HERÓIS E BANDIDOS

POR CECILIA GIANNETTI

(originalmente publicado no Destak)

A matéria de capa da revista Veja desta semana é um especial reunindo resultados de alguns estudos que colocam na conta do consumo de maconha:

1. A interferência em funções cerebrais que causam psicoses irreversíveis;

2. Danos às sinapses que permanecem muito mais tempo, em alguns casos para toda a vida, ao contrário dos efeitos do álcool e da cocaína, que se dissipariam em poucos dias após uso interrompido dessas substâncias;

3. Baixo Q.I.;

4. Bipolaridade, depressão aguda, esquizofrenia, ansiedade (sendo o vício na maconha um componente do quadro psicótico e não determinante).

5. E, como não poderiam deixar faltar, a clássica formulação “Porta de entrada para outras drogas”.

A maconha não escapa ao vai-e-vem dos cientistas e dos resultados de seus estudos em relação aos seus benefícios ou malefícios, como não escapam outros hábitos que a humanidade mantém há séculos, como:

A. Consumo de ovos;

B. Consumo de carne vermelha;

C. Consumo de café;

D. Consumo de chocolate;

E. Consumo de álcool.

Antes de citarmos os mais atuais estudos que dizem que:

I. O consumo de ovos faz bem e que dizem que o consumo de ovos faz mal à saúde;

II. Estudos que dizem que o consumo de café vai arruinar o seu organismo e estudos que afirmam que o consumo de café fará de você um super-humano;

III. Estudos que comprovam que o consumo de carne vermelha é veneno puro e estudos que afirmam o contrário, que a carne vermelha não é uma vilã;

IV. Estudos que apontam que comer chocolate regularmente emagrece e estudos que dizem que o chocolate é a obesidade personificada em forma de barrinha preta;

V. Estudos que demonstram que o consumo regular de álcool (cerveja e vinho, basicamente) é benéfico à saúde de homens e mulheres e estudos que apregoam que o álcool apenas mata.

Antes de esmiuçarmos tais controvérsias, um minuto para o comercial. 

Sim, para o comercial. Porque o que digo abaixo sobre “imparcialidade” no jornalismo tem muito a ver com o departamento comercial de veículos de notícias.

Sabemos – ou a esta altura já deveríamos desconfiar disso – que repórter algum consegue ser totalmente imparcial no que diz respeito à reportagem que escreve. A primeira razão para que isso ocorra é que a mera escolha de palavras, das fontes onde vai buscar dados, a seleção dos dados a ser publicada e a organização/edição do texto já configuram uma opinião de quem o produz.

Há repórteres que assumem a postura ilusória da imparcialidade para impor uma opinião como fato, sem oferecer ao leitor a opção de identificar o que é a opinião do repórter e/ou veículo e o que é fato.

No final das contas, na grande fábrica de salsichas do jornalismo, bastantes resultados (não tudo, nem todos e nem sempre) dependem dos ângulos que cada repórter e/ou editor escolhem destacar.

Sobre ovos, café, carne vermelha, chocolate, álcool e maconha existem estudos que afirmam que cada um desses itens pode ser benéfico para a saúde e existem estudos que afirmam que cada um desses itens pode ser prejudicial para a saúde.

O repórter e/ou editor responsável por uma reportagem a respeito de qualquer um desses itens, se desejar atingir um nível básico de imparcialidade, recorrerá a estudos que apresentam resultados nos dois campos: benéfico e prejudicial.

O repórter e/ou editor responsável por uma reportagem a respeito de qualquer um desses itens, se desejar puxar a brasa para a sardinha do prejudicial, utilizará apenas estudos que apresentam resultados no campo do prejudicial; se desejar puxar a brasa para a sardinha do benéfico, utilizará em seu texto apenas estudos que apresentam resultados no campo do benéfico.

Dito isto, vamos aos ovos:

Os ovos, como a maconha, são objeto de pesquisas importantes que ao longo dos anos revelaram tanto que são nocivos quanto benéficos à saúde.

OVO VILÃO: De acordo com pesquisa da Universidade de Western Ontario, comer gemas de ovos é quase tão ruim para o coração quanto fumar.

OVO HERÓI: Por outro lado, uma das mais recentes pesquisas sobre ovos, realizada pela Universidade do Estado de Louisiana, afirma que o ovo apresenta colina, nutriente essencial para a saúde do cérebro, inclusive para formação de novos neurônios. Por isso o consumo de colina é indicado na prevenção das doenças neurodegenerativas, como Alzheimer e Parkinson. E mais: ingerir ovos pela manhã emagrece.

E aquele churras?

A carne vermelha, como a maconha, é objeto de pesquisas importantes que ao longo dos anos revelaram tanto que é nociva quanto benéfica à saúde.

CARNE VERMELHA VILÃ: pesquisa publicada no periódico Archives of Internal Medicine, realizada na Faculdade de Saúde Pública de Harvard, revela que o consumo de carne vermelha pode aumentar os riscos de morte prematura, além do aparecimento de doenças cardiovasculares e câncer.

CARNE VERMELHA HEROÍNA: Comer carne vermelha não faz mal ao coração. O bife foi absolvido de graves acusações após longos anos como o bicho-papão das doenças cardíacas, graças a pesquisas apresentadas durante o 66º Congresso Brasileiro de Cardiologia.

Agora, ao nosso amado café:

O café, como a maconha, é objeto de pesquisas importantes que ao longo dos anos revelaram tanto que é nocivo quanto benéfico à saúde.

CAFÉ VILÃO: A cafeína pode causar fortes oscilações da glicose no sangue, causando baixa de açúcar no sangue (hipoglicemia) = fraqueza, nervosismo, sudorese, tremores e palpitações cardíacas; pode aumentar a pressão arterial e o colesterol (!); causa risco de úlceras, refluxo ácido, e síndrome do intestino irritável; pode causar irritações cutâneas; pode causar desequilíbrio cálcio-fósforo no organismo, associado à artrite reumatóide e osteoporose; pode agravar a TPM e os sintomas da menopausa; pode prejudicar a qualidade do seu sono, agravar os sintomas de ataques de pânico e ansiedade; pode aumentar o risco de aborto espontâneo, malformações congênitas e baixo peso em recém-nascidos. Se você ingere mais de 100 mg de cafeína (meio copo de café) por dia, está viciado em cafeína e pode ter alguns sintomas de abstinência, como rigidez muscular, dor de cabeça, irritabilidade, fadiga e dificuldade de concentração. E mais: pesquisa do Brigham and Women´s Hospital, de Boston, sugere que os compostos encontrados no café podem aumentar a pressão dentro do globo ocular, causando uma alteração na visão, conhecida como síndrome de esfoliação. Isso pode levar ao glaucoma.

CAFÉ HERÓI: Estudo do Harvard Medical School revela que mulheres que bebem duas ou mais xícaras de café por dia estão menos inclinadas a sofrer de depressão; café pode aliviar sintomas de mal de Parkinson, de acordo com estudo conduzido pela Universidade McGill, no Canadá, publicado na revista norte-americana Neurology; quem toma café vive mais, segundo pesquisa de Neal Freedman de 2012; café ajuda a queimar calorias, segundo um estudo do Instituto Australiano de Esportes; tomar café reduz risco de câncer endometrial, de acordo com pesquisa realizada pela Universidade de Harvard; consumo moderado de café reduz risco de diabetes, segundo o European Prospective Investigation into Cancer and Nutrition (EPIC). A pesquisa indica também que o consumo de café não está associado ao aumento de doenças cardíacas ou do câncer; dois estudos realizados durante 20 anos pela Universidade de Harvard apontam que o consumo regular de café pode diminuir os riscos de um tipo comum de câncer de pele entre os norte-americanos, o carcinoma basocelular.

E os chocólatras, irão sobreviver ao seu vício?

O chocolate, como a maconha, é objeto de pesquisas importantes que ao longo dos anos revelaram tanto que é nocivos quanto benéfico à saúde.

CHOCOLATE VILÃO: o chocolate é um alimento proibido – 1) para os ossos. É um ladrão de uma substância essencial para o fortalecimento ósseo. Rico em oxalatos, diminui a absorção do cálcio. 2) Também causa enxaqueca, irritações na pele, aumento da glicemia, ganho de peso e diarreia. 3) Além de gerar um efeito no cérebro semelhante ao ópio, segundo pesquisa publicada pelo jornal Current Biology, pois faz surgir no cérebro do *usuário de chocolate* uma substância química natural chamada encefalina, uma endorfina similar às propriedades do ópio. Esse neurotransmissor, a encefalina, pode levar a formas de consumo excessivo e dependência e apresentar considerável participação na geração de níveis patológicos de consumo excessivo, distúrbios alimentares, vício em drogas e outros comportamentos compulsivos.

CHOCOLATE HERÓI: pesquisa no Karolinska Institutet em Estocolmo afirma que o alimento diminui o risco de derrame. E o Departamento de Ciência do Alimento e Biotecnologia da Universidade de Chung Hsing, em Taiwan, mandou avisar que os ácidos fenólicos presentes no cacau fazem com que o alimento seja considerado um aliado de quem quer emagrecer.

E o alquinho?

O álcool, como a maconha, é objeto de pesquisas importantes que ao longo dos anos revelaram tanto que é nocivo quanto benéfico à saúde.

ÁLCOOL VILÃO: em 2010, nossos amigos pesquisadores afirmaram que o álcool é mais prejudicial que o crack e a heroína, em pesquisa publicada no periódico médico Lancet.

ÁLCOOL HERÓI: em 2011 a cerveja foi equiparada ao vinho em matéria de benefícios à saúde. Pesquisa do instituto italiano Research Laboratories, da Fondazione di Ricerca e Cura Giovanni Paolo II indicou que o consumo moderado da bebida faz bem ao coração. O estudo foi publicado no European Journal of Epidemiology. Além disso, pesquisa realizada em parceria entre a Universidade de Barcelona, o Hospital Clínico de Barcelona e o Instituto Carlos III de Madri revelam que a cerveja não acarreta obesidade (tem cerca de 200 calorias por caneca, o mesmo que uma xícara de café com leite integral). A cerveja, absolvida por essa pesquisa, também não é responsável pelo aumento da gordura abdominal. O problema são as frituras que geralmente a acompanham.

