Sexta-feira, Setembro 28, 2007

GENTE VIVA É OUTRA COISA

[Minha coluna publicada na Folha de S. Paulo terça-feira passada]

É UMA raça. Seu maior atrativo transcende a estética e as superfícies, e pode ser sentido mesmo nos mais simples da linhagem. Não são necessariamente bonitos, mas também não se sabe de algum que não circule por aí com uma aura que com freqüência é apontada como beleza, ainda que em alguns casos seja chamada de não-convencional. Cabelos fora do lugar, certo desalinho nas roupas, uma cicatriz em quelóide: nada parece repelente neles. Não precisam de moda, carros, celulares que tiram fotos e tocam músicas, de internet nem de tapinhas nas costas.

Sem essas coisas não se sentem inseguros; com elas, não ficam nem um pouco melhores do que já são. Quanto mais perto deles chegamos, fascinados, curiosos, mais força eles ganham.

Não consigo apanhá-los. Mas sinto que, perto de qualquer um da espécie, fico mais forte. E quando por acaso passo algum tempo sem ter contato com eles, as coisas desbotam.

Quando saem de cena, algumas pessoas se sentem aliviadas (ao contrário de mim) como se nada mais de errado pudesse acontecer outra vez nas suas vidinhas. Eles podem ser vistos como erro. Mas, depois de muito tempo sem eles, seu retrato é retirado de uma caixa para servir de comparação com as pessoas comuns. A diferença é gritante.

Falando desse jeito, parecem gente ruim, os da raça. E são. A crueldade deles é a que costumam atribuir aos gatos seus detratores; intrínseca a um carinho. Gato chega lerdo perto do sofá e esfrega a cabeça na mão desocupada do jornal. Deixa o dono sentir o pêlo gostoso por pouco tempo, dá-lhe uma mordiscada na mão e vai comer passarinho no quintal, de preferência filhote, que cabe inteiro na boca de uma vez.

O animal sempre parece saber alguma coisa que a gente não sabe. Se for blefe, o que ele sabe então é que somos idiotas, pois acreditamos que sabem alguma coisa além do que há para saber. Acreditamos sim, por isso olhamos tanto para eles, pros nossos animais. Esperando a comunicabilidade impossível.

Voltando a eles, à raça, encontram você ao acaso e o impacto de sua chegada é maior. Pode ser de madrugada, numa lanchonete ordinária, mastigando palavras que te fazem esquecer o cheiro de hambúrguer e fritura.

Respirar não lhes basta. Precisam confundir mundos, trocar lugares de lugar, colocar a água do mar no calçadão, transformar guaraná em chope, papel em dinheiro, zumbis, criaturas semimortas, em pessoas com alguma vontade de sair de casa e rir um pouco.

A linhagem é rara. Mas não tão rara que não se possa vê-los tomando o metrô no largo do Machado, saltando em algum ponto de Copacabana, pegando telefones, fazendo ligações, marcando desencontros, partindo, deixando uma fila sem fim de cabeças que não entendem. Que não podem esquecê-los simplesmente porque eles, os da raça, estão vivos demais.

escrito às 12:37 AM por giannetti

Quinta-feira, Setembro 27, 2007

AINDA ORANGOTANGOS

Roubado do blog do Fabro:

Sobre o filme baseado no livro de Paulo Scott.

escrito às 3:29 PM por giannetti

Quarta-feira, Setembro 26, 2007

MELÔ

desacovardei a estrofe-bregueira grunhida. e me vieram com
“café pelo menos”, “um pedacinho de” não insista em me alimentar.
não foi pra eu comer barra de cereal que inventaram os aviões.
cadê as estradas, pra que lado fica você?
vou atrás do verbo que fecha minha garganta.

escrito às 5:23 AM por giannetti

POPULARIDADE É UMA COISA SUPERESTIMADA

O Paulo Scott organizou no domingo o Primeiro Popular no Rio, na Cinemateque. Cheguei sem saber o que ia mostrar no palco, mas a coragem de performers top de linha me inspirou a fazer besteira. Abri a noite confessando que era um travesti, toquei uma guitarra sem corda e li metade de um capítulo do meu livro, Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi. À venda em todas as livrarias, inclusive pela internet via Livraria Cultura.

Agora comprem meu livro.

