ONE MORE TIME (WITH FEELING NOW)

A gente não escolhe o que sai publicado pelos jornalistões nas revistonas que a gente compra. Muita vez não o escolhe nem mesmo aquele que assina um texto; então o que se dirá de quem lê?

Um dos motivos de não só muitos leads mas bastantes “matérias” saírem meio xerox meio déjà vu é esse. Outros, mais óbvios, torno a comentar. Água mole em pedra dura. Não me canso não. E quem se cansou, não leia. Prejuízo a ninguém. Nem sopro na orelha nem cisco no olho.

Talese abre O Texto explicando que o cantor, que esteve calado por horas, está prestes a dizer algo.

“Frank Sinatra, segurando um copo de bourbon em uma das mãos e um cigarro na outra, está parado em um canto escuro do bar entre duas loiras atraentes embora desbotadas que se sentaram esperando que ele dissesse alguma coisa. Mas ele não disse nada; ele se manteve em silêncio durante a maior parte da noite, exceto agora neste clube privado em Beverly Hills; ele parecia ainda mais distante, olhando através da fumaça na semi-escuridão para um salão atrás do bar onde dúzias de jovens casais acotovelam-se à volta de pequenas mesinhas ou se sacodem no centro da pista ao alarido metálico da música folk-rock que sai do estéreo. As duas loiras sabiam, assim como os quatro amigos de Sinatra que estavam por perto, que era uma má idéia forçar uma conversa quando ele estava neste clima de silêncio taciturno, um ânimo dificilmente incomum durante a primeira semana de Novembro, um mês antes de seu 50º aniversário.”

A reportagem, aberta com Sinatra em silêncio em uma boate, ganha uma digressão na qual Talese mantém em suspense a seqüência desta cena específica. Ele não relata imediatamente as ações dos personagens a quem fez referência no parágrafo de abertura. Ao invés de entregar respostas às questões “o quê”, “por quê”, “como”, “onde” e “quando” sobre o lugar e as pessoas descritos no primeiro parágrafo, informações que, de outra forma, poderiam ter sido logo fornecidas em um lead mais convencional sobre o cantor, Talese oferece um panorama geral do que Sinatra estava vivendo em sua carreira e sua vida pessoal, remontando a eventos ocorridos dez anos antes e a outros nem tão distantes, como a superexposição de seu relacionamento com a atriz Mia Farrow (então aos 20 anos de idade) na mídia; a invasão de sua privacidade por uma equipe da rede de TV CBS, por conta da gravação de um documentário sobre sua vida que chegava, inclusive, a especular sobre suas ligações com membros da máfia italiana; a preocupação do cantor em relação a um especial que gravaria para a NBC. Resfriado, Sinatra era, nas palavras de Talese, “Picasso sem tinta, Ferrari sem combustível”, uma vez que um simples resfriado podia lhe roubar “sua jóia”, sua voz, “cortando o âmago de sua confiança, e afetando não só sua própria consciência mas também causando um tipo de corrimento nasal psicossomático entre dúzias de pessoas que trabalham para ele, bebem com ele, o amam, dependem dele para seu próprio bem-estar e estabilidade.” Um resfriado em Sinatra teria o poder de “enviar vibrações por toda a indústria do entretenimento e para além dela assim como o Presidente dos Estados Unidos, adoecido de repente, pode sacudir a economia nacional”. Este é o gancho para que Talese nos guie até outro bar, em Nova Iorque, o Jilly´s, onde o cantor possuía uma mesa cativa, a qual não podia ser ocupada por mais ninguém, mesmo quando Sinatra não estava na cidade. Aqui será delineado um dos lados do perfil de Sinatra que Talese define como “Il Padrone”, o chefe, “majestoso e humilde” ao mesmo tempo; um tipo siciliano para quem meias verdades e meias decisões não são suficientes. Ele quer tudo “all the way”, até o fim. Exige 100% de fidelidade de seus amigos, a quem oferece em troca proteção, amizade, presentes, TUDO de Sinatra. Todos que conhecem Sinatra e estão em Nova Iorque vão até sua mesa no Jilly´s para “prestar seu respeito ao padrinho”. O outro lado da personalidade de Sinatra surge quando está com gente do showbusiness como Lisa Minelli e Sammy Davis Jr., fazendo piadas e bebendo: é o “Swinger”, um boa-vida engraçado e charmoso. Ambos os tipos são anacrônicos.