Last, but not least – maconha:

A maconha, como os ovos, a carne vermelha, o café, o chocolate e o álcool, é objeto de pesquisas importantes que ao longo dos anos revelaram tanto que é nociva quanto benéfica à saúde.

MACONHA VILÃ: para conhecer somente as pesquisas que apontam unicamente o lado negativo do uso da maconha, basta ler a Veja desta semana. Com a chamada na interna “Pesquisas comprovam que a maconha faz mal” e frases como “consequências funestas” em referência à erva no texto, a revista esqueceu das pesquisas que comprovam que a maconha oferece benefícios. O que teria dado mais credibilidade à matéria, diga-se de passagem. Mas do jeito que foi apresentada a reportagem, pareceu agenda. Uma moeda de um lado só.

MACONHA HERÓI: em 2012, foi constatado que o uso de cannabis pode ter um efeito benéfico sobre o funcionamento cognitivo em pacientes com graves distúrbios psiquiátricos. Pacientes bipolares com histórico de consumo de cannabis demonstram desempenho neurocogitivo superior em comparação a pacientes sem histórico de uso, de acordo com pesquisadores do Hospital Hillside Zucker em Long Island, e pesquisadores da Mount Sinai School of Medicine e do Albert Einstein College of Medicine, em Nova York. Os dados foram publicados na revista Psychiatry Research. E mais: estudo publicado neste ano na revista American Journal of Epidemiology mostra que maconha não danifica o cérebro de forma permanente. Outro estudo, divulgado no Journal of Neuroscience, realizado pela Universidade Complutense de Madri e pelo Instituto Cajal, mostra ainda que o uso da erva pode reduzir a inflamação associada ao Alzheimer e, assim, evitar o declínio mental. E um estudo da Escola de Medicina da Universidade da Califórnia em San Diego, realizado em 2012, aponta que o uso da maconha pode ajudar no tratamento da esclerose múltipla. A droga ajuda a aliviar sintomas e dores em pacientes que sofrem da doença.

***

Nota pessoal:

Durante a produção desta coluna foram ingeridos 2 ovos mexidos, uma xícara de café, uma lata de água tônica light e quatro quadrados de chocolate com recheio cremoso de avelã. Nenhum cigarro de maconha foi tragado durante a produção deste texto. Nem antes. Nem depois.

“Compre seu bebê parcelado no cartão!”

POR CECILIA GIANNETTI

Fazer neném é fácil, quando os métodos naturais funcionam. Quem não pode ter filhos tem a opção de adotar uma criança. Ou comprar um boneco tão perfeito quanto.

“Bebês para adoção (Venda!)”, anuncia Karen Hoecherl no blog onde comercializa seus reborns, os bebês realistas, uma tendência que começou nos Estados Unidos no começo da década de 1990 e tornou-se popular em vários países, tendo crescido no Brasil recentemente. Seus fabricantes têm uma organização, a International Reborn Doll Artists, fundada em 2005, e encontram-se em dezenas de congressos durante o ano todo para discutir seu ofício de gepetos pós-pós-modernos.

(Se vivêssemos submetidos a uma mais lógica universal insana, os reborns seriam filhos das Love Dolls, aquelas mulheres-bonecas quase perfeitas com quem muitos homens dividem sua vida. Mas o mundo é ainda mais louco do que isso. Os reborns, uma vez fabricados, empacotados e enviados por Sedex, tornam-se filhos de gente de carne e osso.)

Love Doll
Sua esposa?

Alguns modelos estrangeiros, como os da http://www.storklane.com/custom.htm, já vêm com batimentos cardíacos, com um dispositivo que faz com que o peito do bebê suba e desça, simulando a respiração, com uma voice box que emite barulhinhos de bebê. Se o comprador quiser pode levar um bebê com cordão umbilical e um dispositivo de aquecimento para o corpo do bebê parecer ainda mais humano ao toque. Quem quiser a “emoção” de comprar um bebê prematura, este vem com incubadora e aparelhos para respiração presos ao nariz.

Cria da baiana Karen Hoecherl, o Guilherme [foto abaixo], custa mil reais e pode ser parcelado em 12x de R$ 96,56 no cartão. De acordo com o site onde é vendido, ele é “gordinho e dorminhoco”, mede 52cm e pesa 3Kg. “Ele vai para a casa da nova Mamãe com as roupinhas dessas fotos, manta, touquinha, sapatinho com meias, chupeta magnética com prendedor, instruções de cuidados, certificado de autenticidade, pente, escova e perfuminho… Tudo numa linda caixa!!! Frete Grátis para todo o Brasil!!!”

Guilherme, R$ 1.000, ou em 12x de R$ 96,56 no cartão

Em uma entrevista ao ABC News, uma adepta dos newborns afirmou que adotar um bebê de verdade não seria a escolha certa para ela. “É muito difícil conseguir (adotar), sabe. E é muito mais caro do que comprar bonequinhos.”

Outra artista brasileira de reborns, Silvia Pereira, do http://silviarealbaby.blogspot.com.br, exibe em seu site fotos de seus produtos no banho, para provar o quão mais reais ainda podem parecer suas criações/criaturas.

O processo de fabricação de um reborn costuma empregar ao corpo de vinil do bebê tinta à base de óleo que não desbota, nem descasca ou racha, e pêlo de cabra angorá para os cabelos, de acordo com a fabricante Sarah Whitney.

Sarah explica que seu processo começa com um banho de espuma quente para deixar o material do molde de vinil limpinho cheiroso. Aí cuida da tonalidade da pele do bebê com uma lavagem para neutralizar o vinil. Então o bebê é levado a um forno para aquecimento da pintura. Em seguida são pintadas as veias na testa, pés, mãos e joelhos. Novo aquecimento no forno e então coloca-se a primeira camada de “carne”, a mais leve. Pro forno de novo e são colocadas mais três camadas de “carne”, com aquecimentos entre cada aplicação. Passa à fase da pintura que dá cores o mais naturais possíveis ao bebê, pintando ainda detalhes nas bases dos pés, joelhos, cotovelos, orelhas, lábios e veias nos olhos. É quando também costuma-se aplicar, se for desejo do cliente, por exemplo, marcas de nascença. O bebê é levado ao forno novamente e em seguida Karen adiciona a ele uma textura que impede que a “pele” do bebê brilhe como a de qualquer boneco comum. Ao forno pela última vez e então os fios de cabelo são costurados pela raiz um a um, bem como os cílios – somente esta parte do processo pode levar até três dias. E olha que recém-nascidos têm bem pouco cabelo geralmente. O peso certo do bebê é alcançado com preenchimento de pérolas de vidro.

Claire e seu reborn
Claire e seu reborn, foto do The Mirror

=> Clique aqui para assistir a um trecho do documentário do Channel 4 que mostra a rotina e fabricantes e “mamães’ de reborns.

Alguns entusiastas mantêm coleções de reborns como manteriam bonecas arrumadas na cama, não passando de um caso de decoração de gosto duvidoso. Outros (as) os levam no colo, enrolados em mantas, sentindo seu batimento cardíaco artificial e os olhares de admiração (que não raro vêm com elogios à beleza da “criança”), preenchendo o vazio da ausência de um filho de verdade.

Ou talvez sejam todos apenas colecionadores de bebês.

O CRIME DA MTV

POR CECILIA GIANNETTI

Por incrível que pareça, o crime mais grave perpetrado pela MTV atualmente não é veicular clipes do Restart.

O blog Testosterona, página relacionada ao site da MTV Brasil, está na mira de uma petição que hoje conta com cerca de 20 mil assinaturas contra seu conteúdo, considerado violento e preconceituoso.

Estranho o presidente da MTV Networks, Mr. Van Toffler, permitir que sua marca carimbe tal material: a mesma rede conhecida por veicular campanhas para promover a tolerância e a igualdade entre seu público jovem fecha os olhos para o jeitinho misógino de ser do blog.

O Testosterona começou a cavar sua má fama em 2010, com a postagem de um vídeo em que ensinava como “convencer” uma mulher a fazer sexo anal quando ela se recusa; basta dar-lhe uma tijolada na cabeça que ela “apaga” e o caminho está livre. Ao final do vídeo, três motivos explicam porque o sexo anal é melhor: é “(…) mais humilhante para a mulher“.

Em março deste ano a polícia prendeu dois ex-colaboradores do Testosterona, Emerson Eduardo Rodrigues e Marcelo Valle Silveira Mello. Além de colaborar com o Testosterona, os dois mantinham seu próprio site para reforçar o discurso de ódio contra mulheres, homossexuais, negros, nordestinos e judeus. As investigações ainda ligaram Emerson e Marcelo a um grupo que planejava uma ação armada contra estudantes da Universidade de Brasília (UnB). Cereja no topo do bolo: Wellington Menezes de Oliveira, autor do massacre ocorrido em Realengo, no Rio de Janeiro, no dia 7 de abril de 2011, que resultou na morte de 12 estudantes, manteve contato com Emerson e Marcelo pedindo ajuda para planejar o ataque.

É. O Testosterona parece mesmo reunir a nata dos humoristas na internet. [Só que ao contrário.]

Amostra de “humor”

O editor do Testosterona, Eduardo Mendes, afirma no site: “Não sou machista, machismo é burrice e burrice é coisa de mulher.” E diz ser “um rapaz que acredita que toda mulher é uma rainha e a cozinha é seu castelo.”

Secretária de Enfrentamento da Violência contra a Mulher, Aparecida Gonçalves, alertou em entrevista recente à CBN a respeito do aumento de violência sexual que vem sendo observado no país inteiro e ressaltou que, nesse ambiente, é inaceitável a existência “de blogs, sites ou programas de televisão que efetivamente incentivem esse tipo de coisa.”

Mas o que seria esse tipo de coisa?

