glub hic

 

POR CECILIA GIANNETTI

Adriano faltou ontem, terça, 24, à sessão de preparação física que tinha marcada em uma academia na Barra da Tijuca, e desta vez não mandou nem um nonchalant SMS para notificar que não daria bolo no preparador físico Marcos Lima, que ainda o esperou por mais de uma hora no local. 

A explicação para a ausência do jogador é simples de dar: farra. E difícil de engolir: nem a torcida, nem o clube aguentam mais seu comportamento auto-destrutivo.

“Não faço mal para ninguém, só para mim mesmo,” afirmou, em um lampejo de consciência, em coletiva no início de outubro, após faltar a um treino pela terceira vez.

Na madrugada de segunda-feira, o Imperador – que pesa atualmente algo em torno de 110kg – saiu de um show do cantor Belo, onde já havia consumido álcool, e foi flagrado por volta de 4h da madruga a fartar-se com macias fatias e mais álcool na Pizzaria Guanabara, no baixo Leblon. Por volta de 5h30, deixou a pizzaria e emendou a comilança com outro estrago da baixa gastronomia brasileira, mandando ver um podrão: aquele sanduíche amigo da laricarico em maionese e queijo gordo, típico dos fins de naite da garotada. Vale enfatizar: típico dos fins de noitada de quem não é atleta e não tem toda a nação rubro-negra urubuzando sua capacidade de virar a mesa – virar a mesa em campo; em mesa de restaurante a gente viu que ele se vira muito bem.

Nessa balada que desembocou ao raiar do dia em um quiosque da praia, membros da entourage do jogador – dentre eles a delegada Adriana Belém – davam indicação de que a farra não havia terminado, recrutando gatinhas que passeavam pela área para ir com eles conhecer a casa do Imperador.

Fato é que, nesta conjuntura, quase ninguém mais bota fé em Adriano. Quase.

No começo deste mês os exageros do Imperador chegaram a mobilizar o vascaíno e evangélico fervoroso Rafael Batista Gomes, de 27 anos. Batista (!) – um autodenominado Profeta morador da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro –, que amanheceu na terça, 2 de outubro, no CT do mengão em Vargem Grande, empunhando uma Bíblia Sagrada, dramaticamente encapada em cor vermelha, com a qual sentou praça frente ao Ninho do Urubu para orar com firmeza pelo jogador. Seu objetivo: livrar Adriano do caminho das trevas.

É possível tirar o(s) demônio(s) do corpo de Adriano e, dessa maneira, oferecer ao jogador condições divinas para que ainda nesta encarnação seja capaz de honrar a camisa 10 em campo? É possível livra-lo de supostas interferências de espíritos obsessores os quais, desde a contratação do Imperador pelo Flamengo, já o levaram a faltar a três treinos – por motivo de celebrações pecaminosas aos olhos do Evangelho e aparentemente inadiáveis para o atacante – além da rescisão com o time, que por um triz foi evitada?

Adriano já chegou a declarar a Zinho, diretor executivo de futebol do clube, sentir-se “confuso e perturbado”. Quem sabe não foi tal declaração que acionou o alarme religioso interno de Batista e aguçou seu faro anti-demoníaco, lançando-o nesta cruzada?

Por outro lado, o sr. Batista, diz ser um enviado de Deus ao CT do Flamengo, e que ora por Adriano pois deseja vê-lo atuar na Copa do Mundo.

Batista deve orar para que Adriano pare de fazer mal a si mesmo.

Ora, a fé move montanhas – mas dificilmente arrastará até local inacessível, neste ou noutro universo, as boates, pizzarias, quiosques de podrões e o morro da Vila Cruzeiro, cenário preferido de Adriano para tomar temerárias cervejas com os amigos em vésperas de treinos. (Não que seja a Vila a culpada pela empolgação do Imperador por festas mostrar-se constantemente maior do que pela bola.)

Antes de pedir auxílio novamente às preces do Profeta da Maré e entregar o caso do atacante exclusivamente à fé – e logo a de um vascaíno! –, Zinho conta com o bom senso dos colegas de clube de Adriano: para tal, decretou a lei Forever Alone: que os outros jogadores não convidem mais o Imperador para balada alguma, pois “Alguns atletas podem sair, curtir um show, aproveitar a noite dentro de uma normalidade. O problema é que o Adriano, infelizmente, não tem esse controle,” conforme declarou o diretor à imprensa.

Adriano, porém, dispensa convitinhos e RSVP. Não precisa de convocação oficial à badalação: estala os dedos e a seu comando dezenas de convivas já requebram ao som de funk em seu condomínio; zarpa de BMW branca e vira a noite em sua querida Vila de origem ou numa balada qualquer.

Adriano é a Paris do esporte bretão, Adriano é uma festamóvel.

Que poderes terão o evangélico Batista e sua Bíblia vermelha contra tal força dionisíaca?

Saberemos ao final de 2012 (quando expira o contrato do craque festeiro) e para quando também aguardamos o fim do mundo.