Terça-feira, Outubro 31, 2006

MUMIFICANDO O ASSUNTO

Um ou outro – na verdade, somente dois leitores da revista Piauí me escreveram com essa questão – acham que permaneci trabalhando como escrava branca numa boate egípcia, não me importando com a descoberta de que o manager era maluco [nem com o fato de que não nasci pra escrava branca].

Yep. That is just like me. Seria minha cara fazer isso.

[Chato é não notarem que tem um TEXTO ali. É como se eu não tivesse ESCRITO nada].

Sei que cortaram a matéria num ponto em que fica tudo em suspenso, como se a história fosse continuar noutra edição. Mas não quer dizer que virei esfirra. Sou escritora – ganha-se pouco, mas – quando o (a) autor (a) tem um cadim de caráter – não é por isso que opta pela prostituição.

Para mumificar o assunto da tal matéria, exibo aí abaixo registro da única ereção egípcia que conheci em NY. É de gesso e usa saiote dourado. Enjoy.

p.s.: será que se a matéria fosse assinada por homem existiria a questão?

escrito às 6:10 PM por giannetti

Quinta-feira, Outubro 26, 2006

BULA

To string incongruities and absurdities together in a wandering and sometimes purposeless way, and seem innocently unaware that they are absurdities, is the basis of the American art, if my position is correct. Another feature is the slurring of the point. A third is the dropping of a studied remark apparently without knowing it, as if one were thinking aloud. The fourth and last is the pause. – Mark Twain sobre humor americano


INVERNO

Porque perder o senso de humor é coisa de boçal.

escrito às 6:16 PM por giannetti

Terça-feira, Outubro 24, 2006

MACACOS E UMA SMITH-CORONA

Writers are sometimes wrong about what their texts mean, or sometimes have no idea what they really mean. Sometimes the text’s meaning even changes for the writer. It doesn’t matter what the writer means, basically, for the New Critics; it matters only what the text says. (…) The deconstructionists [“deconstructionist” and “poststructuralist” mean the same thing, by the way; poststructuralist is what you call a deconstructionist who doesn’t want to be called a deconstructionist] (…) see the debate over the ownership of meaning as a skirmish in a larger war in Western philosophy over the idea that presence and unity are ontologically prior to expression.

(…) We tend to trust speech over writing because of the imediacy of the speaker; he’s right there, and we can grab him by the lapels and look into his face and figure out just just exactly what one single thing he means. But the reason why the poststructuralists are in the literary theory business at all is that they see writing, not speech, as more faithful to the metaphysics of true expression. (…) writing is a better animal than speech because it is iterable; it is iterable because it is abstract; and it is abstract because it is a function not of presence but of absence; the reader’s absent when the writer’s writing, and the writer’s absent when the reader’s reading. – Homem da Bandana na Cabeça.

escrito às 5:15 PM por giannetti

Sexta-feira, Outubro 20, 2006

LESTER BANGS BEM QUE AVISOU

Saiu texto meu sobre o fim do CBGB no Rio Fanzine de hoje. Catei o link mas só encontro o blog do RF, porque ainda não sou versada nas novas curvas do site remodelado do Globo.

A bartender deu mais caldo que o Hilly Kristal, dono da marca e da bodega. O sujeito tem um discurso pronto sobre o clube; não espera nem a pergunta vir e já solta. Isso tem a ver com o cansaço que chega com mais de 40 anos gerenciando casas noturnas em Manhattan, e com uma doença terminal. O mau humor é parte do clima. “Agora eu tenho coisa melhor pra fazer do que ficar aqui conversando com repórteres”. E tem mesmo: transferir para Las Vegas a ‘mágica’ de um clube que – antes de virar uma disneylândia panque – deu de comer e beber ao bando de drogaditos rasgadinhos e guris new wave responsáveis por muitas ondas de boa música que a gente ainda gosta de escutar hoje. Promete levar tudo junto: privadas, portas, paredes pichadas. Como eu disse, a bartender falou mais e com maior espontaneidade.

Um guri que se apresentou numa das últimas noites abertas a bandas desconhecidas também comentou direito. Na fala dele, fica claro o que todo mundo está percebendo em NY – e é pauta em semanários e revistas -, mas raramente é abordado pelo viés da cultura alternativa: o mercado imobiliário está maluco, os preços estão impossíveis até em áreas antes consideradas inabitáveis. Era justamente para essas áreas mais acabadinhas que os músicos iam em romaria, de diversos pontos do país e de fora, para fazer sua vidinha e tentar alguma coisa em NYC. Agora não tem mais área-acabadinha-barata; tem área acabadinha-cara e fancy-caríssima. And that’s it.