De acordo com o SINAN – Sistema de Informação de Agravos de Notificação, esse tipo de coisa, a violência sexual, é toda ação na qual uma pessoa, em situação de poder, obriga uma outra à realização de práticas sexuais, contra a vontade, por meio de força física, influência psicológica, uso de armas ou drogas (Código Penal Brasileiro).

Esse tipo de coisa é meio serinho:

Em 2010 a Central de Atendimento à Mulher – SEPM (Ligue 180) divulgou o número de atendimentos de janeiro a maio daquele ano. Somaram 271.719, um aumento de 95,5% em relação aos primeiros cinco meses de 2009 (138.985). Afinando o foco: foram 29.515 casos de violência física e 1.060 de violência sexual, descontando os demais. Segundo o Mapa da Violência divulgado pelo SINAN, em 2011 foram atendidas mais 13 mil mulheres vítimas de violência sexual (sem contar os casos não registrados oficialmente). Reforçando: em um ano, os casos registrados de violência sexual contra a mulher saltaram de 1.060 a 13 mil.

Nesse período, a Central 180 registrou 51.354 relatos de violência. Foram 29.515 casos de violência física, 13.464 de violência psicológica, 6.438 de violência moral, 887 de violência patrimonial, 1.060 de violência sexual, 42 situações de tráfico e 207 casos de cárcere privado.

Uma piada que celebra esse tipo de coisa, que retrata a definição acima, pode ser considerada humor por alguns. Mas da mesma maneira que não podemos ignorar que ela pode ser engraçada – para alguns – não podemos deixar de apontar que tal piada incita a situação acima descrita como violência sexual.

O vídeo da “tijolada” do sexo anal foi retirado do blog somente no mês passado, mais de dois anos depois de postado, e ainda pode ser acessado no YouTube, apesar de ter levado a Secretaria de Políticas para as Mulheres a solicitar do Ministério Público uma investigação sobre apologia ao estupro.

A All Out, organização internacional pela petição denominada “MTV Apoia o Ódio“, recebeu da Vice Presidente de Responsabilidade Social da emissora em Nova York uma mensagem decepcionante. Na nota, a MTV declara apenas que o Testosterona não passa de “uma abordagem bem-humorada do machismo modernoadequadamente embasada na cultura brasileira” e que por isso não encerrariam sua parceria com o site.

Para a MTV, esse tipo de coisa é bem coisa nossa!

Para a MTV somos modernos neanderthals em cuja cultura está enraizado e é aceito o procedimento do ataque à tacape (ou tijolo) na cabeça da fêmea para obter sexo. Por isso devemos achar graça do tal vídeo postado no Testosterona. Porque supostamente ainda possuímos vivo demais o registro dessa modalidade de convívio, tão entranhado em nós que é até de se espantar que nos revoltemos contra o conteúdo do vídeo e/ou de todo o Testosterona.

Não se trata mais de uma questão para feministas nem feminazis. A mensagem da MTV chama a todos de ignorantes: tanto homens quanto mulheres.

 

 

‘Editores não procuram autores em blogs’

‘Editores não procuram autores em blogs’. => Matéria escolhida pelo Ave Palavra para post no blog do evento, do qual participarei em  3 de novembro. 

‘EDITORES NÃO PROCURAM AUTORES EM BLOGS’

Cecília Giannetti, escritora que participa do Ave, Palavra ao lado da também escritora Prisca Agustoni, no dia 3 de novembro, concedeu entrevista ao G1 em 2007. A influência da Internet na produção literária contemporânea, as mudanças na rotina após ter se tornado escritora e a relações da literatura canônica com a atual são algumas das questões abordadas no bate-papo. Confira!

Nome que desponta com brilho na ficção nacional, a escritora carioca Cecilia Giannetti, autora do romance “Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi”, abre hoje, às 10h, ao lado do poeta paulista Fabrício Corsaletti e da contista gaúcha Verônica Stigger, as mesas de debate da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip).

Ao conferir este destaque ao jovem grupo, a Flip sinaliza que aposta na renovação da literatura brasileira. E é exatamente sobre isso que os três conversam na mesa intitulada “O Futuro do Presente”.

Blogueira, colunista de jornal e agora também tradutora, Cecilia Giannetti diz, em entrevista ao G1, que a internet não facilitou a vida dos escritores estreantes. “Não faz parte da rotina dos editores procurar autores em blogs. É preciso ler um romance, ou alguns contos de um autor, para apostar nele. E mesmo assim ainda é muito difícil vender a idéia de um autor novo dentro de uma editora”, avalia.

Cecilia não gosta que se compare os escritores contemporâneos às gerações anteriores que marcaram a literatura brasileira e diz que a publicação de seu livro não alterou sua vida. “A vida mudou foi quando eu passei a escrever ficção – começando por contos -, há nove anos”. Leia abaixo a entrevista.

G1 – Como é o futuro do presente pra você? Você acha que na literatura brasileira contemporânea têm surgido nomes à altura dos grandes criadores das gerações anteriores?
Cecília Giannetti –
 Não cabe ao escritor – nem mesmo ao crítico – analisar literatura contemporânea requisitando dela que corresponda a modelos antigos, ao mito deformado do Grande Romance. Mais interessante é conhecer as deformações da própria produção contemporânea. Para que se queira carimbar a produção literária dessa forma, é preciso algum distanciamento. Um “nome à altura dos grandes” constrói-se através de uma seqüência de obras, na qual presumivelmente o autor evolui e reafirma seu estilo e voz.

Possivelmente nenhum talento que publica hoje jamais estará “à altura” da sombra gigantesca do Grande Romance Brasileiro ou do Grande Romance Americano. É mais fácil buscar tal coisa entre romances escritos postumamente por Grandes Autores através de médiuns. Não quero dizer com isso que não há qualidade entre os autores contemporâneos, mas que não correspondem exatamente à antiga – vaga e engessada – idéia do Grande Nome.
G1 – Você avalia que o mercado editorial está mais aberto para novos talentos, depois dos blogs, ou ainda é muito difícil para um estreante ultrapassar os critérios comerciais? Você sentiu que sua mudou muito depois do primeiro livro publicado?
Cecilia –
 A maioria absoluta dos editores, em qualquer parte do mundo, continua selecionando originais da mesma maneira que sempre fez. Lendo originais, não blogs. A internet acelera esse processo no caso, por exemplo, de títulos estrangeiros – sabe-se com mais facilidade e rapidez qual livro vende mais; ou qual autor novato estrangeiro deverá provocar uma corrida por seu passe entre as editoras nacionais, porque já se sabe de antemão através de sites como Publishers Weekly (para
citar um só) o que está indo a leilão e por quanto. A relação da maioria absoluta dos editores com os chamados blogs que reúnem algum tipo de produção literária continua a mesma coisa de sempre: não faz parte de sua rotina procurar autores em blogs.

É preciso ler um romance, ou alguns contos de um autor, para apostar nele. E mesmo assim ainda é muito difícil vender a idéia de um autor novo dentro de uma editora. Há todo o tipo de resistência no mercado nacional porque – não é segredo nem novidade – somos um país que lê pouco, e portanto compra poucos livros.
G1 – Você sentiu que sua vida mudou muito depois do primeiro livro publicado? 
Cecilia – A vida mudou foi quando eu passei a escrever ficção – começando por contos -, há 9 anos. Ninguém tira só “três horinhas” do seu dia ou noite para escrever ficção, por exemplo; é uma atividade que exige mais tempo, e diariamente. O resto passa a ser secundário.

G1- Qual a sua expectativa com relação a Paraty? Dos muitos autores que estão aqui, tem predileção ou interesse em quais?
Cecilia –
 Acho estranho falar sobre o primeiro livro. Não tenho um discurso
pronto, como autores mais acostumados a falar do seu trabalho. Em relação à Flip, se eu não tropeçar ao entrar e sair do palco onde acontece o debate, já vou me dar por satisfeita. Dos autores convidados nesta edição, tenho interesse particular por Alan Pauls, Will Self, Jim Dodge, Nadine Gordimer e Guillermo Arriaga.

Fonte: G1 | Foto: divulgação

Manual do Ódio

POR CECILIA GIANNETTI

Os homossexuais, conforme retratados pelo livro "A Estratégia"
Os homossexuais, conforme retratados pelo livro “A Estratégia”

No debate político o assunto da cartilha anti-homofobia – acusado de fazer apologia à homossexualidade, em vez de prevenir a homofobia – foi antes um joguete às vésperas das eleições do segundo turno em São Paulo; em seguida foi deixado de lado, quando provou não ser capaz de mostrar nem um candidato nem o outro sob luz favorável. A discussão não funcionava bem para angariar votos.

Enquanto isso – o que não é de causar espanto, nesta conjuntura – um livro que atenta contra os direitos civis de homossexuais, bissexuais, transexuais e travestis. A Avon, que distribuía o livro, retirou-o de seu catálogo em junho, graças a protestos e a um abaixo-assinado que rapidamente se espalharam pelas redes sociais. Mas ainda está à venda em livrarias e lojas online.

Na Amazon, no espaço dedicado a críticas, clientes se declaram espantados com a presença do livro na loja, como o “Really Disgusted Costumer“, a seguir: [traduzido do inglês] “Eu não consigo acreditar que livros como este são publicados. Qualquer editor com um mínimo de bom senso deve perceber o quão perturbativamente ele é preconceituoso. Basicamente, é o mesmo tipo de discurso que surgiu contra negros após a Guerra Civil, basta substituir “negro” por “homossexuais”. Realmente perturbador e nojento.”

Assinado pelo pastor norte-americano e presidente da Traditional Values Coalition Louis Sheldon, e lançado no Brasil pela editora Central Gospel, do pastor Silas Malafaia (Assembleia de Deus Vitória em Cristo), “A Estratégia – O plano dos homossexuais para transformar a sociedade” (“The Agenda“) revela a fonte da qual Malafaia, o deputado federal Jair Bolsonaro e o senador Magno Malta, entre outros da mesma cepa, copiam seu discurso contra a comunidade LGBT.

“O discurso deles é um plágio descarado do livro (…) e de outros semelhantes e anteriores a esse,” afirma Sergio Viula, um dos fundadores do MOSES (Movimento pela Sexualidade Sadia) e autor do livro “Em busca de mim mesmo”.

