Segunda-feira, Fevereiro 25, 2008

ESFINGE VANGUARDISTA

Cecilia Giannetti está disposta a todas as batalhas, tanto no terreno formal quanto na crítica social

Lúcia Bettencourt • Rio de Janeiro – RJ

Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi
Cecilia Giannetti
Agir
229 págs.

“Primeiro romance da jornalista e escritora Cecilia Giannetti. De estilo incomum, ácido e entrecortado, este livro traz o amadurecimento literário de uma autora considerada uma das mais originais e atuantes do cenário contemporâneo. Um prazeroso exercício de vanguarda e inteligência, de extremo bom gosto.” Assim começa a apreciação sobre Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi assinada por Mariane Morisawa na revista IstoÉ. “Incomum”, “ácido”, “entrecortado”, “vanguarda”, “inteligência”, “extremo bom gosto” demonstram bem o entusiasmo da autora da crítica com relação à autora da ficção. Morisawa continua seus elogios: fala que Cecilia “escreve com urgência”; diz encontrar “imagens e frases poderosas” , o que seria “um alento em meio a tantos romances simplórios”. Termina afirmando que “Cecilia Giannetti é uma autora que merece atenção”.

Claro que, com um arauto desses, o leitor chega ao livro com uma atitude de certo respeito, esperando encontrar páginas, no mínimo, clássicas. No entanto, Lugares… recusa-se a capitular facilmente. O livro é duro, hermético, de leitura difícil. Exige perseverança e persistência. Voltamos, então, às qualificações de Morisawa: – “incomum” -, sim, certamente incomum, bem como “entrecortado”. A história de uma jornalista que presencia uma cena de violência e entra numa espécie de surto, vem aos jatos, desconexa como delírios. Lembramos, então, que a crítica havia falado em vanguarda, e, certamente, há muito de vanguardista neste livro – na acepção mais bélica, o texto vem disposto a todas as batalhas, tanto no terreno formal quanto na crítica social de uma “cidade partida”. E, já que se fala em cidade partida, seu único espelho possível é um que também esteja partido, e isso já se anuncia na capa do livro. O excelente projeto gráfico de Christiano Menezes traduz não apenas os pesadelos dos personagens, como oferece a imagem ideal para a obra em sua capa: o espelho de nossa era, a TV, expondo nossas vísceras enquanto nossa cegueira aparece na boneca descomposta e um resquício de fé espreita ao fundo, tudo isso num ambiente descuidado, de velhos ladrilhos evocadores de hospitais, banheiros, ou copas mal mantidas.

As fraturas do texto, suas desigualdades, os vaivéns entre histórias e delitos se repartem em trinta e um capítulos de tamanhos diferentes, podendo conter apenas uma frase, como Registro, que abre o livro com uma sentença enigmática: “Um dia as coisas pararam de acontecer”. Se pararam, o que vai ser narrado não está acontecendo, seriam lembranças ou alucinações. E é por esse caminho que precisamos enveredar, nos flashes de memória de festas chatíssimas, pedaços de telereportagens, imagens de pessoas sem cabeça, fantasmas insistentes, considerações sobre o desaparecimento de amigos, sobre a opressão da fé, imaginações disfarçadas, sobre o tédio e a insipidez da vida, ou uma poderosa declaração de amor se destacando quase intacta no meio de ruínas, até que a imagem se congela em Cristina. Os cinco capítulos finais chamam-se Cristina, e falam, talvez, da cura da jornalista, ou de seu repúdio total ao mundo como se passa na TV. Cristina se livrando dos fantasmas; Cristina indiferente ao que vê na TV, mesmo quando vê a si mesma na telinha mágica; Cristina juntando os pedaços de imagens para descrever depois; Cristina descobrindo o presente, o vazio, o fugaz: “A felicidade é assim: aconteceu”. Cristina desaparece, também. O último capítulo chama-se Sobem créditos e consiste numa única frase: “Boa noite”. – despede-se.