Só após esta digressão o leitor fica sabendo o que realmente acontece naquele cenário instaurado por Talese no primeiro parágrafo. Sinatra reaparece no bar de Los Angeles, agora contextualizado pelo recuo no tempo oferecido por Talese. O comportamento de Sinatra e seus amigos na boate agora faz sentido no contexto “O Chefe/O Boa Vida” apresentado pelo autor. A cena é retomada de onde parou:

“Agora Sinatra disse algumas palavras às loiras. Então, virou-se e começou a caminhar em direção à sala de sinuca. Um dos amigos de Sinatra aproximou-se para fazer companhia às garotas. Brad Dexter, que tinha ficado em um canto falando com outras pessoas, seguiu atrás de Sinatra.”

Segundo Mark Kramer afirma no livro “Regras Nada Rígidas Para Jornalistas Literários” (tradução livre), o autor precisa se basear em uma estrutura de “contador-de-histórias”, construindo digressões que sugiram um destino que valha a pena ser atingido. Digressões que não abandonam seu tema mas o ampliam prendem o interesse do leitor. E é precisamente para ampliar a dimensão de Sinatra aos olhos do leitor que Talese digressiona.

***

A observação do comportamento das pessoas ao redor do cantor e da fala de seus amigos oferece detalhes consistentes e é o que endossa as definições do autor sobre a personalidade de Frank Sinatra. Aqui, Talese demonstra credibilidade, ganhando a confiança do leitor apresentando diálogos e cenas que só uma observação muito próxima poderia permitir.

Brad Dexter que, anos antes, havia salvado a vida de Sinatra evitando que o cantor se afogasse, no Havaí, afirma: “Eu mataria por ele”. Em seguida, Talese nos conta que Dexter foi feito vice-presidente da produtora de Sinatra e ganhou um escritório luxuoso próxima à sala de Sinatra. A fala e as credenciais de Dexter justificam no texto o lado “Il Padrone”, passional e siciliano, de Sinatra.

Um retrato do lado “Boa-vida” e do círculo de amizades do showbusiness de Sinatra vem em outra cena de bar, desta vez de volta no clube The Sahara, onde o comediante Don Rickles começa um jogo de piadas com o cantor e seu séquito, entre eles Dean Martin, o dono do Jilly´s, Jilly Rizzo, e Leo Durocher, um amigo próximo de Sinatra:

“Quando o grupo de Sinatra entrou, Don Rickles não podia ter ficado mais satisfeito. Apontando para Jilly, gritou: ‘Como você se sente sendo o trator de Sinatra?… ééé, Jilly continua andando na frente de Frank para limpar o caminho.’ (…) Ele então concentra-se em, Sinatra, sem esquecer de mencionar Mia Farrow, nem a peruca que Frank usava, ou que ele estava acabado como cantor, e, quando Sinatra riu, todos riram, e Rickles apontou para Bishop: ‘Joey Bishop continua verificando com Frank o que é engraçado’. Então, depois que Rickles contou algumas piadas de judeu, Dean Martin levantou-se e gritou: ‘Ei, você tá sempre falando de judeus, nunca sobre italianos,’ e Rickles cortou com essa: ‘Para que precisamos de italianos – tudo que eles fazem é manter as moscas longe de nosso peixe.’ Sinatra riu, todos riram, e Rickles prosseguiu dessa maneira por quase uma hora, até Sinatra, levantando-se, dizer:

‘Tá legal, vamos lá lá, acabe com isso. Eu tenho que ir.’

‘Cale a boca e sente aí!’ Rickles mandou, ‘Eu tive que agüentar você cantando…’

‘Com quem você pensa que está falando?’ Sinatra gritou de volta.
‘Dick Haymes,’ Rickles respondeu, e Sinatra riu novamente, e então Dean Martin, derramando uma garrafa de uísque sobre sua cabeça, molhando todo o seu smoking, socou a mesa. ‘Quem acreditaria que aquele sujeito cambaleante viraria uma estrela?’, Rickles disse.

Embora Talese não se coloque, neste momento, em foco na cena, fica subentendido, pela maneira como ela é desenvolvida no texto, que ele está presente quando a ação acontece. Caso tivesse apenas ouvido a história de alguns dos presentes, seu estilo denunciaria tratar-se de um relato de segunda mão. Sua presença discreta no ambiente só pode ser percebida pelo detalhe e dinamismo que confere aos diálogos da cena. “Jornalistas literários tomam notas elaboradas para reter citações precisas,” afirma o autor no texto “Breakable Rules For Literary Journalists”. É a partir dessas falas citadas com precisão que Talese consegue reconstruir cenas inteiras para o leitor.

