Segunda-feira, Agosto 28, 2006

DECLARAÇÃO

Depois de uma semana sem me auto-sabotar aqui, senti que precisava fazer um statement.

Sei que neste espaço eu reclamo demais, tendo algumas vezes ofendido gente correta e pacífica que apenas tentava me ajudar a ser menos babaca; sei que, a esta altura da vida, eu já devia ter vergonha de me divertir com blagues imaturas num blog. Não há qualquer mas redentor neste parágrafo. E saibam também que, pessoalmente, eu sou mais insuportável ainda.

escrito às 11:36 PM por giannetti

Terça-feira, Agosto 22, 2006

COMENTÁRIO GERAL SOBRE DAVID FOSTER WALLACE

Toda vez que termino de ler uma historinha do David Foster Wallace eu praguejo qual pirata contrariado em filme preto e branco: “Gahr! Maldito seja!” A que eu li ontem foi Little Expressionless Animals [este link tem lá suas bobagens – americano fazendo teoria -, mas inclui uns parágrafos interessantes]. Ela não desaparece por inteiro depois de lida; vai ao supermercado contigo, conversa enquanto você quer dormir, se transforma em outras coisas muito menos saudáveis que historinhas de David Foster Wallace. E não é porque tem Alex Trebek e todo uma equipe de “Jeopardy!” como elenco. Meu grunhido praguejante é de admiração.

Os americanos que fazem teoria não acertam na mosca; vejam lá o link – mesmo quem não leu a história pode brincar de jogo dos sete erros [spot the stupidity] com aquele texto. Eles podem ser nocivos e estragar uma excelente história com suas formulações.

Há americanos que praguejam como piratas contrariados em filmes preto e branco quando lêem uma historinha de David Foster Wallace. Mas por motivos diversos dos meus. Eles não são nocivos. É o tipo de crítica que se cria em internet – ahem – e se sustenta sobre a premissa: “Gahr! Maldito seja!”. Não deixa de ser um grunhido de admiração. Basta fazer uma busca pelo nome do autor para encontrar fóruns que propõem debater se ele é um cunt [não um Kant], e daí pra baixo. Não se encontra crítica que não seja grunhido com cheiro de rum. Jonathan Safran Foer tem um séquito semelhante de piratas da cara-de-pau: “te odiamos porque você sai no jornal” é um argumento muito comum também contra o autor bom moço judeu do Brooklyn.

David Foster Wallace usa bandana na cabeça [ele é impermeável a críticas superficiais].

escrito às 3:39 PM por giannetti

Quarta-feira, Agosto 16, 2006

BRUNA BEBER

E quando eu ouvia os dominicanos discutindo o café-da-manhã comprado na dely e não esperava mais nada nos degraus da escadaria de um predinho em Alphabet City [é onde a internet pega nesta manhã de muito sol e pouco wi-fi], abro um e-mail da escritora, com a apresentação do seu livro de estréia, A Fila Sem Fim dos Demônios Descontentes do Amor, assinada pelo Sergio Mello.

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¿a despedida é tão intrigante/ quanto a saudade/ desnecessária¿

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Não vou ficar adiantando livro dos outros aqui. Tratem de comprar quando ele for lançado. É um bom retrato do Rio de Janeiro, sem pelasaquice, e é um coração gigante de coisas que eu queria ter trazido na mala pra cá. Bom, o livro vai servir pra isso também, ao menos pra mim – trazer Bruna pra mais perto.

escrito às 2:16 PM por giannetti

WHO’S YOUR DADDY

Ele chega, anda na minha direção, não diz o quase obrigatório Hi-how-are-you antes de “Você parece esperta. Você tem uma pergunta pra mim? Se não tem, pensa em uma porque, quando eu estiver ali em cima, eu vou apontar para você.” O tom é de um professor de segundo grau para uma aluna. O terno é cinza claro, os sapatos combinam com a gravata, avermelhados. Gay Talese está metido num de seus caríssimos três peças e o comentário “Você parece esperta” pode ser mais irônico do que soaria noutro contexto; porque estou vestindo a antítese da roupa-de-pessoa-esperta e, por mais inocente que você ainda seja – ou tenha se tornado, longe de minha diabólica influência nos últimos meses -, você já deve saber, a esta altura, que nada é superficial para o autor de “Sinatra Has a Cold”. Tudo é computado, inclusive saias microscópicas que normalmente não podem ser vistas a olho nu [I’ve been working undercover on a story, although not so much under the covers, as those cocorocas from the oposição naturally assume I would]. Estou mais para Midnight Cowboy que para All The President’s Men e isso não lhe escapa. Ele precisa quebrar o gelo de alguma maneira. Ele está sempre na função, trabalhando para seu próprio conforto – ganhando a platéia antes mesmo de começar a falar. Seu novo livro, A Writer’s Life, não foi tão bem recebido pela crítica quanto os anteriores, mas isso é mais um indicativo do cansaço da crítica do que do autor. [“Dammit, ele é esperto! Já derreteu a repórter”. Não me encham.]

