FORA DA CASINHA

Novidadismo me chateia pouco mais do que o vizinho colado a este apartamento onde recentemente sentei praça. Vizinho cantor, com banda, que ensaia de portas abertas. Banda de pagode. Pagode de teclados.

“A Volta do Pagode de Teclados”. Aí não é um Novidadismo. É, no máximo, um revival. Novidadismo tem na televisão, tem no cinema, tem na revista, dizq tem até nim livro.

Novidadismo é um modismo antigo, reapresentado como fosse novidade. Prostituta de 65 anos circulando pela Mimosa, carnes de fora, carrega apenas uma bolseta com falso documento de identidade: “Nascida em 1988”.

Novidadismo é engodo, seja por necessidade de revelar sempre O Novo, ainda que ele não pertença a este século, fazê-lo por costume ou por natureza, por falta de coragem, de ideias, de tempo ocioso para ter ideias, de distância da convivência Novidadeira. Ou Novidadista? Quem reapresenta as novidades antigas saberá a correta denominação. A correta talvez não seja a melhor.

Errar não é aceitável no universo do Novidadismo. O erro pode levar a uma novidade verdadeira. Isso seria sair do molde. Relatar, sem a previsibilidade de um começo, meio e fim, não ser possível microbiografar um ser redondo (pois não é personagem redondo, é ser da realidade), não é tarefa Novidadista.

Foto: http://www.rodneysmith.com/

Patos nadando em fila vs. Mulher de pé sobre a água: é possível convencer você de que a novidade são os patos

Portanto sair do molde riscado é inadmissível. Arriscar não é tolerável. Uma novidade real seria prejudicial à fôrma. Desestruturaria a fôrma. Denunciaria a existência de uma fôrma, na qual somente cabe o Novidadismo. Não me espantava nada se o Novidadismo gostasse de pensar que muita coisa era boa sob o regime militar. Mas chamaria aquela época por outros nomes.

Isto aqui, esta coisinha, não é protesto. Não é sequer reclamação. É uma constatação, firme feito o bumbo que estremece minhas paredes. E um agudo tecladinho esgueirando-se pelas frestas das portas todas fechadas, ar-refrigerado ofegante e fones pouco protetores de ouvidos, quando o vizinho pagodeia mais resoluto seu tinhoso refrão.

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Somos todos recrutas, de um modo ou de outro. Para todos nós, é difícil nos afastarmos de nossas fileiras; ser alvo da desaprovação, da censura, da violência de uma maioria ofendida, com uma ideia diferente de lealdade. – Susan Sontag, sobre coisas mais nobres como “Coragem e Resistência”; sem que deixe de tocar, no entanto, as fileiras dissidentes de hoje.