Neste romance, que Cecilia tão bem parece descrever dentro do próprio texto (“[…] peças que contam a história de uma civilização. […] meu museu. A construção, no entanto, resulta rapeada, sampleada, em cacos – sua confusão mesma, o começo de outra civilização.”), estão expressas as angústias de uma geração, numa tentativa de controlar o vazio e o caos percebido. Escrever sobre isso é uma forma de exorcismo, talvez tão eficaz quanto a receita, citada no livro, retirada de Ovídio, outro escritor, mas das eras romanas, que, apesar de distantes no tempo, parecem tão conturbadas quanto nossos dias cariocas. Assim, é Cecilia quem diz que: “se nomeamos o fenômeno, dominamos alguma porção da loucura”. Talvez se deva lembrar o comentário que diz que nunca se escreveu tanto como ultimamente, e que o problema da literatura atual é que não existem mais leitores, só escritores. Cecilia, talvez tenha nos dado a chave desta tendência. Estamos todos tentando domesticar nossos monstros e as coleiras que fabricamos são de palavras. Remendadas, sampleadas, rasuradas, tal como aparecem nas ilustrações do livro, escrevemos os horrores que nos assolam e, sem tempo, nem vontade de ordenar o caos, deixa-se a tarefa aos leitores e à crítica.

E o leitor?

Há que indagar, então, qual o papel do leitor nesta nova literatura? O quanto do livro depende da colaboração do leitor? Essa é uma questão válida para as obras literárias de qualquer tempo. Proust chama a atenção para o fato de que, ao lermos um livro, estamos lendo a nós mesmos. Os romances escritos em outros tempos ombreiam com as narrativas escritas hoje e os leitores se identificam com os textos ou os repudiam, por não se encontrarem naquelas porções dominadas de loucura. “Cheguei ao meio do livro com a sensação de que não estava entendendo mais nada”, depõe uma amiga e leitora de Giannetti, Helena Aragão. No entanto, amiga fiel, persevera e termina de ler o livro, e, então, “come[ça], sem querer, a traçar a narrativa que, sim, está presente, sutil e impiedosa…” Ela reflete sobre a co-dependência entre livro e leitor, mas conclui: “Independentemente disso, alheia a humores está a certeza de um livro milimetricamente pensado – mas longe de ser um engodo, ele conta com palavras assustadoramente no lugar para formar esse mosaico disforme que deixa o Rio incompreensível”.

Talvez Helena se engane, e o que deixe o Rio incompreensível não seja o mosaico, mas o que esse mosaico revela – a atitude de quem, passivamente sentado frente a um aparelho de TV, absorve imagens cortadas e montadas, interrompidas por solicitações de MSN, de toques de telefone, de chamadas Skype, acompanhado de muito tédio existencial e de uma proverbial e desalentadora incapacidade de se dedicar aos outros, que, para receberem atenção, precisam se comportar como insistentes fantasmas, assombrações. Mesmo assim, é de Helena a percepção de que o livro é o testemunho da construção de um novo Frankenstein. Esse organismo construído de cadáveres cujas partes são resgatadas e coladas, formando um texto que precisa ser decifrado para deixar de ser ameaçador. Enquanto formos incapazes de compreender nosso mundo, ele continuará nos ameaçando, e mesmo o alívio obtido por “baianos” ou por alegrias químicas, não serão suficientes para impedi-lo de nos destruir e fragmentar, até nos transformar em algo igual à sua deformação.

Antes de terminar, acho conveniente mencionar a tarefa em que Cecilia Giannetti se encontra empenhada, um romance de amor passado em Berlim, para desejar que ela escreva palavras de tanta sinceridade e entrega como as que usa ao descrever seu personagem Baiano. Alguns dos melhores trechos do livro estão nas páginas dedicadas ao amor entre Cristina e ele. Diz a narradora: “Da primeira vez que toquei com as mãos os ossos dos quadris dele, empurrava aberta uma janela e o sol me lambia por dentro”. A atração entre os personagens é tão grande que ela percebe que “um homem me abraça inteira num aperto de mão”, enquanto os outros amantes tiveram “mãos covardes”. Trata-se de sexo – “hormônios ou o quê” – ou de amor, envergonhado, escondido atrás desse quê. Seja lá o que for, é verdadeiro. Bem sentido e bem escrito.

