ESFINGE VANGUARDISTA

Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008

Cecilia Giannetti está disposta a todas as batalhas, tanto no terreno formal quanto na crítica social

Lúcia Bettencourt • Rio de Janeiro – RJ

Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi
Cecilia Giannetti
Agir
229 págs.

“Primeiro romance da jornalista e escritora Cecilia Giannetti. De estilo incomum, ácido e entrecortado, este livro traz o amadurecimento literário de uma autora considerada uma das mais originais e atuantes do cenário contemporâneo. Um prazeroso exercício de vanguarda e inteligência, de extremo bom gosto.” Assim começa a apreciação sobre Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi assinada por Mariane Morisawa na revista IstoÉ. “Incomum”, “ácido”, “entrecortado”, “vanguarda”, “inteligência”, “extremo bom gosto” demonstram bem o entusiasmo da autora da crítica com relação à autora da ficção. Morisawa continua seus elogios: fala que Cecilia “escreve com urgência”; diz encontrar “imagens e frases poderosas” , o que seria “um alento em meio a tantos romances simplórios”. Termina afirmando que “Cecilia Giannetti é uma autora que merece atenção”.

Claro que, com um arauto desses, o leitor chega ao livro com uma atitude de certo respeito, esperando encontrar páginas, no mínimo, clássicas. No entanto, Lugares… recusa-se a capitular facilmente. O livro é duro, hermético, de leitura difícil. Exige perseverança e persistência. Voltamos, então, às qualificações de Morisawa: – “incomum” -, sim, certamente incomum, bem como “entrecortado”. A história de uma jornalista que presencia uma cena de violência e entra numa espécie de surto, vem aos jatos, desconexa como delírios. Lembramos, então, que a crítica havia falado em vanguarda, e, certamente, há muito de vanguardista neste livro – na acepção mais bélica, o texto vem disposto a todas as batalhas, tanto no terreno formal quanto na crítica social de uma “cidade partida”. E, já que se fala em cidade partida, seu único espelho possível é um que também esteja partido, e isso já se anuncia na capa do livro. O excelente projeto gráfico de Christiano Menezes traduz não apenas os pesadelos dos personagens, como oferece a imagem ideal para a obra em sua capa: o espelho de nossa era, a TV, expondo nossas vísceras enquanto nossa cegueira aparece na boneca descomposta e um resquício de fé espreita ao fundo, tudo isso num ambiente descuidado, de velhos ladrilhos evocadores de hospitais, banheiros, ou copas mal mantidas.

As fraturas do texto, suas desigualdades, os vaivéns entre histórias e delitos se repartem em trinta e um capítulos de tamanhos diferentes, podendo conter apenas uma frase, como Registro, que abre o livro com uma sentença enigmática: “Um dia as coisas pararam de acontecer”. Se pararam, o que vai ser narrado não está acontecendo, seriam lembranças ou alucinações. E é por esse caminho que precisamos enveredar, nos flashes de memória de festas chatíssimas, pedaços de telereportagens, imagens de pessoas sem cabeça, fantasmas insistentes, considerações sobre o desaparecimento de amigos, sobre a opressão da fé, imaginações disfarçadas, sobre o tédio e a insipidez da vida, ou uma poderosa declaração de amor se destacando quase intacta no meio de ruínas, até que a imagem se congela em Cristina. Os cinco capítulos finais chamam-se Cristina, e falam, talvez, da cura da jornalista, ou de seu repúdio total ao mundo como se passa na TV. Cristina se livrando dos fantasmas; Cristina indiferente ao que vê na TV, mesmo quando vê a si mesma na telinha mágica; Cristina juntando os pedaços de imagens para descrever depois; Cristina descobrindo o presente, o vazio, o fugaz: “A felicidade é assim: aconteceu”. Cristina desaparece, também. O último capítulo chama-se Sobem créditos e consiste numa única frase: “Boa noite”. – despede-se.

Neste romance, que Cecilia tão bem parece descrever dentro do próprio texto (“[…] peças que contam a história de uma civilização. […] meu museu. A construção, no entanto, resulta rapeada, sampleada, em cacos – sua confusão mesma, o começo de outra civilização.”), estão expressas as angústias de uma geração, numa tentativa de controlar o vazio e o caos percebido. Escrever sobre isso é uma forma de exorcismo, talvez tão eficaz quanto a receita, citada no livro, retirada de Ovídio, outro escritor, mas das eras romanas, que, apesar de distantes no tempo, parecem tão conturbadas quanto nossos dias cariocas. Assim, é Cecilia quem diz que: “se nomeamos o fenômeno, dominamos alguma porção da loucura”. Talvez se deva lembrar o comentário que diz que nunca se escreveu tanto como ultimamente, e que o problema da literatura atual é que não existem mais leitores, só escritores. Cecilia, talvez tenha nos dado a chave desta tendência. Estamos todos tentando domesticar nossos monstros e as coleiras que fabricamos são de palavras. Remendadas, sampleadas, rasuradas, tal como aparecem nas ilustrações do livro, escrevemos os horrores que nos assolam e, sem tempo, nem vontade de ordenar o caos, deixa-se a tarefa aos leitores e à crítica.

