O BROTHER, WHERE ART THOU?

[pensando em quem viajou pra fora de vidas que se cruzavam com a dele e não dá sinal de que voltará, resgatei texto de que compartilhávamos e compartilho agora com quem ficou para lembrar]:
Paris, 2007, dois cachorros amigos

CARTA ABERTA – Como pensa passar a exercer seu ofício literário? – Antes de mais nada, de uma forma em que a expressão se harmonize com a comunicação. Que seja compatível com os meios de comunicação do nosso tempo. Não pretendo praticar uma literatura só para mim, e só para uma meia dúzia de pessoas. – Fernando Sabino, entrevista para Ele e Ela, 1979.

Divulguei alguns textos meus na internet anos atrás, de maneira compatível com os meios de comunicação do meu tempo, alcançando, assim, mais que meia dúzia de pessoas. Recebia no início uma média de 150 a 200 acessos diários, o que era razoável para alguém que só tratava de literatura não em um grande portal na web, mas num blog pré-facebook, pré-twitter, do tempo da internet discada.

[vem a seguir a parte mais nostálgica deste, em que eu peço ao amigo, colega, hobo – o que tenha se tornado – que compre o bilhete de volta. nostalgia não quer dizer cortina puída que esconde santos intocáveis e coisas que preferem ser abandonadas]: Tinha um site e uma mania incurável de ler Fernando Sabino em dezembro. Dessa maneira, sempre começava o ano seguinte com a impressão de que “no fim dá certo”. A frase, emblema da sabedoria sabiniana, aparece na ficção do escritor mineiro assim como em “Cartas na Mesa” (Record), que reúne a correspondência do escritor enviada aos amigos Paulo Mendes Campos, Hélio Pellegrino e Otto Lara Resende. Como qualquer obsessivo, cruzava páginas desse livro com questões minhas – e outras nem tão restritas a mim assim. Justificava a apropriação, o cruzamento das sabinadas, com outras questões, não só pela obsessão como também pela atualidade dos textos do autor. Principalmente porque integram a obra porções da vida particular de Sabino, como as cartas que escreveu aos amigos. Foi à Clarice Lispector, em entrevista reproduzida em “Cartas perto do Coração” (de cartas trocadas entre Clarice e ele), que Sabino ofereceu um comentário bastante condizente com uma das características da geração de escritores que surge hoje na internet:

“Atualmente eu me interesso mais pelo depoimento pessoal, pelo documentário – que talvez sejam as novas formas de literatura.”

Meu site tem servido como bloco de notas online onde escrevo idéias e frases referentes ao processo de edição do meu primeiro romance (título de trabalho: “Desterreno”), bem como do segundo. Minha ficção não se resume ao site – ele serve para documentar alguns passos do processo de edição e para a comunicação com os leitores, como um diário de produção. Muito antes, usei o site para publicar mini-contos etc. Foi justamente naquele período, em 2002 (lembra, viajante?) que o jornalista e editor Paulo Roberto Pires jogou sobre novos escritores brasileiros que publicam ficção na web o primeiro olhar cuidadoso que receberam. Autor da biografia de Hélio Pellegrino publicada pela coleção Perfis do Rio, da Relume Dumará, Paulo escreveu um artigo afirmando então que esses autores formavam, de fato, uma geração, concluindo que a literatura muda de status ao começar na internet, dessacraliza-se, “juntando mais radicalmente ficção, diário, correspondência completa, rascunhos e originais.” A idéia do jornalista é consoante com o que Sabino havia dito 50 anos antes. No entanto, naquele mesmo 2002, o autor mineiro reclamou num jornal do excesso de informação na rede: “o e-mail, o computador, a informática em geral, ou que diabo de nome tenha essa praga, é inimiga da criação literária. Você acha que Dante, por exemplo, seria capaz de escrever a “Divina comédia” no computador? O excesso de comunicação liquidou com a expressão.” (Entrevista a Mauro Ventura, Cecilia Costa e Rachel Bertol). Seríamos tão bastardos assim? Tão sem rumo e sem chão, irreversivelmente desorientados pelos tabs de browsers e janelas de chat e twitter que avisam a chegada do outro, do de fora, a cada instante, invasivos; e nós, com a concentração severamente comprometida como vítimas de ADD (Attention Defict Disorder)?