A AUTORA

CECILIA GIANNETTI nasceu no Rio de Janeiro, em 1976. Formou-se em Jornalismo em 2003 pela UFRJ. Já trabalhou no Jornal do Brasil, na Tribuna da Imprensa, e atualmente contribui para a Folha de S. Paulo. Tem contos publicados em várias antologias como 30 mulheres que estão fazendo a nova literatura brasileira, organizada pelo Luiz Ruffato, e também em revistas e blogs. Recentemente, Cecilia foi mandada para Berlim, participando do projeto Amores Expressos. O romance em decorrência da viagem ainda está em gestação, mas o blog narrando suas experiências demonstra sua amarga sensibilidade (http://blogdaceciliagiannetti.blogspot.com/).

TRECHO • Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi

Temos os fantasmas que merecemos. Eles são feitos de coisas que não cabem aqui. Vieram sem anúncio e somente quando decidiram ir embora é que percebi o quanto sempre estiveram presentes, pois, até então, nunca haviam desaparecido. Estavam aqui e agora, se há matéria, é só palavra, papel, tinta – um fantasma no envelope fechado; um fantasma dobrado na gaveta. Que meia dúzia de palavras corajosas poderiam lhes escapar lá de dentro?

Temos o diário que merecemos. Ele é doce e partido, a promessa, a emoção do começo rápido!, antes que desapareça, é meu cada ponto de tinta em suas páginas, em que me imagino reportando misérias alheias. Recuperando peças que contam a história de uma civilização. Eu deveria erguer meu museu. A construção, no entanto, resulta rapeada, sampleada, em cacos – sua confusão mesma, o começo de outra civilização. Único lugar em que me imagino existir.

escrito às 1:57 PM por giannetti

Quinta-feira, Fevereiro 21, 2008

DJ

Amigos,

estou produzindo uma festa GLS no Rio de Janeiro chamada Hey Ladies!, em que vou colocar som, junto com as djs Miss Silk e deFátima (que também toca na Republika).

Como a maioria dos DJs por aí, eu tenho um pseudônimo: é DJ Bree, invenção da amiga e poeta Bruna Beber.

Com a festa, retomo o clima de vida noturna em que comecei a escrever meu próximo romance, Cafe Fatal, ainda em Berlim, no ano passado. No Rio, não costumo sair à noite há anos. Literalmente, anos. A única maneira de me forçar a sair da toca novamente seria com a obrigação de eu mesma organizar, divulgar e fazer acontecer uma festa.

As festas em Berlim são, 90% delas, GLS. O livro que escrevo trata de androginia e, a princípio, transsexuais, pois foi isso que vi em Berlim. Conforme eu já havia anunciado na FLIP em 2007.

A imprensa é engraçada. Mas eu sou muito mais. Por isso escolhi trabalhar fora das redações, locais onde o senso de humor no dia-a-dia é artigo raro.

Eu estava me divertindo com a produção da festa – que realmente me ajuda a escrever – até ler a nota publicada por um blog do GloboOnline. Seu autor acredita que, por se tratar de uma festa em que a DJ e produtora tem pseudômino e é escritora, produzi-la seria uma “manobra de marketing” e “tentativa de manipulação” do público. A nota, que contém informações erradas sobre a festa, emprega tom maldoso e termos pejorativos.

A festa não é uma estratégia de marketing para vender um livro que ainda não está pronto, como insinua a nota do GloboOnline. Não precisaria de uma estratégia tão mirabolante como esta para divulgar um livro. Já lancei alguns livros antes, sei como é feita a divulgação desse tipo de produto – é bem simples: a editora manda exemplares para a imprensa, que os comenta ou não. Tive uma experiência maravilhosa também com outra forma de divulgação: o boca-a-boca, através do qual vários leitores comentaram com amigos sobre meu romance e os amigos o leram e o recomendaram a outras pessoas, e por aí em diante. Isso não só é eficaz enquanto divulgação como muito graficante para o autor.

Voltando à nota de que eu falava, ela foi publicada em um blog do GloboOnline especializado em vida noturna. Que, apesar do assumido limite de escopo, arrisca-se a comentar possíveis ligações literárias entre esta escritora e J. T. Leroy. Ora, I wish!, o cabelo de J. T. é infinitamente melhor do que o meu.

