Segunda-feira, Março 31, 2008

FOLHA DE S. PAULO

O fim da picada

São Paulo, terça-feira, 25 de março de 2008

CECILIA GIANNETTI

A secretária sempre acha graça quando troco, religiosamente, meu dispositivo anti-mosquito na tomada da parede. Já tive dengue não uma, mas duas vezes. Meus pais também, ao mesmo tempo que eu, na minha estréia naquele mal que transforma o doente em zumbi. Hoje temo a versão hemorrágica do pesadelo. Pavor infundado? Responda-me depois que tiver passado por um ou dois episódios de dengue – se sobreviver a eles.

Em meio à epidemia que varre a cidade, achei que deveria contar ao menos este particular a vocês. Os leitores não sabem muito sobre a maior parte das pessoas que se lhe dirigem nos jornais e revistas. Como se quem escreve as notícias não as viva vez em quando.

No meu caso, prefiro que as coisas continuem mesmo deste jeito: vocês aí conhecendo só parte do meu longo rosário de reclamações sobre cidades inchadas, não-cidadãos e des-governos, que desfio em crônicas quinzenais nesta Folha. E eu sabendo de vocês apenas o que me chega via e-mail. Cria-se assim um pacífico convívio virtual.

Pacífico desde que eu não me meta a falar do aparente epicentro da urbanidade contemporânea, o shopping center. Em dezembro passado quase fui linchada em praça (de alimentação) pública por ter escrito a respeito do comportamento aloprado dos consumidores durante a semana que precede a troca de presentes no Natal. Esqueçamos tal tabu agora, pois, neste trópico, o Natal só chega no verão. E ainda estamos no começo do outono.

Outono my ass!, fala a amiga japonesa-novaiorquina Kumiko, que acaba de desembarcar de mala-e-cuia no Rio. Já aprendeu três coisas essenciais sobre este não-lugar: 1) Que todo carioca vai repetir seu nome no diminutivo e rir toda vez que o fizer. 2) Que nosso outono é de mentira, assim como as políticas de prevenção e contenção da epidemia de dengue que ajuda a castigar mais ainda os já tão caquerados moradores desta cidade. 3) Que deve ter medo. Muito medo. Pois, como dizia Hunter Thompson, não existe paranóia. E como diria ainda outro gênio, Tim Maia, existe a percepnóia.

Fazer o quê? Kumiko quer ser boêmia da Lapa, gata do Posto 9, flor do subúrbio.

Ao final da tarde, 35 graus; à noite, 30. A questão já não é se está quente ou frio. Porém que, quanto mais duram as altas temperaturas, mais tempo têm para crescer os números de casos de dengue registrados (e os não registrados também).

Tudo isso vocês já sabem. Estão em toda parte os números da doença que há muito já deveria ter desaparecido. Vocês já leram que devem ter ocorrido não 47 casos de morte por dengue no Rio em 2008, mas o dobro disso; que são reportados mais de 50 casos por hora somente na cidade. As fotos que aparecem junto a notícias sobre dengue sugerem que em torno de shoppings não há os mosquitos-de-risco. Que as bromélias de um hotel em Copacabana ou poças de água inerte no Arpoador não são perigosas. Mas o mosquito está em qualquer rua, onde circulam professores, advogados, garçons, enfermeiras, garis, publicitários – e até jornalistas; quem disse que vaso ruim não quebra?

Gostaria que estivéssemos num tempo em que alguém pudesse me acusar de alarmista. Antes fosse exagero meu, e não abandono. Abandono é novamente a palavra que define esta velha-nova estação, em que sequer a temperatura mudou; que dirá a lentidão das autoridades a lidar com a epidemia que já fez neste ano mais de 20 mil doentes só na capital.

Haja repelente, Kumiko!

escrito às 7:25 PM por giannetti

Quarta-feira, Março 12, 2008

FOLHA DE S. PAULO

Meninismo

São Paulo, terça-feira, 11 de março de 2008

CECILIA GIANNETTI

O meninismo sempre existiu como o lado doméstico, escondido e até mesmo lúdico do machismo

“TÁ CADA VEZ mais fácil ser homem”, dizia com desdém de cuspe, e depois mandava o “rerere” grave emprestado dos velhos da última geração de boêmios cariocas. Aí repetia a sentença, afogando as sílabas finais da pretendida afronta num gole que matava 300 ml de chope. Eu não dava bola à provocação embutida na fanfarra do palestrante. A amizade entre sexos opostos demanda certo grau de surdez voluntária para que desentendimentos sejam evitados.

Estava longe de ser das coisas mais irritantes que o amigo -agora desaparecido- costumava dizer. A explicação que engrenava após a frase de efeito (“Tem mulher demais no mundo! Desesperadas! Sem filtro! Engolem qualquer porcaria!” etc.) não chegava a ser a sua contribuição menos graciosa a uma conversa de bar em que havia -comprovando, em alguma instância, sua precária tese- mais mulheres do que homens. Nem mesmo podia ser considerada uma postura machista. Tal pecha já caducou.

Impossível encaixá-la -sem forçar a barra- em qualquer padrão de comportamento vigente desde o final do século passado; não serve para qualificar as teorias e piadas do meu amigo desaparecido. E não foi só ele que sumiu. O próprio machismo tem estado ausente. Ou assumiu outras formas: como o meninismo, por exemplo, que de inédito nada tem.

O meninismo sempre existiu, por baixo de pêlos viris e ternos bem ou malcortados, como o lado doméstico, escondido e até lúdico do machismo. Bem traduzido no tom imperativo com que o homem-menino da casa pergunta se a sua refeição ou a roupa está pronta, entre outras questões práticas que cabem à governanta, secretária, faxineira, mãe e amante de cada moleque. Ao menos é assim que ouço falarem de seus ex-maridos uma e outra amiga descasadas.

Há ainda o depoimento da vizinha gay que, separada da mulher, notou que suas roupas já não flanavam elegantemente, sozinhas, da máquina de lavar ao varal e do varal até que se recolhessem ao armário. Mas que alguém deveria lavá-las e levá-las de um canto ao outro. Na ausência da ex-mulher -que sempre cuidara de tudo enquanto ela trabalhava no escritório, longe da área de serviço-, quem teria de assumir as tarefas domésticas era ela mesma. O que não foi capaz de fazer ainda, enfraquecendo assim argumentos sexistas que nunca foram lá grande coisa.

Neste mês das mulheres, coincidentemente, faz quatro semanas o sumiço do frasista em questão (meu amigo meninista, autor do clássico pensamento alcoolizado: “Tá cada vez mais fácil ser homem”). Por isso lembrei do repertório moderno de vantagens masculinas das quais ele se gabava -não por machismo, mas por saudades do tempo em que ser machista ainda significava alguma coisa. Ainda que fosse apenas chamar a Betty Friedan de “sapatão”.

Mas onde se enfiou esse meu amigo gaiato, menino de 11 anos em corpo de 30, com suas verdades masculinas supostamente inapeláveis, que sem querer transformava em piadas? Dedico-lhe uma anedota, para não perder o hábito:

Pane de homem não se dá durante o vôo, mas quando ele se vê obrigado a pôr os pés no chão. Se, por outro lado, consegue voar, vai embora feito folha de papel solta, Guido em 8 e 1/2, cada vez mais alto. As letras que formam seu nome despencam entre Paris e Madri, desabam como chuva sobre capitais frias as páginas de sua história pregressa, de quando teve chão. E agora, onde pousar, renascerá menino.

escrito às 4:17 AM por giannetti

Terça-feira, Março 11, 2008

the mind slave of the tongue

escrito às 4:18 AM por giannetti