O RISO

Em 1999 eu trabalhava em uma agência de publicidade. Com tanta vocação para aquilo quanto para fazer miçangas com macarrão pintado à guache. Oficialmente, deveria ser um emprego de meio período; mas sempre chegávamos pela manhã e saíamos de lá à noite; eu aceitava a situação induzida por uma insuportável tendência “caxias” que apenas mais tarde, sujeita à rotina de empregos ainda menos estimulantes, conseguiria dominar.

As dependências da agência não eram tão ruins quanto os horários de trabalho; quatro salas em um prédio comercial no Leblon. Os sócios eram jovens, como convém nesse tipo de empresa, e eu conhecia o resto do pessoal de antes do emprego. Eles tinham me puxado pra lá, parecia que a equipe funcionaria bem assim.

Uma vez fizemos um anúncio para uma promoção de Barbies nas Lojas Americanas que rendeu até um telefonema do supervisor de marketing online do cliente repassando os cumprimentos da gerência. Gênios do futuro do presente.

Eu dispunha de um Mac colorido (aquele antigo modelo, com uma traseira gigante verde ou laranja, não os atuais, compactos notebooks) para ouvir música e escrever cerca de cinco linhas por dia. A produção dos anúncios era meticulosa, realizada em dupla com um cara do departamento de artes. O departamento de artes era a bancada paralela à minha, onde ficavam esse sujeito e mais um webdesigner em seus respectivos Macintoshs coloridos. Quando eu aprontava uma frase, empurrava o chão com os pés e a cadeira saía girando pela sala até bater na bancada deles. Quando eles tinham alguma imagem pronta, faziam a mesma coisa e aterrissavam na minha bancada. As caixas de som dos Macs coloridinhos alternavam “Chatuba do Mesquita” e “Je T’Aime (Moi Non Plus)” oitocentas vezes por dia. Um ou outro hit de metaleiro atingia nossa sala às vezes, vindo das profundezas da saleta onde viviam nossos homens das cavernas pós-pós-modernos, os “configuradores”, os rapazes da tecnologia, uma vaga definição para funções ainda mais vagas que jamais chegamos a compreender.

Almoçávamos nos buffets de comida a quilo mais caros porque era o que existia no bairro (e até hoje eu não sei que bicho eu comia achando que era salmão defumado). Avistávamos o Chico Buarque quando caminhávamos após o almoço na orla, ele sempre passeava pela orla perto do escritório. Fumávamos no corredor.

Uma tarde chegou um trabalho grande. Uma campanha inteira na internet para dois clientes que fariam uma promoção conjunta. A marca de um deles era um cachorro, o diabo de um cão branco com uma coleira graciosa no pescoço. O garoto-propaganda do outro era um pinguim. Chutei a parede da bancada com os dois pés e parei ao lado do meu amigo. “Fábio, é muito simples. Genial, mas simples.”

Quando entregamos ao chefe um pinguim que fazia au-au, ele foi sincero:

– Eles vão reprovar. É muito ousado.

Não obstante, o trabalho foi levado aos clientes, que polidamente quiseram saber se a gente estava de sacanagem. O job voltou para as nossas bancadas junto a uma ata da reunião em que fora apresentado o pinguim que latia. Eram folhas de papel riscadas de vermelho por toda a parte, com frases ininteligíveis que terminavam em pontos de exclamação.

Fábio não se abalou. Seguiu jogando Quake e mexendo nos papéis distraidamente quando um dos sócios passava pela nossa sala para pegar café ou acessar o corredor que levava ao banheiro. “Chatuba do Mesquita” disputava tímpanos com o Black Sabbath que vazava da sala dos fundos. Eu encarava o banner do pinguim que latia e tentava achar outra solução.

Isso durou três dias. Fábio jogando Quake e eu procurando uma ideia mais idiota, que os chefes pudessem apresentar as clientes sem medo de que fosse reprovada pela sua ousadia. Pinguim com osso na boca, cachorrinho branco com bico preto de pinguim, pinguim e cachorrinho branco num iglú cercado por geleiras, cachorrinho branco carcando pinguim num canil, etc. Moleque preyboy, je t’aime, oh oh oh, je t’aime! uuuh djan-djan-djan-djangan je t’aime finished with my woman cause she couldn’t seem to satisfy oh, je t’aime etc. Café café café, quake quake quake, chatuba de gainsbourg osbourne quake café etc.

Eventualmente tivemos uma idéia juntos, eu e Fábio. Bem em cima do prazo, conseguimos fechar uma proposta aceitável e nos livramos do pinguim e do cachorro. Curioso, mas nem eu nem o meu amigo recordamos hoje o que foi que mandamos pros clientes. Só sei que toparam e nunca mais tivemos que fazer qualquer coisa parecida.

Nunca mais porque, depois desse trabalho, começou uma fase estranha na empresa. Em vez de os sócios demitirem um a um para refazer a equipe com gente mais aplicada (ou interessada, na verdade), o que aconteceu foi que, um a um, toda a equipe foi pedindo demissão. Num espaço de três semanas, sobramos eu e o Fábio. Todo mundo que saía falava com a gente antes: “Olha, o ambiente aqui é meio opressivo, não podemos criar.” Eu ficava na minha porque, exceto pelo pinguim que latia, nunca tive a pretensão de criar qualquer coisa estupenda na publicidade. Não sabia o que dizer aos meus colegas de trabalho. O Fábio virava-se para o Mac colorido e jogava Quake.

Nesse clima, fomos almoçar um dia no Gula-Gula ou Delírio Tropical, não sei. Sentado à minha frente com um prato de salada e bife de ornitorrinco, Fábio pegou na minha mão e disse:

– Menina, você tem que parar de se preocupar com as coisas que você não pode controlar.

Na saída do restaurante, que, agora eu me lembro, era o Fellini, cruzamos com o João Ubaldo Ribeiro. O escritor usava chinelos. Meu amigo não deu bola para aquilo, mas a visão do escritor me deixou perturbada o resto do dia. Interrompi uma partida de Quake do Fábio e anunciei: vou sair.

O que se seguiu a isso entrou para o folclore da pequena agência. Mesmo depois da saída de um dos sócios, que acabou assumindo o departamento de marketing da empresa do pinguim, o que ficou com a agência fazia questão de comentar, de vez em quando, o fenômeno: depois que toda a equipe havia misteriosamente pedido demissão em menos de um mês, a única redatora que sobrava no quadro levantou-se de sua cadeira giratória ao final do expediente, dirigiu-se à sala do chefe e também pediu as contas:

– Algum motivo especial, você tem outros planos pro momento?

– …

– Pode dizer, a gente gosta muito de você, ninguém vai ficar aborrecido.

– É uma coisa esquisita.

– Estou curioso.

– Descobri o que eu quero fazer da vida.

– …

– … ser comediante.

Meia hora depois Fábio também pediu para sair. Hoje trabalha como produtor, faz música de graça e cobra por MIDIs de hits radiofônicos que servem como toques personalizados para telefone celular. Quanto a mim, naquele dia, realizei um sonho. Embora eu tenha rido sozinha, tinha o gosto de um milhão de gargalhadas na minha boca.