Segunda-feira, Fevereiro 26, 2007

FEIOS, SUJOS E MALVADOS

O Xico Sá – como de seu costume, pesquisando in loco – passou a noite com a “população de rua” da Praça da República, em São Paulo. Ele conta como é que funciona (ou não), no blog ponte aérea SP, do NoMenino, o “urbanismo à prova de pobres” da gestão do Kassab. Kassab, para quem não sabe (no dialeto MSN o trocadilho valeria o esboço de um leve rs na telinha), é prefeito maluquinho dos paulistas, que agora não têm mais o que invejar os cariocas, que temos desde muito o nosso Ave César Maia e seus casacos no verão de 40 graus.

escrito às 12:09 PM por giannetti

Domingo, Fevereiro 25, 2007

MATEMÁTICA E CONSTRANGIMENTO

Ontem, último dia do horário de verão, Irislaine Stefanelli surpreendeu o público do Big Brother Brasil 7 – ele existe – ao vencer uma prova disputada com arma que ninguém julgava integrar o arsenal da participante do reality show conhecida como “porta”: a capacidade de fazer contas. Tratava-se de matemática simples, um problema de fazendeiro que vende tantos tomates e investe num sei quantos dinheiros no banco. Coisa de dividir por cem, vai um, menos 5, etc.

A “porta” acertou a conta e ganhou, ao final de outro teste simples, R$ 5 mil em cash.

“Meu pai tem que trabalhar um ano todo pra ganhar esse dinheiro. Meu pai, o homem da casa,” comentou outra participante do jogo, Bruna, da microscópica cidade de Taió (SC). Irislaine, sacoleira que vem “da roça” (Uberlândia, MG), provavelmente leva seis meses para fazer, trabalhando, os mesmos R$ 5 mil. Outra moradora da casa do Projac, Flávia, modelo que ganha a vida posando ao lado de automóveis em feiras para ricaços ou na passarela, em São Paulo, comenta que uma vez lhe ofereceram R$ 300 para dançar com um famoso grupo de axé music. Ela topou, e… dançou: deram-lhe o calote mesmo após horas rebolando num palco até quase desmaiar.

Flávia conta ainda que há meninas que fazem desfiles por R$ 50. Ela costuma ganhar R$ 100 para desfilar para grifes conhecidas. A mensalidade de uma academia de ginástica que ajude a manter o corpo de uma modelo para atuar em tais bicos normalmente supera esse valor.

Quando um participante mais abastado do jogo – como o administrador de empresas “Alemão” – escuta comentários sobre a pobreza de outro, por vezes cruza seu rosto um pequeno espasmo, como se alguém tivesse liberado um audível e mal-cheiroso flato na saleta da casa do Projac onde os “confinados” desconversam suas mazelas. Constrangimento.

ORGULHO E PRECONCEITO

(O nariz-de-cêra de blog, acima, é minha homenagem ao constrangimento que é regra geral quando o assunto é dinheiro, seja num reality show, seja na realidade. Escolhi para preâmbulo o Big Brother Brasil, apenas por ser o programa conhecido como “celebração máxima da vacuidade” entre uma constrangida elite do país: letrados que ainda julgam tratar-se de “exagero da mídia” o miserê urbano estampado nos jornais. Julgam-se, também, superiores à vacuidade do programa, tão espertos que sequer se dão conta de que vivem num país-pocilga. Vivem numa realidade mais paralela que os BBB.)

***

Agora vamos a um exercício de simplificação simplória. É rapidinho. (Antes que me chamem de reaça, repito: exercício de simplificação simplória.)

Não há carioca que caminhe pelas ruas – mais da Zona Sul que dos subúrbios -, que possa se sentar num bar, muitas vezes até num restaurante, sem ao menos um constrangimento durante curta caminhada ou por petisco/chope/refeição consumidos. O constrangimento é a mão que pede dinheiro, que estende o pedido a quem tem mais ou pouco mais que o necessitado. Muitas vezes pedem bem na porta da casa do carioca, onde também dormem e defecam, na calçada dos prédios. Faz algum tempo que não vou a São Paulo, e não sei como está esse constrangimento por lá, por isso mesmo tomo o Rio de Janeiro por exemplo. E dou o carioca por constrangido.

Chamamos de constrangimento a sensação de não saber o que fazer, sozinho, sem o Estado, o carioca (exemplo, exemplo) que reconhece sua incapacidade de salvar todo o estado com o gesto de catar nos bolsos algumas moedas, ou de pagar uma refeição a um pedinte.