***

No vago sol que cai e feta sobre o lombo de livros, Scott, a gente sempre vai ficar melhor aglutinado, amotinado, etc.

escrito às 1:51 AM por giannetti

Segunda-feira, Setembro 24, 2007

RESENHA

É mais que isso pra mim.

Publico abaixo a crítica de Helena Aragão, bastante comentada pelos leitores do Overmundo. Me deixou feliz. Até agora foi votada 276 vezes pelos usuários do site e os comentários dizem que ganharei novos leitores.

Segue a crítica:

Nos últimos dias, estive em companhia de uma mulher em decomposição. Ela estava ali, como uma sombra à minha frente nos ônibus, nas filas, na mesa do almoço, antes de dormir. Não, apesar do meu estado de espírito ultimamente, não se trata de um alter-ego. A repórter de TV de “Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi”, primeiro romance de Cecilia Giannetti lançado semana passada pela Agir, está à espreita. Alucinante e alucinógena. A vaidade como obsessão e a indiferença como padrão jornalístico já estão praticamente incorporados na vida estéril daquela fêmea meio robótica quando uma cena chocante causa um curto-circuito. Acaba a rotina, começa o fluxo de pensamento. Bem-vindo ao caos.

Fico imaginando se um cineasta aventureiro pirasse na batatinha e resolvesse filmar aquilo. Funcionaria como um meta-filme em que a personagem está no cinema e vê a tela derretendo em múltiplas cores. No decorrer da história, há ares expressionistas, sombrios e estranhos dentro da personagem, e impressionistas – aqueles fragmentos de cores que, unidos, em geral formam alguma coisa. E formam alguma coisa?

“Meus amigos perdiam seus contornos um pouco a cada dia:
Uma vez um deles apareceu com o nariz no lugar do pescoço; o outro, a orelha no lugar da boca; um terceiro alojou uma ferradura no lugar do coração”.

Cheguei ao meio do livro com a sensação de que não estava entendendo mais nada – e caí na bobagem de interromper no meio, agora que sei que é um livro bom de ser lido de uma ‘vezada’ só. Perdidona, me senti que nem naqueles livros de imagens em que se fixa o olhar para ver pular do papel uma forma em 3D. Como me irritava ficar dezenas de minutos de olhos em pontinhos alinhados e daqui a pouco um amigo do meu lado gritar: CARAMBA, É UM BARCO! AQUI, AQUI, UM BARCO, QUE LINDO!!!! E eu, invejosa e desesperada, tentando enxergar uma ligação entre pontos que pudesse parecer com aquilo. Humpf. Mas voltando ao livro: lá pela metade, como disse, estava meio com essa sensação. Mas foi só deitar na cama e comecei, sem querer, a traçar a narrativa que, sim, está presente, sutil e impiedosa, com auxilio enlouquecido das ilustrações de Cristiano Menezes. Repare que ninguém falou aqui em verdade. Há uma tentativa de suicídio, uma tatuagem mal-apagada, uma mudança de apartamento… Há quase mini-contos espalhados no caminho, com direito a um homem sem cabeça e chineses agitados. “Assim penso ter apreendido o significado da fé: crendo distraidamente no que não pode ser.” Há a Central do Tédio, há Baiano, Tio Santo e Doca, o menino que quer ser Erê. Há beleza pouco óbvia. Tudo com o Rio de Janeiro ao fundo, embaçado, ruas que conheço derretendo bueiro abaixo.

Chego ao fim (fim?), fecho o livro e a lombada marcada deixa a capa meio entreaberta. Vejo então o trecho da dedicatória de Cecília:

“Heleninha…
Meu Rio de Janeiro fragmentado… Gosta?”

ô.

**

A dedicatória foi escrita na terça-feira passada, durante o lançamento, claro. Bar de quintal e garagem, fila de respeito para comprar o livro e pegar o autógrafo da autora, que é editora do Portal Literal, assina coluna semanal na Folha de São Paulo e participa de uma pá de projetos literários. Não entendo essa coisa de lançamento, assim como não entendo velórios. A maior interessada (no caso do lançamento, hohoho) parece ter oportunidade escassa de curtir seus convidados, entre assinaturas e goles de vinho. Uma vez li que o Nelson Motta botou o vendedor de um livro dele para pegar os endereços (não sei se é uma prática corriqueira). Mandaria as dedicatórias pelo correio e curtiria sua festa. Sei que tem cara de grã-fino, mas que faz sentido, faz…

Mas mesmo com obrigação de assinar centenas de livro, Ciça estava curtindo. Fiquei feliz em notar que o feudinho literário carioca estava todo presente para prestigiar: editores, jornalistas de cadernos literários, designers, escritores ?da nova geração?. (é engraçado ficar acompanhando de longe as conversas do feudinho, o prêmio tal anunciado hoje… a reação de um editor à tal capa ontem… parece aquela coisa de ligar a TV numa novela que você quase nunca vê e ficar rindo… só até se envolver com as histórias e adentrar no mundo da ficção).

