A CULPA É DO PALHAÇO

Algumas fotos, dois dos três vídeos exibidos e um texto da minha participação no evento ArteForum, que aconteceu há… alguns dias. desde que comprei o relógio e a agenda esqueço tudo.

p.s.: A voz no áudio do vídeo é de Jaqueline Rodrigues; não apareço nas cenas. (Atrizes creditadas ao final do segundo vídeo; neste primeiro, abaixo, estão Juliana Pamplona e Laura Limp):

Boa noite. Bem-vindos à quarta aula de Definição de Escritores Via Imagens Mentais Padronizadas. Lembrando a vocês que o curso completo equivale a TRÊS CRÉDITOS e que CINCO FALTAS ao longo do período equivalem à anulação de sua matrícula na MATÉRIA.

Nesta aula trataremos do estereótipo do Escritor Que Se Envolve Constantemente Em Situações Absurdas. É como qualquer outra pessoa, em qualquer outra carreira – desde obstetras até atrizes; de encanadores a presidentes de países ricos ou pobres. Porém, quando o Escritor Que Se Envolve Constantemente Em Situações Absurdas envolve-se deliberadamente em uma de muitas circunstâncias críticas disponíveis no mundo, garante que se enfiou nela com um objetivo claro: Trabalho.

O tipo que analisamos hoje em classe, quando busca um objeto humano – ou Assunto Vivo – que possa lhe servir, primeiro se fixa nele como em um ponto morto do universo, a que seu olhar, sua atenta e dedicada observação, trarão vida diferente.

Por exemplo: Uma bailarina, um coração, o molho de chaves pendurado à porta. Ou, para sermos mais práticos, uma MESA, como esta aqui.

Digamos que, para absorver seu Assunto, o Escritor se fixe nele. Por exemplo: primeiramente, fixa-se na ideia da Mesa. Guarda suas formas e a memória de todo e qualquer contato que com esse objeto já teve a cada vez que se sentou para trabalhar.

Sempre que não está próximo à Mesa, toma por hábito pensar em sua textura lisa. Quando não está ali sentado, se esse móvel tem um cheiro próprio (algo como a mistura da madeira com óleos para sua limpeza), evoca-o até que se torne para ele o que se pode chamar de perfume.

A Mesa é o lugar escolhido pelo Escritor para ler e escrever e comer. Passa a maior parte de seu dia ali. É o suporte de pequenas rotinas que lhe fariam grande falta se desaparecessem de seu dia-a-dia. Essa é a importância que ele, mais atentamente, dá à Mesa.

Agora, como o Escritor Que Se Envolve Constantemente Em Situações Absurdas utiliza esse exercício – ou melhor, esse truque – para colher a fração essencial de um personagem que existe antes no mundo, e depois, alterado, no papel?

Ele se fixa em uma pessoa, como antes teria fixado sua atenção a um objeto – como a Mesa de trabalho. Ou a uma bailarina, ou a um molho de chaves.

No começo, talvez precise mentir, inventar seu interesse. Não se permite um auto-engano completo – que aí, então, nada funciona. Mas comete algum exagero nesse início de exercício – ou melhor: no início desse truque. Observa e recolhe dessa pessoa, da existência selecionada para observação, tudo o que lhe agrada e também o que desaprova. Dentes tortos e sorriso bondoso, gentileza ou mau humor ao acordar cedo de manhã. Manipula qualidades, defeitos e eventos dessa vida sob observação cerrada.

Parece simples mas requer atenção total, às vezes durante meses, às vezes durante anos.

Ele guarda suas formas e a memória de todo e qualquer contato que têm a cada vez que encontra seu Assunto Vivo, a pessoa em que se fixa.

Até que o absurdo toma conta do experimento.

Quando não se encontram por acaso – Escritor e Assunto Vivo – ele passa a desejar que tivessem marcado uma hora e um lugar para se ver. O acaso já não poderá mais dar conta de uma vontade.

O Escritor agora deseja algo que inventou. Este é seu absurdo mais notável.

E é também ambivalente: o Escritor gosta e não gosta de correr atrás de sua invenção. Não deve procurar a perfeição, mas a melhor saída.

Agora o Escritor evoca odores, texturas, dimensões, cores, frases típicas, tom de voz e acontecimentos em torno de seu Assunto Vivo.

Algo que talvez sempre tivesse estado ali, esse Assunto Vivo – da mesma maneira que outros existem também, quase nunca notados.

Fixado nas características de alguém, cuidou de pensar nelas em horas descuidadas.