O constrangimento era conhecido, noutros tempos – de menor população de rua, de menos miseráveis – pelo nome de “culpa burguesa”. Mas acho que “constrangimento” configura um nome menos hipócrita. Fica estampado na cara de quem dá esmola e na cara de quem não dá, da mesma maneira. É possível até soletrar nos poros e rugas na testa de quem dá e de quem não dá esmola: c-o-n-s-t-r-a-n-g-i-m-e-n-t-o. Reparem só.

NÃO SOMOS A REVOLUÇÃO, NEM SOMOS O ESTADO

Há uma vertente dos nossos sociólogos de boteco que propõe que não se dê moedinhas aos pedintes. Nem notas. Nem um olhar – porque o olhar, levantado da toalha de mesa do bar ou restaurante em que eles entram para pedir, desimpedidos, o olhar é o reconhecimento de que o pedinte está ali. Quase boas-vindas.

Há outra corrente dos sociólogos de botequim que diz “com o coração” que se lhes pague, aos pedintes, um prato de comida, que se remedie o que for possível no raio de ação da proximidade de sua casa ou do local em que se almoça.

Ambas as vertentes de sociologia de boteco parecem concordar – segundo pesquisa in loco deste blog – em que o problema da superpopulação de rua do Rio de Janeiro tem fonte num êxodo non-stop para a cidade grande; e, dentro dela, de seus municípios mais afastados para o Centro e a Zona Sul. Mas se eu continuar falando sobre êxodo, logo vamos cair na conversa das divisões de terras e de bens. Tal discussão, num blog ou no jornal, já me parece ultrapassada; tenho a impressão de que a sociedade decidiu resolvê-la na base do bangue-bangue.

É UMA VERDADE UNIVERSALMENTE DESCONHECIDA

Quem se responsabiliza pelo quê, em meio ao bangue-bangue?

A mão que pede não está armada. Ela ameaça com o seu (não o dela) constrangimento. Durante o carnaval, da mesma maneira que aumentou o número de camelôs vendendo spray de espuma, confete, serpentina e máscaras, aumentou o número de mães com uma criança em cada braço pedindo dinheiro nas calçadas.

A simples menção disso numa mesa em que debatam e bebam os sociólogos de boteco e alguns jornalistas – a menção da frase anterior – nos faz constatar nos rostos aquele mesmo espasmo visto no programa que é a maior celebração de vacuidade da TV brasileira. Alguém teria liberado à mesa um ruidoso, mal-cheiroso, Buñuelesco, flato social?

Comentar à mesa o excesso de gente pedindo dinheiro nas ruas – e dentro do bar – é como cagar à mesa. Discreto charme da burguesia.

Estaria a pessoa que faz o comentário sendo preconceituosa? Teria dado vazão, ao comentar com frieza o aumento do número de necessitados espalhados pelas calçadas cariocas, a uma das facetas mais vergonhosas do ser humano? Ou estaria apenas constatando certo abandono geral, da cidade e dos que pedem?

Não sei fazer contas. E meu rebolado é lastimável. Por isso, talvez, eu não tenha seguido carreira política, nem como dançarina em uma banda de axé music. Eu não saberia resolver a situação de abandono geral que alguns acreditam tratar-se de exagero. Nem conseguiria animar a platéia de um show de axé music – a menos que fazendo humor involuntário.

PAGAMOS AO ESTADO E EM TROCA ELE NOS DIZ “DEUS LHES PAGUE”

“Governo Lula gastou com passagens aéreas R$ 1,8 bilhões”

Está no Globo deste domingo.

Não sei fazer contas mesmo. Mas acho que esse dinheiro resolveria muita coisa básica pendente dentro do país, se não tivesse sido gasto em viagens “a serviço”.

“Mas o que você está propondo? Que ele ‘resolva’ os problemas do Rio de Janeiro com o bilhão e trocados? Isso seria como o Estado dar esmola ao estado.”

Não. Nada proponho. Devo é parar de ler jornal. De ler, principalmente, jornalistas. Cadê minha Jane Austen? Vou procurar vírgulas fora de lugar numa tradução de 1987.

escrito às 1:20 PM por giannetti

GASTRONOMIA CARIOCA

Tá na praça um bom novo blog gastronômico, Uma dupla da pesada, do “casal que engorda junto”: a jornalista Liv Brandão e o designer Fernando Rocha (autor da capa do livro de estréia da BB, A fila sem fim dos demônios descontentes, 7 Letras, 2006).

A verdade é que os dois estão longe de serem gordos, e tomaram a decisão acertada de, em vez de comer sempre nos mesmos lugares, experimentar as comidas de botecos e restaurantes mais variados do Rio. E vão registrando tudo o que mandam pra dentro – desde a pipoca com bacon de um carroceiro no Largo do Machado ou a com cubinhos de queijo perfeitos vendida em frente a uma igreja da Rua do Riachuelo, até as caipirinhas do Mofo, no Flamengo. O blog traz ainda receitas e diálogos entre amigos e conhecidos glutões.