Fiquei mais feliz ainda ao ver que na fila, à minha frente, uma turma de jovens e velhos importados diretamente da infância de Cecília na Ilha do Governador a levou às lágrimas. Recebi minha dedicatória-pergunta (“Gosta?”) e fui conversar com o editor do livro, também amigo. Lembramos de como a trajetória daquela obra foi enviesada. Uma novela que começou em 2002, superou uma perda total da história num micro que deu pau e ainda uma troca de editora. “E posso te garantir, Aragão, que todas esses solavancos fizeram bem ao livro, cada versão foi ficando melhor”, disse-me ele. “Males que vêm para bem, males que vêm para bem”, fui embora repetindo, como um mantra.

**

Quanto é nossa participação na história proposta pelo autor dependendo de como estamos naquele momento da leitura? Em tempos estranhos, pode bater completamente diferente de como agiria se fosse um período primaveril. Independente disso, alheia a humores está a certeza de um livro milimetricamente pensado – mas longe de ser um engodo, ele conta com palavras assustadoramente no lugar para formar esse mosaico disforme que deixa o Rio incompreensível. Achei bom pra cacete, mesmo depois de tanta expectativa ao acompanhar, mesmo que a distância, aquele Frankenstein sendo construído. Fiquei com vontade de continuar acompanhando Ciça em suas aventuras literárias (e, por acaso, ultimamente meio barra-pesadas): comentei com ela que ia emendar com a leitura de “Muito longe de casa – Histórias de um menino soldado”, de Ishamel Beah (foi Cecília quem traduziu). Para quem não sabe, este é o rapaz de Serra Leoa que, bem antes de vir para a Festa Literária de Parati com uma carinha meio deslumbrada (eu também ficaria), foi soldado-mirim e fez coisas terríveis na guerra que devastou seu país. O livro trata disso. Leve como eu queria.

Mas foi a própria Ciça quem alertou.

– Não faça isso com você agora. Too much, too much…

escrito às 7:44 PM por giannetti

Quarta-feira, Setembro 19, 2007

ALIVE AND KICKING

Beleza do Levino, Aos pedaços, que o povo do Overmundo tá descobrindo hoje.

Rodrigo assina a Curadoria de Poeta deste mês no Portal Literal.

Aliás, sobre o Portal, pra comemorar entre os amigos: atingimos a marca de mais de um milhão de visitas constantes ou sei lá como chamam isso.

Agora escrevo o segundo livro mais tranqüila.

Minha coluna na Folha sai toda terça. Quem não conseguir acessar online e não achar o jornal na sua cidade, me mande um e-mail e eu dou um jeito nesse negócio.

E tô ali naquela programaçãozinha esta semana. Lê ali embaixo, ó.

escrito às 4:08 PM por giannetti

OBRIGADA

Tem gente que sempre chega na hora certa. Só falta usar capa e voar.

escrito às 3:57 PM por giannetti

Terça-feira, Setembro 18, 2007

PROGRAMAÇÃO
Amigos,

Vou ao Happy Hour da Astrid Fontenelle na quarta-feira, 19 de setembro. O programa é ao vivo, no GNT, das 19h às 20h. A pauta é Língua Portuguesa. Vou levar meu livro, o Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi. E é capaz de eu já contar a história toda do próximo, Cafe Fatal sobre Berlim.

Na sexta, 21, falo na Bienal do Livro ao lado do João Paulo Cuenca, numa sala dentro do estande da Ediouro, Pavilhão Verde, num bate-papo com mediação de… não me disseram o nome da jornalista, mas o editor me disse que é alguém bacana e que não vai deixar a gente se perder em reminiscências de nossa infância, quando crescemos juntos, eu e Cuenca, em Maricá.