Enfim, euzinha, Cecilia Giannetti, sou a produtora e DJ da festa Hey Ladies!, e não há “Dj Mascarada”, não há informações secretas, teorias conspiratórias, nem motivo para chiliques de blogueiros da naite. Há uma festa. E sabe o que a gente faz quando há uma festa? A gente se joga!

HEY LADIES! dia 27/02, @ Pista 3. Esperamos vocês lá! E que essa nova experiência me ajude a continuar escrevendo o livrinho sobre Berlim.

escrito às 5:56 PM por giannetti

Segunda-feira, Fevereiro 11, 2008

FOLIA NA REDOMA

Mais uma de carnaval.

Uma cidade maravilhosa só para VIPs

Nos camarotes, onde crime é beijo roubado, ricos e famosos curtem festa numa redoma

CECÍLIA GIANNETTI
COLUNISTA DA FOLHA

Um Rio de Janeiro climatizado, com ar-refrigerado, sem moleques descalços sob marquises, sem balas perdidas, bairros inteiros sem pedintes, sem crimes senão beijo na boca roubado. É a fantasia de Carnaval mais radical já inventada. Dona do maior latifúndio da Sapucaí, a Brahma sanitizou a Cidade Maravilhosa, transformando-a em uma ficção exclusiva para seus VIPs.

Chão de pedras portuguesas fake, Galvão Bueno, chope claro, chope escuro, Manoel Carlos e sua bengala, imitação de bondinho, Alexia Deschamps, passistas e ritmistas contratados para sambar no meio do público, gente dormindo jogada nos sofás do espaço Motorola, Copacabana sem putas, Glória sem travestis, André Marques abraçado a um Rei Momo, seguranças e “fiscais de brisa” da produção do evento à caça de penetras, Zeca Pagodinho venerado, Marília Gabriela e Regina Duarte mandando beijinhos, moças brilhantes (só de purpurina) tentando comer o enfeite de mesa que imitava frituras de boteco.

Quem tem seus contatos recebeu em casa sua camiseta branca e vermelha com a logomarca da cerveja e pôde viver duas madrugadas nesta loucura, em que a mais feia tragédia urbana concebível era a celulite. Mulheres lindíssimas desfilavam pelo Rio cenográfico em shortinhos ínfimos e microssaias, provando do alto de seus saltos que não cometiam o pecado da carne flácida. Seus acompanhantes, quase sempre moços altos, com braços da largura de um tronco de árvore centenária, serviam para espantar os fotógrafos, que só conseguiam clicar de queixo caído.

Quem são essas pessoas que curtem o Carnaval dentro de uma redoma, ao lado de Monica Bellucci, Lucy Liu, artistas globais, misses e milionários?

Os camarotes são a versão carnavalesca dos condomínios de segurança máxima da Barra da Tijuca. Mas sempre há quem fure o cerco. “Aqui tô encontrando gente que eu conheço e sei que não tem um tostão furado! Rárárá! Acho isso bacana, é uma inversão das regras que só tem no Brasil”, comentou o poeta Jorge Salomão, sentado em uma espreguiçadeira sobre as areias da praia fake, com direito a conchinhas e salva-vidas (embora houvesse mar apenas desenhado no cenário), e artistas como Ary Fontoura bronzeando-se sob os refletores em frente à fachada do Copacabana Palace de mentirinha.

Desfile de escolas de samba para quê, se aqui dentro tem praia, com vendedor de biscoito Globo e carrinho de picolé? Se existe até um Jardim Botânico com orquídeas e “chuva” fina borrifada ocasionalmente sobre os banquinhos de madeira dispostos em torno de lagos? Gente de olhar perdido, como no Carnaval de verdade, não há fantasia que disfarce. A ruiva Thalita, do “Big Brother Brasil 8”, percebeu isso no camarote da Schincariol, que contava até com uma boate! -e garantiu no pay-per-view: dava para sentir uma tremenda “marola” na Sapucaí.

O Copa ficava colado a uma Lapa livre do cheiro de urina, com direito a uma reprodução da Escadaria Selarón nas paredes de um palco. Mais tarde, neste “Centro do Rio”, apareceu o DJ Marlboro sobre uma espécie de imitação de bondinho de Santa Teresa, acompanhado de duas loiras rebolativas e absurdamente em boa forma. Delírio geral.