“Ok, vou pensar numa pergunta”, quando digo isso, já sei qual é, mas não quero abrir a boca na frente das câmeras de CSPAN [Writer’s Channel]. Chega a minha vez, eu deixo gente mais falante forçar Talese a resumir em poucas frases os mesmos tópicos que levou literalmente uma década para descrever em A Writer’s Life. Alguns fãs parecem ter ganhado esta visita à tradicional Strand Books, na Broadway, como prêmio por bom comportamento em alguma instituição para doentes mentais perigosos. E eu pensava que esse pessoal tinha se recolhido pra sempre depois que Hunter Thompson meteu uma bala na cabeça.

Eu preciso falar com Talese como quem consulta uma cartomante. Você não quer sua melhor amiga do lado ouvindo seus podres durante a consulta. Nem a sua mãe. Nem as câmeras da CSPAN. Espero até que desmontem o circo no estúdio improvisado no último andar da Strand, para ver o que o oráculo responde.

– A sua pergunta. – Ele me chama para um canto entre uma mesa e uma estante de livros de arte.

A minha pergunta:

– Você assinaria uma matéria que com certeza te traria problemas?

Cada um tem o Yoda que merece. E eu não tenho outra opção no momento. Todos os editores com quem conversei têm alguma coisa a ver com a história, de alguma maneira, então a resposta que obtive deles foi: “assina a porra da matéria”. O que não é bom o suficiente, pois é meu rabinho que fica na reta.

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– Nunca achei objetividade essencial ao jornalismo.

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Ah…

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– Para que tenham qualidade, as matérias precisam de tempo para serem realizadas. Em geral gasto em cada livro cinco anos fazendo pesquisa e viajando e cinco anos escrevendo.

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Aaaaaaaaaaaaaaaah.

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É a matéria que escrevi sobre meu primeiro mês de viagem e é toda em primeira pessoa. Ou ao menos era, antes de o pessoal da revista mexer. Não li depois que cortaram e não sei se vou querer ler porque essas coisas me deixam de cabelo em pé. Por outro lado, escrevi quase sempre em condições em que eu nunca tinha trabalhado antes. Para dizer o mínimo, correndo de um canto pro outro, muitas vezes sem dormir por dias seguidos, com o laptop em cima do balcão de um lugar mágico ou no quintal da casa de alguém – isso é comum? Comum pra vocês. Eu não só não possuía, meses atrás, um laptop pra ficar saracoteando, como sempre tive à disposição um escritório, um lugar tranqüilo qualquer, um horário pra escrever; fosse na redação, ou na editora, ou no meu próprio apartamento. O fato de não ter mais apartamento e de que mais da metade das pessoas que conheço estão descobrindo com este post que não estou mais “por perto”, tudo isso é mudança o suficiente para me fazer suspeitar de que eu posso ter escrito na matéria um monte de coisas que não vou gostar de ler. Eu sou mais careta do que vocês imaginam. É o mais dentro de uma matéria que eu já me enfiei.

O editor do meu livro – é, isso ainda existe – quer que eu assine a matéria; porque significa propaganda pro lançamento. Os editores da revista querem que eu assine; porque dá mais credibilidade do que um “nome novo” [aka pseudônimo]. Mas quem botou o pau na mesa foi o Talese.

– Don’t worry about it. Just be truthful to the story and don’t worry about the rest.

Good enough.

escrito às 1:30 AM por giannetti

Segunda-feira, Agosto 14, 2006

O CHAPÉU NÃO FAZ O ESCRITOR OU COMO REPETIR A PALAVRA CHAPÉU MEIA DÚZIA DE VEZES NUM POST DE TRÊS PARÁGRAFOS AND GET AWAY WITH IT

Prometo que reduzirei o tamanho da imagem assim que instalar um Photoshop aqui.

Reparem bem nesse chapéu. Segundos depois de o lambe-lambe disparar, uma garota esbarrou com seu lombinho numa pilha de livros adjacente a ele e o esmagou [o chapéu, não o Gay Talese].

Ganhei chapéu e um conselho: assinar a matéria que estou escrevendo para uma revista e sairia sob pseudônimo. Mandei e-mail à editora agora pedindo para modificar a assinatura. Não sei se dá tempo, mas achei que valia a pena considerar o que diz esse senhor de 74 anos de idade. Mais tarde comento o encontro e como roubei seu chapéu.

escrito às 10:38 PM por giannetti

escrito às 10:34 PM por giannetti