Ainda na sexta, vou à pré-estréia do filme de Murilo Salles, Nome próprio, baseado nos escritos da Clarah Averbuck, e que tem uns trechos de coisas minhas remixados. Sou a tia da Catarina (filha da Clarah) que se meteu de papagaio de pirata no roteiro.

No sábado, 22, volto à Bienal, desta vez no Fórum de debates, às 14h, pro meu stand-up comedy.

No domingo, 23, eu, Cuenca, Ferla e Paulo Scott invadiremos a Cinematéque da Voluntários da Pátria, às 19h30. Cantoria e leitura, coisa de vedete.

escrito às 2:11 AM por giannetti

Terça-feira, Setembro 11, 2007

TRÊS ANOS, UM LIVRO

Por Miguel Conde, no Prosa

Por três anos, a escritora Cecilia Giannetti trabalhou em seu primeiro romance, “Lugares que não conheço, pessoas que nunca vi” (Agir). Nesse período, ela perdeu e teve que refazer 70 páginas por conta de uma pane no computador, interrompeu a escrita várias vezes por causa de encomendas para antologias de contos, e tentou responder com paciência a quem perguntava: “e o livro?”. Quando o texto já estava entregue à editora e sendo revisado, ela ainda adicionou um novo capítulo à história – mais uma alteração, a última, na obra. O livro ficou pronto ontem, em cima da hora para ser levado à Flip, onda essa manhã ela participou da primeira mesa, com outros dois jovens autores: Fabrício Corsaletti e Verônica Stigger.

Cecilia já tinha participado de debates do tipo antes, mas nunca com um livro para chamar de seu debaixo do braço.

– Não vou ficar discutindo esse livro. Acho que o que eu tinha para dizer está dito nele – diz a autora, de 31 anos.

Os contos publicados em antologias e revistas tornaram o nome de Cecilia conhecido no meio literário, e criaram expectativas quanto ao seu livro. Entregar o texto foi um alívio, ela diz:

– É bom saber que eu já fechei um romance. Não vou ficar mais de maluquice nas próximas vezes, parada na frente do computador toda dura, esperando ter uma idéia. Agora já sei que o melhor é sair de casa, dar uma volta, e uma hora o texto vem. Além disso, esse é um livro muito cheio de paranóias, muito ligado ao Rio de hoje, de certa maneira foi bom me livrar dele. Estou feliz de ter conseguido criar uma história em cima de uma realidade tão escrota.

Sobretudo, diz, ela não queria escrever “só mais um romance realista”, nem, em outro extremo, “prosa poética de mulherzinha”. Os dilemas durante a escrita foram divididos com alguns poucos amigos, como o cronista do GLOBO João Paulo Cuenca, que ela conheceu anos atrás numa lista de discussão sobre música na internet. Agora, o que ela não quer é ler as resenhas do livro.

– Eu tenho que trabalhar, ler crítica do livro dos outros – diz a autora, que é editora do site Portal Literal e colunista da “Folha de S. Paulo”.

Outros dois livros já estão começados. Um será uma história de humor. Outro, o romance para o projeto “Amores Expressos”, que mandou 16 escritores a diferentes cidades por um mês para que eles escrevessem uma história de amor a partir da experiência (Cecilia foi para Berlim).

– Eu separo totalmente contos e romances do que eu escrevo no blog. A única influência da internet no meu trabalho é que ela me ajudou a não pirar. Eu era vocalista numa banda, vivia sempre em grupo, e quando resolvi escrever a sério tive que dar uma sumida, porque não tem outro jeito para escrever a não ser sozinha, sentada com a bunda na cadeira. Com o blog, eu mantinha algum contato com as pessoas.

escrito às 2:30 PM por giannetti

Segunda-feira, Setembro 03, 2007

DEMÊNCIA

Próxima quarta-feira, na aula da Oficina Literária do Portal Literal:

Daí a necessidade que os escritores têm de optar pela insegurança, o que os leva, muitas vezes, a pagar violento preço pessoal. Mas o que fazer se não for assim? Há, nessa escolha, um forte risco de perder-se, de sofrer, até de enlouquecer. Mas Sabato é taxativo e não recua: “O homem livre, o herético, tem de estar possuído de um valor quase demencial”.

escrito às 11:53 AM por giannetti