Terça-feira, Janeiro 30, 2007

RECOMEÇO

Grandes escritores que são notáveis jornalistas; grandes jornalistas que são extraordinários escritores. O ciclo “Entre o fato e a ficção” irá revelar o produtivo diálogo entre a vida nas redações de jornais e revistas no Brasil e a atividade solitária da literatura, contando com a presença de quatro dos mais importantes jornalistas escritores do país: Carlos Heitor Cony, Zuenir Ventura, Ruy Castro e Marçal Aquino. – CASA DO SABER

O encontro de hoje, 30 de janeiro, é com Zuenir Ventura, e é a primeira vez que vou fazer alguma coisa “oficialmente” pelo Portal Literal. Já tinha colaborado como freelancer para o Literal, nos seus primeiros dois anos, 2002 e 2003. Agora começo lá como editora, com a saída de Cristiane Costa, que vai cuidar de outro megaprojeto e contará tudo a respeito em crônica, pois vira nossa colunista e continuará assim a marcar presença. Para mim, é recomeço, dos bons. Faça tin-tin comigo aqui na minha xícara de café gigante. Hora de acordar.

escrito às 12:34 PM por giannetti

Segunda-feira, Janeiro 22, 2007

MARCHA SOLDADO

Passei dezembro e o começo de janeiro traduzindo um livro sobre a guerra em Serra Leoa. Nunca tinha lido nada tão assustador. Foi também a primeira vez que traduzi um livro. É a história da mega-roubada que foi a primeira etapa da vida de Ishmael Beah. Ishmael perdeu os pais, irmãos e avós no começo do conflito, na década de 90, e fugiu pelo interior do país dos 12 aos 15 anos, sendo cooptado pelo exército no meio do caminho para lutar armado até os dentes. E não era o mais novinho a soltar o dedo no gatilho e cortar gargantas nos pântanos, movido a uma mistura de brown brown (cocaína com pólvora), maconha, sessões de filmes de guerra hollywoodianos e pep talk estilo lavagem cerebral, repetido pelos comandantes adultos como mantra aos meninos que treinavam: “Nossos inimigos mataram sua família.”

Antes de se unir ao exército para não ser morto por ele, o moleque se salva de ser assassinado duas vezes, por duas tribos diferentes, por ser fã de hip-hop: fugindo da guerra pela floresta, nunca se separa de uma fitinha do RUN DMC que carrega no bolso. Quando é preso e revistado, seus algozes acham a fita e mandam que ele dê uma dançadinha ao som do ritmo gringo, que desconhecem. É aí que Beah se safa, mas ainda teria que sobreviver a muitos ataques dos pelotões inimigos de rebeldes.

Ishmael é um dos poucos que foram resgatados do exército e reabilitados por voluntários ligados à UNICEF. Aos 26 anos, é membro do comitê de direitos da criança (Children’s Rights Division Advisory Commitee) da ONG Human Rights Watch, e já falou à ONU e ao Conselho de Relações Internacionais. Mora em Nova York com a mãe adotiva. E seu A long way gone é de arrepiar. (Na nossa guerra não tem essa de reabilitação redonda, com final feliz em que o cara segura um canudo de universidade e livro. Ou só não temos registro em livro?)

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Esta entrevista com o autor dá uma idéia do que é A long way gone.

escrito às 7:04 AM por giannetti

E POR FALAR EM CORAÇÃO

Um aviso às moças cariocas solteiras que procuram: o Rio de Janeiro recebe em janeiro 300 soldados norte-americanos em férias da guerra do Iraque. Isso mesmo. Eles vêm à cidade para se refrescar em nossas praias e em busca de “namoradas”. A notícia é do Terra.

Como se precisássemos de mais neuróticos em nossa guerrinha civil.

escrito às 7:03 AM por giannetti

Domingo, Janeiro 21, 2007

LIMPANDO A MESA ANTES DE COMEÇAR

O Escrevescreve nunca fez o tipo blog arreganhado: namoricos, interesses, idas e voltas de natureza coronária sempre ficaram de fora dos posts; aqui, é como limpar a garganta antes de cantar, ou a mesa antes de escrever, é só filtrar, desopilar escrevendo sobre escrever ou sobre pensar em escrever, e sobre esperar. De vez em quando, meio capítulo, meio conto. E olhe lá. Mas acho bom abrir exceção com este assunto, que é pessoal, porém, também da ordem do limpar a mesa, já que é sobre um texto meu. Já faz alguns meses que foi publicado, mas senti vontade de limpar a mesa agora.

O tema da minha monografia na faculdade foi Jornalismo literário; falei de Hunter Thompson, Gay Talese, revista Realidade, esses babados. Hoje sei, faltou-lhe um capítulo importante: sobre a relação do leitor com o texto de jornalismo literário. Não, baboseira; entraram de sola comigo e vou fazer a mesma coisa, vou ser direta: o que falta mesmo à discussão é só eu dar um bico na canela de cada um que leu meu texto na revista Piauí e me fez cobranças pessoais – não jornalísticas; não literárias – a partir daquilo: enfiem os elogios que me mandaram junto às cobranças numa drágea de supositório e tomem conforme a posologia. Fazer jornalismo na primeira pessoa tem inúmeras desvantagens. É difícil achar veículo, leva muito mais tempo para realizar e escrever e toma mais espaço para publicar. A essas desvantagens, pode-se somar a “aproximação” do leitor. O leitor se aproxima tanto, mas tanto, que dá pra sentir o bafo quente de cebola na nuca. Numa dessas, a gente se empomba. Daí o presente ataque-de-pelanca.

Voltei ao Rio pra resolver coisas que só filha única pode resolver. Se houvesse mais uns Giannettis cascudos aqui, eu poderia continuar lá naquela tranqüila cidade do interior onde vivi no ano passado. Mas só há esta Giannetti. Não, o Eduardo Giannetti não é meu irmão. Portanto, estou de volta.

