CENOURAS E NEURAS

Folha de S. Paulo
Cecilia Giannetti

O primeiro comentário de Roberta ao chegar à festa foi: “Uau. Lésbicas podem ser bonitas e femininas!”

“TEM ALGUMA coisa esquisita ocorrendo na cidade.”*

“Claro! É agora que começa de verdade o campeonato.”

Nunca abro a boca enquanto Roberta e Chico falam de futebol, por não saber o que dizer a respeito, exceto “Gol!” quando a favor do Brasil ou do Flamengo -apenas se assistimos ao jogo na casa deles, impelida, como convidada, a me manifestar ao menos nesse momento de euforia dos dois. Hoje estou mais muda que o habitual. Meu grito de gol sai fraco, eles não notam em sua euforia.

Não vemos mais jogo no boteco com pay-per-view desde que meu casal de amigos de estimação deixou de consumir carne vermelha, frango, peixe, pão, arroz, feijão, batatas fritas, aliás, fritura e carboidratos de qualquer tipo, enlatados, leite, queijo, requeijão -enfim, “derivados e sementes do mal”. Nem preciso apontar, a essa altura, que a cerveja (bebidas alcóolicas em geral) também está fora do cenário. É a Dieta de Auschwitz, livro que talvez ache uma editora disposta a lançá-lo em breve, dada a falta de limites aos ânimos dos obsessivos da balança.

Vejo os jogos no apartamento do casal de estimação, roendo cenouras cruas que engulo por solidariedade. Para beber, água com gás. As bolhas de certa forma tapeiam a ausência da cerveja. Rio de Janeiro-deprê, que corre atrás da boa forma e me faz, amiga fiel, tornar-me também faminta e sóbria em dias de decisão.

“Tem coisa esquisita na cidade”, tinha dito o Chico, resumepito a fala. Ele foi transferido da seção de esportes de um site carioca para a de entretenimento após um princípio de infarto durante a partida entre o Boca e Fluminense. No novo suplemento, cuida da programação cultural da cidade e descobriu que, nos últimos meses, o RJ ganhou nada menos do que cinco festas dedicadas exclusivamente ao público gay feminino. “Um bando de solteironas acabadas ou gordas?”, lançou, no intervalo do jogo.

A mulher, repórter do caderno de moda do jornal, decidiu pôr os pés fora do apartamento para fazer uma matéria sobre a moda de “festas pra fancha” em nossa província. Seu primeiro comentário ao chegar à festa, anotado no caderninho que se tornaria matéria pro povo ler, foi: “Uau. Lésbicas podem ser bonitas e femininas!”

Colada à pista de dança, Roberta rabiscou noite adentro seu rascunho: “Algumas usam maquiagem e se vestem muito bem”. Eu me escondia da vergonha de estar com alguém que toma notas numa boate, protegida pela long-neck permanentemente colada à boca, o que também me dava o direito de não emitir opinião sobre o texto em progresso a ser publicado.

“Ganhei alguns telefones…” Esse comentário me foi oferecido como um pedido de ajuda contraditório, de quem já parecia ter tomado sua decisão a respeito daqueles números e de todo o assédio. Roberta é bonita -toda aquela cenoura crua lhe deu um bom corpo, afinal.

Ela descobriu, ao contrário do que pensa seu marido, que excesso de peso e falta de atenção do sexo masculino não eram razões suficientes -nem sequer são motivos- para que uma mulher opte por relacionar-se com outras mulheres. Esse é apenas o conceito de quem olha a festa de fora. Feito o seu marido. O das cenouras cruas.

*Da frase do começo eu poderia ter partido para a mais recente injustiça, estapafúrdia, cometida contra inocentes no Rio, muito lamentada e comentada -para a qual não há reparação possível. Mas por anos fui vizinha da família da vítima; então, sobre o menino morto, emudeço, confusa e triste.