Os dentes um pouco tortos do Assunto Vivo, por exemplo, detalhe que escolheu notar quando trocaram palavras pela primeira vez. Os tais dentes tortos podem se tornar fonte de “encanto”. O Escritor poderá usar secretamente esta propriedade dos dentes tortos para evocar o Assunto em sua ausência física. O Assunto agora Vive fixado no Escritor, uma vida independente daquela que leva no mundo.

O Escritor já não precisa se forçar à busca de um pensamento sobre os detalhes do Assunto Vivo que escolheu. Esse tipo de pensamento agora lhe vem espontaneamente, trazendo consigo a cobrança: o que vem a seguir? O que escrever a seguir?

O Escritor então arrisca descrever na máquina ou no papel o que não faz nem em confidência a um amigo. O ridículo faz parte daquilo em que o Escritor está se metendo.

Pode ser que ele não consiga se engajar assim em um Assunto Vivo com facilidade, logo nas primeiras tentativas com os primeiros detalhes escolhidos para a Fixação. Mas não quer dizer que não conseguirá.

E, quando conseguir, dirá: fui eu que criei isso.

O Assunto Vivo talvez não perceba nunca que é observado, mas o Escritor vai se trair em algum momento, em algum relato que chamará de Ficção. E será Ficção, pois desde o início tudo não passou de uma invenção do autor. Do momento em que se fixa ao Assunto Vivo ao instante em que o retrata, reconfigurado, em uma história.

A Situação Mais Absurda que o Escritor pode experimentar quando precisa estar perto de sua Mesa de Trabalho é a necessidade de se afastar dela para viver uma história que não escreve, que não dita, que não inventa.

Por que ter medo disso? É só uma pessoa! Por que a ansiedade? É só mais um personagem!

Enganou alguém a quem julgou ter, enganaram-no e enganaram-se também.

Para escrever um livro verdadeiramente grande, talvez precise ignorar por completo um ou muitos erros. Poderia, ao contrário, se escravizar a eles, polir ou trocar cada frase por outra um milhão de vezes e destruir as ambivalências. Mas talvez possa escrever melhor se não apagar os equívocos.

Ao final de tudo, não é uma bailarina, não é o molho de chaves que procura. Não é sua Mesa de trabalho que não combina com o restante da mobília, tampouco é o Assunto Vivo.

O que busca é um erro brilhante.

[Obrigada pela presença. Na próxima semana trataremos da Imagem Mental Padronizada – ou estereótipo – do Escritor Irritantemente Auto-Confiante. Boa noite.]

***

O segundo vídeo, abaixo, não tem  narração; são entrevistas verdadeiras com escritores de mentira. Os diálogos foram improvisados.

NUNCA FUI POETA

O que nos desobriga a todos etc.

Fabricados pra

Esquecer,

Lembrar menos.

Vê: o bilhete –

“Eu e” –

Reticente.

Ninguém saberia dizer ao certo

O que o interrompeu.

No dia-a-dia: post-its para as coisas menores sem as quais não passamos.

Ao longo da coisa maior pela qual passamos: borracha para as coisas com as quais não prosseguiremos.

Opções:

Não manter: se é fardo.

Manter: se lado a lado

Manter: se há mal-funcionamento. Se se sente bem perto o que sumiu poeira atrás. Mas fomos fabricados mais para esquecer, menos para lembrar.

FELIX CULPA

“Outrora, se bem me lembro – eu me lembrava”, ruminou para dentro de sua taça a amiga de colégio. “Então vambora”, retruquei, na sala de estar onde uma motocicleta CB 400 comprada no Mercado Livre (“Vintage, tem freio traseiro a disco, problema é que a síndica não deixa pôr moto na garagem do prédio”) ocupava boa parte do espaço entre a janela e o sofá. Sem piscar nem tossir: bastava arrumar a pequena mala. Pequena, sim: só se aprende a levar bem poucos sapatos, roupas, quase nenhuma buginganga de perfumaria, depois de se já ter penado algumas vezes arrastando peso inútil por estradas, rodoviárias e aeroportos. No mais, acolhidas na casa de um funcionário brasileiro da companhia para a qual a dona da moto trabalha, não me meto a levar muita tralha. E se for um bangalô mutcho loco e liliputiano? Melhor que a bagagem não ultrapasse meu 1,60m desta vez.

No primeiro dia em Ha’Iku (Maui), por incrível que pareça – e mesmo para mim, que a esta altura conheço bastante bem o inacreditável, este parece sempre mais normal que para meus amigos – avisto na rua um conhecido do Brasil. Há tempos só o encontrava na janelinha do Facebook, onde, conjugados em acenos eletrônicos discretos, tentávamos não perder o fiapo de realidade que nos une. Aqui não nos reconhecemos de imediato: na vida real, hoje estou de óculos de grau, e ele, cujo rosto aparece meio coberto por verdadeiras lunetas, aqui fora, no mundo, passeia sem elas.

