VALE A PENA VER DE NOVO

Quando me credenciaram, surgiu a questão da roupa. Como assim, só se entra de longo? Meu vestido mais comprido vai até os joelhos. Desisti de alugar um traje logo na primeira loja do ramo em que entrei: base de preços entre 200 e 400 reais. Melhor comprar um, e bem mais baratinho. Ricos são eles, eu tô trabalhando. O fotógrafo que me acompanhou pensava o mesmo. Então lá fomos, simples porém limpinhos. Na fila, debaixo de chuva, com o povo ovacionando ou zoando ricos, famosos e anônimos que aguardavam sua vez de entrar no mais tradicional baile de carnaval, um sujeito de smoking segura o guarda-chuva mega do Copa em cima de nós dois. “Ooooi, como você se chama”. Nos salões, senhores pra lá de Marrakesh e do Cabo da Boa Esperança seguravam o braço de qualquer rabo de saia que passasse – uma versão terceira idade dos rapazes da Bunker. Saí de lá com o telefone de uma drag queen e de um dentista, além de uma crônica meio melancólica.

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Todo Carnaval tem seu fim

CECILIA GIANNETTI
COLUNISTA DA FOLHA

Baile do Copa, 2008

“Adivinha qual o meu estado civil?”. Estamos no fim do baile do Copa. São cinco horas da manhã e a senhora que não conseguia tirar fotos com sua câmera digital conseguiu me achar outra vez. Pelo tom meio trágico que ela usa na pergunta, chuto com segurança: Viúva. “Sim, há quatro anos. Eu e meu marido vínhamos juntos ao Carnaval do Copa. Debutei aqui neste hotel.” Ela é do tempo do verbo debutar, da época em que o baile de gala do Copacabana Palace, criado em 1924, reinava como destino obrigatório para ricas e famosas.

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Foi lá que o bustiê de Jayne Mansfield caiu em 1959 e que Jorginho Guinle mostrou o que significava o título de playboy. Hoje, em tempos de silicone, quando qualquer adolescente de bermudão e chinelos pode ganhar a alcunha de playboy, a festa não pode parar.

Apesar das celebridades cada vez mais escassas e das maneiras pouco ortodoxas de alguns como Narcisa Tamborindeguy e Bruno Chateubriand (os atiradores de ovos). A plebe paga R$ 1.000 pelo ingresso; os ricos vão de camarote, a quase R$ 3.000 por cabeça.

O longo para as damas já não é tão obrigatório assim, há vários vestidinhos curtos circulando; os homens insistem nos smokings alugados. Alguns chiquérrimos insistem em comer seus camarões e lagostas sobre a tampa dos pianos do Copa.

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Na noite de sábado, em outro hotel, o Glória, acontece o concurso de fantasias, criado por Arnaldo Montel, 78, que, em sua 34ª. edição e com cada vez menos verba, continua lotado.

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No espaço que serve de camarim para os 60 concorrentes e seu ajudantes, assisto a complicadas operações de montagem de fantasias. Descubro que as duas moças que subiram comigo no elevador são rapazes.

Entre os desconhecidos mais conhecidos da cidade, está Bolinha, um senhor que se veste como Chacrinha. Era advogado até perceber que sua vocação era imitar o Velho Guerreiro. Veste-se como ele sempre. “Viajo muito para participar de bailes, mas gosto mesmo é do concurso do Glória,” diz. “Quando meu nome for chamado, você vai bater palma pra mim?”

Lembro dele quando, no Copa, a mulher com o rosto coberto de purpurina me pede que adivinhe seu estado civil. Os Carnavais mais luxuosos do Rio são também os mais solitários.