Terça-feira, Novembro 28, 2006

RECADO

Deixei duas bolsas em NY. Antes de saber que tinha que voltar para o Rio, para assumir os negócios da família [a.k.a. ser responsável por aquilo que cativei, a.k.a. qualquer coisa parecida com metáfora pra um assunto pessoalíssimo que não vou escancarar], eu ia me mudar pra fora de Manhattan. Teria sido… longe. Eu nunca fui pro tal apartamento no Queens mas as duas bolsas ficaram lá com meu novo roomate que nunca chegou a ser. Foi assim que eu me descobri sem uma parte considerável do meu guarda-roupa; e também descobri que, na verdade, eu não gostava dele – do roomate, assim como do guarda-roupa. Foi assim que fiquei sem alguns livros, que tinham me enviado do Brasil para lá; e fiquei sem o tal chapéu – não o famoso signature hat que custa mais de 300 dólares, usado e suado pelo Talese, que também usei e suei durante o tempo de um clique de câmera digital, mas o que estava no display no lançamento de “A Writer´s Life”. Também deixei por lá algumas coisas que comprei e achei que eram excelentes aquisições. Faz-se claro aqui, nesta linha, o objetivo do post: será que o ex-futuro roomate pode me mandar as duas bolsas? Apesar de eu não sentir falta dos modelitos, de os livros já terem sido lidos, e o chapéu ser mais barato que o original, mesmo abençoado, cada item carrega a sua historinha – e, hell, eles têm dono. Então, como os e-mails não adiantaram, quem sabe um pedido público possa me ajudar a reaver as duas bolsas?

E agora repito o que disse hoje pro editor: chega de biografia.

[Mas que blog é bom garoto de recado, isso é].

E o editor riu, bebeu de sua água [sim, no nosso novo projeto civilizado, bebemos água] e disse que o lançamento do livro é em 2007 mesmo, e faz bem eu estar aqui pra lançá-lo. Ou seja, sem viagens pro Afeganistão anytime soon.

escrito às 8:19 PM por giannetti

MALEFÍCIOS DA ÁGUA

Incentivada por revistas femininas e programas do GNT, comecei a beber água. Oito copos por dia é o que recomenda a etiqueta da saúde. Apesar de o mundo estar cheio de idiotas saudáveis, aparentemente, fico mais esperta quando ignoro essas dicas. E foi por não ignorá-las completamente que derrubei água – claro – sobre o teclado do computador. Fiquei uma semana sem conseguir escrever palavras que tivessem letras localizadas à extrema esquerda e parte do meio do teclado.

Eis um exemplo de texto retirado de um e-mail escrito com teclado molhado:

mut tl fltndo. derrubei likio no tecldo e ele n funcion direito.

but kero te onvidr ir omigo n uint feir o circo vodor, onde vi rolr o rio botekim.

Eu quis dizer que “muitas teclas faltando. derrubei líquido [água era mais difícil de escrever do que líquido] no teclado e ele não funciona direito. Mas quero te convidar a ir comigo na quinta-feira ao circo voador, onde vai rolar o rio botequim”. Repare que o “d” aparece umas vezes, outras não.

escrito às 7:49 PM por giannetti

Sábado, Novembro 04, 2006

META

Paul Auster no Guardian deste domingo: I don’t know why I do what I do. If I did know, I probably wouldn’t feel the need to do it. All I can say, and I say it with utmost certainty, is that I have felt this need since my earliest adolescence. I’m talking about writing, in particular, writing as a vehicle to tell stories, imaginary stories that have never taken place in what we call the real world. Surely it is an odd way to spend your life – sitting alone in a room with a pen in your hand, hour after hour, day after day, year after year, struggling to put words on pieces of paper in order to give birth to what does not exist – except in your head. Why on earth would anyone want to do such a thing? The only answer I have ever been able to come up with is: because you have to, because you have no choice.

Não fica só nessas manhas de escritor, “ah, como sofro aqui neste quartinho, sem beijo na boca, sem televisão…”. É seu discurso de aceitação do prêmio Prince of Asturias para literatura, então sai do ego pra discutir o papel da literatura no mundo. Que, apesar de não impedir guerras nem fome, ao menos segura os malucos certos em quartos fechados por um bom tempo.

escrito às 10:46 PM por giannetti

Sexta-feira, Novembro 03, 2006

A MORTE DA FESTA

[matéria minha pro Globo…. só aqui você pode ler com exatamente duas semanas de atraso]

Era uma vez uma vizinhança de aluguéis baratos, era uma vez uma cidade que inspirava mais música que penteados, era uma vez o rock. E agora o clube onde cresceram e apareceram artistas como Ramones, Blondie, Talking Heads, Patti Smith e Television, deixa seu espaço na área novaiorquina do Bowery.

Num canto escuro do CBGB & OMFUG (Country, BlueGrass, Blues – Other Music For Uplifting Gormandizers*), pilhas de fanzines formavam a platéia da passagem de som dos últimos garotos anônimos que tocariam no clube antes que ele fosse oficialmente fechado com o show de Patti Smith. Estampados nas capas dos zines, uma foto da entrada do clube na década de 70 e um selo que, hoje em dia, é coisa rara no mundo do rock: ABSOLUTELY FREE.

“Gente, alguém aí tem um Xanax? Não tô legal. Quero chorar”. A bartender Karina LaVicchia, 33 anos, trabalhou por cinco no CBGB e encarna o climão de enterro do último fim de semana de função normal do clube: “Estou triste mas anestesiada. É tudo dinheiro hoje em dia. História e música não significam mais nada”.

