PLANO DE VERÃO

Minha coluna da semana na Folha de S. Paulo aqui. Abaixo, trechim:


“EU TINHA UM plano de verão. Era o mais perfeito que alguém jamais poderia ter concebido pra estação (cá estabeleço egoisticamente que todos incluiriam na concepção de plano perfeito para o período do verão a atividade da escrita, quando a maioria absoluta preferiria, após a praia, churrasco, sexo, sono, TV. Qualquer coisa exceto escrever).

Outro parêntese, antes de partir ao plano egoísta (por verão compreendemos também, em cidade fervida de praias, a primavera).

Passemos ao plano. Vejam qual simplicidade. Acordar cedo, ir a Ipanema, aprender a técnica local de me largar e de pegar amizade com a dona de alguma barraca que alugue cadeiras de praia e venda comes e bebes, a quem passaria a confiar meus pertences sempre que desejasse dar um mergulho; ir e voltar sem apreensão. Todos são bons.

Daí, ler bastante, abandonada na areia. Voltar pra casa depois da hora do almoço, deitar com o que restasse do livro companheiro de praia, dormir também com ele. Acordar por volta das 17h, tomar café como se fosse manhã novamente. Trabalhar então teclando fábulas e frilas (ah, a vida romântica do escritor contemporâneo!) até as 23h, ou mais que rendesse. E no dia seguinte, praia outra vez, desabater do agasto, mexer novas ideias na cabeça.

O que ocorreu foi o seguinte, porém: começou por chover dia sim, dia sim, dia não, dia sim. Em seguida, caí e quebrei um pé e mais alguma coisa no entorno; operaram o pé, colocaram pinos e uma placa de metal muito à moda androide de Blade Runner, que agora é parte do meu corpo, do tornozelo à perna.

(…) Saudades do Rio, apesar de morar nele; não saindo à rua, idealizo-a, devolvo a ela certa dose perdida de romance.

(…)”

RUMOS DO LIVRO NOVO

[Café Fatal, romance que se passa em Berlim]

Duas personagens se descolaram totalmente de seus modelos originais; têm trajetória, comportamento, pensamentos dissociados de pessoas que conheci e quis descrever.

Agora conheço melhor seus derivados, como se rostos, fios de cabelo, pele e memórias tivessem se despregado de corpos vivos, e deixado, no lugar do que me era familiar, carcaças de estranhos.

Cruzar novamente com essas pessoas reais seria ainda mais bizarro do que ver um livro cuspir no chão uma personagem. Se, por acaso, uma dessas pegasse um avião ou o telefone para entrar em contato comigo, eu teria que dizer “Desculpe, mas você não pode atender; você não está”.

FOLHA DE S. PAULO

Minha coluna da semana na Folha de S. Paulo, “Flash Forward 2016“.  Abaixo, trechim:

O ano de 2016 sempre esteve ali. Mas viver a transformação da cidade -obras, segurança, transportes, economia- in loco ao longo desses sete anos será -já é- como viver num futuro que não imaginávamos possível. É um “flash forward” legítimo causado pelas transformações por que a cidade e os cariocas passarão, a começar por uma mudança de fato impactante: a retomada de nossa autoestima e esperança.

HÁ 20 ANOS

Para não termos sangue e lágrimas, tem que haver suor e sacrifícios. Presidente Sarney, na televisão, anunciando mais um plano econômico.

Foi um golpe de cangaceiro do governo, nos moldes de Baby Doc e Ferdinand Marcos. PFL/RS reagindo ao destino dado ao relatório da CPI da corrupção contra Sarney, que o presidente da câmara, deputado Inocêncio de Oliveira, PFL/PE, tratou de arquivar rapidinho.

O senhor é um político de segunda classe que pegou carona na história. Fernando Collor, um político de primeira classe, dirigindo-se a Sarney no horário eleitoral.

Sempre estamos aqui, aos sábados e domingos, fazendo compras. Collor, na favela Vila Paranoá, Brasília, onde passa os fins de semana satisfazendo seus impulsos de consumo.

O Fernando hoje está mais equilibrado; se continuar assim, vou influir o máximo possivel a favor dele. Roberto Marinho, jornalista e presidente das Organizações Globo, sobre o filho de Leda e Arnon.


Quem venceu foi a mentira. Lula, ao admitir a derrota.

Espero que não nos arrependamos de tanta luta e espera pelas diretas. Ulisses Guimarães, na véspera do primeiro turno.


***

Os mais dados a crer no sobrenatural certamente procurarão os sinais, os avisos dentre as frases acima, retiradas de É dando que se recebe (Ática, 1994), do cronista Carlos Eduardo Novaes, livro que merece uma reedição ampliada, que deveria chegar aos dias de hoje, com novas aspas assombrosas de nossos políticos e dos grandes da mídia.

O “profeta” perdido em acidente de helicóptero, Ulisses Guimarães, é só um fantasma de peso nesta compilação dedicada “À memória de um país sem memória”. Soa atraente ao leitor brasileiro de hoje, não?

Editores, mexam-se. Porque os eleitores roubados, enganados, viraram zumbis sem esperança. Ler sobre o passado, recente e não tão recente, vai nos fazer imenso bem.