Sábado, Abril 28, 2007

GYPSY

Cada autor do projeto Amores Expressos passa a ter casa individual para seus posts. Os meus ficam neste endereço.

escrito às 1:45 PM por giannetti

Terça-feira, Abril 24, 2007

OUTRA CASA

Por enquanto, os posts sobre a viagem estão lá no site do projeto. Mas falo aqui sobre a chegada. Pari, a taxista iraniana que me traz do aeroporto até Kreuzberg, tem unhas compridas, bem cuidadas, que exibe orgulhosa sobre o volante. Os cabelos são pintados de vermelho. Quando ligo a câmera para registrar o percurso, ela interrompe o que está dizendo. Falava sobre a sua fuga do Irã para Berlim. “Com isso ligado, não”. Ainda tem medo do que deixou para trás, um país e uma religião que não lhe permitiam as unhas, o cabelo, o trabalho, em que, segundo ela, as mulheres “são tratadas como animais”. Nada de ‘small talk’ de boas-vindas; a conversa de Pari traz ao mesmo tempo o alívio e a apreensão que se alternam no discurso de um refugiado.

Tenho a impressão de que hoje é algum tipo de feriado. Pari me diz que não, é assim mesmo. O que eles chamam de “trânsito” faria um paulista dar gargalhadas. Nos próximos dias vou ter que me acostumar a algo que fica muito claro a cada saída minha: menos gente nas calçadas, quase uma cidade do interior, para quem está habituado a viver nas ruas lotadas do Rio ou de São Paulo. Uma cidadezinha carregada de história e cheia de opções culturais que só encontramos aqui. “Aqui não acontece muita coisa, você vai ver,” me dirá, dias depois, um diretor de teatro brasileiro que vive em Berlim.

Pari me deixa em frente ao número 52 da Reichenbergerstrasse, em Kreuzberg. Consigo arrastar, com a ajuda dela, as duas malas e a bolsa com câmeras e o notebook até a porta do edifício. Ela sorri, cheia de batom vermelho escuro, e me deseja uma boa estada.

Aperto o botão do interfone onde se lê “Thiele”, sobrenome do proprietário do apartamento que vou alugar. Ninguém atende. Toco de novo, e de novo e de novo. Silêncio. Uma moça entra no prédio e explico a ela a situação, pedindo que me deixe entrar para bater à porta do apartamento ou esperar por Thiele no quintal do prédio, com as malas. A moradora permite. Deixo a bagagem no quintal e subo dez lances de escada até o apartamento. Bato à porta, toco a campainha. Ninguém. Desço e espero, sentada no chão do quintal, observando o canteiro de plantas de Thiele.

Espero cerca de duas horas e nada acontece. Preciso mandar um e-mail ao produtor para avisar que o proprietário não apareceu e que estou na rua com as malas. Pedir a um desconhecido na rua que me deixe usar seu telefone para fazer uma ligação, isso ainda não tenho a cara de pau de fazer. Levar as malas comigo numa busca por um cybercafé também não é uma opção. Portanto arrasto tudo até um lugar chamado Respektbar, a coisa mais próxima nas redondezas que parece habitada, do outro lado da rua. Lá eu me apresento, apresento a situação, e deixo as malas na mão do bartender loirinho, que acha aquilo muito engraçado.

Primeira impressão sobre a vizinhança: gente prestativa. Primeira impressão sobre o proprietário do apartamento: mas que filho-da-puta.

O loirinho do Respektbar me indica uma espelunca que tem internet e fica a três ou quatro quadras. Caminho até lá, tentando não pensar em tudo que larguei com um desconhecido numa birosca de esquina. Tá certo que é uma birosca de esquina na Europa, mas nunca se sabe… Envio o e-mail e de pronto sou atendida. Dizem que o proprietário está indo para o apartamento agora, ou mandará alguém. Ou seja: tenho que ficar ali plantada. Não posso sair para “explorar a vizinhança”, pois devem chegar a qualquer momento. Sento na calçada ao lado da porta e começo a filmar as pessoas que entram e saem do prédio. A todos pergunto se conhecem Victor Thiele. Um rapaz me aponta o interfone, “Thiele, Thiele”, e eu faço com a cabeça confirmando que sei que aquele é o interfone certo. Digo “He’s not home. He has rented me his apartament, but never showed up.” Inútil, o rapaz não me compreende. Ainda que compreendesse, não saberia o que dizer.