Let’s lynch the landlord

O proprietário da marca e da birosca, Hilly Kristal, 74, vinha lutando desde 2005 contra o despejo do CBGB’s pelos proprietários do prédio – que, a exemplo de outros proprietários em NY, impõem aluguéis galopantes aos seus inqüilinos. “Meus advogados avisaram logo que era caso perdido”, conta, com a experiência de quem gerencia clubes desde a década de 60. Paralelamente, combate um câncer de pulmão. Agora que a campanha Save CBGB deu em nada, ele confirma o futuro do clube mas – bem ao estilo punk – não sabe dizer nem como nem exatamente onde vai enfiar o novo CBGB: “Não há nada definido ainda, não escolhemos um lugar mas é certo que será em Las Vegas e vamos levar para lá tudo que representa o clube”. Levará as portas, que tornam a fachada notória, e – promete – até os mictórios. Tudo pela “autenticidade”.

A mudança para Vegas parece absurda, considerarmos boa fatia da história inicial do punk e da new wave, atrelada ao clube bagaceiro aberto em 1973. Mas a escolha da terra extravagante dos casinos e shows de ídolos acabados americanos é coerente com o que se tornou o CBGB já há uns bons dez anos: comércio da marca.

Ignorando a cara de poucos amigos da bartender, uma mulher – que tem algo entre 50 e 60 anos – vestindo couro e estampa de oncinha, aproxima-se do balcão perguntando onde pode comprar camiseta CBGB para seu cachorro. Miss LaVicchia resmunga secamente: “Não aqui”. Mentira: na lojinha do clube – que continuará em Nova York, em novo endereço – vende-se de tudo que leva a sua marca, de camisas, casacos e suportes para guitarra até calcinhas.

Faça você mesmo… seja aonde for

O que aconteceu ao CBGB não é novidade para os fãs de rock em NY e já roubou da cidade outros marcos da cena, como o Continental, em St. Marks Place, que há um mês fechou seu palco – por onde também passaram Ramones e Smith, e era parada obrigatória para bandas na estrada – após mais de 20 anos, reabrindo como bar-com-jukebox. A praga dos aluguéis altíssimos – e subindo! – expulsa da cidade aqueles que raramente têm dinheiro: gurizada que faz música; e despeja clubes históricos.

“Nova York era um lugar para onde gente criativa vinha tentar fazer sua coisa, independente do que fosse, punk ou fotografia ou pintura. Agora é só um lugar para ricos,” me diz Joshua Lee, vocalista da banda novaiorquina The Party Death (http://www.myspace.com/thepartydeath). “O que aconteceu de profético neste lugar pode acontecer em qualquer outro. Já estava morto havia algum tempo,” decreta, pendurado no balcão do bar.

* Gormandizer, na definição assinada por Kristal, pregada num canto da parede do bar, é “um consumidor voraz de, neste caso, música”.

escrito às 8:27 AM por giannetti

Quarta-feira, Novembro 01, 2006

THESE HAVAIANAS ARE MADE FOR WALKING

And one of these days these havaianas
are gonna walk all over you

É lugar comum do inconsciente coletivo brasileiro dizer que o Brasil é um balança-mas-não-cai. Aliás, não soa somewhat redundante, inconsciente coletivo + brasileiro, na mesma frase?

Como sempre me dizia um vizinho expatriado em NY, o país devia quebrar logo, de vez, irremediavelmente e sem dúvida [“ih, virou escombro”] porque aí não haveria jeito senão reconstruir. Mas não. Fica a paisagem exuberante piscando [“Continua lindo! Continua lindo!”], fica nesse lesco-lesco, nesse eterno processo murrinha de depauperação em que aumenta a pobreza, aumenta o desemprego, aumenta a violência, aumenta o custo de vida, aumenta o número de mãozinhas pegando nosso braço na rua, de malabaristas trôpegos de estômago vazio no sinal, de putinhas de 11 anos de idade. Todos esses itens soam batidos, e taí, mais uma vez: a discussão não é uma questão social, é um lugar comum de mesa de boteco.

E a cada sacode que a estrutura do balança-mas-não-cai sofre, para baixo, a gente se agarra numa cortina e grita, brava-gente-brasileira style: “A gente se adapta!”.

Adaptar-se, no Brasil, é mais importante do que comer.

Não sei se quero me adaptar – antes de morar fora eu já não segurava mais a porcelana quando o chão tremia, estava numas de deixa quebrar; agora, então… onde está meu Lexotan?

Não é por saudade de caldinho de feijão, de chope gelado nem de qualquer dessas drogas alucinógenas que mantêm o carioca numa realidade paralela brasileira [“A gente se adapta! A gente se adapta!”], mas tô na área de novo.

Aqueles que nasceram por intermédio do jato incontinente de um pombo – ou via mais moderna de geração espontânea de que ainda não tivemos notícia – irão estranhar. Mas quem tem mãe há de saber: ela realmente precisa, a gente atende. Especialmente se já não é mais uma cocota e só pariu uma pessoa com quem brigar [e com quem contar]. E se o leitor se opõe – o leitor sempre se opõe -, tem a opção de vir aqui em casa ajudar, trazendo consigo CATETERES e uma garrafa de red label.

Decisão mais braba que ir é desistir de ficar lá. Mas há de ter suas compensações… “olha o mate gelado, olha o Lula, olha o sol, olha o camarão, miçanga, espelhinho…”. Lexotan, please.

escrito às 11:25 AM por giannetti