O nome da banda do guri era, coincidentemente, “The Party Death”. Tem mesmo jeito de fim de festa.

escrito às 5:59 PM por giannetti

NOVA YORK É UMA ROÇA

Se é verdade que a beleza está nos olhos de quem a enxerga
Vão pentear macaco
Valham-me os clichês da minha terra:
O mundo é um ovo e a caravana passa
Tudo ao mesmo tempo agora
NY é uma roça

Vitrine pra Sinhozinho Malta, Viúva Porcina, dourado e verde-limão
“Usa cor quem sabe”, guincha um pequinês da Park Ave
Jaqueta ao preço da passagem pra Vegas
Piteira prata de brinde com o estojinho de maquiagem
“Usa blush quem não tem sol”, respondo
Puxar pra cima a meia-calça arrastão
Pruma volta em Union Square score um skatista
Depois contar às amigas-que-almoçam
Uma história diferente
Pra variar Chianti e Pinot Grigio 8 dólares a taça mais tips
Coleira de cobre, relógio de couro
Sapato de plástico, cerveja light
“Igualzinho à Ilha do Governador!”
Mas aqui
Ninguém quer dois de nada a um real
Tudo aqui
Supersized
Baratas do tamanho de ratos, ratos do tamanho de poodles
E beatnika é a vovozinha

escrito às 5:23 AM por giannetti

Quarta-feira, Outubro 18, 2006

INTRO, TROCADILHOS E CONTRADIÇÕES

Antes eu me preocupava mais com essas coisas, hoje moderadamente [assim como vocês todos bebem moderadamente, fumam moderadamente, fazem merda moderadamente]; por isso que já passa século e meio desde que saiu aquela Piauí e somente agora comento a intro da matéria: minhas aspas saíram de um e-mail trocado com a redaSSaUm e constituem uma contradição, visto que a maioria dos trabalhadores ilegais com quem cruzei aqui também não têm seguro nem plano de saúde, of course.

Quanto a ser apresentada assim, nome-aos-bois, “Carioca da Ilha do Governador” etc., acho que imagina-se por aí uma criatura com bobes na cabeça e trouxinha nas costas, atravessando o deserto com vários mexicanos, bebendo Corona para não desidratar – e, naturalmente, desidratando-se. Enquanto isso, o Ivan Lessa parece muito chique. Ivan é tão chique que chega, bebe água-de-côco na praia e – luxo máximo – não é assaltado. Também não precisou ser apresentado. Ora, eu também não precisava. Sou muito afamada, não só entre a boa gente of The Island of Governor. Não chego a ser uma instituição como o Pasquim, butt… nevermindabollocks, o CBGB fechou mesmo.

Como bem colocou o Allan quando comentei o assunto há pouquinho com ele, a intro é sempre difícil. Depois amacia.

escrito às 3:58 PM por giannetti

IÉ-IÉ-IÉ DO OIAPOQUE AO CHUÍ

Um dos gênios máximos da nossa Música Impopular Brasileira, Marcelo Birck tá com esse clipaço que você pode ver no YouTube. É uma brasa, mora, é um grito de gol.

Sou macaca de auditório dele.

escrito às 3:36 PM por giannetti

Terça-feira, Outubro 17, 2006

DU-RUM-DUM-DAT-TAN-TI-TAN-DU-RUM-DAT

Rápido improviso sobre o improviso dos outros:

Jazz é uma graça, mas, tocado quando quero dormir, inspira-me a pegar uma corneta dessas e fazer de penico.

escrito às 3:56 AM por giannetti

Segunda-feira, Outubro 16, 2006

FANTASMAS MUITO VIVOS

Os meus me mandam e-mail e tudo. E por falar nisso, é Halloween; não tô nem aí.

O feedback da matéria na Piauí é todo bom – tirando um cocoroca, tipo que existe em qualquer lugar, e que me faz querer comprar um Fusca só pra desfilar com o adesivo “A Inveja É Uma Merda” no vidrinho do carona.

Mas o que há para se invejar em sub-emprego de Nova York? Not much, exceto que pesco muita história boa do outro lado do balcão. Não trabalho mais naquilo, mas valeu o susto. Foi mais produtivo que chocar ovo na frente do computador, e minha chance de fazer uma pauta menos quadrada.

***

Comentei esses dias com um amigo: nasci pra ser turista. Como o Ivan Lessa, prefiro hotel. Descobri que eu nem preciso morar fora – basta eu sumir por seis meses a cada seis meses, prum lugar diferente, que meu bicho-carpinteiro se dá por sossegado. Não retiro uma coisa: continuo aporrinhada com o Brasil, não gosto e não quero. Só que é lá [aí] que eu vou vender meu fish, livro, etc. Até segunda ordem continuo escrevendo em português [ou mudei pro portunhol sem nem notar? Hijo de la puta madre, no la cagues!], caso a se pensar.

