Manual do Ódio

POR CECILIA GIANNETTI

Os homossexuais, conforme retratados pelo livro "A Estratégia"
Os homossexuais, conforme retratados pelo livro “A Estratégia”

No debate político o assunto da cartilha anti-homofobia – acusado de fazer apologia à homossexualidade, em vez de prevenir a homofobia – foi antes um joguete às vésperas das eleições do segundo turno em São Paulo; em seguida foi deixado de lado, quando provou não ser capaz de mostrar nem um candidato nem o outro sob luz favorável. A discussão não funcionava bem para angariar votos.

Enquanto isso – o que não é de causar espanto, nesta conjuntura – um livro que atenta contra os direitos civis de homossexuais, bissexuais, transexuais e travestis. A Avon, que distribuía o livro, retirou-o de seu catálogo em junho, graças a protestos e a um abaixo-assinado que rapidamente se espalharam pelas redes sociais. Mas ainda está à venda em livrarias e lojas online.

Na Amazon, no espaço dedicado a críticas, clientes se declaram espantados com a presença do livro na loja, como o “Really Disgusted Costumer“, a seguir: [traduzido do inglês] “Eu não consigo acreditar que livros como este são publicados. Qualquer editor com um mínimo de bom senso deve perceber o quão perturbativamente ele é preconceituoso. Basicamente, é o mesmo tipo de discurso que surgiu contra negros após a Guerra Civil, basta substituir “negro” por “homossexuais”. Realmente perturbador e nojento.”

Assinado pelo pastor norte-americano e presidente da Traditional Values Coalition Louis Sheldon, e lançado no Brasil pela editora Central Gospel, do pastor Silas Malafaia (Assembleia de Deus Vitória em Cristo), “A Estratégia – O plano dos homossexuais para transformar a sociedade” (“The Agenda“) revela a fonte da qual Malafaia, o deputado federal Jair Bolsonaro e o senador Magno Malta, entre outros da mesma cepa, copiam seu discurso contra a comunidade LGBT.

“O discurso deles é um plágio descarado do livro (…) e de outros semelhantes e anteriores a esse,” afirma Sergio Viula, um dos fundadores do MOSES (Movimento pela Sexualidade Sadia) e autor do livro “Em busca de mim mesmo”.

Plágio é o menor dos problemas em relação à “Estratégia” propagada pelos pastores. Vale a palhinha:

O livro começa retratando gays em geral como gente perigosamente promíscua, muito fã de saunas onde o sexo rola solto. Mas o que será que acontece em casas de massagem, casas de prostituição e clubes de troca de casais para heterossexuais, que também têm seu público numeroso e cativo? Ora bolas, a heterossexualidade também possui variadas opções de espaços de recreação sexual. Porém, “A Estratégia” retrata os gays como os únicos tarados do pedaço. O que, aliás, não diz nada sobre sexualidade em si.

Mas é assim que esse livro joga.

Na página 6, o pastor Louis Sheldon equipara os gays a terroristas:

“Não são apenas os terroristas estrangeiros que devemos temer hoje. Os radicais mais perigosos que ameaçam nosso estilo de vida são aqueles que vivem entre nós. Eles já têm posições privilegiadas no governo, nos tribunais e em nossas escolas e faculdades, e até mesmo no mundo dos negócios, e você pode ter certeza de que eles nos destruirão se não tomarmos medidas para derrotar o movimento radical deles agora.”

Para o autor de “A Estratégia”, os gays são piores do que terroristas e devem ser derrotados se a sociedade quiser viver em segurança. Tal discurso é um discurso de ódio. E qualquer publicação que propaga e incita discurso de ódio merece ao menos uma investigação e algumas denúncias ao Ministério Público.

Na página 19, Sheldon declara guerra, oficialmente, contra os homossexuais, empregando terminologia de guerra, como relata Luiz Henrique Coletto, presidente do Conselho LGBT da Liga Humanista Secular do Brasil, que comprou o livro para estudá-lo e rebater o discurso do autor em um vídeo veiculado no Youtube, com algo que o texto original do pastor não possui: lógica.

“A Estratégia” afirma que “O debate moral a que políticos e analistas de pesquisas de opinião se referem como guerra cultural na América é uma guerra verdadeira no sentido restrito da palavra, o resultado é que estamos engajados em uma luta de vida ou morte, com batalhas ferozes, baixas verdadeiras, e consequências muito reais para nós, que abracamos uma compreensão tradicional de fé, família e liberdade, o desafio não poderia ser maior.”

É uma guerra declarada e os gays são os terroristas.

