COLUNA DA FOLHA

São Paulo, terça-feira, 29 de janeiro de 2008

CECILIA GIANNETTI

Bairro das quatro letras

“UM CARA ATIROU no Arco-Íris!”, a garota bufou e puxou minha mão direita até ela, para que eu pudesse sentir a palpitação alterada. Havia outros indícios, além do coração em disparada, de que estava nervosa: olhos esbugalhados, fala corrida, desconexa, e o fato de que fez uma desconhecida pôr a mão em seu peito enquanto tentava contar uma história. A menina também podia estar doidona: era a Lapa, afinal. A briga estourou cinco minutos depois que saí do “Narco Íris” -apelido do bar, por conta da venda de tóxico no local. Um sujeito levantou e meteu bala noutro que lá estava, “sussa” com sua cervejinha. Todos correram, até o ferido. A garota afobada não soube explicar se havia um por quê para o faroeste caboclo que mal descrevia.

Isso aconteceu há mais ou menos sete anos, quando o bairro carioca se reerguia após uma temporada em que figurou como inferno número um do Rio, vencendo até Copacabana. Ainda era comum ouvir tiros em seus botecos, mas o povo já começava a marcar presença nas sextas e sábados dos Arcos.

No início do século passado era outra história. Lapa eram prostitutas, Portinari, sambistas, Villa-Lobos, políticos, Carlos Drummond de Andrade, traficantes, Manuel Bandeira, travestis, João Gilberto, Carlos Lacerda, Rubem Braga, Mário Lago e Madame Satã. O local juntava pobres e ricos ao mesmo pico, todo mundo atrás de bordéis e cabarés, extensões de hotéis de luxo, como o Guanabara (onde se engendrou a candidatura de Epitácio Pessoa à Presidência da República). Havia desde dona de prostíbulo leitora de Colette e Camilo Castelo Branco até orquestra cigana, óperas e valsas no Danúbio Azul e música popular no Capela.

A ditadura de Getúlio Vargas limpou a área, fechando prostíbulos e causando a debandada geral de seus maiores tesouros: boêmios e moças francesas, austríacas, espanholas, portuguesas, japonesas. Com o pós-guerra, chegaram as jukeboxes para matar a música ao vivo, que até então figurara como seu segundo ingrediente aglutinador local (o primeiro era a prostituição). Não por coincidência, Ipanema e Copa passaram a acolher muita gente boa nas décadas seguintes. João Gilberto, por exemplo, em seus tempos de Zé Maconha (pré-bossa), ia à Lapa para pegar um fino e só. Música, fazia noutros cantos. O charme de tempos idos não pertencia mais ao lugar. O Circo Voador, celeiro da geração “BRock”, não chegou a modificar essa situação na década de 80. A turma enchia a cara em frente à lona, mas o bairro ao redor dela não existia para os roqueiros. Asa Branca e as gafieiras atraíam outro tipo de público. Era cada macaco no seu galho, sem a misturança incrível que testemunho agora quando passo de ônibus por ali de madrugada.

Hoje as ruas têm presença da polícia, em variação menos ostensiva das blitze. O talento aglutinador do bairro -que engloba funk, rock, gafieira, forró e hip hop- é explorado em alguns livros como o de Moacyr Andrade, “Lapa: Alegre Trópico” (Relume Dumará), e “Lapa do Desterro e do Desvario”, organizado por Isabel Lustosa (Casa da Palavra). Não é lenda nem invenção de editor de caderno cultural o boom da Lapa, a variedade de opções musicais, de tipos e cores que circulam pela Joaquim Silva. Até o “Narco Íris” voltou a ser Arco-Íris. Cada bar cospe um ritmo diferente na calçada e chama gente de todo tipo. De dia, destino das minhas caminhadas de domingo; à noite, berço de quem não dorme.