BIENAL, CAFÉ FATAL E A FAMÍLIA FUCS

Lá fui eu para o Rio Centro cheia dos mais variados analgésicos e anti-inflamatórios, boca e garganta secas por conta dos comprimidos, a cadeira de rodas tendo sido içada por um elevador num táxi especial “para cadeirantes”, o pé direito quebrado que me fez responder um milhão de vezes na Bienal, sempre com a mesma satisfação ao perceber a reação do interlocutor: “Machuquei correndo de um editor a quem devo livro atrasado”.

***

Santiago Nazarian é uma espécie de super-herói. Belo feito uma ala do Louvre, prestativo, com visão de raio-x. Conseguiu me empurrar na cadeira de rodas rampa acima até o palco. Músculos. Cavalheirismo. Boca suja, feito eu e nosso companheiro de mesa Michel Melamed. Apreciei.

***

Sinto ter estado tão dopada que não consegui botar pra fora a persona cheia de bossa errada que emprego nessas ocasiões de palco. Não fossem os painkillers, teria me apresentado como Hinde-Laye Fucs, meu alter-ego da Commedia dellArte. Infelizmente ela bebe e a mistura com remédios teria sido… no mínimo interessante, dei mole. Fica pra próxima. Meanwhile, por falar em comédia, temos O GROSSO (a editar) do piloto de “A Hora do Licor”, programa registrado em três dias ininterruptos numa garçoniere acima da famosa Pussycat, no Lido, Copacabana, onde os atores dispúnhamos de banheira de hidromassagem e champanhota. Agora teremos de mudar de set de filmagem porque decidiram entregar o apê a um indiana jones caçador de putas da Atlântica que paga em euros. Aluguel por temporada é isso aí.

***

Desde que comecei a tomar os remédios para a fratura no pé, meus sonhos vêm como em blocos de filmes. Coisa de Telecine, sem comerciais – porém blocados mesmo. Há um diretor, dá pra sentir. O filme não é digital. Possui uma qualidade granulada. Manja? E desde então também desconfio de que não verei meus amigos por algum tempo. Três meses, no prognóstico do primeiro médico. Amanhã verei o segundo doutor, que talvez seja mais otimista e diga, oferecendo-me um pirulito politicamente correto: “Quem sabe não vão lhe visitar, hein?”

***

Na volta do debate, no mesmo táxi com elevador, eu e Schlomo Fucs, primo de Hinde-Laie Fucs, viemos debatendo o que diabos aconteceu com o Portal Literal que eu editava. Bom, pra mim o período mais interessante do Portal foi quando tive liberdade de, no ano passado, apresentar toda semana autores novos em entrevistas sem restrições, nem conceções, borbulhantes e longuíssimas. Schlomo concorda. Eu e o sub-editor, Bruno Dorigatti, a gente sentia que estava fazendo uma coisa – mal aê, mas sem mimimi de falsa modéstia a esta altura do championship – boa para a literatura, expondo na linha de frente os novíssimos, os imaculados, os dândis da Rua Voluntários da Pátria, poetas-roteiristas, romancistas-século19-wébicos, lineares, fragmentários, aqueles infestados com os oxiúros do tanto-a-dizer. E ainda tinha coluna do Marcelino Freire. Tinha concurso literário valendo 300 pilas em livros na Livraria da Cultura. Tinha Oficinas Literárias com professores de naipe. A transição para o web 2.0, o ambiente colaborativo com menos conteúdo editorial, não segurou aquela onda loka tão boa. Não explicarei por quê. Mas sei que o Dorigatti, a quem passei o bastão do Portal Literal, e a curadora Heloisa Buarque de Hollanda, que sempre foi mais que uma “patroa” pra mim, vão reverter esse negócio aí. E Schlomo agora é repórter deles. Então sabe-se que a galhofa saudável, o antídoto à sisudez pseudo-tudo, estará presente.

***

Fora do Portal, com meia perna imobilizada por nada otimistas três meses, o livro Café Fatal (Título Provisório) sairá “mais rápido” agora. Estou na metade, talvez um pouco adiante disso – se meu personal-crítico, O General Que Me Lê Pesando Sentado Sobre Meus Ombros, não me ameaçar com a baioneta caso eu insista em certas passagens do romance.

Não exagero quando digo que só sou eu mesma se escrevendo ou lendo; mas também gosto de uma boa corrida, de nadar na praia, de fazer comédia física como no programete “A Hora do Licor”. E comédia involuntária para entreter os amigos. Então rezem aí por minha pronta recuperação.

E me visitem, seus putos (avisem antes, preu vestir as calças).

Ass.: ESFIHA VANGUARDISTA.