Burp.

escrito às 10:59 AM por giannetti

Quinta-feira, Fevereiro 22, 2007

POR QUE ESPERAMOS QUE BONS ESCRITORES SEJAM GENTE BOA?

Do blog de literatura do Guardian: “The Bloomsberries slept with everyone with a pulse; now, there is a huge fuss if a writer so much as changes his agent.”

(p.s.: E, aliás, o que configura “bondade” nesse caso, neam?)

escrito às 3:12 PM por giannetti

SE A MODA PEGA

Mas quem se daria ao trabalho, se aqui eles não se dão? Veja Congresspedia e Metavid (este reunindo vídeos de sessões e depoimentos de membros do Congresso norte-americano).

escrito às 1:08 PM por giannetti

Quarta-feira, Fevereiro 14, 2007

SEGURA TUDO

Pra começar o carnaval direitinho, duas coisas diferentes:

O Mário de Andrade pesquisador de campo, bem representado no site do Sesc.

E um recado do Martinho da Vila:

segure tudo que for conquistado
segure tudo que não for demais
segure o braço do seu namorado
segure a menina, rapaz

assegure um amor sem despedida
dando amor e lealdade
pra não terminar a vida
no tal do bloco da saudade

assegure o pão de cada dia
trabalhando com vontade
segura, segura, segura e não larga
essa tal felicidade

escrito às 2:17 PM por giannetti

Segunda-feira, Fevereiro 12, 2007

SÃO SEBASTIÃO

Tá no ar o especial em homenagem ao dia do santo, no site do Paralelos. Tem um capítulo da coisa-nova de que falo às vezes aqui. O trecho se chama Yafa (ou a circuncisão tardia de meu tio), publicado antes nos livretos vendidos durante o festival Contemporâneo.

escrito às 12:54 PM por giannetti

Quarta-feira, Fevereiro 07, 2007

AMORFOS

“No decurso de uma vida devotada principalmente aos livros, tenho lido poucos romances e, na maioria dos casos, apenas o senso do dever me deu forças para abrir caminho até a última página. Ao mesmo tempo, sempre fui um leitor e releitor de contos… A impressão de que grandes romances como Dom Quixote e Huckleberry Finn são virtualmente amorfos, serviu para reforçar meu gosto pela forma do conto, cujos elementos indispensáveis são economia e um começo, meio e fim claramente determinados. Como escritor, todavia, pensei durante anos que o conto estava acima de meus poderes e foi só depois de uma longa e indireta série de tímidas experiências narrativas que tomei assento para escrever estórias propriamente ditas.” – Jorge Luis Borges, Elogio da sombra/Perfis – Um ensaio autobiográfico.

escrito às 1:28 PM por giannetti

Terça-feira, Fevereiro 06, 2007

CARONA COM GÊNIO

Ontem à noite peguei carona com um gênio. Creio ter falado merda à beça durante o curto trajeto entre Copacabana e minha residência (o motorista de táxi não me impediu). Ao chegar em casa, bipei o amigo que havia combinado o jantar, “Por que não me amordaçou quando entrei no carro?, coitado do homem,” e ele: “Não se preocupe, o cara é um doce!” Verdade. Ser gênio hoje em dia é também ser um doce. Ser gênio não deve ser fácil, provoca reações adversas (quando fico nervosa, posso ser tão simpática que dá vontade de bater com um pedaço de pau na minha cabeça; mas não tento atingir a genialidade via doçura). Essas ocasiões – em que me certifico de que não tenho salvação social – servem para uma coisa: por comparação, acredito que escrevo melhor do que falo.

Da série Poesia, numa hora dessas?, W.H. Auden para me consolar (tá chegando o centenário do homem):


Auden ensinou o caminho das pedras: um Engov antes, outro depois

The More Loving One

Looking up at the stars, I know quite well

That, for all they care, I can go to hell,

But on earth indifference is the least

We have to dread from man or beast.

How should we like it were stars to burn

With a passion for us we could not return?

If equal affection cannot be,

Let the more loving one be me.

Admirer as I think I am

Of stars that do not give a damn,

I cannot, now I see them, say

I missed one terribly all day.

Were all stars to disappear or die,

I should learn to look at an empty sky

And feel its total dark sublime,

Though this might take me a little time.

escrito às 9:41 AM por giannetti

Segunda-feira, Fevereiro 05, 2007

PRA COLAR NA PORTA DA GELADEIRA

O trecho abaixo é de um ensaio da Zadie Smith publicado em janeiro no Guardian. Foi Mojo quem me mandou, há semanas, via Stumbleupon. Must read. E não só ler; deixar na geladeira, num post it agigantado.