Mais três horas de espera com as malas na porta do edifício e ninguém aparece com a chave. São os ingleses que são pontuais, certo? Os alemães não? Os moradores não se incomodam com a câmera; as crianças e os cachorros chegam perto dela. Mulheres muçulmanas que entram no prédio com um garotinho tentam me ajudar. No meu primeiro dia em Berlim, eu sou mendiga – mais de 24h sem um banho, sem dormir, as bolsas jogadas no chão, eu sentada no chão. Já não me importo mais com o aspecto da coisa toda quando uma das mulheres de véu me puxa pelo braço e deixa uma outra tomando conta das malas. Ela me leva até uma esquina e mostra um letreiro onde se via um arco-íris. Ela segura meu braço, aponta para o letreiro e diz “Motel! Motel!” No meu primeiro dia em Berlim, uma muçulmana me chama pra ir ao motel. Ela se corrige: “Hostel!”. Ah, bom. Não gostaria de chegar quebrando tantos tabus assim de uma vez. Isso dá morte por honra e o caramba (perguntem à taxista, a Pari).

No hostel, outra alemã sorridente me deixa usar o computador da recepção, de graça. Mando mais mensagens. Agora eu tô realmente uma arara. “Pode ir pro apartamento que a tal de Caroline vai pra lá,” me dizem por e-mail. Será? A essa altura já gosto da idéia de ficar no hostel, dividindo o quarto com um grupo de suecos que usam dreadlocks. Agradeço profusamente à alemã do motel/hostel, como se ela tivesse sido responsável por um milagre, e caminho de volta ao prédio, onde as muçulmanas guardam minhas bolsas na entrada. Aperto o interfone e uma voz feminina responde com um “Hallo Cecilia”. Subir com as malas os dez lances de escada é dramático, mas fico aliviada quando lembro que só terei de descer com elas daqui a um mês.

A alemã ainda fica por perto por uns cinco minutos, para me dar várias dicas erradas de como viver neste apartamento: a água sai quente das torneiras (não sai, é claro; mas isso foi uma outra saga, que tive que resolver com o auxílio do carteiro, capturado na escada do prédio) e, se eu sentir frio no apartamento, basta “get under the covers”. E se eu quiser ligar o aquecedor, como é que faz? “Nein, nein! Get under the covers!”.

Quando eu geto under the covers, descubro que, mesmo exausta, não vou conseguir dormir sabendo que tem BERLIM lá fora. Visto as botas de novo, meto meu guia da cidade na bolsa e saio andando. Com a ajuda de um mapa, chego até Oranienstrasse que, de longe, já é minha rua preferida da vizinhança. Mas agora eu tenho mais é que ir pra rua, onde, aqui, os acontecimentos estão nos detalhes.

escrito às 7:39 PM por giannetti

Segunda-feira, Abril 23, 2007

escrito às 6:29 PM por giannetti

Domingo, Abril 22, 2007

BERLIM

aqui há uma semana.

Faz um silêncio danado, desde o aeroporto de Zurique (muito silêncio, do tipo que permite que se escutem passos na calçada, uma janela rangendo, os turcos pensando). Saio de casa às oito, quando volto são cinco e ainda estamos no mesmo dia. O relógio do computador não sabe se está no Brasil ou na Alemanha. Tento me acertar pelo relógio que existe no meio da Potsdamer Platz, mas o meu, de pulso, esquece que recebeu as horas novas pouco depois de levar corda.

escrito às 6:42 AM por giannetti

Quinta-feira, Abril 12, 2007

GOD BLESS YOU, DR. KEVORKIAN

Everything was beautiful and nothing hurt

Morreu ontem, aos 84 anos, Kurt Vonnegut. Ontem mesmo falei nele, eu disse: “Tá vivo ainda, sim.” Sobrevivente de um bombardeio em Dresden, que escreveu o epitáfio “Tudo foi belo e nada machucou” em Matadouro 5 e Café da Manhã dos Campeões, que abordou as maiores catástrofes e injustiças da História da humanidade sem inflamar o discurso. Tipo uma cantiga de roda sobre o fim do mundo. As repetições de palavras e frases características no seu texto são refrões. Tive o prazer de trabalhar num livro dele, esse que tá no título do post. Foi o primeiro trabalho que fiz quando voltei pro Brasil. Vai ser lançado em nova tradução pela Record e reúne as “entrevistas” realizadas por Kurt Vonnegut no Além; na história, toda fragmentada nessas “entrevistas”, Vonnegut morre e volta à vida várias vezes – graças a um milagre da medicina – e conversa com mortos admiráveis e crápulas de primeira ordem da História, incluindo Hitler, Shakespeare e até seu amigo, o escritor fictício Kilgore Trout. Deus o abençoe.

escrito às 12:14 PM por giannetti