Beth Carvalho tomava o café da manhã no restaurante da Brahma enquanto muitos ainda enchiam o pote de chope. A sambista observava a very important people gritando com o som de Marlboro “Eu só quero é ser feliz, andar tranqüilamente na favela onde eu nasci” -a favela só podia ser a Portelinha da novela. “Não me incomoda eles estarem cantando uma coisa que não vivem. O samba também tem letras que falam do morro e que qualquer classe canta junto. O importante é contar pra quem não é de favela o que acontece lá. Mas funk? A esta hora da manhã…”

Tainá Muller (“Cão Sem Dono”) -que embarca em março para Lisboa, onde vai gravar os primeiros capítulos da próxima novela do SBT- e Paula Braun (“O Cheiro do Ralo”), amigas e agora sócias de sua própria produtora de cinema, não chegaram a ver a performance funk. Espertas, deixaram o Rio cenográfico por volta de 2h da madrugada, a chamada “hora chique”. São exceção na festa de excessos. De 3h da madruga em diante, famosos e anônimos estão nas mãos do palhaço.

Na hora que apavora, a segregação dos abadás (“eles” vestem a camiseta vermelha e branca; “nós”, imprensa, preta e branca) não impede que ambos os lados desse apartheid sigam com suas tarefas, embora um tanto breacos. Os famosos pulam, bebem, beijam na boca, rebolam e gritam urrú; os jornalistas pulam, bebem, anotam, fotografam, rebolam e gritam urrú. Tem mais VIP e imprensa do que gente.

A arte imita a vida, ou algo assim… Mesmo que aqui tudo seja cosplay, quando o ator Marcelo Faria me aborda para fazer uma brincadeira, lembro do episódio recente em que policiais surrupiaram cerveja de um caminhão. “Bota aí, pode publicar: foi o Caio Junqueira quem roubou meu chope!”, repetia, às gargalhadas, encostado a um dos balcões que representavam os mais conhecidos botequins cariocas. Acusado, o aspira Neto de “Tropa de Elite” continuou bebericando o “material apreendido” ao lado de Marcelo e de André Ramiro, o aspira Matias; este, muito quieto, só tomava H2OH!.

O glamour dos salões de baile tradicionais não foi substituído pela revitalização dos blocos, mas pelos abadás de cervejarias. O Brasil é o país dos VIPs; o Rio, sua capital, balneário da fama por tudo e por nada. E ai de quem não for VIP nem amigo de um. Fica de fora, vivendo na realidade.

escrito às 1:04 AM por giannetti

Sexta-feira, Fevereiro 08, 2008

O BAILE DO COPA

Quando me credenciaram, surgiu a questão da roupa. Como assim, só se entra de longo? Meu vestido mais comprido vai até os joelhos. Desisti de alugar um traje logo na primeira loja do ramo em que entrei: base de preços entre 200 e 400 reais. Melhor comprar um, e bem mais baratinho. Ricos são eles, eu tô trabalhando. O fotógrafo que me acompanhou pensava o mesmo. Então lá fomos, simples porém limpinhos. Na fila, debaixo de chuva, com o povo ovacionando ou zoando ricos, famosos e anônimos que aguardavam sua vez de entrar no mais tradicional baile de carnaval, um sujeito de smoking segura o guarda-chuva mega do Copa em cima de nós dois. “Ooooi, como você se chama”. Nos salões, senhores pra lá de Marrakesh e do Cabo da Boa Esperança seguravam o braço de qualquer rabo de saia que passasse – uma versão terceira idade dos rapazes da Bunker. Saí de lá com o telefone de uma drag queen e de um dentista, além de uma crônica meio melancólica.