E as pessoas que conhecíamos, tantos anos? “Perderam seus contornos essenciais, são outra gente” – eu quis julgar, mas aí achei que não devia me meter nesse papo roto no avião. Hoje são coisa diferente da confusão da juventude, o resto passou e foi. Agora fica o jet lag. Deve ser o vôo, a insônia, o sair por aí sem avisar. Como se tivesse entrado outra vez, para novo passeio, deslocado no tempo, no fusca roubado ao fim do último ano do ginásio. Espero Não há fusca nesta parte da ilha; às vezes olho pela varanda do hotel e tenho certeza de que jamais cuircularam carros por esta faixa de terra. E tudo é quase igual ao que se vê lá em casa, no bairro onde vivo; exceto pela poesia nostálgica que imprimimos à descrição dos recantos que, sabemos, só iremos visitar uma ou duas vezes na vida. E a luz de um poste que não consegue se decidir entre ficar acesa-amarelada e apagar-se totalmente, os pássaros que miram bondosos somente nos toldos do restaurante lá embaixo, mas acabam fazendo de banheiro um homem grisalho só e seu copo de vinho, à area descoberta. Ilesos por questão de segundos, um trio de americanos e sua pele translúcida passa pela mesa do velho sem notar o que o distingue dos outros homens que bebem na varanda, nesta pequena calçada particular, em que a única coisa que acontece, exceto o desastre do pombo, é um jogo de futebol local na TV. Toda a ilha boceja docemente, entregue à preguiça e à bebida. O falatório acelerado do locutor que narra a partida a todo momento leva a crer que um dos times está prestes a cometer um gol implacável; mas o locutor mente, imprime emoção onde ela não existe no jogo morto. O poste torto neste eterno apaga-e-acende, o futebol no zero a zero. Se quisessem saber “por que uma viagem tão sem propósito?”, eu ia dizer que se trata de um erro brilhante: colocamos países entre nós para justificar nosso silêncio. Felix culpa.

JE SUIS LE PONT

Petit salaud, ton jeu est clair
tu veux tout sans rancune
le beurre, le cul de la crêmière
deux pour le prix d’une
petite garce que tu es vulgaire
que c’est laid dans ta bouche
que cette jalousie m’indiffère
vois comme tu te couches

Je suis le pont sur la rivière
qui va de toi à toi
traversez-moi, la belle affaire

Embrassez-vous sur moi hmmm hmm
Je n’aime que toi hmm
Je n’aime que toi

Petit salaud, petit pervers
où as-tu mis les doigts?
d’où viennent ces odeurs étrangères
surement pas de moi

Petite garce va donc te faire
tu n’es pas moins farouche
non tu n’es pas moins adultère
vois comme elle te touche

Je suis le pont sur la rivière
qui va de toi à toi
me passer dessus, la bonne affaire
m’enjamber pourquoi pas hm hm hm

Je n’aime que toi, toi toi, toi toi
Je n’aime que toi

Petit salaud qui tu préfères?
qui tu veux fais ton choix?
Le bon vieux temps, la nouvelle air
C’est elle ou moi
Petite garce qui je préfères
Tu le sais mieux que moi
Je préfères que tu sois légère
à la guerre à Troie

Je suis le pont sur la rivière
Vos guerres me laissent de bois
Piétinez-moi, que puis-je y faire
Je ne bouge pas de là, la la, la la
Je n’aime que toi ,la lala lala
Je n’aime que toi, la lala lala
Je n’aime que toi, la lala lala
Je n’aime que toi

AFRONAZ

he’s da man: é ele quem tem filmado e editado os vídeos do projeto Arte Forum Lit (veja o post sobre o evento) exceto pelos meus filmecos, porque tinha uma ideia que deveria sair do meu jeito, a meu tempo e incluir gente bonita pelada e propaganda subliminar contra os efeitos colaterais de anti-depressivos nas principais cenas.

A POEM NOT BY A POET

Imagination

It is a wild tail I chase

Since, in its very core,

It is a woman no more but a

Dragon

No matter what its waistline and tight skirts say

And being a woman myself too

It is supposedly so unladylike

Of me

To pursue such a thing

As an Imagination

That the punishment for my lack of manners must be

That I chase and that I bite hard my own tail

And that my own head I shall eat

If in good time, though, I succeed

In Imagining a kind-hearted knight,

Not that much of a misogynous schmuck, tolerant of a woman’s own mind

(Hell, he might as well be a lady & gay!)

Then I should be safe.