Plágio é o menor dos problemas em relação à “Estratégia” propagada pelos pastores. Vale a palhinha:

O livro começa retratando gays em geral como gente perigosamente promíscua, muito fã de saunas onde o sexo rola solto. Mas o que será que acontece em casas de massagem, casas de prostituição e clubes de troca de casais para heterossexuais, que também têm seu público numeroso e cativo? Ora bolas, a heterossexualidade também possui variadas opções de espaços de recreação sexual. Porém, “A Estratégia” retrata os gays como os únicos tarados do pedaço. O que, aliás, não diz nada sobre sexualidade em si.

Mas é assim que esse livro joga.

Na página 6, o pastor Louis Sheldon equipara os gays a terroristas:

“Não são apenas os terroristas estrangeiros que devemos temer hoje. Os radicais mais perigosos que ameaçam nosso estilo de vida são aqueles que vivem entre nós. Eles já têm posições privilegiadas no governo, nos tribunais e em nossas escolas e faculdades, e até mesmo no mundo dos negócios, e você pode ter certeza de que eles nos destruirão se não tomarmos medidas para derrotar o movimento radical deles agora.”

Para o autor de “A Estratégia”, os gays são piores do que terroristas e devem ser derrotados se a sociedade quiser viver em segurança. Tal discurso é um discurso de ódio. E qualquer publicação que propaga e incita discurso de ódio merece ao menos uma investigação e algumas denúncias ao Ministério Público.

Na página 19, Sheldon declara guerra, oficialmente, contra os homossexuais, empregando terminologia de guerra, como relata Luiz Henrique Coletto, presidente do Conselho LGBT da Liga Humanista Secular do Brasil, que comprou o livro para estudá-lo e rebater o discurso do autor em um vídeo veiculado no Youtube, com algo que o texto original do pastor não possui: lógica.

“A Estratégia” afirma que “O debate moral a que políticos e analistas de pesquisas de opinião se referem como guerra cultural na América é uma guerra verdadeira no sentido restrito da palavra, o resultado é que estamos engajados em uma luta de vida ou morte, com batalhas ferozes, baixas verdadeiras, e consequências muito reais para nós, que abracamos uma compreensão tradicional de fé, família e liberdade, o desafio não poderia ser maior.”

É uma guerra declarada e os gays são os terroristas.

Na página 35 o pastor Louis Sheldon afirma que “por quase toda uma década a mídia liberal tem alardeado a notícia de que pesquisadores encontraram a prova de que a homossexualidade é inata, genética e um comportamento normal entre considerável porcentagem da população.” O livro renega tais descobertas científicas.

“A Estratégia” é construído também em cima de várias distorções propositais.

Uma dessas distorções diz respeito a uma sátira publicada originalmente no Gay Community News, em fevereiro de 1987, intitulado “The Gay Manifesto“. O autor do suposto “Manifesto” usou de um humor agressivo ao retratar a visão homofóbica de grupos anti-gay. O humor agressivo foi o estilo escolhido pelo autor para colocar-se na posição extremista em que tais grupos enxergam e retratam os homossexuais e obter um efeito cômico que demonstrasse, na própria escolha de suas palavras, o absurdo das teorias homofóbicas:

“Nós vamos sodomizar os seus filhos, símbolo de sua frágil masculinidade, de seus sonhos superficiais e mentiras vulgares, vamos seduzi-los em suas escolas, em suas repúblicas, em seus ginásios, em seus vestiários, em suas arenas de esporte, em seus seminários, em seus grupos de jovens, nos banheiros dos seus cinemas, nos alojamentos dos seus exércitos, nas paradas de seus caminhões, em todos os seus clubes masculinos, em todas as suas sessões plenárias, em todos os lugares onde homens estejam juntos com outros homens. Seus filhos se tornarão nossos subordinados e farão tudo o que dissermos. Serão remodelados à nossa imagem. Eles (…) nos adorarão.”

O livro de Sheldon retira o texto publicado pela Gay Community News do contexto da sátira e o apresenta como um ataque dos gays contra a sociedade, acusando-o de fazer ameaças reais. O texto em questão tem sido reproduzido pela internet como se fosse literal, e não um deboche ao radicalismo próprio dos grupos anti-gays, como o que é liderado pelo pastor.

Na página 9, prega que a homossexualidade mata mais do que a heterossexualidade, citando dados de 1988 relacionados a mortes por HIV. (O que nada prova contra a homossexualidade.) Como lembra Coletto, os números atuais são muito diferentes e não serviriam à pregação do pastor:

“Dados do Ministério da Saúde do Brasil (2011/2012) afirmam que os homens jovens que praticam sexo com outros homens jovens usam camisinha 2.2 vezes mais do que os heterossexuais jovens em relações casuais. Nos últimos dez anos observa-se redução de 11.1 % na mortalidade por AIDS no Brasil, graças a políticas de divulgação do sexo seguro (…).”

Para Coletto, “isso tem que ser analisado sob o ponto de vista sociológico também. A homossexualidade não coloca o gay em risco. Mas a maneira como ele vive a sua homossexualidade pode colocá-lo em risco. Por exemplo: um jovem gay com parceiro fixo e ambos sejam saudáveis, e praticam sexo com camisinha, correm risco praticamente zero. O jovem heterosseuxal que vai a um baile funk e transa com várias meninas na mesma noite sem usar camisinha, só naquela história de “baixa a sainha”, corre muito mais risco. Mas isso não diz nada sobre a homossexualidade ou a heterossexualidade. Isso diz respeito à maneira como as pessoas vivem a sua sexualidade.”

Outro exemplo de questão que “A Estratégia” levanta como argumento e do qual não há provas: não há qualquer evidência de que Sodoma e Gomorra – que o autor de “A Estratégia” considera fato histórico – sucumbiram à destruição por conta de atos de homossexuais. O pastor usa esse mito como prova de que Deus reprova a homossexualidade. “Mito não pode servir para fazer política pública,” lembra Coletto.

Tais são os argumentos do pastor.

Em seu vídeo, Coletto cita dados de uma resolução da APA – Associação Psicológica Americana a respeito da homossexualidade que valem ser ressaltados:

“O consenso de longa data (desde 1975) das ciências sociais e comportamentais, de saúde mental e de profissionais de saúde, é que a homossexualidade em si é uma variação normal e positiva da orientação sexual humana e identidade. A homossexualidade por si não é uma desordem mental. A APA tem se oposto ao estigma, preconceito, discriminação e violência baseados em orientação sexual e tem tomado posição de liderança em apoiar os direitos iguais de LGBT. (…) A APA reafirma sua posição de que a homossexualidade por si não é uma desordem mental e se opõe a retratos da minoria sexual jovem e adulta como mentalmente doente devido a sua orientação sexual.”

E aí, MPF?

***

p.s.: O livro “A Estratégia” tem uma página no Facebook esperando a sua denúncia por “Discurso de violência direcionado a gênero ou orientação”: https://www.facebook.com/pages/A-Estrat%C3%A9gia-O-plano-dos-homossexuais-para-transformar-a-sociedade/421335444545028 

O Exorcismo do Imperador

Glub glub hic
Glub glub hic

 

POR CECILIA GIANNETTI

Adriano faltou ontem, terça, 24, à sessão de preparação física que tinha marcada em uma academia na Barra da Tijuca, e desta vez não mandou nem um nonchalant SMS para notificar que não daria bolo no preparador físico Marcos Lima, que ainda o esperou por mais de uma hora no local. 

A explicação para a ausência do jogador é simples de dar: farra. E difícil de engolir: nem a torcida, nem o clube aguentam mais seu comportamento auto-destrutivo.

“Não faço mal para ninguém, só para mim mesmo,” afirmou, em um lampejo de consciência, em coletiva no início de outubro, após faltar a um treino pela terceira vez.

Na madrugada de segunda-feira, o Imperador – que pesa atualmente algo em torno de 110kg – saiu de um show do cantor Belo, onde já havia consumido álcool, e foi flagrado por volta de 4h da madruga a fartar-se com macias fatias e mais álcool na Pizzaria Guanabara, no baixo Leblon. Por volta de 5h30, deixou a pizzaria e emendou a comilança com outro estrago da baixa gastronomia brasileira, mandando ver um podrão: aquele sanduíche amigo da laricarico em maionese e queijo gordo, típico dos fins de naite da garotada. Vale enfatizar: típico dos fins de noitada de quem não é atleta e não tem toda a nação rubro-negra urubuzando sua capacidade de virar a mesa – virar a mesa em campo; em mesa de restaurante a gente viu que ele se vira muito bem.

Nessa balada que desembocou ao raiar do dia em um quiosque da praia, membros da entourage do jogador – dentre eles a delegada Adriana Belém – davam indicação de que a farra não havia terminado, recrutando gatinhas que passeavam pela área para ir com eles conhecer a casa do Imperador.

Fato é que, nesta conjuntura, quase ninguém mais bota fé em Adriano. Quase.

No começo deste mês os exageros do Imperador chegaram a mobilizar o vascaíno e evangélico fervoroso Rafael Batista Gomes, de 27 anos. Batista (!) – um autodenominado Profeta morador da Maré, na Zona Norte do Rio de Janeiro –, que amanheceu na terça, 2 de outubro, no CT do mengão em Vargem Grande, empunhando uma Bíblia Sagrada, dramaticamente encapada em cor vermelha, com a qual sentou praça frente ao Ninho do Urubu para orar com firmeza pelo jogador. Seu objetivo: livrar Adriano do caminho das trevas.

É possível tirar o(s) demônio(s) do corpo de Adriano e, dessa maneira, oferecer ao jogador condições divinas para que ainda nesta encarnação seja capaz de honrar a camisa 10 em campo? É possível livra-lo de supostas interferências de espíritos obsessores os quais, desde a contratação do Imperador pelo Flamengo, já o levaram a faltar a três treinos – por motivo de celebrações pecaminosas aos olhos do Evangelho e aparentemente inadiáveis para o atacante – além da rescisão com o time, que por um triz foi evitada?

