FIGURANTES

abrasso nos otro amigo

Trecho:

Desde o hotel St. Paul que eu não pensava nos figurantes mas os bilhetes de cinema trouxeram Thaís e seu irmão de volta. Ela, morena, olhos levemente puxados. E Ânge-Lorde magro que hoje engole o Village ou o Brooklyn com a ajuda de Thaís. O St. Paul em Copacabana e 1996 espancaram a porta do quarto hoje, arrastados pelos irmãos igual vira-latas presos na coleira a dois fantasmas. Não são eles os figurantes, olham pra gente com pena.
Latidos aos pés da cama, ele ressona ao lado, o cachorro lambe meus pés, late mais. A noite vai.
Foi no hotel onde falamos dos figurantes pela primeira vez, sentados no chão, encostados na parede perto da porta da varanda do 10o. andar. Os apart hotéis têm papel fundamental em momentos transitórios de vidas desregradas. A função do St. Paul estava clara: escoar com rapidez os salários de frilas dos irmãos, aglomerar gente em torno de uma guitarra com duas cordas e um amplificador Stanner com chiado, fornecer sofá e teto para amigos e estranhos que parecessem legais. A serventia dos figurantes era mais difícil de explicar, como é insondável o motivo de eu e ele ainda nos deitarmos juntos toda noite.
Não era possível aceitar a existência de gente destinada a uma atividade superficial no mundo. Qual era a atividade superficial dos figurantes?
É presunção, doença, fixação ficcionista suspeitar da existência de formas de vida decorativas? E agora, tempos depois do St. Paul, ainda forçar a barrar além dessa idéia esdrúxula, imaginando um desígnio para a acessória atividade da figuração? Tenho que me distrair de alguma maneira enquanto ele dorme.
Queria um livro escrito na língua dos três irmãos para ler antes de dormir. Um palavrório elíptico, dono do mundo que ainda reviram, descobrindo enquanto falam o que querem dizer mas como se sempre tivessem sabido. O livro, que não existe, é um murmúrio, uma conspiração na minha cabeça, me trazendo doses pequenas de passado, com um capítulo sobre jeitos de não viver no presente.
O apartamento era visitado regularmente por mais ou menos uma dúzia de conhecidos. Não tinha regra alguma para entrar ou sair de lá mas um resto de educação suburbana me fazia avisar antes de aparecer com a mochila nas costas. Telefonava de um orelhão na mesma rua e o porteiro dizia mecanicamente “xampu, boa noite” ou “xampu, boa tarde”, não sabia pronunciar St. Paul.
Os figurantes surgiam levados por amigos dos amigos, que encontravam sempre a caminho do hotel. Podiam ser simpáticos, podiam ser taciturnos. Podiam se atirar em você com cumprimentos expansivos ou se retrair inteiros. Nunca se sabe, podiam ser qualquer pessoa fora do nosso grupo. Só confiávamos em nós.
Eles vinham de qualquer jeito, fugindo a qualquer definição. E até hoje não contraem uma miríade de características indecifráveis, esquivam-se de tudo que é mais humano. São ponto-morto mas nada sobrenatural: sua imagem reflete o espelho, chegam a ter amigos, filhos. Não têm paixão mas se apaixonam, assim como quem gosta muito de queijo ou do verão
Um desdobramento da sua frieza é a inapetência pela vida, interesse arrastado e insípido. Nada é condição para que existam, são sempre assim, apesar de conhecerem a importância de algum tipo de gana para a formação da personalidade. Até são capaz de querer e gostar de coisas, assuntos, pessoas mas em decepcionantes doses homeopáticas, ministradas a conta-gotas.
Dispõem de forte tendência a aderir ao gosto pessoal do interlocutor, graças a seus tentáculos de eu-também, arma que expele uma secreção tediosa em cima das vítimas. O lodo escuro do tédio – seu sangue – é altamente nocivo pelas propriedades paralisantes que lança enquanto falam. Nenhuma conversa sobrevive ao eu-também que se desprende do fastio desses polvos. Os figurantes só lançam mão do recurso do eu-também para manter seu disfarce na sociedade. Não quer dizer que queiram se enturmar. Querem se proteger e sumir na multidão comum. Por algum motivo, que eu e os três irmãos nunca conseguimos entender qual é. Os figurantes são e serão sempre escorregadios. Não se ultrapassa com eles certo nível de intimidade.
Podem ainda discordar do que você diz: a retração dos tentáculos fastidiosos é uma rotina clássica de despiste empregada pelos figurantes ou às vezes resposta a estímulos externos que sinalizam carência e masoquismo na sua vítima. E – apesar da ausência de paixões -, podem emular esperanças, ambições, tesão. Serão eficientes e aí se tornam quase atores, incapazes de agir sem a carapaça cênica.
Podem até estar vivos debaixo do enfado, da fibrilação de plástico, do lodo modorrento, do seu tudo morno, dos olhos desbotados. Pode até ser que vivam. Mas terão de ser sacudidos, precisam chorar, precisam confessar. Chacoalhados, examinados por doutores dispostos a chafurdar no nada, a escarafunchar o vazio, pode ser que arranquem lá de dentro qualquer evidência de que gente sem paixão é, de fato, gente. É?
Ninguém, gente ou imitação de gente, foi como nós porque estávamos 
mais vivos que todo o mundo.
Lembrei dos figurantes de repente. Na época, embora alguns deles acabassem aparecendo todos os dias no St. Paul como baratas indesejáveis, tínhamos a casca protetora da nossa juventude excessiva, da fome pela nossa companhia, da música de duas cordas de guitarra.
Agora, como se multiplicaram assim? Quem deixou que se tornassem uma legião, como permitimos que invadissem? Estão aqui, vêm e vão sem dizer nada. E me assusto ainda mais quando são capazes de rir ou olhar para nós com a velha desconfiança que dispensávamos a eles.
Como se cumprimentassem um manequim de loja, falam e exigem de mim interesse. Disfarço, improviso uma resposta, finjo ficar feliz com alguma coisa que me contam. Não entendo o que eles dizem, acho que é nada. No cinema eles não incomodam, desligo tudo.
Na cama, ele dorme, não ronca. Nem isso.