NO TEMPO DA ESCASSEZ

A ausência absoluta de revistas importadas, em especial, não passava despercebida. A turma sabia que elas existiam. Às vezes eram citadas nos cadernos culturais por jornalistas que se dispunham a lê-las. Ou apareciam na biblioteca da sede da Cultura Inglesa, de onde nunca podiam sair emprestadas (roubadas, isso era um outro caso).

A falta de bons livros era uma charada fácil de matar: não havia uma só livraria no bairro, só papelarias estrategicamente localizadas ao lado dos maiores colégios, que vendiam apostilas e material escolar. Mas nunca cheguei a qualquer conclusão sobre a seca de periódicos importados. Se a vida no bairro da Ilha do Governador era uma mistura de Twin Peaks com Barrados no Baile, então nada justificava que nos privassem de lixo pop impresso.

Mas o Aeroporto Internacional da cidade não fora colocado à toa ali perto de casa, na Ilhota: foi lá que encontrei duas livrarias de verdade, duas naves-mãe brilhando com fileiras arrumadinhas na parede, cheias de opções inumeráveis, edições dos meses anteriores e novas de Rolling Stone, Details, The Face, Smash Hits, Vanity Fair, NME… um universo inteiro de publicações fincado ali, num lugar de passagem, de transição.

As capas realmente brilhavam. O cheiro do papel chegava a dar barato. A variedade oferecida naquelas prateleiras causava um contraste alarmante em relação à escassez de prata-da-casa. No Brasil tínhamos uma revista de música mais abrangente, a Bizz. É natural que a Revista Brasileira de Música, criada em 1934, não fosse levada em consideração por nós, já que ela mesma desconsiderava o resto do mundo da música. Também só uma revista tratava de cinema, a SET. E, por mais que eu tentasse “economizar” e ler poucos artigos a cada dia, elas não rendiam o mês inteiro. Não tinha Trip, Cult, Bravo, Piauí. E a internet só chegaria às nossas casas dez anos depois; TV a cabo, ao menos em Beverly Peaks 90210, ainda mais tarde. Cerimônia do Oscar, só com o Rubens Ewald Filho; videoclipe, só no Canal 13 e com muito chuvisco e chiado.

Não fossem os tempos de escassez e o choque de topar com coisas fantásticas vez ou outra enquanto eles duraram, a turma que estava lá quando tudo era raro e quase inacessível teria mais dificuldade em identificar o que é ordinário e dispensável. Filtrar (o Grande Trabalho de Hoje). Ou teria se tornado menos resistente às publicações que endossam o ordinário, o dispensável.