E o leitor?

Há que indagar, então, qual o papel do leitor nesta nova literatura? O quanto do livro depende da colaboração do leitor? Essa é uma questão válida para as obras literárias de qualquer tempo. Proust chama a atenção para o fato de que, ao lermos um livro, estamos lendo a nós mesmos. Os romances escritos em outros tempos ombreiam com as narrativas escritas hoje e os leitores se identificam com os textos ou os repudiam, por não se encontrarem naquelas porções dominadas de loucura. “Cheguei ao meio do livro com a sensação de que não estava entendendo mais nada”, depõe uma amiga e leitora de Giannetti, Helena Aragão. No entanto, amiga fiel, persevera e termina de ler o livro, e, então, “come[ça], sem querer, a traçar a narrativa que, sim, está presente, sutil e impiedosa…” Ela reflete sobre a co-dependência entre livro e leitor, mas conclui: “Independentemente disso, alheia a humores está a certeza de um livro milimetricamente pensado – mas longe de ser um engodo, ele conta com palavras assustadoramente no lugar para formar esse mosaico disforme que deixa o Rio incompreensível”.

Talvez Helena se engane, e o que deixe o Rio incompreensível não seja o mosaico, mas o que esse mosaico revela – a atitude de quem, passivamente sentado frente a um aparelho de TV, absorve imagens cortadas e montadas, interrompidas por solicitações de MSN, de toques de telefone, de chamadas Skype, acompanhado de muito tédio existencial e de uma proverbial e desalentadora incapacidade de se dedicar aos outros, que, para receberem atenção, precisam se comportar como insistentes fantasmas, assombrações. Mesmo assim, é de Helena a percepção de que o livro é o testemunho da construção de um novo Frankenstein. Esse organismo construído de cadáveres cujas partes são resgatadas e coladas, formando um texto que precisa ser decifrado para deixar de ser ameaçador. Enquanto formos incapazes de compreender nosso mundo, ele continuará nos ameaçando, e mesmo o alívio obtido por “baianos” ou por alegrias químicas, não serão suficientes para impedi-lo de nos destruir e fragmentar, até nos transformar em algo igual à sua deformação.

Antes de terminar, acho conveniente mencionar a tarefa em que Cecilia Giannetti se encontra empenhada, um romance de amor passado em Berlim, para desejar que ela escreva palavras de tanta sinceridade e entrega como as que usa ao descrever seu personagem Baiano. Alguns dos melhores trechos do livro estão nas páginas dedicadas ao amor entre Cristina e ele. Diz a narradora: “Da primeira vez que toquei com as mãos os ossos dos quadris dele, empurrava aberta uma janela e o sol me lambia por dentro”. A atração entre os personagens é tão grande que ela percebe que “um homem me abraça inteira num aperto de mão”, enquanto os outros amantes tiveram “mãos covardes”. Trata-se de sexo – “hormônios ou o quê” – ou de amor, envergonhado, escondido atrás desse quê. Seja lá o que for, é verdadeiro. Bem sentido e bem escrito.

A AUTORA

CECILIA GIANNETTI nasceu no Rio de Janeiro, em 1976. Formou-se em Jornalismo em 2003 pela UFRJ. Já trabalhou no Jornal do Brasil, na Tribuna da Imprensa, e atualmente contribui para a Folha de S. Paulo. Tem contos publicados em várias antologias como 30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira, organizada pelo Luiz Ruffato, e também em revistas e blogs. Recentemente, Cecilia foi mandada para Berlim, participando do projeto Amores Expressos. O romance em decorrência da viagem ainda está em gestação, mas o blog narrando suas experiências demonstra sua amarga sensibilidade (http://blogdaceciliagiannetti.blogspot.com/).

TRECHO • Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi

Temos os fantasmas que merecemos. Eles são feitos de coisas que não cabem aqui. Vieram sem anúncio e somente quando decidiram ir embora é que percebi o quanto sempre estiveram presentes, pois, até então, nunca haviam desaparecido. Estavam aqui e agora, se há matéria, é só palavra, papel, tinta – um fantasma no envelope fechado; um fantasma dobrado na gaveta. Que meia dúzia de palavras corajosas poderiam lhes escapar lá de dentro?

Temos o diário que merecemos. Ele é doce e partido, a promessa, a emoção do começo rápido!, antes que desapareça, é meu cada ponto de tinta em suas páginas, em que me imagino reportando misérias alheias. Recuperando peças que contam a história de uma civilização. Eu deveria erguer meu museu. A construção, no entanto, resulta rapeada, sampleada, em cacos – sua confusão mesma, o começo de outra civilização. Único lugar em que me imagino existir.

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