Sábado, Setembro 23, 2006

Revista Piauí é lançada na Flip e circula em outubro

Sem editorial ou colunistas, a revista tem elenco internacional e foi lançada na Flip pelo cineasta João Moreira Salles e o editor Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras

Antonio Gonçalves Filho

PARATY, Rio – Uma revista sem editorial ou colunistas, em que a informação vem antes do comentário e preserve a independência ideológica de seus autores parece algo utópico como um quartel sem hierarquia. Mas é justamente o projeto da revista Piauí, lançada na Flip pelo cineasta João Moreira Salles e o editor Luiz Schwarcz, da Companhia das Letras. O primeiro número deve sair em outubro, mas já provoca curiosidade pelo time envolvido, escritores estrangeiros como o argentino Tomás Eloy Martinez e o inglês Martin Amis, cineastas como Eduardo Escorel e Eduardo Coutinho, médico e ex-detetive autores (Oliver Sacks e Rubem Fonseca, respectivamente), além de jornalistas veteranos como Ivan Lessa, ao lado de críticos da novíssima geração, entre eles Cassiano Machado. Todos comandados anarquicamente por Marcos Sá Corrêa.

Concebida por Moreira Salles, diretor da Videofilmes, que banca a revista em sociedade com a editora de Schwarcz, Piauí não pretende ser uma reedição de revistas como “Realidade” e “Senhor”, dois títulos marcantes dos anos 1960 e caracterizados pela ousadia temática e gráfica. No formato do “New York Review of Books”, ela será mensal, com uma tiragem de 40 mil exemplares. Pelo título escolhido, a revista chega já para provocar o leitor a partir do enigmático Piauí. Será uma referência jocosa a um dos Estados mais pobres do Brasil? Metáfora de um país desconhecido até mesmo por seus habitantes? Alegoria do indiferenciado, território em que cabem tudo e todos? Não. Apenas um nome escolhido ao acaso e rico em vogais, observa o cineasta João Moreira Salles.

Apesar dos nomes envolvidos, Piauí não será uma revista de cultura, mas de reportagem, gênero que parece marcar cada vez menos presença na grande imprensa. O diretor de “Notícias de Uma Guerra Particular” e, mais recentemente, do documentário “Entreatos”, sobre a campanha política que levou Lula ao poder, diz que aprendeu com eles que não há grandes ou pequenos temas, “mas histórias boas e histórias mal contadas”. Com o elenco de colaboradores de Piauí, ele certamente não corre riscos. Tomás Eloy Martinez, que começou sua carreira como jornalista, é autor do melhor perfil de Evita Perón que alguém jamais sonhou escrever. Como disse Oscar Wilde, o único dever que temos com a história é reescrevê-la e Eloy Martinez tem sido um aluno muito aplicado na destruição de mitos construídos por ela.

Para Marcos Sá Corrêa, o cruzamento entre narrativa ficcional e jornalismo deve enriquecer ainda mais Piauí. “O que define a história é a articulação de todos os elementos dentro de um texto”, observa o editor, reforçando a frase de Wilde.

escrito às 5:42 PM por giannetti

Quarta-feira, Setembro 20, 2006

QUESTÃO DE PERSPECTIVA

Lo-fi Tennessee Mountain Angel, come back to me
Met you in a bar when I was drinking
You stood next to me
You said you wanted to play country
But you were in a punk rock band
– Whiskeytown.

Parece uma outra existência, quando penso nisso agora: eu tinha uma banda. Assim, músicos. Viajamos de ônibus e de avião pra cima e pra baixo, os cinco, festivais em cidades do sul e do sudeste. Não fizemos nenhum dinheiro. Dormimos em hotéis de rodoviária, em bons hotéis em São Paulo e Belo Horizonte, na casa de produtores, na casa de gente que tinha ouvido nossa música e gostado e oferecido teto; lançamos disquinho no Japão. Parece tão absurdo hoje que não fico chateada se vocês acharem que estou de ficção: Caetano Veloso e Almodóvar na platéia do show no Cine Íris, quando abrimos para o Stereolab [logo depois de eu ter apagado no camarim improvisado, por motivos tão distantes quanto a infância – vocês não vão querer que eu leia a bula]. Abrimos show para o Mogwai, que achei barulhento. Eu já ia ficando velha demais.