Adriano já chegou a declarar a Zinho, diretor executivo de futebol do clube, sentir-se “confuso e perturbado”. Quem sabe não foi tal declaração que acionou o alarme religioso interno de Batista e aguçou seu faro anti-demoníaco, lançando-o nesta cruzada?

Por outro lado, o sr. Batista, diz ser um enviado de Deus ao CT do Flamengo, e que ora por Adriano pois deseja vê-lo atuar na Copa do Mundo.

Batista deve orar para que Adriano pare de fazer mal a si mesmo.

Ora, a fé move montanhas – mas dificilmente arrastará até local inacessível, neste ou noutro universo, as boates, pizzarias, quiosques de podrões e o morro da Vila Cruzeiro, cenário preferido de Adriano para tomar temerárias cervejas com os amigos em vésperas de treinos. (Não que seja a Vila a culpada pela empolgação do Imperador por festas mostrar-se constantemente maior do que pela bola.)

Antes de pedir auxílio novamente às preces do Profeta da Maré e entregar o caso do atacante exclusivamente à fé – e logo a de um vascaíno! –, Zinho conta com o bom senso dos colegas de clube de Adriano: para tal, decretou a lei Forever Alone: que os outros jogadores não convidem mais o Imperador para balada alguma, pois “Alguns atletas podem sair, curtir um show, aproveitar a noite dentro de uma normalidade. O problema é que o Adriano, infelizmente, não tem esse controle,” conforme declarou o diretor à imprensa.

Adriano, porém, dispensa convitinhos e RSVP. Não precisa de convocação oficial à badalação: estala os dedos e a seu comando dezenas de convivas já requebram ao som de funk em seu condomínio; zarpa de BMW branca e vira a noite em sua querida Vila de origem ou numa balada qualquer.

Adriano é a Paris do esporte bretão, Adriano é uma festamóvel.

Que poderes terão o evangélico Batista e sua Bíblia vermelha contra tal força dionisíaca?

Saberemos ao final de 2012 (quando expira o contrato do craque festeiro) e para quando também aguardamos o fim do mundo.

DESTAKADA

Outubro tem sido um mês bom. Ele começou em setembro, na verdade, quando fui a São Paulo depois de dois anos (cravadinhos: a última vez em que eu tinha passado pela cidade foi em outubro de 2010), para surpreender um amigo que fazia aniversário e eu também não via há bastante tempo. Coincidentemente o amigo trabalha no Destak. Eu já tinha sido chamada pelo jornal para fazer uma coluna e aproveitei a viagem e discuti melhor com o editor sobre como seria essa colaboração. A resposta do editor (e não por acaso poeta), Márvio dos Anjos, foi poesia pura: “você escreve do seu jeito, sobre o tema que você escolher, uma coluna por dia a partir de outubro.”

Quem não quer isso de um trabalho no jornal? Porque os jornais brasileiros costumam exigir fórmulas mais arcaicas de seus escrevedores. Ai de quem saia do quadrado.

É diferente no Destak. Tá mais para Ladies & Gentleman We’re Floating in Space do que para Another Brick In The Wall.

Por isso vou colando aqui as colunas diárias a partir de agora. Como diria a Pelada do Flamengo, o que é bonito é pra ser mostrado. Lá vai uma batelada de colunas neste mesmo post, então, pois comecei dia 8 de outubro e já tem bastante texto publicado no Destakadas:

Pequeno mosaico simplificado do Brasil atual

POR CECILIA GIANNETTI

Em 19.10.2012, mais ou menos assim parece o Brasil aos olhos do mundo:

Foto  #1: Oi Oi Oi

Deu no Guardian: Dilma Roussef pode ser a mais popular dentre todos os presidentes que o Brasil já teve (índice de aprovação a 62%, atualmente), mas ela sabe muito bem que não tem condições de disputar popularidade com a telenovela que virou mania nacional. Por isso adiou o comício em apoio ao candidato à prefeitura de São Paulo Fernando Haddad: o evento ocorreria na mesma data e hora do último capítulo de “Avenida Brasil”.

O Guardian ressalta que a trama de João Emanuel Carneiro representa o crescimento de um grupo social, a Classe C, antes bastante pobre e que agora se trata do “estrato consumidor mais poderoso no país.”

Diz ainda o jornal inglês: “Espera-se do último episódio de ‘Avenida Brasil’ uma tempestade de 70 minutos de melodrama que incluirá um casamento polígamo, um banquete de celebração e a resposta à pergunta de dezenas de milhões de brasileiros: “Quem matou Max?”

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Say cheese!

Say cheese!

Foto #2: Amijubi, Fuleco ou Zuzeco

Espécie em risco de extinção, o nosso Tatu Bola foi escolhido como mascote da Copa do Mundo 2014. Os nomes sugeridos para batizar o armadillo não agradaram muito os brasileiros e parecem aos gringos apenas tão “estranhos” quanto o de algumas cidades brasileiras onde os jogos irão ocorrer. Mas temos certeza de que os visitantes de outros países irão aprender a falar tudo certinho a bom tempo: afinal, Maracanã, Morumbi e Mineirão não são nenhum trava-língua como Beutelrattenlattengitterkotter ou Beutelrattenlattengitterkotterhottentotterstottertrottelmutterattentäter.

São as críticas do ex-jogador e atual deputado federal Romário, postadas em sua página no Facebook, em relação aos preparativos para o grande evento, que não marcam gol para a nossa imagem: “Brasileiros, continuem cobrando e se manifestando porque essa palhaçada vai piorar quando tiver a um ano e meio da Copa. O pior ainda está por vir, porque o governo deixará que aconteçam as obras emergenciais, as que não precisam de licitações. Aí vai acontecer o maior roubo da história do Brasil“.

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O "Armadillo" em Friends

O “armadillo” no seriado norte-americano “Friends”: velho conhecido das reprises em canais do mundo inteiro

Foto # 3: Relatório da CIA

“Segundo maior consumidor de cocaína do mundo. (…) Onda de violência relacionada ao narcotráfico e contrabando de armas. Importante país de transbordo para a cocaína boliviana, colombiana e peruana destinada à Europa, também usado por traficantes como uma estação de passagem para transbordo aéreo de narcóticos entre Peru e Colômbia. Rendimentos ilícitos de narcóticos muitas vezes lavados através do sistema financeiro.”

Mas a página da CIA sobre o Brasil também fala muitas coisas bacaninhas sobre a nossa economia, fatos que têm repercutido internacionalmente há meses (Veja esta análise, publicada pelo site BrazilianBubble.com: “nós esperamos que a economia doméstica se recupere até o final de 2012 e seja retomado o crescimento“), então não precisa sorrir amarelo na foto.

Do resto todo, os estrangeiros deduzem que Lt. Colonel Nascimento tomará conta.

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Das “Quotes” selecionadas do filme pelo site IMDB.com: Lt. Nascimento: [shouting, rubbing the student’s face in the blood-soaked body of a dead drug dealer] “Put your face here. Put your face here. You see this, you see this hole right here? Who killed this guy here? WHO KILLED THIS GUY HERE?”

Foto # 4: “No impunity”

A Transparency International, organização mundial contra a corrupção, ajustou o foco sobre o julgamento do Mensalão e vaticinou para inglês ver (aqui traduzidinho): “Supremo Tribunal do Brasil passa uma forte mensagem em 9 de outubro, de que não haverá impunidade para os políticos ao condenar principais membros do partido no poder sob acusações de corrupção.”

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“Payola in the land of Lula”

Foto #5: Geração Z 

Preocupante mesmo é este frame aqui.

A banda Restart foi escolhida pelo púbico para representar o Brasil no MTV Europe Music Awards 2012, no dia 11 de novembro, em Frankfurt, na Alemanha.

Foi a Geração Z (não coincidentemente nome que o grupo deu a seu mais recente álbum), definida basicamente como a primeira a nascer na era do “networking” social na web, que de tanto networkzar e votar via web para que o Restart desse uma surra de likes em cima da competição (ConeCrewDiretoria, Emicida, Vanguart e Agridoce), quem levou os coloridos meninos de São Paulo a concorrerem a uma vaga na final na categoria Melhor artista/Banda DO MUNDO.

Se a gente pudesse, passava um filtro de Instagram nesta, pra parecer mais bonito; mas não dá. É música. Música assim:

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Missão: blog – Polícia desce o gatilho na internerd

POR CECILIA GIANNETTI

Como ficamos sabendo no último dia 17.10, o tráfico prefere utilizar redes sociais como o Facebook para divulgar as novidades mais importantes sobre os seus membros. A recém-descoberta página “Baile da Vila do João”, criada por bandidos do Jacarezinho – comunidade que reunia dez dos traficantes mais procurados do Rio de Janeiro – continha fotos de sujeitos exibindo metralhadoras e drogas; e Mark Zuckerberg deixou-a no ar por um bom tempo, numa boa, como se aquilo não fosse nada demais. A página https://www.facebook.com/BaileDaVilaDoJoao que se pode ver hoje na rede social mostra apenas fotos de um baile, diferentemente da homônima (ou seria a mesma, pós-varredura e devidamente censurada?).

Enquanto isso, a polícia brasileira prova que ainda é old school: utiliza largamente o bom e velho sistema Blogspot, para escrever sobre os mais variados assuntos. Em centenas de blogs, soldados, sargentos e capitães comentam desde segurança pública e preconceito contra homossexuais à pesquisa de qualidade e tamanhos de fezes humanas.

São cantinhos da internet como o “Policialesco e Versátil!!” (assim mesmo, com duas exclamações, pra ficar mais alegre), assinado pelo policial militar Agnaldo, que promete “Nada mais que a verdade, nunca menos que os fatos”, e se diz ciente de que “ainda teremos um futuro muito promissor nas polícias brasileiras”. Ele utiliza o blog basicamente para postar notícias, “humor e algumas ‘pérolas’ extraídas dos anais dos quartéis.”