Todo Carnaval tem seu fim

São Paulo, segunda-feira, 04 de fevereiro de 2008

CECILIA GIANNETTI
COLUNISTA DA FOLHA

“Adivinha qual o meu estado civil?”. Estamos no fim do baile do Copa. São 5 horas da manhã e a senhora que não conseguia tirar fotos com sua câmera digital conseguiu me achar outra vez. Pelo tom meio trágico que ela usa na pergunta, chuto com segurança: Viúva. “Sim, há 4 anos. Eu e meu marido sempre vínhamos juntos ao carnaval do Copa. Debutei aqui neste hotel.” Ela é do tempo do verbo debutar, da época em que o baile de gala do Copacabana Palace, criado em 1924, reinava como destino obrigatório para gostosas, ricas, famosas e/ou estrangeiras.

Foi lá que o bustiê de Jayne Mansfield caiu em 1959 e que Jorginho Guinle mostrou várias vezes o que significava o título de playboy. Hoje, em tempos de silicone, quando qualquer adolescente de bermudão e chinelos de dedo pode ganhar a alcunha de playboy, a festa não pode parar. Ou melhor, não quer. Apesar das celebridades cada vez mais escassas e das maneiras pouco ortodoxas de alguns de seus freqüentadores, como Narcisa Tamborindeguy e Bruno Chateubriand (os atiradores de ovos). A plebe paga R$ 1.000 pelo ingresso; os ricos vão de camarote, a quase 3 mil reais por cabeça. O longo para as damas já não é tão obrigatório assim, há vários vestidinhos curtos circulando; os homens insistem nos smokings alugados. Boa parte dos fantasiados é contratada pela produção. Alguns chiquérrimos insistem em comer seus camarões e lagostas sobre a tampa dos pianos do Copa. É uma cena de Buñuel.

Nos salões de dois grandes hotéis do Rio um certo glamour procura resistir às custas de saudosismo e reverência à tradição de antigos carnavais. Além do Copa, há o concurso de fantasias do Glória, que em sua 34a. edição, embora seja organizado com cada vez menos verba, aos trancos e barrancos por seu criador, Arnaldo Montel, de 78 anos, continua lotando o centro de convenções do hotel no sábado de carnaval.

No espaço que serve de camarim para os 60 concorrentes e seu ajudantes, assisto a algumas complicadas operações de montagem de fantasias. Vendo as provas de roupas, descubro que as duas moças que subiram comigo no elevador são rapazes. Um (a) deles (as) ostenta agora a faixa de Rainha Trans de Niterói. Merecidamente: é um mulherão, com apenas um porém entre as pernas bem torneadas.

No salão do Glória enfeitado com balões coloridos – parecem ter sido todos enchidos até que tomassem o mesmo diâmetro – uma mulata de calça jeans e top justos amarra um par de sapatilhas de balé nos pés. Quando se levanta, já é sobre as pontas das sapatilhas cor-de-rosa, e ensaia a coreografia que deverá apresentar mais tarde. O corpo parece ter sido desenhado por Nani. A cintura finíssima contrasta com um traseiro do tamanho do pão-de-açúcar, tão duro quanto. Ela ocupa o salão inteiro com sua dança, misturando passos de balé clássico e samba, sempre na pontinha dos pés. Técnicos de TV páram de montar câmeras e tripés para observar aquele absurdo. É uma das poucas jovens que participará desta tradição da terceira idade.

Começa a chegar público. O travesti Rogéria, ao lado de um senhor que veste um smoking repleto de lantejoulas, chama jurados como Íris Bruzzi, e outros que carregam uma fama de natureza diferente da atriz. É o caso de Zé das Medalhas, personagem do livro Anônimos Famosos de Gustavo Medeiros e Carlos Eduardo Novaes – funcionário de uma farmácia em Copacabana que passa o ano inteiro com quilos de colares, pulseiras e anéis (de três a quatro em cada dedo) –, hoje vestido com uma bota prateada, a outra dourada; assim como as pernas de suas calças. Outro personagem de peso, entre os desconhecidos mais conhecidos do carnaval da cidade, é Bolinha, um senhor que se veste como Chacrinha. Trabalhava como advogado até perceber que sua verdadeira vocação era imitar o Velho Guerreiro. Veste-se como ele também o ano inteiro, mesmo quando viaja de avião. “As aeromoças adoram. Viajo muito para participar de festas e bailes, mas gosto mesmo é concurso do Glória,” diz, sentado ao meu lado, ainda entre o público. “Quando meu nome for chamado, você vai bater palma pra mim?”

