GUIA PARANÓICO DE CONVIVÊNCIA SEM FUTRICA

Se eu me lembro da Dona Tia? Não sofro de fake amnésia, claro que me vem à lembrança a Dona Tia. Não sei se Tia era abreviatura de algum prenome exótico ou só apelido, quem deu a ela o vulgo nem por quê. Tipo de informação que ela jamais se animava a fornecer. Dona Tia trabalhava apenas com a coleta, adaptação e broadcasting de informações a respeito de moradores, familiares e amigos de moradores – frequentadores em geral – da rua onde eu vivia na Ilha do Governador.

Seu principal posto de observação ficava na varanda do segundo andar de sua ampla casa, onde era capaz de passar bastantes horas seguidas à espera de qualquer movimentação na rua que pudesse considerar suspeita e transformar em assunto. Espiava também por detrás das cortinas de uma janelona quando, cautelosa, procurava evitar que sua presença alterasse os rumos do acontecimento que julgava presenciar. Muitas vezes era um nada que via, mas transformava em assunto a ser levado por de um a um aos ouvidos dos vizinhos – exceto aos diretamente envolvidos na fofoca.

O portão de entrada da casa era importante na fase de transmissão da suposta descoberta ou flagra que tivesse obtido durante a vigilância na varanda.

O telefone era um instrumento essencial de propagação – ainda que nada de concreto sobre seus objetos de estudo pudesse ser comprovado.

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Dona Tia trabalhava estritamente com hipóteses mal sustentadas por seus “testemunhos”. A curiosidade provinciana dos vizinhos e a falta do que fazer após o Vale a Pena Ver de Novo alimentavam a atividade de Dona Tia e fortaleciam a rede de disse-me-disse.

Quando finalmente chegava ao conhecimento do(s) protagonista(s) da falação, era impossível descobrir por qual ponto difusor da história o vizinho que fora avistado – através da janela, no aconchego da saleta de sua casinha – a tirar um cochilo com uma almofada felpuda entre as pernas, transformara-se num pervertido praticando zoofilia com o poodle toy da família.

Aí já era tarde. Má fama feita, a vítima via vermelho e partia para acariações entre vizinhos. Tirava satisfação dos buxixos, quase sempre sem resultado positivo.

– Ih, quem não deve não teme, hein! Tá nervoso por que, Seu Fulano? Aí tem coisa…

E Seu Fulano levava a pecha de tarado pro resto da vida ou enquanto durasse a lembrança de seu suposto enlace carnal com o cachorrinho.

A credibilidade de Dona Tia permaneceu inabalada, inquestionável até, durante muitos anos. Motivo? Tenho hipóteses:

1) graças à demanda do povo por assuntos cabeludos que os distraíssem de sua rotina doméstica, das conversas mornas sobre novelas e o sobe e desce de preços nas Casas da Banha.

Uma noite Dona Tia viu um disco voador. No dia seguinte não havia gente na rua, no bairro inteiro até, que não tivesse avistado as mesmas luzes brilhantes dançando n0 céu da Ilha do Governador. Ninguém, dessa turma toda, porém, tivera a ideia de bater uma foto do OVNI. Que pena. Mas havia o testemunho, como não?

Até o dia de sua morte, Dona Tia continuou a ter suas histórias ouvidas, aumentadas e propagadas como verdades.

Hipótese 2) Sua credibilidade era mantida à custa da alta rotatividade de moradores, novos e inocentes vizinhos a chegar sempre sem saber que eventualmente protagonizariam tramas desenvolvidas por aquela senhora e seus colaboradores (que muita vez eram também vítimas dela).

Dos antigos, havia quem preferisse mesmo a trabalheira de uma mudança radical, trocando a rua por outra onde pudessem gozar de privacidade sem ter quem insinuasse que gozavam num poodle.

Hipótese 3) que não exclui as outras duas: tratava-se de uma senhora elegante, sempre muito bem vestida e ornamentada de joiazinhas, que falava bem (além de bem mal a respeito de todo mundo), tinha certo ar de madame de um tipo que não se fazia mais nem àquela época. Não se desconfiava dela como fonte primeira de boatarias nem provocadora de contendas e tretas porque ela “parecia fina”, e era, ela mesma, extremamente reservada em relação à própria vida. Era viúva. E mais não sabíamos. Nenhum de nós vizinhos jamais tínhamos botado os pés na casa dela. Suas conversas e palestras aconteciam todas do portão para fora. Ou pela fiação telefônica.

Sorte nossa não havia internet enquanto houve Dona Tia.

Quando faleceu, o óbvio foi descortinado pelo silêncio que ela deixou para trás. Nunca mais houve fuxico na rua. Ficou claro, como as luzes lançadas pelo OVNI inventado, que Dona Tia era a central de desinformação a qual todos os boatos e confusões podiam ser rastreados.

Tornei a pensar em Dona Tia e suas atividades recentemente, quando um telefone-sem-fio entre conhecidos de conhecidos e amigos de amigos transformou a todos em inimigos. A trama era boa: tinha vaidade, ciumeira, traição e olho-gordo. Para que fosse considerado produto de linhagem similar às invenções de Dona Tia, faltava apenas a zoofilia ou coisa mais esquisita que chocasse o povo.

Pensando nisso, criei o guia abaixo. Curto e grosso (que é pra ninguém esquecer.):

1. Se não puder tapar o ouvido, feche a boca. Não repasse.

2. Se não conseguir evitar que te responsabilizem pelo Holocausto, Hiroshima, o assassinato de Kennedy e a invenção da tecno italiana, deixe quieto. O pessoal está se divertindo horrores inventando essas coisas sobre você. Não queira irritá-los e levar também a pecha de estraga-prazeres.

3. Faça uma lista com as três pessoas em quem você pode confiar. Então, alternadamente, passe a desconfiar um pouco de cada uma delas para sempre.

p.s.: lembra do Hunter Thompson, “Não existe paranoia”.