A quem teve a indelicadeza de me cobrar explicações pessoais, isso é o máximo que vou dar. Com um pedido, na linha gentileza-gera-gentileza: troquem o direito de julgar pelo dever de ajudar. À próxima pessoa que vocês pensarem em espezinhar, em vez disso, ofereçam seus préstimos. Assunto encerrado.

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Os e-mails que eu por acaso não tenha respondido não devem ser colocados em drágeas, enfim, aquela barbaridade toda, são de amigos e pronto. Nada de supositórios para esses.

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E, tipo, waal.

escrito às 7:19 PM por giannetti

Sábado, Janeiro 20, 2007

MINUTO PRO COMERCIAL

Fafá, guitarrista do Casino (aquela banda com a qual nos apresentávamos no começo da década de 20) estréia hoje com uma festa que leva rock e uns tunti-tunti das antigüidades, como New Order, a um reduto do samba na Lapa, o Ernesto. A festa se chama Republika e, além de música, tem uma sala de jogos onde os freqüentadores podem brincar de Twister e strip-poker. Dark room prometido para a próxima edição.

Como tenho feito há vários sábados e domingos, estarei trabalhando hoje também. Vou tentar dar uma escapada até a festa mas, pela cara que o trampo apresenta agora, no comecinho da tarde, já não estou achando muito realista a proposta de estar livre à noite. Muita coisa a fazer ainda e prazos mordendo meus calcanhares.

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Todo mundo deveria entender quando eu sumo. Lembram daquela vez em que entrei no chuveiro no meu apartamento do Flamengo, me preparando para um batizado, e, quando saí do box, estava numa praça em Praga? Por isso agora tomo banho inteiramente vestida. Não tenho qualquer controle sobre esses deslocamentos espaciais involuntários. Por exemplo: voltar de Praga foi um sufoco, porque não podia simplesmente piscar os olhos e estar no Flamengo outra vez. Tudo que eu tinha era uma toalhinha.

escrito às 1:12 PM por giannetti

Quarta-feira, Janeiro 17, 2007

FILHOS FORTUITOS DA DISTRAÇÃO E DO ESQUECIMENTO

Reencontrar o caderno preto e o caderno laranja foi um evento tão inesperado quanto tranqüilo. Se ambos tivessem flutuado pela janela e pousado no meu colo eu não teria ficado mais espantada, mas ao mesmo tempo a calma com que recebi seu reaparecimento hoje – um reflexo da calma com que me resignara ao seu sumiço, semanas atrás – me deixou um pouco orgulhosa. Eu não sacudo mais o bote gritando “Onde é que se enfiaram os peixes?!”, fico quieta, pacientemente esperando e mascando (o que será que pescadores mascam? Acho que mascam alguma coisa, não? Sei lá, alguém que se propõe a sentar num barco e ficar ali, participando de uma metáfora minha, deve mascar alguma coisa. Ou beber. Um sujeito, Mike, que trabalhava para os correios, a quem eu servia Grey Goose com Cramberry Juice no bar da 23rd com a Lexington, costumava alugar um barco para pescar “lá em cima”, nos upstate, com alguns amigos; eles sempre levavam três garrafas de, é claro, Grey Goose, pra tomar durante a pescaria. Mas isso não é metáfora que se apresente. Esqueçam a porcaria da pesca, esqueçam o Mike e a vodca importada). Cadernos desaparecem, ok, fico quieta. Fico quieta – e os cadernos reaparecem. Então é assim que funciona? Não devemos sacudir o barco?

Não.

Não quando se tratar desse tipo de fenômeno. E da pescaria.

Folheio os cadernos agora. Primeiro o preto. Ele parece igual. Um pouco mais grosso, talvez. Não, não é isso. Arrisco ler alguma coisa. Abro numa página qualquer. Parece melhor do que da última vez que eu li. É isso que está diferente. Seja qual for o mecanismo que faz desaparecer objetos e os devolve, ele definitivamente melhorou o conteúdo do caderno preto. Vejamos agora o laranja.

[Voltei a fumar. Só hoje. Porque me lembrei de alguém de quem gosto muito e que fuma. E de uma outra pessoa de quem também gosto muito e que fuma, e que fica tão bem na fita fumando que foi só imaginá-lo com um cigarro entre os dedos e me deu essa inspiração errada. Comprei o maço de Marlboro Light e me arrependi imediatamente. Só até acender o primeiro cigarro. Pode me cheirar da próxima vez que me vir e te desafio a encontrar em mim vestígios da fumaça que emporcalha meu quarto agora. Duvido. É este, e só este. Culpa do cinema, do Will Self, daquele cara, daquela garota. Sou uma maria fumaça vai com as outras. Mas paro já. Imediatamente. Só até acender o próximo cigarro, que fumo por distração e esquecimento.]

O caderno laranja está também em melhor forma do que quando o vi da última vez, antes de ter sido abduzido por uma teoria de Borges. Seu hrönir – diferentemente do original – veio cheio de papéis soltos, folhas de material e tamanhos e textos em cores de canetas diferentes, e a capa tem um laranja mais vibrante. Traz algumas palavras escritas em uma língua que desconheço. Parece coisa indiana. Dek Khaya. Sophaeni. Jogo as palavras estranhas no Google e, por uma associação de frases, descubro que deve ser tailandês. Crianças do lixo. Puteiro.

Por onde terá andado este caderno? E o preto?

[O que é melhor? A idéia daquelas pessoas ou aquelas pessoas? Fumar ou brincar com a fumaça do cigarro? Nunca senti falta de cigarro, recomeçar seria burrice.]

Deixemos de frescura.