Passei a escrever mais que cantar, até que desistimos da banda e cada um foi cuidar do seu.

Tenho cantado muito timidamente aqui. Por acaso, vim morar num apartamento com dois músicos. Não escolhi meus companheiros de casa: eles já viviam aqui. É um clichê do East Village: improvisadores de jazz. E tem uma pintora japonesa que se tranca no quarto com pincéis gigantes ouvindo pianistas obscuros. Estão montando uma bateria na sala. Passa gente boa por esta sala. De vez em quando eu vou lá e ameaço um refrão. Eles acreditam que Jorge Ben é um deus. E Tom Jobim. E acreditam em versões muito lentas de standards americanos, daquelas em que o baterista parece estar fritando um ovo na esteira, shiii, shiiiiiiii – that’s the way it goes. Vou pra biblioteca pública quando quero escrever, ou pro parque. No parque, só de bloquinho, que tenho receio de pombo cagão mirar meu laptop. E ainda os esquilos, que andam demasiado marotos com a aproximação do inverno.

É um parquinho de diversões, a cidade; negócio é manter o foco. E trabalho demais. Tem semanas que durmo nada; noutras hiberno.

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Continuo escrevendo a segunda parte da matéria pra revista. Esta é mais difícil, acho.

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O editor diz que o livro sai em 2007.

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Comecei outra história, e é difícil concentrar na véia pensando na nova ao mesmo tempo. Dou pause na nova, vou um pouco pra véia. Amarrar as coisas, sabe? Bondage.

escrito às 10:49 PM por giannetti

Sexta-feira, Setembro 15, 2006

COMÉDIA

“If you live in New York City or any other big city, you are Jewish. It doesn’t matter even if you’re Catholic; if you live in New York, you’re Jewish. If you live in Butte, Montana, you’re going to be goyish even if you’re Jewish.” – Lenny Bruce.

escrito às 4:46 PM por giannetti

QUEM CONTA UM CONTO

… aumenta um ponto, de acordo com um ditado. Mas pra mim é:quem conta um conto corta alguns parágrafos desnecessários que dariam aquela cara de começo-meio-fim ortodoxos, e aí mostra um recorte. Não é uma novela. E mesmo muitas novelinhas são um recorte.

Não sei escrever de outro jeito e duvido que aprenda – até porque não acho necessário.

Essas coisas me deixam nervosinha.

escrito às 4:28 PM por giannetti

Segunda-feira, Setembro 11, 2006

BURACOS

É o que existe no lugar onde caíram as torres do World Trade Center, além de centenas de formiguinhas de capacete amarelo trabalhando para construir um memorial em torno dos dois buracos. A marca do que um dia foram os prédios é o centro dessa obra, junto a um museu. E pelo que exibe o vídeo no site do NY Times, incluirá até uma cachoeirinha jorrando água pra dentro dos dois buracos. Dear God. O primeiro projeto do memorial às vítimas do 11 de setembro custaria um bilhão de dólares; agora, foi modificado para sair por meio bilhão. Podem levar seis anos erguendo o monumento, “the two voids”, mais três novos prédios comerciais. Sequer se cogita a hipótese de um novo ataque, mais espírito-de-porco, bem em cima do que conseguirem reeguer.

A movimentação em torno do Ground Zero é só o que a TV mostra hoje aqui, além das homenagens que aconteceram pela manhã também em Washington, com as famílias de vítimas. Mas os bares – não se vê no noticiário a horda de bombeiros que invade boa parte deles, os lugares menos esnobes.

“No dia do ataque, em 2001, a bebida toda do estoque acabou. As pessoas beberam e choraram até de madrugada, tinha gente de pé até o fundo do salão”, conta Vítor, 29 anos, brasileiro de Petrópolis e psicólogo no Grand Saloon, outro tipo de landmark histórico da cidade. O bar fica próximo a um quartel na Rua 23 com a Lexington. Foi construído em 1843 – quando funcionava na surdina também como prostíbulo – e que foi um speakeasy, cheio de passagens secretas e saletas escondidas, na década de 20. Vou lá hoje ver como funciona o divã do bartender no 9-11.

escrito às 2:13 PM por giannetti