Teria vindo desses anais o post entitulado “A Ciência do Cocô“? Nele, o policial discorre a respeito de importante estudo sobre fezes em minicapítulos como “O que é isso na minha privada?”; “Pequeno manual do cocô”; “Formato cilíndrico (…) Tipo cabrito, Tipo poça (…)”. E segue nessa toada.

No blog do DuduPM, o sargento Eduardo Andrade faz questão de abrir espaço para parabenizar seu filho ELVIS, vice-campeão na última temporada do estadual sub 16, por um time juvenil.

Já o cabo Fernando da Reserva demonstra apreciar humor de tiras em quadrinhos. E adora socializar: tem uma chat box, um espaço para bate-papo entre os frequentadores do blog, com farta e variada oferta de emoticons.

Sua página não economiza mesmo nos emoticons coloridos saltitantes – mas sem perder a seriedade: lembra que Deus, quando mandou seu filho à Terra para nos salvar, “Não excluiu da salvação os ‘negros’, os ‘nordestinos’, os ‘homossexuais’, os ‘índios’ (…)”. Ah, bom.

O blog do Sargento Andrade é daqueles que invadem seu browser com música, sem pedir licença, assim como quem invade um barraco durante uma ocupação policial. Neste caso, é o som da estrondosa rádio de um colega, a “Major Sales FM”, que ouvimos. Toca sertanejo universitário, gospel brasileiro e às vezes um e outro antigo clássico da dor de cotovelo, a famosa “fossa nova”. E Xuxa. Toca Xuxa. Os temas em debate ficam divididos em seções: Curiosidades, Esportes, Recadinhos (no diminutivo mesmo), Eventos e Festas, Entretenimentos e Boletim Geral da Corporação, que não poderia faltar, não é mesmo? Na barra direita, anúncios de pizzarias, panificadoras, lanchonetes e mercadinhos.

O Sargento Tavares posta, revoltado, que passou da hora de uma “reação dos Governos (…), tomarem uma atitude e mandar um recado curto e grosso, de quem é que manda na cidade: Federal, Estadual e Municipal, dos poderes: Executivo, Legislativo, Judiciário, OAB, Conselho Comunitário de Segurança, Loja Maçônica, Rotary Club, Clubes de Serviços, Imprensa em Geral, incluindo os blogueiros, Associação de Bairros, Pessoas de Influência (…)”

O Sgto. Marlos oferece no http://sgtmarlos.blogspot.com.br/ um dicionário, ferramenta que pode ser útil aos colegas que andam cometendo pecadilhos em seus blogs, como as “ofenças” (sic) à língua portuguesa do http://cabofernandodareserva.blogspot.com.br (aquele, do quadrinho do capeta).

Deixamos você com a animação do http://sargentoricardo.blogspot.com.br. O blog não vê necessidade de expor ao leitor o sobrenome do sargento porque seu apelido tem muito mais carisma. Com ele, assina os vídeos postados na página: “Arraial do Ricardão de Fundão”, “Bloco do Ricardão de Fundão” e, finalmente, para a nooossa alegria, “Músicas do Bloco do Ricardão de Fundão”.

O hit de festa junina “Na minha quadrilha só tem gente que brilha / só tem gente que brilha, na minha quadrilha” é particularmente empolgante e, por que não dizer?, intrigante:

O mendigo viral
POR CECILIA GIANNETTI

“Este rapaz chegou até mim nas ruas de Curitiba e me pediu se eu poderia tirar uma foto dele e eu perguntei para que, ele me respondeu: Para colocar na “rádio”, quem sabe eu fico famoso :) … Na “rádio” eu não posso por, mas aqui no mural do meu Face sim, e ele será famoso entre meus amigos…”

Acima, a legenda de uma fotografia que em apenas 13 horas já obteve mais de 6 mil compartilhamentos (número corrigido enquanto este texto era escrito, pois subiu em cerca de 500 em questão de 40 minutos) no Facebook, divulgada pela fotógrafa profissional Indy Zanardo.

[*Atualização: em menos de duas horas, o número de compartilhamentos da fonte original (O Facebook de Indy) dobrou, agora são mais de 12 mil.]

Foto de Indy Zanardo Foto de Indy Zanardo, clicada na Praça Tiradentes, Curitiba

É um jovem bonito, atestam várias mulheres de diferentes partes do Brasil, nos comentários relacionados à foto. “Ô loco, hein, q mendigo!”, exclama uma. Há quem lhe ofereça uma alternativa à vida nas ruas: “Traz pro Goiás que pra esse aí dou casa, comida e roupa lavada,” promete uma certa Karitha. Patrícia garante: “Me apaixonei… Fala para ele que eu dou abrigo.” Boa parte dos pitacos postados em torno do post questionam mesmo é o motivo pelo qual o mais novo modelo masculino da internet quis ficar “famoso”. Sugere-se confusão mental, com ou sem vício, algum distúrbio que pudesse ter feito com que o rapaz de olhos claros se perdesse dos seus no mundo. Assim, uma foto “na rádio” poderia ajudá-lo a reencontrar parentes, amigos. “Antes que a febre passe, cola umas A4 impressa em preto e branco mesmo pela praça, deixe algum celular de contato. (…) Senão vai ser mais um viral sem resultado,” sugere um publicitário. Um cínico diria que, fosse o mendigo feio, ninguém daria a menor pelota.

De fato, vários cínicos já o disseram, comentando publicamente a foto do jovem impassível: “E se fosse um cara feiosão, banguela e zarolho!?” Verdade, dariam menos pelota: mais de 6 mil compartilhamentos pelo Facebook em 13 horas da foto de um mendigo desgrenhado, sujo e de rosto e traços, digamos, menos favorecidos esteticamente, talvez não fizessem com que a coisa se tornasse um viral tão faminto e rápido. Fotos de gente em situação de rua, ou como o povo generaliza, mendigos, circulam bastante nos jornais.

“E o menino parece profissa! Encarou a câmera com muita naturalidade,” afirma alguém, num equívoco. A imagem dele é uma armadilha. O rapaz de cabeça raspada, enrolado em um cobertor, tem um olhar que não parece exatamente encarar a lente da câmera, mas perder-se além dela. Olhar vago, de rua.

“Isso, é claro, se não for um golpe publicitário.” Fosse golpe publicitário, seria um dos mais burros de todos os tempos. Pois mais de 6 mil fãs compartilhadores (e o contador ainda está subindo) se sentiriam traídos, revertendo a coisa em um fracasso.

Quem você vai matar amanhã?

POR CECILIA GIANNETTI

Nerds e geeks mal tinham terminado de festejar a mais recente entrevista de Joichi “Joi” Ito divulgada online e já têm motivo para emendar noutra farra, agora em homenagem aos talentos visionários de Philip K. Dick.

Na última semana Joi, diretor do MediaLab do MIT, prometeu para daqui a um ano hologramas exatamente iguais àqueles em que a Princesa Leia aparece projetada pelo robozinho R2-D2, dizendo sua famosa mensagem: “Ajude-me, Obi-Wan Kenobi, você é a minha única esperança”, em Guerra nas Estrelas. Os primeiros hologramas do MIT antes do modelo atual apresentavam movimentos que “travavam”, com resultados inferiores aos apresentados em 2010 pelo professor Nasser Peyghambarian, da Universidade do Arizona, que também participa da corrida pelo holograma perfeito.

Mas agora o MIT garante que vem com tudo. Sim, os hologramas poderão ser transmitidos via internet sem “travar”, com movimentos em tempo real. E poderão ser comercializados. Serventia? Realização de teleconferências, quem sabe, ou pra gente deixar recadinhos presenciais.

Imagine-se chegando em casa da pelada e, em vez de um bilhete na porta da geladeira, você encontra a versão miniaturizada e em holografia de sua mulher, lembrando de que é preciso comprar leite. Realmente útil.

E não é difícil imaginar a equipe do MIT mais empolgada em tornar real o que aprenderam a sonhar graças a George Lucas, em vez de quebrando a cabeça para fazer uma lista de utilidades para o novo brinquedo no mundo. A ponto de, nos testes iniciais do MIT, uma aluna da graduação do instituto ter posado vestida de Princesa Leia para registrar as imagens utilizadas no holograma, reproduzindo a mensagem que conhecemos do filme de 1977: “Help me, Obi-Wan Kenobi, you’re my only hope.”

Haja fetiche.

Mas a coisa esquenta mesmo é para os fãs de K. Dick, na próxima segunda-feira, dia 22, quando será realizado em Washington o congresso “My Brain Made Me Do It” (algo como “Meu cérebro obrigou-me a fazê-lo”). Criado pela New America Foundation, organização sem fins lucrativos comprometida com o ideal de que “cada geração viverá melhor do que a próxima”, o evento abordará questões de um campo da ciência que vem ganhando espaço utilizando ressonâncias magnéticas mais sofisticadas e testes genéticos para comprovar algumas noções que certamente terão papel em alterar o futuro da nossa sociedade e das leis. Tais como a de que algumas pessoas nasceram para cometer crimes. Questões que poderiam ter saído da obra do escritor norte-americano de ficção científica, como:

“O que acontece se pudermos detectar propensão criminal em crianças?”

Lembra dos precogs, de Minority Report — A nova lei (filme de 2002, baseado em um conto de Philip K. Dick publicado em 1956), aqueles três magrinhos branquelos que ficavam boiando inconscientes em uma espécie de piscina e prevendo crimes para a polícia, permitindo com suas visões do futuro que se prendesse o criminoso em potencial antes que ele fizesse a barbeiragem? Funcionava mais ou menos assim: “Nós tínhamos o nome dele — na verdade, tínhamos todos os detalhes do crime, incluindo o nome da vítima (…),” afirma no conto John Anderton, comissário da divisão pré-crime da polícia, referindo-se a um possível assassino detido antes que cometesse o assassinato previsto pelos precogs. “Com a ajuda de seus mutantes precogs, vocês corajosamente e com sucesso conseguiram abolir o sistema punitivo pós-crime de cadeias e fianças,” afirma Danny Witwer, rival de Anderton na trama.