Roubo frase de outro mineiro para discordar: em palestra que aconteceu recentemente no prédio do PACC (na Universidade Federal do Rio de Janeiro), o escritor Autran Dourado lembrou aos escritores novatos presentes que “na sua literatura o autor não deve querer tomar lições de gigantes absolutos; aprende-se mais com os artesãos”. Ou seja, com internet ou sem internet, com blogs ou sem blogs, não se pode começar querendo produzir à altura de um Cervantes. Não se pode querer começar a escrever para superar ou equiparar-se a um clássico absoluto. Todo escritor percorre um longo caminho para criar sua obra. Fernando Sabino percorreu 80 anos para chegar ao que chamou de “auto-biografia não autorizada por mim mesmo”. Não sem enroscar vida e ficção diversas vezes pelo trajeto. Paralelamente ao duro trabalho criativo, manteve durante toda a vida intensa correspondência com os amigos, o que hoje é do conhecimento do público graças às coletâneas de cartas lançadas pela Record, com autorização do autor. O troca-troca de missivas não interrompeu nem prejudicou a criação literária. Muito pelo contrário, tomando das cartas para a sua ficção. “Encontro Marcado”, o livro mais importante de Sabino, tem trechos inteiros nascidos de cartas escritas originalmente para o trio de amigos.

Diante disso, cabe a pergunta: o que há de tão diferente entre transformar o conteúdo de cartas em ficção e o conteúdo de posts em ficção?

Os posts são cartas abertas.

Algumas mais bem escritas que outras, é verdade. A maioria sem a menor pretensão literária, ou sequer condição de roçar a literatura. Mas ainda assim cartas abertas aos leitores, sem a intenção das caixas de sapatos que guardam papéis para a posteridade. Os blogs não terão pósteros, têm contemporâneos. Terão trechos preservados os que conseguirem publicação em papel, seja em coletâneas de ensaios ou crônicas, ou como partes de um romance do autor. Porque a internet pode ser mais eficiente que um time de traças: sites desaparecem. As ferramentas que servem à publicação dos sites podem simplesmente falir um dia e tirar do ar milhares de textos. A grande diferença entre usar material de cartas em ficção e material de posts em ficção é que as cartas, até a publicação de um livro que as reúna, ficavam restritas ao remetente e seus destinatários.

Os posts ficam aí, com a bunda exposta na janela do navegador.

O processo e a exposição que ele acarreta são tão amplos que eliminam certo romantismo próprio da troca de correspondência particular e intransferível. Se há algo de verdadeiramente negativo em nossas cartas abertas eletrônicas é que a interatividade com o leitor nem sempre é bem-vinda. Com risco de soar antipática, garanto que em nada ajuda ao escritor que publica seus textos na internet a facilidade com que pode conhecer opiniões sobre seus textos. Não são resenhas que um crítico experiente passou dias trabalhando, nem são os textos, sempre, mais que fragmentos. Com raras exceções, são recebidos por e-mail ou deixados pelos leitores no próprio site (ferramenta “comments”) elogios que variam do “muito bem” ou “ducaralho” a esculachos. Cada geração tem os críticos que merece? Idéia tão simplista quanto esses comentários.

Há bons escritores na internet, como há bons críticos e editores que percebem sua escrita. Ignorar o elogio fácil e o espalhafato de amadores é necessário não só ao escritor que lida diretamente com seus leitores na internet como sempre o foi para autores de todas as épocas. A qualidade da literatura que brota em alguns posts varia. Há graus diversos e prefiro deixar a avaliação para profissionais como Paulo Pires, que já aconselhou o também escritor e jornalista Zuenir Ventura a dar um bookmark em alguns blogs, “se quiser saber como alguns blogueiros fazem de seu brinquedinho muito mais do que uma tribuna ou diário e exercitam ali, diariamente ou quase, uma oficina de literatura em tempo real. Work in progress é isso aí.” – Afirmou, ressaltando que, ainda que meio disforme, incipiente, a ficção que surge nesses sites tem a cara dos tempos que correm. Um escritor não pode ignorar o seu tempo.