LUGAR DE POBRE

Folha de S. Paulo
Cecilia Giannetti

CONTO À AMIGA, via chat, como agora é praxe, sobre a noite anterior. (Fosse a era pré-internet -e eu e a amiga em questão fôssemos ainda bem diferentes do que somos-, falaríamos sobre isso tomando café no inevitável Leblon do Manoel Carlos):

-Daí que Fulano chegou na festa meio surtado, né?

-E?

-Começa aquele cerca-lourenço rico em bafo (bafo mútuo, desconfio, devo ter culpa no cartório também, já que passara pelo bar já umas duas vezes antes) e então o bicho me pergunta: “Você fica no rio até quando? Aondeshch”? (“Aondeshch” = “aonde”, com muito álcool e perdigotos).

Respondi, com minha inocência de quem acha o metrô uma das maiores invenções de todos os tempos: “Catete. Tô no Catete”.

Daí o sujeito:

– “C*****!, lugar de POBRE”.

“Catete, lu-gar de po-bre.”

Tomei um gole do meu uísque, os dedos das mãos crispadas no vidro do copo metido a fino, daqueles com ondulaçõezinhas nas laterais, que, creio, pretendem simular nossas ondas mentais após a terceira dose. Quase tive medo de que um garçom, ao ouvir do Catete, lugar de pobre, levasse meu Red Label e trouxesse um nacional de estirpe duvidosa.

Enquanto sentia descer a queimadura da bebida garganta abaixo, pensei no carimbo que acabara de receber, ali, entre almofadas de plástico do que o homem “mudernoso” concebeu chamar de lounge.

Artista talentoso, com rios de fãs que se estapeariam para obter um pedaço de sua cueca como memorabilia, o cara aproveitou minha golada para explanar mais amplamente com exemplos sua opinião:

-“É, Catete, Glória, Flamengo, Centro… Esses buracos. Lu-gar de po-bre”.

O casario antigo, os predinhos reformados, alguns tombados e outros pedindo pra cair, as cheias em dia de chuva (que de maneira alguma são privilégios de “lu-gar de po-bre”, pois não são bairros, mas Estados brasileiros inteiros entregues aos alagamentos), as calçadas com movimentação até bem tarde da noite, com dezenas de barracas de comida de rua e badulaques, estes vendedores fazendo as vezes de seguranças particulares da gente que passa por ali chegando tarde do trabalho, uma vez que é raro o policiamento. Coisa de pobre.

<img src=”http://www.escrevescreve.blogger.com.br/1.jpg”&gt;
<i>Vista da favela Tavares Bastos, Catete, Rio de Janeiro</i>

Quando o rapaz chegou com essa história de “lu-gar de po-bre”, outros ébrios desconfortavelmente aboletados em grandes pufes feito paxás perceberam então que talvez estivessem testemunhando o que a patrulha do politicamente correto classificaria, num momento de extrema benevolência, como gafe. Um colega praticamente pediu desculpas por morar na Lagoa. Falou num tom que tinha algo de tatear os rumos da conversa, notando que o desdém do outro pela suposta pobreza poderia ter sido notado também pelos demais. Falou como se o alívio de se esconder de um inferno suburbano ou central lhe desse licença para não pôr os pés na zona norte, quiçá oeste, falou como quem lamenta ter o álibi considerado perfeito pela maior parte das pessoas jogadas em pufes num lounge meio claro, meio escuro. Adivinhávamos as expressões nos nossos rostos, os contornos enrugados por algum desconforto repentino, por vezes iluminados por flashes das luzes da casa noturna.

Então é isto: para alguns, a pobreza está fora de moda. Feito as piranhas de plástico, prendedores de cabelos com flores de plástico coloridas e, por que não dizer, feias, que prendem a cabeleira das garotas.

Para quem divide os espaços urbanos entre lugar de pobre e de rico, não há noção de que as cidades são mutantes, e os bairros, micro-organismos, que interagem e dependem uns dos outros para ser o que são.