Na versão ultra real da história inventada por K. Dick, a que será debatida durate o “My Brain Made Me Do It“, a neurociência seria uma espécie de precog: faz prognósticos, lê mentes através de recursos de neuroimagem, como ressonâncias magnéticas do tipo fMRI (forma especializada de ressonância que faz um mapa da atividade neurológica no cérebro ou na medula mostrando alterações no fluxo sanguíneo relacionadas ao uso de energia por células cerebrais.)

Já há bastantes evidências, resultado de experimentos controlados, que comprovam que a neuroimagem é capaz de mostrar se o sujeito analisado está, por exemplo, mentindo. Diferentemente do polígrafo, que mede a freqüência cardíaca e a temperatura para tentar detectar a reação de um indivíduo quando ele mente durante uma medição, a ressonância magnética do tipo fMRI detecta a decisão tomada pelo indivíduo para mentir.

De acordo com um relatório da Royal Society — a academia e ciências do Reino Unido, exames como o fMRI podem ajudar na avaliação das chances de um indivíduo condenado pela justiça tornar a cometer crimes: se o seu cérebro apresenta características associadas ao comportamento sociopata e, além disso, o indivíduo tiver sofrido abusos durante a infância, a possibilidade de reincidência no crime é estatisticamente maior.

Mas há um forte pé atrás em relação “leitura de mentes” e os prognósticos realizados pela neurociência. Henry T. Greely, diretor do Centro de Lei e Biociência na faculdade de direito de Stanford e membro do projeto Law & Neuroscience, faz a grita: “Uma das verdadeiras ameaças à sociedade é que cedo demais nós tiraremos proveito de algumas dessas descobertas que têm sido feitas pela neurociência e diremos iIsto é o correto’ e seguiremos um caminho que no final será um caminho muito ruim. Então eu creio que uma das coisas mais importantes que este projeto pode fazer é ajudar a definir quais caminhos são promissores, quais não são, quais soluções funcionam, quais não funcionam. Porque impedir que sigamos o caminho errado é tão importante quanto ajudar a seguirmos o caminho correto.”

O caminho errado pode passar por, digamos, criminosos usando os resultados de seus exames (“Não tenho culpa: meu cérebro nasceu programado para matar”) para atenuar sua sentença, ou inocentes sendo vigiados ou mesmo detidos até que provem que não cometerão um crime. O professor Greely e a defesa da importância de seu projeto soam como ecos da história escrita por Philip K. Dick: os precogs também podem errar.

O precog que não errou foi o próprio Philip K. Dick.

John Carpenter Prefeito de São Paulo

POR CECILIA GIANNETTI

Aconteceu na semana passada, à noite, no SPTV. A sensação foi a mesma de quando vemos no filme a loira sexy e seu namorado atleta saírem para namorar no meio da floresta sinistra à noite, no terror “O Segredo da Cabana”, ou Drew Barrymore atender ao telefonema de um estranho em “Pânico”, ou assistir a Michael Myers, de “Halloween”, escapando do sanatório para perseguir inocentes em uma noite de outubro (outubro, sim… que coincidência).

Agonia, unhas cravadas nos braços do sofá diante do que exibia a tela. Era ele. Ele falava para as câmeras, articulava uma negociação entre partidos, algo que terá forte impacto no segundo turno das eleições para a prefeitura de São Paulo. O ex-governador Luiz Antônio Fleury Filho, que retornou ao PMDB em 2011, estava presente no escritório do vice-presidente Michel Temer na tarde da quarta-feira, 11, quando explicou à imprensa a respeito das pendências que atrasavam a oficialização do apoio do partido à candidatura de Fernando Haddad, do PT, à prefeitura de São Paulo (as pendências: o envolvimento do PT nas disputas das prefeituras de Mauá e Natal).

Por mais entrevistas Fleury dê afirmando que sua responsabilidade pela morte de 111 presos na Casa de Detenção de Carandiru durante o seu governo foi meramente política e que o celular ainda não havia sido inventado então, portanto, possuía apenas o rádio de seu helicóptero para comunicar-se com o rádio do sistema de voo, – Não tinha olhos. Não tinha boca. Não tinha ouvidos. – Fleury “sempre será lembrado como o governador que estabeleceu a ‘linha dura’ em São Paulo”, como afirma manifesto do grupo Levante Popular da Juventude, que no último dia 2 de outubro realizou protesto diante da casa do ex-governador, no bairro do Pacaembu, para marcar os 20 anos do massacre do Carandiru – considerado pelo Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH), órgão ligado à Organização dos Estados Americanos (OEA), como um dos mais violentos casos de repressão à rebelião em uma casa de detenção.

A linha dura não está presente apenas ao lado de Haddad. Ela também está com Serra, assombrado, digo, apoiado pelo coronel Adriano Telhada (PSDB), ex-comandante da Rota denunciado por apologia à violência. Em 5 de outubro os promotores Fabiano Petean, Roberto Senise Lisboa e Joiesi Sales, da primeira zona da Promotoria Eleitoral de São Paulo, chegaram a pedir a impugnação da candidatura de Telhada por conta de posts no perfil do Facebook do coronel, como aquele em que teria ameaçado o jornalista da Folha de São Paulo André Caramante, que para se proteger, e à própria família, foi forçado a deixar o país, em vez de fazer a Drew Barrymore e pagar pra ver.

Caramente publicou em 14 de julho o artigo “Ex-chefe da Rota vira político e prega a violência”. Esse título, no mundo real, é o equivalente à loira virgem do filme de terror sair para dar uma volta no bosque à noite com um rapaz assanhado e uma garrafa de uísque. Quem conhece as fórmulas dos filmes de terror sabe o que vai acontecer aí. O texto do jornalista mencionava crimes cometidos pela Rota. Foi a partir de sua publicação que Caramante passou a receber ameaças, uma delas postada pelo coronel Telhada via Facebook:

“Quem defende bandido, é bandido também. Bala nesses safados”.

Paulo Sérgio Ivasava Guimarães, policial militar, deu aquele like para a ameaça do friend e tascou no mural do Feice:

“Esse Caramante é mais um vagabundo. Coronel, de olho nele”.

Até o site da Folha passou a receber  comentários violentos contra Caramante; exemplo:

“Bala nele”.

As ameaças estenderam-se à família do jornalista, que chegou a ser fotografada por policiais à paisana na rua.

Este mês de outubro, mês de Halloween, mês de eleições, mês de Michael Myers fugir do manicômio, também viu o retorno de uma frase sinistra dita pelo Governador de São Paulo Geraldo Alckmin em setembro, a respeito de ação da Rota que resultou na morte de nove pessoas: “Quem não reagiu está vivo”.

“Quem não reagiu está vivo”, repetiu, ora quem, Luiz Antonio Jason (ele volta…) Fleury, aquele que reapareceu articulando negociações entre os partidos de Haddad e Chalita, referindo-se ao episódio do Carandiru.

Tá com medo ou ainda acha que é só um filme de terror?

Paquistão não tem Glee

POR CECILIA GIANNETTI

CARA!, lembra quando a turminha do fundão tinha o quê?, 14, 15, e matava aula pra beber vinho de garrafão Sangue de Boi e ficava com os dentes manchados e depois ia andar torto no shopping e de noite rolava Bang! ou pegava seis horas de estrada e emendava ALôca em SP?… Então, Malala Yousafzai tem 14 anos e é muito mais doida e radical do que a turminha do fundão, porque o que ela faz é enfrentar o Taleban no Paquistão.

Desde os 11 anos a menina nascida na cidade de Mingora, na ultraconservadora região do Vale do Swat, faz campanha pela paz e pela educação de mulheres em seu país. (O Taleban tem entre suas prioridades proibir que mulheres estudem.) Primeiro, ela escreveu um diário (leia aqui, em inglês) sob pseudônimo para a BBC sobre as atrocidades ocorridas durante a ocupação de Mingora entre março e maio de 2009 pelos Talebans, em seguida passou a aparecer em programas de TV nacionais e internacionais para falar sobre a necessidade da educação das mulheres. Sua coragem lhe valeu uma indicação, em 2011, ao prêmio internacional Children’s Peace Award e o National Peace Award no mesmo ano.

O Paquistão é um dos países mais perigosos do mundo para as mulheres. Por lá, registra-se uma média de quatro casos de mulheres queimadas vivas, a cada semana, e três entre quatro morrem. De acordo com os dados da Human Rights Comission of Pakistan (Hrcp), em 2009 647 mulheres  foram mortas “em nome da honra (izzar)”, e 574 em 2008. É nessa cumbuca incendiária que a criança mete a mão.

Era só questão de tempo: a garotinha vivia sob ameaças do grupo Taleban local, chefiado pelo marmanjo maulana – “mestre” – Fazlulá. Não deu  outra: Malala foi baleada na cabeça e no pescoço por um homem do Taleban na última terça-feira, 8, quando viajava em um ônibus escolar voltando do colégio pelo Vale do Swat, junto a outras meninas. O ataque mostra que o poder do Taleban continua firme no Vale, mesmo após a retomada do local pelo exército paquistanês em 2009.

[Curiosidades: A página recém criada https://www.facebook.com/icon.of.peace, até o fechamento deste texto, tinha mais de 518 “curtidas”, e na pesquisa “Os agressores de Malala devem ser presos e receber pena de morte?” ( ) Sim ( ) Não, o Sim vencia a largo. Em seu Facebook, Malala curte sites de esportes, poesia, educação e fotografia.]

Os membros do grupo Tehrik-i-Taliban Pakistan (TTP) coçaram suas barbas, confirmaram a responsabilidade do grupo pelos tiros e fizeram novas ameaças a outras novinhas:

“Que sirva de aviso para todos os jovens que estejam envolvidos em atividades similares pois serão alvo de ataques se não pararem!”

O porta-voz do Taleban Ehsanullah Ehsan coçou sua barba e chiou:

“Ela é jovem, mas é pró-Ocidente, fala contra o Taleban, e declara Obama como seu ídolo”.

Convenhamos: esses caras são muito piores do que os inspetores das nossas antigas escolas. (Com uma exceção: uma mulher no Colégio Cenecista Capitão Lemos C., que às vezes tinha barba, quando se descuidava da depilação facial. Eu tenho certeza de que ela era membro de uma célula Taleban no Rio de Janeiro.)