Na página 35 o pastor Louis Sheldon afirma que “por quase toda uma década a mídia liberal tem alardeado a notícia de que pesquisadores encontraram a prova de que a homossexualidade é inata, genética e um comportamento normal entre considerável porcentagem da população.” O livro renega tais descobertas científicas.

“A Estratégia” é construído também em cima de várias distorções propositais.

Uma dessas distorções diz respeito a uma sátira publicada originalmente no Gay Community News, em fevereiro de 1987, intitulado “The Gay Manifesto“. O autor do suposto “Manifesto” usou de um humor agressivo ao retratar a visão homofóbica de grupos anti-gay. O humor agressivo foi o estilo escolhido pelo autor para colocar-se na posição extremista em que tais grupos enxergam e retratam os homossexuais e obter um efeito cômico que demonstrasse, na própria escolha de suas palavras, o absurdo das teorias homofóbicas:

“Nós vamos sodomizar os seus filhos, símbolo de sua frágil masculinidade, de seus sonhos superficiais e mentiras vulgares, vamos seduzi-los em suas escolas, em suas repúblicas, em seus ginásios, em seus vestiários, em suas arenas de esporte, em seus seminários, em seus grupos de jovens, nos banheiros dos seus cinemas, nos alojamentos dos seus exércitos, nas paradas de seus caminhões, em todos os seus clubes masculinos, em todas as suas sessões plenárias, em todos os lugares onde homens estejam juntos com outros homens. Seus filhos se tornarão nossos subordinados e farão tudo o que dissermos. Serão remodelados à nossa imagem. Eles (…) nos adorarão.”

O livro de Sheldon retira o texto publicado pela Gay Community News do contexto da sátira e o apresenta como um ataque dos gays contra a sociedade, acusando-o de fazer ameaças reais. O texto em questão tem sido reproduzido pela internet como se fosse literal, e não um deboche ao radicalismo próprio dos grupos anti-gays, como o que é liderado pelo pastor.

Na página 9, prega que a homossexualidade mata mais do que a heterossexualidade, citando dados de 1988 relacionados a mortes por HIV. (O que nada prova contra a homossexualidade.) Como lembra Coletto, os números atuais são muito diferentes e não serviriam à pregação do pastor:

“Dados do Ministério da Saúde do Brasil (2011/2012) afirmam que os homens jovens que praticam sexo com outros homens jovens usam camisinha 2.2 vezes mais do que os heterossexuais jovens em relações casuais. Nos últimos dez anos observa-se redução de 11.1 % na mortalidade por AIDS no Brasil, graças a políticas de divulgação do sexo seguro (…).”

Para Coletto, “isso tem que ser analisado sob o ponto de vista sociológico também. A homossexualidade não coloca o gay em risco. Mas a maneira como ele vive a sua homossexualidade pode colocá-lo em risco. Por exemplo: um jovem gay com parceiro fixo e ambos sejam saudáveis, e praticam sexo com camisinha, correm risco praticamente zero. O jovem heterosseuxal que vai a um baile funk e transa com várias meninas na mesma noite sem usar camisinha, só naquela história de “baixa a sainha”, corre muito mais risco. Mas isso não diz nada sobre a homossexualidade ou a heterossexualidade. Isso diz respeito à maneira como as pessoas vivem a sua sexualidade.”

Outro exemplo de questão que “A Estratégia” levanta como argumento e do qual não há provas: não há qualquer evidência de que Sodoma e Gomorra – que o autor de “A Estratégia” considera fato histórico – sucumbiram à destruição por conta de atos de homossexuais. O pastor usa esse mito como prova de que Deus reprova a homossexualidade. “Mito não pode servir para fazer política pública,” lembra Coletto.

Tais são os argumentos do pastor.

Em seu vídeo, Coletto cita dados de uma resolução da APA – Associação Psicológica Americana a respeito da homossexualidade que valem ser ressaltados:

“O consenso de longa data (desde 1975) das ciências sociais e comportamentais, de saúde mental e de profissionais de saúde, é que a homossexualidade em si é uma variação normal e positiva da orientação sexual humana e identidade. A homossexualidade por si não é uma desordem mental. A APA tem se oposto ao estigma, preconceito, discriminação e violência baseados em orientação sexual e tem tomado posição de liderança em apoiar os direitos iguais de LGBT. (…) A APA reafirma sua posição de que a homossexualidade por si não é uma desordem mental e se opõe a retratos da minoria sexual jovem e adulta como mentalmente doente devido a sua orientação sexual.”

E aí, MPF?

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p.s.: O livro “A Estratégia” tem uma página no Facebook esperando a sua denúncia por “Discurso de violência direcionado a gênero ou orientação”: https://www.facebook.com/pages/A-Estrat%C3%A9gia-O-plano-dos-homossexuais-para-transformar-a-sociedade/421335444545028