***

Adendo, coisa que repito sempre aqui: saudade das pessoas, não do país.

escrito às 6:02 PM por giannetti

Quinta-feira, Outubro 12, 2006

VARGAS LLOSA 2

Não se pode entender a América Latina sem sair dela e observá-la com os olhos e, também, os mitos e estereótipos que dela têm sido elaborados no estrangeiro (…)

[do Dictionnaire Amoureaux de l’Amérique Latine, que a Ediouro está para lançar.]

escrito às 4:13 PM por giannetti

VARGAS LLOSA

Eu gostaria de lhes contar algumas das experiências que estão por trás do romance Lituma en los Andes. Como em todos os meus romances, este tem raízes em experiências vividas. Não sou ¿ e não sei se talvez exista algum ¿ um desses escritores que partem da pura imaginação, da fantasia, para escrever suas histórias. No meu caso, a imaginação precisa sempre do apoio da experiência. Escrevi o que escrevi porque conheci certas pessoas, porque fui testemunha ou protagonista de determinadas experiências que, por uma razão sempre obscura para mim, ficaram na minha memória e com a passagem do tempo se converteram num desassossego, numa recorrência, num estímulo para o fantasiar, e, de repente, esse pequeno embrião se converte num ponto de partida de uma aventura criativa.

escrito às 4:09 PM por giannetti

Sábado, Outubro 07, 2006

IR À MECA

Primeiro as urgências: visitar o Bohemian Hall & Beer Garden, em Astoria, Queens. Depois conserto o tamanho das fotos. E pergunto: quem já leu a revista Piauí?

escrito às 10:35 PM por giannetti

DUMB & DUMBER

Manifestação contra Bush entupindo a Union Square [a Cinelândia para as manifestações da “esquerda” aqui]. No dia seguinte o congestionamento era por outro motivo: incêndio no metrô; onde, aliás, no começo da semana, já haviam fechado com polícia e aparentemente todos os carros de bombeiros do Lower East por causa de um suspicious package encontrado numa estação entre a Rua 14 e a 3a. Avenida.

escrito às 10:24 PM por giannetti

Segunda-feira, Outubro 02, 2006

BUCKLE UP SESSIONS

É quando você tem trabalho extra e seus amigos têm trabalho extra; pra não ficarem apenas pensando na morte da bezerra no único dia de folga da semana, cada um pega seu laptop e juntam-se todos num apartamento só onde – supostamente – consegue-se dar cabo do que tem de ser feito, como um grupo de crianças na aula de arte. Garantem que funciona, mas ainda não consegui aparecer em uma sessão sequer. É que, se o trabalho é de reportagi, significa que tenho que ir pra rua – aí aproveito meu day off para entrevistar e ver seja qual for o lugar sobre o qual estou escrevendo, as opposed to pesquisar na internerd a respeito de. [A bezerrinha, por outro lado, é um bom pensamento pra se ter na cabeça quando é preciso limpá-la para escrever outras coisas.]

escrito às 2:32 PM por giannetti

Domingo, Outubro 01, 2006

LET IT BLURT

Lester was this big, swaying, cross-eyed, reeking drooler, smiling and smiling through his crummy stained mustache, trying to corner me with incessant babble somewhere in the dark at CBGB’s, 1976 or so. He was sweet like a big clumsy puppy, but he was always drunk and the sincerity level was pretty near intolerable.

Now I miss him. – Richard Hell sobre Lester Bangs.

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Quando “roubaram” [uma palavra tão forte, em tempos de exposição exacerbada na internet] uma pauta minha depois que disse aqui o que estava fazendo, fiquei mais reticente ao comentar o que escrevo pra revista e jornal. Mas ainda sussurro uma coisa ou outra, a gente nunca deixa de ser totalmente burro – tem seu charme; e eu sinto falta às vezes da voz que escarnece como no desenho animado, “mas eu te disse, não disse?”.

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Ontem havia japoneses a dar com pau, poucos franceses e ao menos um alemão, mais um pessoal que toca com Ornette Coleman soprando – não me levem a mal – e batucando num dos quartos de casa, durante uma festa. Eu pensava nos amigos do Brasil e repetia, just for the sake of it, barbaridades antigas: “Eu seria capaz de lustrar sua careca com a…”.

***

Bruna lançou livro. Ivan chegou na Irlanda. Fred vai em breve… pra onde? Talvez venha.

E agora recebo e-mail da Fernanda D’Umbra, do Cemitério de Automóveis, de São Paulo, dizendo que está vazando pra Portugal.

***

A multa paga por quem está fora do país pra justificar voto no Brasil é R$ 3,51. Três reais e cinquenta e um centavos.

escrito às 10:38 PM por giannetti