Malala foi operada e encontra-se estável, após uma cirurgia que durou cerca de três horas.

“O futuro do Paquistão pertence a Malala e aos valentes jovens como ela. A história não se lembrará dos covardes que tentaram matá-la na escola”, afirmou, através do Twitter, a representante dos Estados Unidos nas Nações Unidas, Susan Rice.

 

 

Metendo a colher

Próxima atração: um reality show político 24/7

POR CECILIA GIANNETTI

“Quem nunca?”, tuitou ontem o ex-jogador Ronaldinho (“o da dieta”), comentando os tapas acertados em Carminha no capítulo 169 da novela “Avenida Brasil”. Parecia dar uma palhinha daquela expressão usada pelo goleiro Bruno (hoje preso sob acusação de sequestro e cárcere privado, homicídio qualificado e ocultação de cadáver de Eliza Samudio) ao comentar a possível agressão do jogador Adriano à então namorada do Imperador, Joana Machado: “Qual de vocês aí, que são casados (…) nunca até saiu na mão com a mulher?”

“Avenida Brasil” é uma trama que até quem não vê fica sabendo, de raspão, de um escândalo ou outro envolvendo seu núcleo de vilões ou o de burrões – estes, usurpados, chifrados e pisoteados pelos primeiros, até o capítulo de ontem sem muita certeza de que pudesse ser mesmo verdade tanta maldade, tamanha sordidez.

Quem não assiste ao folhetim de João Emanuel Carneiro, tido como uma revolução aos padrões da Globo, pode até esconder-se noutro cômodo da casa com um Proust, revistas e  jornais ou outro canal de TV ligado – mas ainda assim acabará escutando os gritos de Adriana Esteves chegando das janelas dos vizinhos, fruto da performance da vida da atriz como Carmem Lúcia, vocalizando sons guturais enquanto tensiona o maxilar assustadoramente em uma careta de piranha prestes a arrancar a cabeça do interlocutor aturdido. Quando a personagem fala mal de alguém pelas costas, recorre a um registro grave, demoníaco, que parece lhe ferir a garganta.


O menor dos crimes de Carmem Lúcia na história toda foi roubo. Resumindo bem resumidinho: armou para cima do primeiro marido, o que acidentalmente resultou na morte do mesmo, atropelado pelo jogador de futebol Tufão; usou a culpa de Tufão nesse cartório para que o jogador se casasse com ela; livrou-se do filho e da enteada ainda pequenos em um ‘lixão’; armou um sequestro (o próprio, inclusive, para ficar com a grana do resgate pago por Tufão, a quem traiu com o cunhado por mais de dez anos); desviou verba de obras sociais, mais precisamente de criancinhas necessitadas; enterrou viva a enteada; mandou espancar e depois subornou um frentista pobrinho, e por fim tentou matar o amante, envenenando-o e deixando-o para que se afogasse em um barco em alto mar.

No capítulo exibido ontem, sua família, que apenas há poucos dias descobrira que Carmem Lúcia rodara bolsinha na juventude, a mesma Carmem Lúcia que, souberam capítulos atrás, abandonara o filho no ‘lixão’, foi notificada ainda a respeito do detalhe do amante. Fotos foram apresentadas como provas. Incontestáveis. Nenhuma pinta de Photoshop.

Aí, mermão, AÍ: o corno da novela, o topeira do Tufão – como os espectadores e os vilões referiam-se ao personagem de Murilo Benício – desceu a mão no maxilar tensionado de piranha de Carmem Lúcia. Uma!, duas! vezes ele acertou a mão na lata da mulher; três! foi a vez de a mãe do jogador fazer a cabeça de Carminha girar com um tapaço bem aplicado. Houve ainda um acalorado (e muito aguardado) desfile de insultos à malvada: “Vagabunda, cachorra, vadia-mor, vadia, piranha, prostituta, cadela, baixa, falsa moralista, ordinária e bandida.”

A novela bateu recorde de audiência com 48 pontos no Ibope e pico de 52 pontos. A tal tuitosfera só falava nisso. Um sujeito postou seus dois vinténs em menos de 140 caracteres, questionando as chapuletadas que a vilã levou: “Vocês gostam de ver novela ou mulher apanhando?” Foi Arnaldo Branco, roteirista e cartunista. Mas Arnaldo foi uma exceção. Ronaldinho foi de: Tabefe? Quem nunca? O ator Bruno Gagliasso: “Isso! Dá nela, Tufão!!!!! Kkkkkkk.”

Em briga de marido e mulher…

Tuitosfera é a fera, o bicho em que se transformam as pessoas quando deixam de ser indivíduos em uma rede social, levados pela vibração coletiva dos hashtags, protegidos pela aparente inocência da rapidez com que se jogam com opiniões.

Mas estamos falando apenas de uma personagem de novela, de uma mulher fictícia – não é? – e que na ficção aprontou um bocado, infernizou muita gente, chifrou o marido, tentou assassinar alguém a quem dizia amar. O telespectador então quer vê-la sofrer, quer ver o sujeito que foi feito de besta por ela a novela inteira acertar a mão na cara-de-pau da vilã.

Quem nunca?

POR CECILIA GIANNETTI

Em maio de 2011 um vídeo divulgado no YouTube tornou conhecida no Brasil inteiro a professora de língua portuguesa Amanda Gurgel. Seu discurso em uma audiência pública na Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, em Natal, foi ao ar no site de vídeos do Google, onde, em apenas dois dias, recebeu mais de 80 mil visualizações. Hoje, o vídeo já contabiliza cerca de 2,240,583 acessos; com 8 minutos e 30 segundos, fez da professora, de 31 anos, a primeira vereadora do Brasil eleita pelo Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado – PSTU; e não só: foi a vereadora mais votada na Câmara de Natal.

”Vocês gostam de falar de números, que são irrefutáveis, pois vamos a um de três dígitos: nove, três, zero, que é o valor do meu salário”. Que assessor de campanha teria sido tão genial a ponto de escrever um desabafo assim redondinho, capaz de engajar o espectador com uma frase de tal simplicidade? E fazer seu candidato entoná-lo com a indignação contida, educada com que Amanda Gurgel dirigiu essas palavras? Nenhum assessor conseguiu ainda, no Brasil, produzir uma peça publicitária de campanha de custo tão baixo e tamanha competência. Porque o vídeo de Amanda não era uma peça publicitária – trata-se do mundo em que vivemos hoje, um “reality show político 24/7″, como cunhou Gavin Newsom, prefeito de São Francisco.

Mais de um ano após o desabafo de Amanda atingir os trending topics do Twitter – citada por Gilberto Gil e Marcelo Tas, do CQC, entre outros anônimos e famosos -, essa youtubada que a professorinha potiguar não planejara mostrou-se uma peça de campanha preciosa para uma candidata que no horário eleitoral não teve sequer um minuto inteiro para falar na TV.

Tivesse sido de caso pensado, não teria dado tão certo.

É claro que, em 10 de maio de 2011, quando disse o que ninguém gosta de ouvir no Brasil, Amanda Gurgel não tinha em vista uma campanha. Mas tal repercussão pode ensinar um ou dois truques para os marketeiros utilizarem de agora em diante. Não que façam com que seus candidatos forjem desabafos e humanidade diante de uma câmera de celular. Mas, quem sabe, que passem a acreditar, apostar com mais vontade na difusão de vídeos dos candidatos pela internet, nos quais o texto passe longe do que repetem como que hipnotizados, em segundos, no horário eleitoral – que os telespectadores evitam. Na web, escolhendo o que quer ver e compartilhar, o sentimento de participação do eleitor na campanha aumenta. Quem sabe não inspira uma nova “linha de produção” de campanha – mais barata, com estética menos robótica e maneiras de expor compromissos de campanha mais contundentes.

A campanha de Barack Obama na internet, em 2008, alterou para sempre a corrida política por votos nos Estados Unidos, usando e abusando do YouTube como via de propaganda livre, grátis. Isso já foi há quatro anos; o candidato brasileiro ainda duvida desse potencial, simplesmente o ignora ou não sabe como aproveita-lo. Temos vídeos institucionais de candidatos disponibilizados no YouTube; não temos no YouTube a espontaneidade dos candidatos – a menos que sejam apanhados de surpresa fazendo bobagem ou adormecendo durante uma sessão do Congresso, por exemplo. Não vale repetir o que é feito para a TV. Não se trata de propor vários “Tiririca 2222 online”; o abestado apenas transpôs para o YouTube as palhaçadas que já fazia no horário eleitoral gratuito. E por que o YouTube, e não outro serviço de vídeo na web, seria “o” canal – melhor dizendo, a melhor via? O Portal do Google é o rei, ponto. Somente no domingo passado, 7, o YouTube ganhou 60 novos canais com conteúdo original, ou seja, de produções originais para o portal.

Marcelo Freixo, do Rio de Janeiro, cometeu uma ousadia nesse sentido, concedendo uma entrevista ao lado do candidato à vice prefeitura do Rio, Marcelo Yuka, a um sujeito que usa no rosto uma máscara de lutador de lucha libre e cumprimenta seus youtubespectadores com um “E aí, galera, belesma?”

Foi uma oportunidade mal aproveitada pelos candidatos: Freixo começa a entrevista com gás total e depois deixa a peteca cair. A fala de Yuka deixa bastante a desejar, esquece de reforçar conteúdo. Porém o vídeo obteve 51,533 em apenas oito dias; o vídeo oficial de Marcelo Freixo no YouTube obteve 58,122 desde 25 de julho passado – em três meses.

A trajetória de Amanda Gurgel pode servir para dar um sacode na maneira como a web é usada pelos nossos candidatos. Não que ela esteja preocupada com isso. Como já afirmou em entrevistas, a licenciatura a preparou para levar alunos a produzirem textos como resenhas e crônicas. Mas o que encontrou na sala de aula foram alunos incapazes de ler palavras como “bola”. Essa é a briga da professora mais famosa da internet. A dos candidatos às próximas eleições é se libertar do quadrado do aparelho de televisão.