Lembro desse pedido depois, no baile do Copa, quando a mulher com o rosto coberto de purpurina me pede que adivinhe seu estado civil. Os carnavais mais luxuosos do Rio são também os mais solitários. Quanto mais plumas e paetês, maior a carência.

escrito às 11:40 AM por giannetti

COLUNA DA FOLHA

São Paulo, terça-feira, 29 de janeiro de 2008

CECILIA GIANNETTI

Bairro das quatro letras

“UM CARA ATIROU no Arco-Íris!”, a garota bufou e puxou minha mão direita até ela, para que eu pudesse sentir a palpitação alterada. Havia outros indícios, além do coração em disparada, de que estava nervosa: olhos esbugalhados, fala corrida, desconexa, e o fato de que fez uma desconhecida pôr a mão em seu peito enquanto tentava contar uma história. A menina também podia estar doidona: era a Lapa, afinal. A briga estourou cinco minutos depois que saí do “Narco Íris” -apelido do bar, por conta da venda de tóxico no local. Um sujeito levantou e meteu bala noutro que lá estava, “sussa” com sua cervejinha. Todos correram, até o ferido. A garota afobada não soube explicar se havia um por quê para o faroeste caboclo que mal descrevia.

Isso aconteceu há mais ou menos sete anos, quando o bairro carioca se reerguia após uma temporada em que figurou como inferno número um do Rio, vencendo até Copacabana. Ainda era comum ouvir tiros em seus botecos, mas o povo já começava a marcar presença nas sextas e sábados dos Arcos.

No início do século passado era outra história. Lapa eram prostitutas, Portinari, sambistas, Villa-Lobos, políticos, Carlos Drummond de Andrade, traficantes, Manuel Bandeira, travestis, João Gilberto, Carlos Lacerda, Rubem Braga, Mário Lago e Madame Satã. O local juntava pobres e ricos ao mesmo pico, todo mundo atrás de bordéis e cabarés, extensões de hotéis de luxo, como o Guanabara (onde se engendrou a candidatura de Epitácio Pessoa à Presidência da República). Havia desde dona de prostíbulo leitora de Colette e Camilo Castelo Branco até orquestra cigana, óperas e valsas no Danúbio Azul e música popular no Capela.

A ditadura de Getúlio Vargas limpou a área, fechando prostíbulos e causando a debandada geral de seus maiores tesouros: boêmios e moças francesas, austríacas, espanholas, portuguesas, japonesas. Com o pós-guerra, chegaram as jukeboxes para matar a música ao vivo, que até então figurara como seu segundo ingrediente aglutinador local (o primeiro era a prostituição). Não por coincidência, Ipanema e Copa passaram a acolher muita gente boa nas décadas seguintes. João Gilberto, por exemplo, em seus tempos de Zé Maconha (pré-bossa), ia à Lapa para pegar um fino e só. Música, fazia noutros cantos. O charme de tempos idos não pertencia mais ao lugar. O Circo Voador, celeiro da geração “BRock”, não chegou a modificar essa situação na década de 80. A turma enchia a cara em frente à lona, mas o bairro ao redor dela não existia para os roqueiros. Asa Branca e as gafieiras atraíam outro tipo de público. Era cada macaco no seu galho, sem a misturança incrível que testemunho agora quando passo de ônibus por ali de madrugada.

Hoje as ruas têm presença da polícia, em variação menos ostensiva das blitze. O talento aglutinador do bairro -que engloba funk, rock, gafieira, forró e hip hop- é explorado em alguns livros como o de Moacyr Andrade, “Lapa: Alegre Trópico” (Relume Dumará), e “Lapa do Desterro e do Desvario”, organizado por Isabel Lustosa (Casa da Palavra). Não é lenda nem invenção de editor de caderno cultural o boom da Lapa, a variedade de opções musicais, de tipos e cores que circulam pela Joaquim Silva. Até o “Narco Íris” voltou a ser Arco-Íris. Cada bar cospe um ritmo diferente na calçada e chama gente de todo tipo. De dia, destino das minhas caminhadas de domingo; à noite, berço de quem não dorme.

escrito às 10:38 AM por giannetti