OLDIES GOLDIES

20.4.04
AH, M.D., D.M.

Sua mão gastou vários palitos até que a chama iluminasse uma cara de boneca cuja cêra derretera-se em crostas, arremedo de superfície lunar, forrada de bolhas e crateras profundas (…) tentava levantar-se, mas desabou pesadamente no banco, tonto, atraído pelas garras vermelhas que deslizavam em seu peito, puxavam-lhe os pêlos, puxando-o para si, rendido ao aperto cego sem resistência, nesse buraco do tempo onde as línguas famintas costumam penetrar. necessárias como a noite. Tampando o escuro cu do mundo.

Ela pediu um gim tônica e uma cerveja. Fiquei no martini e na cerveja só porque eu sou uma franga e ela é Márcia Denser, 50 anos, num boteco da Aclimação ou outro bairro que não lembro o nome, em São Paulo, onde ela vive. Conforme me contava que nunca anotava nada quando trabalhava pra Folha de São Paulo, eu também deixava o bloco e a caneta quietos dentro da bolsa, cuidava melhor do copo, dos cigarros, da gordura na toalha plástica sobre a mesa. Ficamos lá até bem tarde, muitas misturas depois é que tive que ir, dia seguinte tinha trampos naquela feira.

O negócio é que é preciso ignorar a propaganda feita pelos amigos e críticos da Denser, gostar do que ela escreve apesar do que escrevem sobre ela. Ela é muito mais poderosa que um punhado de adjetivos ecoando dos anos 80, ela vale mais que as resenhas positivas do Paulo Francis, que o título de musa dark – os adjetivos ficam passe, o que ela escreveu, não.

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O papo no bar tinha Luís Paulo Faccioli e Cíntia Moscovitz, única mulher da coletânea “Transgressores” (Boitempo) que estava cobrindo a Bienal pro Zero Hora. Por uma graça concedida pela organização da feira, estavam hospedados no mesmo hotel que eu. Tinha ainda, de Floripa, D., 20 anos, em SP pros primeiros afazeres de estágio em jornal e acabou batizada numa mesa com a Denser.