ANA DE AMSTERDAM

O problema que Ana de Hollanda não quer enxergar nessa reforma é que os autores já deixaram de ser donos de suas obras há um bom tempo. Quem detém os direitos musicais de quase tudo no país agora são as editoras, que fazem o que querem com o catálogo dos artistas. Desde deixar na geladeira até fazer coletâneas trash pra faturar mais sem autorização do artista.

Um dos pontos da reforma era justamente essa flexibilização dos acervos e direitos que são intermediados pelas editoras. Se uma obra tem tiragem esgotada há mais de cinco anos e a editora não tem interesse em relançar, o direito volta a ser do autor. E isso é algo que protege bem mais o autor do que meia dúzia de frases soltas que ela lança em entrevistas.

[Jarmeson Lima, jornalista e produtor cultural, membro da equipe do coletivo Coquetel Molotov, sobre entrevista de Ana de Hollanda publicada hoje no Estadão.]

LARGO HORIZONTE

No dia 13 passado eu republiquei aqui um texto que expande uma frase minha ou minha frase é que resume esse texto (pelo menos na minha opinião, que é a que importa onde eu escrevo o que eu quero: aqui). A frase é A CABEÇA, SEMPRE MAIOR QUE O CRACHÁ ou CABEÇA > CRACHÁ. O texto é este, linkado aqui.

No dia 16 Lenina Crowe me avisou que um colega tinha sido sorteado para sair do Local e seguir para Not A Ilha.

O nome do texto que tinha relinkado cá dias antes é “A sua vida, saca?”. Eu acredito na maioria das coisas que aquele texto afirma. Mas fiquei chateada e com vontade de sair correndo porque o colega que foi para Not A Ilha era um amigo, embora a gente se tratasse por colega porque o Diretor-Adjunto de Predestinação não encoraja o investimento em amizades no Local. Pra me distrair e parar de olhar para o cubículo do amigo, decidi fazer uma lista das vezes em que The Great Escape foi mais que um álbum do Blur pra mim.

No próximo post solto a lista. Por enquanto, o clipe de uma música que definiu um certo espírito-de-porco dos anos 90 que de vez em quando volta como náusea e tem alguma coisa a ver com obedecermos ao sr. Diretor-Adjunto de Predestinação.

REWIRE 7

de vez em quando eu gosto de te lembrar a (re)ler esse texto. colo trecho abaixo, com link para a íntegra:

Pense no que você faz hoje. É o que você quer da vida? Você vai morrer e como vai entrar pra história? Funcionário do mês? Operário padrão? Profissional do ano? É este tipo de herança que você quer? Que seus filhos olhem na parede da Fiesp e descubram que você foi o chapeiro do mês em agosto de 2016? Para entrar na posteridade, basta virar nome de rua?

É para aí que você caminha, empregado. E digo com repulsa, com PENA, de você, que tem um patrão fungando em seu cangote prazos e rejeições às suas idéias despencando em seu dia-a-dia como colheres de açúcar no balde de café que você toma de hora em hora.

GIVE YOUR HEART TO SOMEBODY SOON RIGHT AWAY

[com certeza o disco do paul que mais ouvi é o ram, de 1971; menor ideia de como cheguei a ele nos anos 80. só me lembro de que, na época, vendiam-se vinis em supermercados grandes como o “disco”. disco era mesmo o nome do supermercado, que acho que existia mais em subúrbio, só. ou imagino isso porque, pequena, não ia a outra parte da cidade que não fosse também um subúrbio, como a ilha do governador. esses supermercados eram galpões enormes onde o povo costumava comprar grande volume de produtos, em caixotões, por um preço muito mais barato. a rede “disco” tinha essa sofisticação que depois quem comprou o espaço e reabriu o mercado com o nome de “bon marché” manteve: uma sessão de vinis. e uma sessão de livros. best-sellers bem porqueiras em sua maioria, os livros. na parte de vinis, sabe-se lá como, no meio de montes de coletâneas de hits de discoteca e trilhas sonoras de novelas, achei “ram”. achei tantos outros dos beatles. colecionei tudo em vinil.

agora, ou essa guaribada foi no “disco”/”bon marché” mesmo, ou num carrefour de qualquer subúrbio próximo. não interessa a memória exata do local de compra, porque esses mercadões eram todos muito parecidos. diferente mesmo era ter paul e beatles ali e eu querer aquilo sem saber do que se tratava. diferente não, mais pra esquisito. no final das contas, taí comigo esse gosto até hoje, quando um monte de coisa que eu achava mais importante e até ser respirante já ruiu, desapareceu.]