Though we rarely say it publicly, we know that our fictions are not as disconnected from our selves as you like to imagine and we like to pretend. (…)

A writer’s personality is his manner of being in the world: his writing style is the unavoidable trace of that manner. When you understand style in these terms, you don’t think of it as merely a matter of fanciful syntax, or as the flamboyant icing atop a plain literary cake, nor as the uncontrollable result of some mysterious velocity coiled within language itself. Rather, you see style as a personal necessity, as the only possible expression of a particular human consciousness. Style is a writer’s way of telling the truth. Literary success or failure, by this measure, depends not only on the refinement of words on a page, but in the refinement of a consciousness, what Aristotle called the education of the emotions.

(…)

Novels that submit to a shared vision of entertainment, with characters that speak the recognisable dialogue of the sitcom, with plots that take us down familiar roads and back home again, will always be welcomed. This is not a good time, in literature, to be a curio. Readers seem to wish to be “represented”, as they are at the ballot box, and to do this, fiction needs to be general, not particular. In the contemporary fiction market a writer must entertain and be recognisable – anything less is seen as a failure and a rejection of readers.

Personally, I have no objection to books that entertain and please, that are clear and interesting and intelligent, that are in good taste and are not wilfully obscure – but neither do these qualities seem to me in any way essential to the central experience of fiction, and if they should be missing, this in no way rules out the possibility that the novel I am reading will yet fulfil the only literary duty I care about. For writers have only one duty, as I see it: the duty to express accurately their way of being in the world.

escrito às 8:44 AM por giannetti

Domingo, Fevereiro 04, 2007

PS: PF

Um dia, por incrível que pareça, morreu Paulo Francis.

escrito às 1:06 PM por giannetti

SERGIO MELLO

Pro solzão por cima dos prédios:

Noite

noite é sem pressa
a quem foi prometido um dia

escrito às 1:01 PM por giannetti

Sábado, Fevereiro 03, 2007

ALCOOLISMO E TABAGISMO NA NOVÍSSIMA GERAÇÃO DE AUTORES – JUSTIFICATIVA

Sabe-se ainda do caso do jovem crítico literário que começa a escrever um diário. Comenta isso certa vez, entrado em meia caipirinha, ao pé do ouvido de um escritor da novíssima literatura, que era, então, abstêmio. Logo, mediante sucinta fofoca, a notícia da existência desses textos íntimos espalha-se e começa a povoar com pesadelos a cabeça dos contemporâneos do autor que passa adiante a informação; aquilo perturba-lhes o sono, levanta sobrancelhas onde deveria haver apenas o semblante de quem aguarda tranqüilo a merecida fama em vida e homenagens na posteridade. Pensam os autores que no diário – que o jovem crítico mantém guardado numa gaveta de sua mesa no jornal – estão os comentários mais sádicos a respeito da nova geração de escritores e de suas ridículas tentativas de literatura. Os autores começam a tremer à menção do nome do crítico, tomados por galopante ansiedade social, e encontrá-lo, encontrá-lo significa ter de patrulhar o comportamento, tornar-se um outro, um ser menos espalhafatoso, mais assemelhado a um cinzeiro, a um cachecol, a uma pilastra. Tudo bege. Quando o vêem, mimetizam-se à sala, mal abrem a matraca, os autores. Bebem. Bebem cada vez mais os autores da nova geração. Para manter a boca sempre ocupada, livre de palavras que possam comprometê-los e torná-los protagonistas de uma entrada naquele perigoso diário de crítico. Bebe, inclusive, o autor que era abstêmio, que primeiro ouvira e passara a informação. Beiço colado a uma long neck (ah, a deselegância da nova geração, que desconhece o uísque, o vinho!), limitam-se a dizer “hmmm hmmm”. Bebem, ou não tiram da boca um grande charuto, com o qual se defendem, baforada depois de baforada, por trás de uma densa nuvem de fumaça, que torna impossível ao jovem crítico que escreve um diário identificá-los. Os autores da novíssima geração, aqueles que têm blogs na internet, temem o jovem crítico com o fervor que as crianças dedicam a temer o homem do saco.

escrito às 12:28 AM por giannetti

GAVETAS

Há dois posts que começo, aqui, e não vou adiante. Ou melhor: termino de escrever, mas salvo no botão de Rascunhos, a gaveta do Blogger.

***

Noutra nota, deveria existir um psicanalista (que atendesse de graça) capaz de explicar o curioso caso de um blogueiro que não posta.

Teria feito a coisa mais pós-tudo de sua geração e, num ímpeto vanguardista,

…virado escritor?

escrito às 12:17 AM por giannetti